terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A luta contra a fome deve contar com os que a padecem

Fórum dos Movimentos Sociais paralelo à Cúpula da FAO. Mais de 600 delegados/as de organizações camponesas, pescadores, consumidores críticos, pastores, mulheres, jovens estão reunidos nesses dias em Roma, no Fórum dos Movimentos Sociais para debater e estabelecer estratégias conjuntas de ação para enfrentar a grave crise alimentar que atinge a mais de 1 bilhão de pessoas em todo o planeta, um em cada seis habitantes, especialmente nos países do Sul. O Fórum se realiza coincidindo com a Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar 2009, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que começa nesta semana. Em novembro/09, na Praça Campidoglio, no centro de Roma, celebrou-se o ato de abertura do encontro, dedicado aos povos originários, representantes das comunidades Maorí, Mapuche y Dakota, entre outras, nos recordaram que “nós não vendemos a mãe terra” e que “a luta contra a fome não pode ser levada a termo sem contar com aqueles/as que a sofrem e com os que trabalham com a terra”. O Fórum terá quatro eixos temáticos. O primeiro analisará o monopólio existente na cadeia agroalimentar, em mãos de poucas empresas multinacionais que acabam determinando nosso modelo alimentar, bem como o papel das instituições internacionais, submissas a esses interesses corporativos. Um segundo eixo de trabalho abordará a crescente privatização dos recursos naturais: a terra, a água, as sementes, as zonas pesqueiras tradicionais, a agrodiversidade. Concretamente, uma preocupação central no Fórum é a crescente dinâmica de apropriação de terras por parte de empresas privadas ou de Estados que compram terra de países para garantir a produção de alimentos e/ou a especulação às custas do direito à alimentação das populações desses territórios. As políticas governamentais e internacionais agrárias, pesqueiras e pecuárias, e seu apoio incondicional à agroindústria, será outro eixo central, bem como as alternativas que são propostas pelos distintos movimentos sociais. Que agricultura pode esfriar o planeta? Que solidariedade pode e deve haver entre o campo e a cidade? Que modelos alternativos de comercialização? Qual é o papel das mulheres, dos camponeses/as, pastores, comunidades rurais na construção da soberania alimentar? Estas são algumas das questões a ser abordadas em um terceiro eixo de trabalho. Finalmente, o acesso aos alimentos é outro tema central. Hoje, a crise alimentar é resultado da impossibilidade de amplas camadas da população em adquirir comida. Trata-se de um problema de acesso, apesar do discurso oficial das instituições internacionais e das empresas que nos querem fazer crer que se trata de um problema de produção, que será resolvido com uma nova revolução verde, mais agricultura industrial, transgênicos etc. Diante da crescente saída do campesinato da terra, como vamos alimentar o planeta? Frente à privatização dos recursos naturais, como nos re-apropriaremos de nossos sistemas agrícolas e alimentares? Os participantes, organizados em quatro grupos de trabalho, abordarão cada uma dessas problemáticas para propor alternativas e medidas concretas de ação, que serão apresentadas na Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar da FAO. O Fórum dos Movimentos Sociais já começou; o futuro da alimentação ainda está em nossas mãos. É a hora das mulheres e da soberania alimentar A assembleia de mulheres, realizada em novembro/09, enfatizou o papel central da mulher na produção de alimentos, bem como sua total invisibilidade no mesmo. Mulheres que vêm da África, da Ásia, da Europa, da América Latina e do Norte, assinalavam como apesar de suas distintas procedências as problemáticas que enfrentam são praticamente as mesmas: dificuldade para o acesso à terra, aos meios de produção, o reconhecimento de seu papel como produtoras etc. Nas palavras da ativista iraniana Maryam Rahmanian é a hora da soberania alimentar, das mulheres e daqueles/as que trabalham a terra. É necessário modificar o atual sistema agroalimentar e colocar no centro as pessoas e o respeito à mãe terra. Segundo Maryam, não tem sentido que o “Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o G-8 e até Bill Gates decidam o que se deve cultivar, como comercializar, em que condições. Essas instituições e pessoas são parte do problema, não da solução”. Desde 1996, quando a Via Campesina levantou a bandeira da soberania alimentar na Cúpula Mundial sobre Alimentação, em Roma, uma multidão de alianças foi tecida para avançar na consecução desse objetivo. Hoje, redes tais como o Fórum Mundial de Povos Pescadores, a Rede de Organizações Camponesas e de Produtores Agrícolas da África Ocidental, Amigos da Terra, a Coalizão Internacional do Hábitat e a própria Via Campesina, dentre muitas outras, unem forças e levantam coletivamente este Fórum dos Movimentos Sociais. Ainda temos que percorrer um longo caminho e a crise alimentar atual implica em mudanças drásticas e imediatas nas políticas agroalimentares. Os movimentos sociais camponeses, jovens, pastores, mulheres, pescadores têm soluções e alternativas ao modelo agroindustrial, como fica patente neste Fórum. Porém, o que falta? Vontade política por parte dos que ostentam o poder. A FAO estará à altura das circunstâncias?

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