quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mudança climática no Xingu

Raoni Txucarramãe reclama dos efeitos de mudança climática no Xingu. Líder indígena reclama dos efeitos de mudança climática no Xingu. Ondas de calor jamais sentidas. Ventos acima da média. Rios cada vez menos caudalosos. Esse é o cenário atual da região do Alto Xingu, segundo o chefe indígena Raoni Txucarramãe, líder da etnia caiapó. Conhecido ícone da causa ambientalista, o líder caiapó, que chegou a viajar para o exterior acompanhado do músico britânico Sting, foi ontem o convidado de honra de um evento em Cuiabá (MT) que discutiu os impactos do aquecimento global no Centro-Oeste. Reportagem de Rodrigo Vargas, da Agência Folha, em Cuiabá. Ele falou sobre como a mudança climática afeta os índios. Com “aproximadamente 87 anos”, Raoni disse que queimadas, desmatamento e grandes obras de infraestrutura previstas para a região amazônica, como a usina de Belo Monte (PA), poderão agravar os efeitos já sentidos hoje. “O calor está intenso, os ventos são muitos mais fortes do que eram antes e o nível dos rios na seca é diferente do que era tempos atrás. Estou muito preocupado, pois estou vendo acontecer tudo o que vinha falando há tanto tempo”, disse. Segundo Raoni, não é apenas a etnia caiapó que percebe as mudanças. “Vários outros povos do Alto Xingu estão assustados com o calor e a ventania. Há muito tempo era bom, tinha muita floresta e a gente vivia tranquilo. Agora temos medo que o Xingu possa secar.” Sobre a usina de Belo Monte, que será uma das maiores do mundo, Raoni disse que os “projetos de desenvolvimento do governo brasileiro” devem respeitar “os índios e suas terras. Por isso, fiquei indignado com o que o ministro disse.” Ele faz referência a declarações do ministro Edison Lobão (Minas e Energia), para quem o projeto da usina sofre oposição de “forças demoníacas”. “Estou preocupado com Belo Monte e acho que seria bom mesmo o rio ficar lá quieto, em seu leito e sem barragem. Temos o direito de viver em nossa terra”, diz Raoni. A percepção de Raoni sobre o clima no Alto Xingu pode não estar diretamente relacionada a um fenômeno global, diz o engenheiro florestal Maurício Philipp, coordenador do departamento de mudanças climáticas do governo de Mato Grosso. Alterações na cobertura vegetal da região do Xingu (norte de MT e sul do PA) poderiam explicar, por exemplo, o agravamento da estiagem. Se há um desmatamento maior, há interferência no ciclo hidrológico. Sem a cobertura vegetal, não há retenção da água da chuva para os canais de drenagem. Mesmo cientistas não têm condições de diferenciar bem o que é “variabilidade natural do clima e o que pode ser atribuído à uma mudança provocada por ações antrópicas. No caso do Xingu, acredito em alterações regionais, no microclima. Isso não descarta a possibilidade de existir algum efeito global se manifestando, mas é algo que precisa ser muito bem analisado para que se possa afirmar com segurança.

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