sexta-feira, 23 de setembro de 2011

'Sanear é ação de cidadania'

Ambientalista afirma que, em 20 anos de Projeto Tietê, houve avanços, mas os desafios continuam grandes.
"Não tem varinha mágica." Para Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, o processo de despoluição do Rio Tietê é demorado, mas houve avanços.
Quais foram as principais mudanças no Tietê nesses 20 anos de campanha pela despoluição?
De 1990 até 1999, o grande vilão era a indústria. De 2000 a 2005, passou a ser o esgoto doméstico. E, de 2006 até hoje, a gente passou a ter outros problemas além do esgoto: os biodegradáveis, o lixo e o desmatamento. Dá para dividir 50% em esgoto e outros 50% nesses três itens.
Qual é o problema dos biodegradáveis?
O princípio ativo que faz com que os componentes do biodegradável se decomponham é o oxigênio. A gente usa toneladas de biodegradáveis - pasta de dente, xampu, detergente -, e isso vai para o tratamento de esgoto, que não trata os químicos, apenas o material orgânico. Isso segue para o rio e deveria encontrar água com oxigênio para se decompor. Mas não há oxigênio nem movimentação. Quem ajuda a decompor são as corredeiras de Pirapora até Salto. Quando essas cargas passam por lá, a água oxigena. Ao longo de 100 km vai se oxigenando e formando as espumas.
E como resolver essa questão?
Os princípios ativos do biodegradável que o Brasil usa, o fósforo e o nitrato, têm a mesma base que os fertilizantes. Então, quando chegam na Billings, na Guarapiranga, eles aumentam a proliferação de algas, que consomem oxigênio. A gente precisa mudar a legislação. Alemanha, Suíça, Canadá e Holanda proíbem esses componentes. Mas, para nós, é cultural: ao usar sabão que não forma espuma você tem a sensação de que não limpa. Passa pela educação.
Qual foi a maior dificuldade durante os 20 anos de campanha? Em 1999, no fim da primeira etapa de despoluição, não tínhamos informação, não havia transparência do governo em relação à aplicação dos recursos. A gente precisava que ONGs parceiras no exterior contatassem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington para pegar dados. Era terrível. E aí a despoluição teve um grande uso político. Em campanha eleitoral, diziam que num curto espaço de tempo as pessoas beberiam água do Tietê. Isso foi um desserviço, as pessoas se sentiram enganadas.
E como contornaram essa situação?
A gente precisava reagir e foi lançada outra vinheta: Continuamos de Olho. A soma de uma imprensa que fiscalizava e cobrava e uma sociedade que se mobilizava foi uma vitória. Tivemos uma mudança de governo, entrou Mario Covas, e o Projeto Tietê não foi abandonado, o que é raro. Ele continuou com Covas, com Geraldo Alckmin, com José Serra e agora com Alckmin de novo. Foi um resultado positivo de cidadania.
Mas as pessoas da Região Metropolitana não veem muitas melhorias no rio.
Quem passa pela Marginal não percebe que o rio está mudando. Mas em Araçatuba, a cidade capta água para abastecimento público no Tietê. Quando a campanha começou, nenhuma cidade fazia isso.
O que você achou da ampliação das pistas da Marginal?
Foi um erro gravíssimo. A sociedade queria, todo mundo ascendeu economicamente e comprou carro. Mas se, em vez de mais uma pista, tivesse sido feito um metrô de superfície, não seria melhor? Mas a população queria mais pistas, e o governo respondeu à pressão. Logo perceberão que terão de desfazer para construir ciclovias. O trânsito está insustentável.
É viável ter táxis aquáticos no Tietê, como há em muitos locais?
A gente aposta nisso. É a grande saída para o Tietê, fazer as pessoas usarem o rio. O Tâmisa e o Reno são poluídos hoje por carga difusa, como fuligem de carro, resíduos de escapamento e chuva ácida, mas as pessoas usam. Então, aqui também dá para usar.
E qual é a sua expectativa para o futuro?
Que o cronograma anunciado pela Sabesp seja cumprido (universalização do saneamento até 2020 para a metrópole paulista e fim do mau cheiro). E que a sociedade exija mais. Saneamento é ação de cidadania para todo dia e não poluir teria de ser um hábito de todos. (OESP)

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