sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Consumo de orgânicos no Brasil

Consumo de orgânicos no Brasil: mudança em curso
Pesquisadores e produtores afirmam que mudança de mentalidade frente a produtos orgânicos no Brasil ainda vai levar tempo. Custos para o ambiente ainda são, de forma geral, relegados a segundo plano.
Quase 20 anos depois do incremento da agricultura orgânica no Brasil, que se deu a partir de meados dos anos 1990 com o aumento da produção e da demanda nacional e internacional, o principal motivo que leva consumidores a preferirem produtos orgânicos, sobretudo os alimentos, continua sendo uma alimentação saudável, livre de agrotóxicos. Porém, pesquisadores como o engenheiro agrônomo Richard Dulley consideram importante a conscientização de que o consumo desse tipo de produto extrapola, e muito, o bem-estar individual. Para ele, consumidor, governos e produtores devem compreender e valorizar também o “bem ambiental” que a agricultura orgânica representa.
“Ao comprar produtos orgânicos, os consumidores, apesar de não sentirem ou terem consciência da sua ação benéfica para o meio ambiente, estão na verdade adquirindo um conjunto de dois produtos: os alimentos em si e um produto ambiental, que é a proteção e regeneração do meio ambiente”, diz Dulley, que trabalhou por 20 anos no Instituto de Economia Agrícola da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo.
Natureza como aliada
Dulley alerta que todo processo de produção agrícola interfere, obrigatoriamente, na natureza. No entanto, a agricultura tradicional e dominante considera que a natureza tem que ser dominada. “É uma agricultura feita por agricultores que têm pressa, que buscam reduzir os ciclos naturais de desenvolvimento de plantas e animais com a mais absoluta certeza de que não haverá consequência alguma em termos ecológicos”, diz. Já a agricultura orgânica, segundo o especialista, considera a natureza como aliada. Seu manejo é feito a partir da observação da natureza, respeitando seu tempo, suas limitações de solo, água, e clima, levando-se em conta as relações entre todos os elementos que compõem o meio ambiente.
Ao percorrer os arredores do município de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, é difícil imaginar que se possa encontrar ali um ambiente propício para a produção orgânica. A região, que abriga o aeroporto internacional de Guarulhos e é cortada pela Via Dutra, uma das mais movimentadas e poluídas rodovias do país, é altamente industrializada e apresenta grande grau degradação ambiental devido também à ocupação urbana desordenada, evidenciada pelo mau cheiro dos córregos da periferia.
No entanto, a cerca de 30 quilômetros da área urbana, Julio Oliveira vive e trabalha na propriedade que herdou de seu pai num cenário totalmente diferente. Logo na entrada do sítio Urso Guloso, Oliveira mostra as espécies que, todas juntas e misturadas, formam o seu cultivo agroflorestal. “Ali temos chuchu, jabuticaba, café, banana, amora, mexerica, acerola, ameixa, ingá, abóbora, fava…”. Segundo Oliveira, muitas dessas plantas “chamam passarinho, inseto. Tem pássaros que gostam de amora, outros de ingá”, diz ele. Apesar da grande variedade, a forte presença de abelhas entre as árvores denuncia que o carro chefe de sua produção orgânica é o mel silvestre, tirado uma vez por ano.
Tradição familiar
Para Oliveira, o cultivo orgânico é a vocação de sua propriedade, visto que seu pai, que comprou o sítio em 1935, jamais usou ali produtos químicos industrializados. A rotatividade dos plantios e a policultura sempre foram os principais meios de manter a fertilidade do solo e combater a infestação de pragas. Oliveira assumiu a propriedade há 25 anos e mantém desde então essas práticas, além de reforçar a nutrição do solo e das plantas com compostos feitos a partir de ingredientes naturais, como pó de fósforo, farelo de arroz, torta de mamona, torta de osso, esterco bovino e equino. “Outro ponto que considero importante para minha produção é ter onde vender diretamente para o consumidor”, diz Oliveira, que leva seus orgânicos às terças-feiras, sábados e domingos para a Feira Orgânica do Parque da Água Branca, em São Paulo, um dos entrepostos pioneiros de orgânicos de todo o Brasil, que funciona há mais de 20 anos.
"Peixe fora d'água"
Outro fornecedor de produtos para a feira é o Sítio Jatobá, uma empresa familiar que fica no município de Inconfidentes, Minas Gerais. Luciano Gambarini, à frente do sítio e engajado na agroecologia desde 1986, se considera, apesar do sucesso de sua produção, um “peixe fora d’água”, já que o cenário agrícola de sua região é dominado pela agricultura convencional, onde predomina o café.
“O cenário agrícola é muito pobre. Apesar de haver urgente necessidade de diversificação da produção, os produtores encontram-se estagnados por aqui”, diz Gambarini, que não vê seu sítio como um “oásis” ecológico, pois, segundo ele, “não é possível viver numa bolha” diante de tamanho desequilíbrio ambiental. “O quadro de devastação é nacional. A agricultura convencional com suas queimadas, mecanização exagerada, falta de produção de matéria orgânica, gera quadros desastrosos para o meio ambiente”, analisa.
“Após quase 20 anos de manejo orgânico da propriedade, há uma transformação enorme e visível. Já temos muitas árvores, os pássaros e outros animais estão retornando. As nascentes não secam mais. Temos uma produtividade muito acima da média. As pessoas acham legal o que fazemos, mas ainda não consigo identificar o que as limita a mudar de atitude”, diz Gambarini, que sabe, no entanto, que a conversão do sistema convencional para o orgânico não é automática e nem simples.
Mudança de mentalidade
O pesquisador Dulley ainda se lembra quando o principal tema discutido em suas palestras sobre os orgânicos na década de 1980 era a viabilidade econômica desse tipo de cultivo. Segundo ele, essa, ainda hoje, não é uma questão menor, visto que os alimentos orgânicos continuam custando mais do que os produtos convecionais no bolso do consumidor. Mas Dulley propõe que se questione também a viabilidade econômica da agricultura tradicional, de grande impacto ambiental e, do ponto de vista do produtor, totalmente dependente dos insumos produzidos por grandes empresas transnacionais da agroindústria.
“Embora possam ser considerados baratos pelo senso comum, pois o consumidor paga menos no ato da compra, a noção de que os preços dos produtos agrícolas convencionais são baixos pode não ser verdadeira. Eles podem ser apenas aparentemente baixos, pois em decorrência do nível elevado de degradação ambiental que seu processo de produção provoca, implicam num custo social indireto que acaba sendo pago pela coletividade”, diz.
Dulley cita como exemplo de custo indireto os recursos públicos usados no tratamento da água, que são mais altos quando há necessidade de procedimentos específicos para eliminar resíduos de agroquímicos; a crescente perda de solos férteis devido à sua contaminação e esgotamento; e o aumento de demanda por serviços de saúde como decorrência de intoxicações e doenças causadas por agrotóxicos. “No sistema orgânico, muitas vezes a racionalidade econômica não é prioritária, prevalecendo a necessidade de preservação de outras espécies, qualidade da água, recuperação da vida microbiológica do solo e de sua estrutura”, resume o especialista. (goethe)

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