sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sustentação ecológica

A tempestade perfeita: crise da comida, agua, emprego, energia e clima
“A pirâmide global da riqueza pode afundar por falta de sustentação ecológica ou pode implodir por falta de justiça redistributiva em sua arquitetura social” (Jed Alves, 26/06/13)
No dia 22 de abril, além do aniversário da chegada de Cabral e data de início da exploração portuguesa do Brasil, se comemora o Dia da Terra. Na verdade há pouco a se comemorar, pois as condições ambientais do Planeta pioram dia a dia. O solo, a água e o ar estão sendo poluídos e degradados pelo progresso da civilização humana. O homo sapiens, com seu padrão econômico, se tornou antagonista do meio ambiente e as atividades antrópicas estão reduzindo a biodiversidade da vida na Terra.
O modelo de desenvolvimento que teve início com as grandes navegações de Cristóvão Colombo, em 1492, mas que tomou forma definitiva nos últimos 250 anos, tornando-se onipresente no mundo globalizado – baseado na exploração crescente dos recursos naturais e no uso intensivo de energia fóssil – pode estar caminhando para um colapso irreversível, segundo Nafeez Ahmed, em artigo do jornal The Guardian (14/03/2014).
O artigo de Ahmed tem como base um estudo recente patrocinado pelo Goddard Space Flight Center, da NASA, que considera a perspectiva de que a civilização industrial global pode entrar em colapso nas próximas décadas devido à exploração insustentável de recursos naturais e à má distribuição de riqueza e ao desigual acesso aos bens de consumo modernos.
De acordo com os registros históricos, até mesmo avançadas civilizações com alto nível de complexidade são suscetíveis a entrar em colapso, levantando questões sobre a sustentabilidade da civilização moderna: “A queda do Império Romano e dos avançados Impérios Han, Maurya e Gupta , assim como dos Impérios Mesopotâmicos, mostram que civilizações sofisticadas, complexas e criativas podem também serem frágeis e inconstantes”.
O estudo publicado no journal Ecological Economics identificou alguns fatores inter-relacionados mais relevantes que podem explicar o declínio civilizacional e que podem ajudar a determinar o risco de colapso atual, a saber: População, Clima, Água, Agricultura e Energia. Esses fatores podem levar ao colapso quando convergem para gerar duas características cruciais: a tensão colocada sobre a capacidade de carga do Planeta e a estratificação econômica da sociedade com o aumento da desigualdade entre a elite e a “ralé” (na expressão de Jessé de Souza). As conjugações do colapso ambiental e social têm desempenhado um papel central no processo de colapso em todas as civilizações avançadas nos últimos cinco mil anos.
O estudo desafia aqueles que argumentam que a tecnologia vai resolver esses desafios aumentando a eficiência econômica. A mudança tecnológica pode aumentar a eficiência da utilização de recursos, mas também tende a aumentar tanto o consumo de recursos per capita e a escala de extração de recursos, de modo que, os aumentos no consumo muitas vezes compensam o aumento da eficiência do uso de recursos. Isso é o que se chama de Paradoxo de Jevons.
Na medida em que a taxa de esgotamento dos recursos segue seu rumo, as elites continuam consumindo e mantendo seus privilégios, enquanto a ralé sofre com a falta d’água, o aumento do preço dos alimentos e o desemprego. O esgotamento dos recursos naturais (pico da água, do petróleo, etc..) e as mudanças climáticas delineiam os limites do modelo de desenvolvimento, mas o colapso pode começar pelas classes trabalhadoras e pobres e só atingem a elite depois de certo tempo. Os monopólios de riqueza da elite significam que ela está protegida contra a maioria dos primeiros efeitos negativos do colapso ambiental e só sentiriam as consequências muito mais tarde do que a ralé.
Segundo Alves (26/06/2013): “O crescimento econômico é igual ao incremento da força de trabalho multiplicado pelo aumento da produtividade das pessoas ocupadas. Se há, ao mesmo tempo, declínio da população (especialmente da PIA: população em idade ativa), crescimento do desemprego, estagnação das inovações tecnológicas e esgotamento dos recursos naturais, então o crescimento econômico se torna impossível. Este quadro é agravado pelo endividamento público e privado e pelos custos do envelhecimento populacional sem aproveitamento do segundo bônus demográfico”.
Algumas pessoas e estudiosos tentam dar o alerta de que o sistema está se movendo em direção a um colapso iminente e defendem mudanças estruturais na sociedade, na população e na economia. Porém, em geral, são chamados de catastrofistas e neomalthusianos. A elite e o pensamento convencional sempre apresentam argumentos para mostrar que o modelo de produção e consumo pode ser aperfeiçoado e ampliado. Na reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD) da ONU, ocorrida de 7 a 11 de abril de 2014, o desenvolvimento foi reafirmado como um direito dos povos – um bem em si mesmo – e não ficaram claros os limites ambientais das atividades antrópicas e nem foram considerados os direitos da Terra e das demais espécies do Planeta.
Evidentemente o colapso ambiental pode ser evitado se a taxa per capita de esgotamento dos ecossistemas for reduzida a um nível sustentável e houver redução da desigualdade econômica e social. Para tanto, o estudo publicado no journal Ecological Economics mostra que é preciso reduzir drasticamente o consumo de recursos e a geração de lixo e resíduos sólidos – fazendo a transição para recursos renováveis e mais desmaterializados – além de reduzir o tamanho da população, diminuindo o impacto antrópico sobre o meio ambiente.
Segundo Nafeez Ahmed, o modelo “business as usual” não é sustentável e mudanças estruturais imediatas são necessárias para a defesa do meio ambiente e a redução das desigualdades sociais. A conjugação das crises da água, da comida, do emprego, da energia e do clima significa que o mundo pode mudar para pior e que os últimos 250 anos de “progresso” humano podem estar chegando ao fim com o início de uma fase de regresso social.
O Dia Internacional da Mãe Terra – conforme denominação assumida pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir de 2009 – deveria servir para marcar a responsabilidade coletiva na promoção da harmonia entre todos os seres vivos do Planeta. Porém, se os crimes do especismo e do ecocídio não forem erradicados, a vida na Terra pode caminhar para um colapso irreversível. Adicionalmente, se houver ampliação das desigualdades sociais a sociedade pode caminhar para a desintegração de seu tecido constitutivo. Uma grande crise ambiental e social poderia ser uma tempestade perfeita que o mundo todo gostaria de evitar. (ecodebate)

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