domingo, 19 de abril de 2015

Os céticos de clima no Brasil 1: Colaboração da Mídia

O Brasil, assim como muitos países, tem um pequeno número de céticos de clima, alguns dos quais são frequentemente procurados pelos meios de comunicação. No entanto, eles nunca ganharam poder e influência política. A influência dos céticos no Brasil tem sido muito diferente do que nos Estados Unidos, onde essa visão predomina no partido político que atualmente controla as duas casas do Congresso.
Nos EUA há forte influência de fontes financeiras de grupos de negação do clima. Os principais financiadores fizeram contribuições rastreáveis até 2007 no caso de Exxon Mobil e até 2008 no caso dos irmãos Koch, mas depois essas contribuições aparentemente passaram a inchar o “dinheiro obscuro” que forneceu US$ 558 milhões [R$ 1,5 bilhão] para 91 grupos de negação climática entre 2003 e 2010 sem que a origem do dinheiro seja rastreável a partir de registros públicos.
Os irmãos Koch atualmente estão empatados em sexto lugar entre os indivíduos mais ricos do planeta, mas, se somados juntos, tem riqueza superando aquela do indivíduo mais rico: Bill Gates.
Um lembrete de que esse investimento continua em várias frentes foi fornecido em fevereiro de 2015 por documentos obtidos pelo Greenpeace através do “Freedom of Information Act” nos EUA, revelando que um proeminente negador de clima (Willy Soon, do Centro Harvard-Smithsonian para a Astrofísica) havia recebido financiamento de US$ 1,25 milhões da indústria de combustíveis fósseis ao longo dos últimos 14 anos, dois terços dos quais (US$ 828.000,00) foram da fundação, instituto e fundo fiduciário dos irmãos Koch. Seria ingênuo acreditar que os investimentos de fontes como essas se restringem aos EUA.
Cientistas de clima no Brasil tiveram um choque surpreendente em 2012 durante as preparativas para um evento global sobre o meio ambiente. Nas semanas anteriores ao Rio+20 um dilúvio sem precedentes de entrevistas com os céticos do clima apareceu na imprensa brasileira. O fato que a grande maioria da comunidade científica não concorda com os céticos às vezes era mencionado de passagem, mas essas ressalvas eram logo seguidas por longas entrevistas apresentando a visão dos céticos sem nenhuma contestação.
Entrevistas com céticos dos EUA., tal como o Richard Lindzen (atualmente do Instituto Cato, fundado pelos Irmãos Koch), foram apresentadas por fontes de notícias brasileiras importantes, tal como a Rede Globo. A televisão, jornais e revistas de notícias deram espaço generoso para os céticos, frequentemente sem sequer uma representação simbólica do outro lado.
Um artigo de opinião do cientista Luís Carlos Molion na Folha de S. Paulo onde afirma que “os modelos matemáticos do aquecimento global são meros exercícios acadêmicos” fornece um exemplo. Outro exemplo é a entrevista com o mesmo cético com a manchete “Terrorismo sobre o clima é ameaça à soberania nacional”. Destaque foi dado para uma carta entregue à Presidente Dilma Rousseff logo antes da Rio+20 assinada por 18 profissionais. Eram principalmente os geólogos e físicos, e praticamente nenhum havia contribuido à literatura científica sobre o aquecimento global. Enquanto a carta recebeu ampla cobertura da grande mídia, refutações receberam quase nenhuma.
A entrevista com um geógrafo cético da USP (Universidade de São Paulo) no programa de Jô Soares pouco antes da Rio+20, sem dúvida, foi a mais danosa para o entendimento público no Brasil, devido ao grande alcance da mídia televisiva. O entrevistado declarou que “o efeito estufa é a maior falácia científica que existe na história”, que atribuiu a uma conspiração entre técnicos militares que estavam subempregados após a Guerra Fria.
Quem não conhecia o assunto por outros meios teria tido pouca ideia das dezenas de milhares de trabalhos científicos que documentam o consenso representado pelos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) de que o aquecimento adicional nos últimos anos é real, é causado pela ação humana, e terá impactos negativos gravíssimos se não for contido rapidamente.
Os relatórios do IPCC estão disponíveis gratuitamente em http://www.ipcc.ch. Sugiro também alguns dos debates que tive com Luís Carlos Molion, disponíveis no site http://philip.inpa.gov.br. Vários dos principais cientistas da área climática no Brasil se recusam a debater com céticos como Molion. Este autor acredita que isto seja um erro crítico. (ecodebate)

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