quinta-feira, 11 de junho de 2015

O planeta água vai secar?

Mais de 70% da Terra é coberta por água. Mesmo assim, 768 milhões de pessoas mundo afora não têm nenhum acesso à água tratada. Entenda como isso é possível.
Já era. A crise da água chegou para mudar a sua vida definitivamente a curto, médio e longo prazo. Não importa se você mora num lugar em que o nível dos reservatórios ainda é razoável - a crise também tem a ver com você. E é um pouco culpa sua também. Não só sua, claro. Também tem as mudanças climáticas (sim, elas existem), a contaminação das fontes, o mau gerenciamento dos recursos hídricos e o crescimento demográfico. A sua parte - reduzir o desperdício - é uma das mais fáceis de colocar em prática. Mas também é importante entender como funciona todo o resto.
Tanto mar
Mais de 97% da água da Terra é salgada. Do restante, apenas 0,4% está na superfície.
A água da Terra não vai acabar assim, de uma hora para a outra. Temos mais ou menos 1,4 bilhão de km³ de água. Aí você tira da conta a água salgada dos oceanos, todo o volume dos aquíferos subterrâneos e as geleiras, e você chega na grandiosa quantia de 132 mil km³ de água superficial que podemos, de fato, usar. É pouquíssimo. Ainda mais se considerarmos que esse número não mudou muito desde que o mundo é mundo. Um dos problemas é que, enquanto a quantidade de água doce do mundo continua igual, a população cresceu. Em 1950, éramos 2,5 bilhões. Em 2050, a previsão da ONU é de que seremos 9,3 bilhões. É como se a fila do banheiro da sua casa mais do que triplicasse de tamanho. Aí, não há caixa d'água que sustente. Aliás, não é só de uma caixa d'água maior que a gente precisa. Para dar conta de tanta gente, também é necessário gerar mais energia, produzir mais comida, mais roupas, mais tudo. Uma boa parte desse "tudo" precisa de água. Nas próximas 3 décadas e meia, a demanda global deve aumentar 55%. Se considerarmos que a indústria e a agropecuária consomem 90% da água do mundo, a coisa fica mais feia.
Os números ajudam a explicar como pode haver crise hídrica em um país com uma bacia hidrográfica tão abundante. Tem outros fatores também: a maior parte da população se concentra perto do litoral e longe de grandes mananciais, como o Rio Amazonas, o maior do mundo em volume. Além disso, a água que chega até a sua torneira provavelmente passa por tubulações construídas nos anos 1940 ou 1950. Não é difícil imaginar que um sistema como esse facilite o desperdício. A cada segundo, mais de 1200 litros são jogados fora no processo de distribuição. Com toda a água desperdiçada aqui ao longo de um dia, daria para abastecer 932 milhões de pessoas (ou 3 vezes a população dos EUA). Isso porque exploramos bem pouco - e bem mal - os nossos recursos hídricos.
Copo meio cheio
Considere o seguinte:
20 litros
Uma torneira aberta por um minuto gasta mais ou menos essa quantidade.
1.000 litros ou 50 galões de água mineral.
1 caixa d’água
Com essa quantidade de água dá para abastecer uma família de 6 pessoas durante um dia.
25.000 litros ou 25 caixas d’água
1 caminhão pipa (25 m3 ou 25.000 litros de capacidade)
Parece muito, mas com 25 mil litros só dão para produzir dois quilos de carne de boi.
2.500.000 litros ou 100 caminhões pipa
1 Piscina olímpica (50m de comprimento X 25 m de largura X 2 m de profundidade)
Segundo a ONU, essa água seria suficiente para suprir as necessidades de consumo e higiene de uma pessoa por 62 anos. Mas a verdade é que usamos bem mais do que isso.
A desigualdade nos recursos hídricos e na distribuição cria situações bem diferentes em cada canto do Brasil. Veja a quantidade de água disponível por segundo para a população de cada região (projeção para 2015):
Nordeste
Não tem mistério: no Nordeste, os maiores vilões são a falta de chuva e a escassez de rios.
População: 56,1 milhões
Quanta água tem disponível
1 piscina olímpica e 9 caminhões pipa = 2.738.000 litros por segundo
De quanto a população precisa

5 caminhões pipa e 11 caixas d'água = 136.000 litros por segundo

Quanto recebe
24 caixas d'água = 24.000 litros por segundo
Sudeste
A concentração de pessoas e o planejamento ruim facilitam o surgimento de uma crise como a atual.
População: 85,1 milhões
Quanta água tem disponível
2 piscinas olímpicas e 19 caminhões pipa = 5.476.000 litros por segundo.
De quanto a população precisa
11 caminhões pipa = 275.000 litros por segundo
Quanto recebe
105 caixas d'água e 30 galões de água = 105.600 litros por segundo
Sul
É preciso ampliar os sistemas de distribuição já existentes na região
População: 29 milhões
Quanta água tem disponível
2 piscinas olímpicas e 55 caminhões pipa = 6.389.000 litros por segundo
De quanto a população precisa
1 caminhão pipa e 14 caixas d'água = 39.000 litros por segundo
Quanto recebe
26 caixas d'água e 25 galões de água = 26.500 litros por segundo
Centro Oeste
A região tem aquíferos e bacias abundantes. Mas os mananciais urbanos estão poluídos
População: 15,2 milhões
Quanta água tem disponível
4 piscinas olímpicas e 84 caminhões pipa = 14.603.000 litros por segundo
De quanto a população precisa
1 caminhão pipa e 14 caixas d'água = 39.000 litros por segundo
Quanto recebe
8 caixas d'água = 8.000 litros por segundo
Norte
Infraestrutura precária e falta de boa vontade política tornam o cenário absurdo
População: 17,2 milhões
Quanta água tem disponível
24 piscinas olímpicas e 82 caminhões pipa = 62.064.000 litros por segundo
De quanto a população precisa
1 caminhão pipa e 20 caixas d'água = 45.000 litros por segundo
Quanto recebe
6 caixas d'água = 6.000 litros por segundo
Se está ruim por aqui, imagina só nas zonas áridas em que a água é mais rara - e bem mais cara. Nos lugares mais secos do planeta, convencer a população a não lavar a calçada com mangueira e tomar banhos mais curtos não faz tanto sentido. O problema lá é outro: o aquecimento global.
chapa quente
Como o aquecimento global intensifica a chuva em algumas regiões e castiga outras com longos períodos de seca
Resumo da história: os raios do Sol, que chegam para fornecer energia para a Terra, refletem-se no planeta. Mas, graças aos gases do efeito estufa, ficam presos na atmosfera. Até aí tudo bem. Sem efeito estufa, passaríamos um frio danado à noite, pois todo o calor do Sol se dissiparia. Mas nos últimos 60 anos, a concentração dos gases está tão alta que a energia solar tem muito mais dificuldade para ultrapassar a camada para sair da atmosfera. É como se tentássemos usar uma peneira suja para coar alguma coisa. Não dá para saber ao certo que parte dessa sujeira é nossa responsabilidade. Mas as consequências estão aí: o mundo vira uma panela de pressão, as geleiras derretem, o nível dos oceanos sobe e o mundo inteiro começa a reclamar do calor insuportável.
Quem olha para o globo terrestre percebe que há bem menos massas terrestres ao sul da linha do Equador. A maior parte da vegetação terrestre fica ao norte. Por isso, quando o Hemisfério Norte está inclinado na direção do Sol, ou seja, na primavera e no verão do norte do planeta, as folhas surgem e “respiram” o CO. Então, a quantidade do gás na atmosfera cai. Mas quando acontece de o sul estar inclinado, as folhas emitem o gás e a quantidade volta a subir. Portanto, é como se a Terra inspirasse e expirasse uma vez por ano.
Quando o vento entra no jogo, as coisas ficam mais complexas. Os ventos de alta pressão fazem o ar circular no sentido anti-horário no Hemisfério Sul e no sentido oposto no Hemisfério Norte, em direção às regiões equatoriais. A faixa em que esses ventos se encontram é chamada de Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Lá se concentra o ar úmido que influencia bastante a ocorrência de chuvas. É por causa dela que algumas cidades do Norte do Brasil sofrem com a chuva incessante. A variação da ZCIT um pouquinho para o norte ou para o sul (o que pode acontecer se a temperatura do oceano mexer com a pressão atmosférica) vai definir onde chove. Por exemplo, se as águas do Atlântico Sul estiverem mais frias que as do Atlântico Norte, as chuvas chegam na Amazônia e o Nordeste brasileiro é castigado com a seca.
Não é só isso. Por causa do El Niño, em ciclos de 2 a 7 anos, os ventos de alta pressão ficam mais fracos e as águas do Oceano Pacífico ficam mais quentes na linha do Equador. A água que evapora nessas regiões forma nuvens que mexem com a circulação do ar e alteram o clima no mundo todo. Uma das consequências desse processo é a movimentação da ZCIT um pouco mais para o norte - e a redução da chuva no sertão brasileiro.
e o vento levou
Como a temperatura dos oceanos e o vento influenciam a chuva e as secas
Com seca
Sem seca
Vidas secas
A transposição do Rio São Francisco pode resolver os problemas do semiárido brasileiro. Ou destruí-lo ainda mais
No Brasil, a seca atinge quase 10 milhões de pessoas. Mais de 1430 municípios declararam emergência até junho de 2013. São 3,6 bilhões de reais em perdas de lavouras, em especial de milho e feijão, principais alimentos do sertanejo. A pecuária também sofre com isso: mais de 16% do gado nordestino não sobreviveu à sede. A partir da atual seca, a mais grave dos últimos 50 anos, o governo teve de intensificar os programas de assistência técnica e social, como o financiamento da produção agropecuária, venda subsidiada de milho e distribuição do Bolsa Estiagem, um auxílio financeiro distribuído a agricultores familiares que vivem em municípios em estado de emergência.
Para atenuar os efeitos da seca, o projeto de transposição do Rio São Francisco foi lançado em 2007. Nele, estão previstas a construção de canais que vão transferir de 1% a 3% das águas do “Velho Chico” para rios e açudes que atualmente secam durante a estiagem do semiárido nordestino. O projeto não escapa de críticas. Há quem diga que a transposição beneficiará mais os grandes fazendeiros da região e não atingirá muitas comunidades. Isso sem contar os impactos ambientais da obra.
Por mais que a intenção inicial seja boa, nem toda transposição resolve o problema da aridez. Até os anos 1960, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo. Na época da União Soviética, dois rios que abastecem o Aral foram desviados para irrigar regiões secas da Ásia, entre o Uzbequistão e o Cazaquistão. Mas os projetos deram muito errado. Hoje, o Mar de Aral não tem nem 10% da área que tinha antes. Suas águas são salgadas demais e poluídas por agrotóxicos. O fiasco das transposições transformou o ecossistema do Aral, tornando-o desértico. A população da região passou a sofrer com doenças respiratórias e câncer, males causados pela areia poluída do leito do Aral. Hoje, a situação parece quase irreversível, pelo menos em médio prazo.
Mas isso não significa que a economia de água dentro de casa seja em vão. Afinal, a água que deixa de escoar pelo seu ralo é basicamente a mesma da chuva no Amazonas ou a dos rios da Ásia. Se as mudanças climáticas e até mesmo o crescimento populacional são inevitáveis, ter uma noção melhor sobre a água que você consome é o primeiro passo para criar um futuro menos apocalíptico.
água morro abaixo
Transposições mal planejadas reduziram drasticamente o volume e a área do Mar de Aral, na Ásia. (abril)

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