sábado, 7 de outubro de 2017

A triste evolução recente do desmatamento da Amazônia

Infográfico elaborado pela RNS Ambiental (ecodebate)

Hidrocídio Brasileiro

 Pesquisa mostra que 16% do território nacional estão suscetíveis à desertificação.
A cada dia chega a notícia da morte de um rio, ou que um rio famoso agoniza. Afluentes dos grandes rios brasileiro estão sendo mortos às centenas, aos milhares, num verdadeiro hidrocídio, isto é, a matança das águas.
Esses dias nos chegou a visão do leito seco do Paracatu, um dos maiores afluentes do São Francisco.
No ano passado, em Macapá, me contaram que a pororoca do rio Araguari estava extinta.
Esse ano, no Acre, me contaram que o prognóstico científico é que o rio do Acre seque em dez anos.
Em Miracema, quando estive lá no ano passado, quase atravessámos o rio Tocantins a pé, com a água alcançando no máximo a cintura.
Ali mesmo nos contaram que o rio Javaés, que faz a Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo, também tinha secado.
O Velho Chico agoniza a olho nu, com pouco mais de 500 m3/s, e na sua foz o mar avança São Francisco adentro, já salinizando as águas antigamente doces das comunidades ribeirinhas.
Nosso ciclo das águas, que se origina na Amazônia e depois se espalha por todo território brasileiro, chegando até Buenos Aires, Assunção e Montevidéu, está sendo estrangulado pelas atividades predadoras que precisam destruir a vegetação para se impor. Ao destruir a Amazônia matamos a bomba biótica que injeta água na atmosfera, ao destruir o Cerrado matamos nossos maiores reservatórios naturais, aquíferos como o Bambuí, Urucuia e Guarani. A riqueza derivada da rapinagem não tem fôlego e também entrará em colapso com o colapso de nossas águas.
Não sabemos exatamente o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.
Mesmo assim não nos conformamos. Como diz uma frase atribuída a Martin Luther King, “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim hoje eu plantaria uma árvore”. (ecodebate)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Rio Araguaia pode secar em 40 anos por causa do desmatamento

O nível do rio Araguaia, no norte do Tocantins, preocupa os especialistas. Numa seca histórica, as queimadas e o desmatamento fizeram o nível baixar para 20 centímetros em alguns trechos. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram que em vários locais é possível caminhar onde há um ano só era possível atravessar de barco.
Segundo informações da prefeitura de Xambioá, a pesca, principal motor da economia local, foi o setor que mais sentiu os impactos da baixa do rio: de 17,5 mil quilos pescados, em setembro do ano passado, este ano o número caiu para pouco mais de 6,7 mil quilos.
Um levantamento feito pela Secretaria de Meio Ambiente de Xambioá, cidade à 480 quilômetros de Palmas, mostrou que de janeiro até o final de setembro o rio baixou cerca de 2 metros.
O rio Araguaia nasce em Goiás e desagua no Pará, passando por Mato Grosso e Tocantins. São mais de 2 mil quilômetros de extensão.
Em 2014, a Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) de Goiás divulgou um estudo mostrando que a bacia pode secar em até 40 anos.
Área próxima ao rio foi desmatada para dar lugar a plantações.

O principal motivo apontado foi o desmatamento da vegetação nativa para criação de gado. Para reverter a situação, em 2015 tornou-se crime ambiental desmatar áreas próximas a nascentes.
A Secretaria de Meio Ambiente de Xambioá diz, em nota, que já está desenvolvendo um plano de reflorestamento em nascentes e plantação de árvores em alguns pontos das margens do rio para devolver força às águas. (ecodebate)

Estudo aponta impactos para o Brasil zerar emissões do setor elétrico

Estudo aponta impacto econômico, social e ambiental para o Brasil zerar emissões do setor elétrico.Medida seria importante na redução de emissões e praticamente não impactaria PIB e renda no país.
 estudo Qual o impacto de zerar as emissões do setor elétrico no Brasil?, que acaba de ser lançado pelo Instituto Escolhas, mostra que a transição para um setor elétrico com zero emissões de carbono no Brasil até 2050 teria um importante papel na redução de emissões do setor de energia e praticamente não causaria impactos sobre o PIB e a renda familiar. A iniciativa teve como objetivo verificar a relevância e o impacto para o Brasil implementar seu compromisso internacional de reduzir emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), considerando as metas do setor elétrico, que visam ao aumento da participação de fontes renováveis não hídricas – como biomassa, solar e eólica – para, no mínimo, 23% da matriz elétrica brasileira até 2030.
Para isso, foram considerados cenários de crescimento econômico otimistas e pessimistas, além de contextos com zero emissão de carbono. Dessa forma, foi possível entender, em um primeiro momento, como a indústria brasileira irá se comportar no longo prazo e como isso pode afetar a estrutura da demanda de energia. A partir disso, o estudo se propôs a responder quais seriam os impactos macroeconômicos e sociais de se implantar um setor elétrico de emissões zero no PIB, na renda, no consumo e gasto com eletricidade, nas emissões e no próprio setor.

O estudo levou em consideração a segurança energética no sistema, o que inclui questões relativas à intermitência das fontes de energia: disponibilidade de água para usinas hidrelétricas e térmicas ou de ventos para eólicas, por exemplo, incorporando o risco das mudanças climáticas. Para isso, o Instituto Escolhas fez uma parceria com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que estimou especialmente para o estudo a potência complementar a ser instalada em cada um dos quatro cenários avaliados, de forma a garantir a segurança energética.

A conclusão do Instituto Escolhas é que o custo da transição para uma eletricidade carbono zero sobre o PIB seria pouco significativo, menos de 0,2% em 2050. O mesmo acontece para a renda das famílias, com um impacto menor do que 0,5% em 2050. Por outro lado, a redução nas emissões de gases de efeito estufa do setor elétrico foi significativa: se as emissões do setor elétrico forem zeradas em 2050, haverá redução de 58,5 Mt CO2e, no cenário otimista para a economia, um valor maior do que as emissões da queima de gasolina em toda a frota nacional de veículos em 2010. Se considerado um cenário pessimista, a redução seria de 40,1 Mt CO2e, valor maior do que as emissões CO2e de resíduos de todo o Brasil em 2010.
O setor elétrico brasileiro já possui elevada participação de energias renováveis – 74% em 2015, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). Ainda assim, as fontes solar, eólica e biomassa podem aumentar sua participação na matriz elétrica e substituir completamente as fontes fósseis nos cenários estudados, com a segurança energética do país garantida. As estimativas dos riscos das mudanças climáticas para a geração de energia ainda trazem incertezas, mas parece haver consenso de que a energia eólica no Brasil seria potencialmente beneficiada. No caso dos cenários desenvolvidos para este estudo, a energia eólica ganharia significativa importância e teria grande aumento da capacidade instalada (quase 80 GW totais instalados, ou 27% da capacidade instalada total em energia eólica, fonte potencialmente beneficiada pelas mudanças climáticas, no cenário otimista).

O estudo ajuda a mostrar que a transição para um setor elétrico com emissões zero não trará maiores impactos econômicos ao Brasil, ao contrário da percepção existente. Isso se torna ainda mais importante quando se verifica que zerar essas emissões ainda significa uma grande ajuda para o país fazer a sua parte na luta contra as mudanças climáticas e o aquecimento global”, afirma Sérgio Leitão, diretor de Relacionamento com a Sociedade do Instituto Escolhas. (ecodebate)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Emissões globais de metano da pecuária são maiores do que o relatado

Emissões globais de metano da pecuária são maiores do que o relatado, de acordo com novas estimativas.
As emissões globais de metano da pecuária são maiores do que as estimadas devido ao uso anterior de dados desatualizados sobre as emissões de carbono geradas pelo gado, de acordo com um estudo publicado na revista Carbon Balance and Management.
Em um projeto patrocinado pela iniciativa de pesquisa do Sistema de Monitoramento de Carbono da Administração Nacional de Aeronáutica e do Espaço (NASA) dos EUA, os pesquisadores do Joint Global Change Research Institute (JGCRI) descobriram que as emissões globais de metano do gado (CH4) em 2011 foram 11% maiores do que as estimativas com base em diretrizes fornecidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 2006. Isso engloba um aumento de 8,4% em CH4 de fermentação entérica (digestão) em vacas leiteiras e outros bovinos e um aumento de 36,7% no manejo do estrume CH4 em relação a estimativas baseadas do IPCC. A estimativa revisada das estimativas das emissões de CH4 para 2011 nos EUA, a partir deste estudo, foi 71,8% superior às estimativas baseadas pelo IPPC.
Dra. Julie Wolf, Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), Agricultural Research Service (ARS), autora principal do estudo, disse: “Em muitas regiões do mundo, os números sobre o gado estão mudando e a reprodução resultou em animais maiores, com ingestões mais altas O metano é um importante moderador da temperatura atmosférica da Terra. Possui cerca de quatro vezes o potencial de aquecimento atmosférico do dióxido de carbono. As medidas diretas das emissões de metano não são disponível para todas as fontes de metano. Assim, as emissões são relatadas como estimativas com base em diferentes métodos e premissas. Neste estudo, criamos novos fatores de emissões por animal – que são medidas da quantidade média de CH4 descarregada pelos animais na atmosfera – e novas estimativas das emissões globais de metano no gado”.
Os autores reavaliaram os dados utilizados para calcular os fatores de emissão de CH4 do IPCC 2006 resultantes da fermentação entérica em vacas leiteiras e outros bovinos e manejo de estrume de vacas leiteiras, outros bovinos e suínos. Eles mostram que estimar as emissões de CH4 de gado com os fatores de emissões revisados, criado neste estudo, resulta em maiores estimativas de emissão em comparação com os cálculos feitos com os fatores de emissão do IPCC 2006 para a maioria das regiões, embora as estimativas de emissão variaram consideravelmente por região.
O Dr. Ghassem Asrar, diretor da JGCRI, coautor do estudo, disse: “Entre as regiões globais, houve uma variabilidade notável nas tendências nas emissões estimadas nas últimas décadas. Por exemplo, descobrimos que as emissões totais de metano do gado aumentaram mais em regiões em desenvolvimento rápido da Ásia, América Latina e África. Em contrapartida, as emissões aumentaram menos nos EUA e no Canadá e diminuíram ligeiramente na Europa Ocidental. Encontramos os maiores aumentos nas emissões anuais sobre os trópicos do norte, seguidos pelos trópicos do sul”.
As estimativas apresentadas neste estudo também são 15% maiores que as estimativas globais fornecidas pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), apenas um pouco menores do que as estimativas fornecidas pela EPA para os EUA, 4% maiores do que EDGAR (Base de Dados de Emissões para Pesquisa Atmosférica Global ) para estimativas globais, 3% maiores que as estimativas de EDGAR para os EUA e 54% maiores do que as estimativas de EDGAR para o estado da Califórnia. Tanto a EPA quanto a EDGAR usam informações padrão do IPCC 2006 que podem ter contribuído para as suas estimativas inferiores. (ecodebate)

Emissões de automóveis a diesel causam cerca de 5.000 mortes anuais na Europa

Emissões de automóveis a diesel causam cerca de 5.000 mortes prematuras anualmente em toda a Europa, revela um novo estudo.

Desde o final da década de 1990, a participação dos carros diesel na UE aumentou para cerca de 50% na frota, com importantes variações entre países. Atualmente, existem mais de 100 milhões de carros diesel que circulando pela Europa, duas vezes mais do que no resto do mundo.
Suas emissões de NOx são, no entanto, 4 a 7 vezes maiores no trânsito do que em testes oficiais de certificação. Os controles modernos do motor foram otimizados pelos fabricantes para os testes laboratoriais específicos, mas têm uma performance inferior na condução real. Neste novo estudo, pesquisadores do IIASA e do Instituto Meteorológico da Noruega calcularam as mortes prematuras dessas emissões de NOx em excesso para a população em todos os países europeus.
Estimativas do efeito da saúde

Cerca de 425.000 mortes prematuras anualmente estão associadas aos níveis atuais de poluição do ar na UE, Noruega e Suíça. Mais de 90% dessas mortes prematuras são causadas por doenças respiratórias e cardiovasculares relacionadas à exposição a partículas finas. O NO x  é um precursor chave desta matéria em partículas finas. Este novo estudo estima que cerca de 10.000 mortes prematuras anualmente podem ser atribuídas a  emissões de NOx de carros diesel, vans e veículos comerciais leves. Cerca de metade – cerca de 5.000 óbitos prematuros anualmente – são devidas a  emissões de NOx muito superiores aos valores-limite na condução real. Os carros a gasolina têm emissões muito mais baixas.
Se as emissões de veículos a diesel fossem tão baixas quanto as emissões de automóveis a gasolina, três quartos ou cerca de 7.500 mortes prematuras poderiam ter sido evitadas”, diz o pesquisador da IIASA, Jens Borken-Kleefeld.
Os países com maior número de óbitos prematuros atribuíveis a partículas finas de carros diesel, vans e veículos comerciais leves são a Itália, a Alemanha e a França. Isso ocorre por causa de suas grandes populações e de uma alta parcela de carros diesel. No entanto, o risco per capita é quase duas vezes maior em Itália que na França.
Isso reflete a situação de poluição muito adversa, especialmente na região do norte da Itália”, diz o líder da pesquisa Jan Eiof Jonson, do Instituto Meteorológico da Noruega. Os riscos mais baixos são na Noruega, Finlândia e Chipre, onde os riscos são pelo menos 14 vezes menores do que a média EU.
Os pesquisadores observam que não é o primeiro cálculo dos impactos na saúde para a Europa. Notavelmente, o estudo “Impacts and mitigation of excess diesel-related NOx emissions in 11 major vehicle markets”, apresentou cerca de 7.000 mortes prematuras devido ao excesso de NOx da LDDV. Seus resultados foram discutidos e relatados amplamente, mas houve menos foco nos resultados na Europa, que são apresentados em detalhes no novo estudo.
O estudo foi conduzido pelo Instituto Meteorológico da Noruega em cooperação com o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) na Áustria e o Departamento de Espaço, Terra e Meio Ambiente da Universidade de Tecnologia de Chalmers na Suécia. Neste estudo, o Instituto Meteorológico da Noruega calculou as concentrações e deposições de poluentes com base em emissões de NO x de LDDV de diferentes países e anos modelo fornecidos pela IIASA. A IIASA também realizou os cálculos do efeito da saúde.
Excesso de emissões de diesel é a causa de 5 mil mortes por ano na Europa.
Referência
Jonson JE, Borken-Kleefeld J , Simpson D, Nyiri A, Posch M e Heyes C (2017). Impacto do excesso de emissões de NOx dos carros diesel na qualidade do ar, saúde pública e eutrofização na Europa. Letras de Pesquisa Ambiental 12: e094017. DOI: 10.1088 / 1748-9326 / aa8850 .

Estimativa de mortes prematuras por país devido a NO x de carros diesel, vans e veículos comerciais leves no ano 2013

País
Mortes prematuras de 2013 com altas emissões rodoviárias
Se os limites de diesel fossem respeitados
Se as emissões de NOx fossem tão baixas quanto os carros a gasolina
Mortes prematuras devido ao excesso de emissões de NOx
Itália
2810
1560
890
1250
Alemanha
2070
1110
380
960
França
1430
750
260
680
Reino Unido
640
320
110
320
Países Baixos
360
180
60
180
Polônia
360
190
80
170
Espanha
370
200
70
170
Bélgica
290
150
50
140
Suíça
250
130
50
120
Hungria
190
100
50
90
20 euros restantes
1060
580
230
460
UE-28
9575
5135
2180
4440
EU28+NOR+SWI
9830
5270
2230
4560
http://www.iiasa.ac.at/GenticsImageStore/540/auto/prop/web/home/about/news/erl-map.png
Este mapa mostra a concentração de partículas finas devido ao excesso de emissões de NOx de carros diesel, vans e veículos comerciais leves em toda a Europa. As cores azuis indicam baixas concentrações, laranja e vermelho indicam uma poluição extra alta. Unidade: microgram PM2.5 por metro cúbico, média anual de 2013. © Jonson et al 2017

Informe do International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) (ecodebate)

domingo, 1 de outubro de 2017

Fumaça amazônica induz inflamação e danos genéticos em células de pulmão

Partículas da fumaça de queimadas na Amazônia induzem inflamação e danos genéticos em células de pulmão.

Quando são expostas em laboratório a concentrações comparáveis de poluentes encontrados na atmosfera amazônica em época de queimadas, células do pulmão humano sofrem severos danos em seu DNA e param de se dividir. Após 72 horas de exposição, mais de 30% das células em cultura já estão mortas.
O principal responsável pelo estrago? Ao que tudo indica é o reteno, um composto químico pertencente à classe dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs).
As conclusões são de um estudo publicado em 07/09/2017 na revista Scientific Reports por um grupo de pesquisadores brasileiros.
“Não encontramos na literatura científica informações sobre a toxicidade do reteno. Espero que nossos achados sirvam como incentivo para que esse composto seja melhor estudado e para que suas concentrações ambientais passem a ser reguladas pelas organizações de saúde”, disse Nilmara de Oliveira Alves Brito, primeira autora do artigo e bolsista de pós-doutorado da FAPESP.
A pesquisa foi conduzida sob a supervisão do professor Carlos Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), e Silvia Regina Batistuzzo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Contou com a participação de Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e de Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF-USP), além de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Washington University em Saint Louis, nos Estados Unidos.
“Ainda durante meu mestrado, na UFRN, observei que a exposição das células do pulmão a esse material particulado emitido pela queima de biomassa induzia mutação no DNA de células de pulmão. O objetivo neste estudo mais recente foi investigar os mecanismos pelos quais isso acontece”, disse Alves Brito.
De acordo com a pesquisadora, o primeiro passo foi determinar a concentração de poluentes a ser usada nos testes in vitropara mimetizar a exposição sofrida por pessoas que moram no chamado “arco do desmatamento” – 500 mil km² de terras que vão do leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre.
Por meio de modelos matemáticos, os pesquisadores calcularam a capacidade de inalação de material particulado pelo pulmão humano no auge do período de queimadas, bem como a porcentagem de poluentes que de fato se deposita no órgão. “A partir dessa massa teórica, determinamos as concentrações que seriam testadas nas culturas celulares”, disse Alves Brito.
Os poluentes usados in vitro foram coletados em uma área natural próxima a Porto Velho (RO) durante a estação de queimadas, cujo pico ocorre entre os meses de setembro e outubro.
“Fizemos a coleta com equipamentos que aspiram o ar e depositam o material particulado fino – com diâmetro menor que 10 micrômetros – em um filtro. Nosso interesse era estudar as partículas pequenas, pois são as que conseguem chegar nos alvéolos pulmonares”, disse Alves Brito.
Como explicou Artaxo, os filtros foram congelados logo após a coleta do material particulado, uma vez que os compostos orgânicos encontrados na pluma de poluição são extremamente voláteis.
“Esse material foi levado para São Paulo e diluído em uma solução nutritiva, que depois foi aplicada nas culturas. Foi usada a mesma proporção de poluentes presente no ar respirado pela população em Porto Velho”, disse Artaxo.
As culturas tratadas com a solução foram comparadas com um grupo de células-controle, que recebeu apenas o solvente usado para extrair os poluentes do filtro. O objetivo era confirmar que os eventuais efeitos adversos observados eram causados pelo material particulado e não pelo solvente.
Pulmão com fribrose
Ao entrarem nos pulmões, partículas de queimadas da Amazônia aumentam o estresse oxidativo e causam danos genéticos nas células.
Efeito imediato
Logo nos primeiros momentos de exposição, as células pulmonares passavam a produzir grandes quantidade de moléculas pró-inflamatórias. A inflamação era seguida pelo aumento na liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) – substâncias que provocam o chamado estresse oxidativo e que, em grandes quantidades, danificam as estruturas celulares.
“Para entender os caminhos que estavam levando a essa condição de estresse, analisamos o ciclo celular e notamos que ele estava prejudicado pelo aumento na expressão de proteínas como a P53 e P21. As células tinham parado de se replicar, o que sugeria que danos no DNA estavam ocorrendo”, disse Alves Brito.
Por meio de testes específicos, os pesquisadores confirmaram os danos genéticos. Graças ao aumento na expressão da proteína LC3 e de outros marcadores específicos, notaram também que as células estavam entrando em um processo de autofagia, ou seja, estavam autodegradando suas estruturas internas.
“Todos esses danos foram observados em apenas 24 horas de exposição. À medida que o tempo passava, o dano genético aumentava e as células entravam em processo de apoptose [uma espécie de morte celular não inflamatória] e de necrose [tipo de morte em que a célula libera seu conteúdo interno, induzindo inflamação no local]”, disse Alves Brito.
Enquanto na cultura controle apenas 2% das células haviam morrido por necrose após 72 horas, na cultura tratada com os poluentes o índice chegou a 33%.
“Nem todas as células morrem. Porém, as que sobrevivem continuam sofrendo danos em seu DNA, o que pode predispor ao desenvolvimento de câncer no futuro”, comentou a pesquisadora.
Antes mesmo de iniciar o experimento com as culturas celulares, Alves Brito e colaboradores concluíram uma análise das substâncias presentes no material particulado coletado na Amazônia. A presença de diversos compostos da classe dos HPAs foi identificada – muitos deles já são reconhecidos como carcinogênicos. Os resultados dessa análise foram divulgados em 2015 na revista Atmospheric Environment.
“Observamos que o composto em maior quantidade era o reteno. Decidimos, então, repetir o experimento com as células usando essa substância de forma isolada, mas na mesma concentração encontrada no material particulado. Observamos que o reteno sozinho também induzia danos no DNA e morte celular”, disse Alves Brito.
Segundo Artaxo, caso o número de células pulmonares mortas seja grande in vivo, podem surgir dificuldades respiratórias e até mesmo doenças graves como enfisema pulmonar.
“Em um estudo anterior, mostramos que a queda no desmatamento – que era de 27 mil km2 em 2004 e passou para 4 mil km2 em 2012 – evitou a morte de pelo menos 1.700 pessoas por doenças associadas à poluição. O curioso é que a maioria dessas mortes não teria ocorrido na Amazônia, mas no Sul do Brasil, por causa do transporte a longa distância dos poluentes e também porque aqui a densidade populacional é muito maior”, disse.
Alcance mundial
Embora o reteno não seja emitido pela queima de combustíveis fósseis – principal fonte de poluição em regiões urbanas no Brasil –, os pesquisadores destacam que esse composto pode ser encontrado na atmosfera de cidades como São Paulo, em decorrência provavelmente da queima de cana e de outros tipos de biomassa nas proximidades.
No artigo, os pesquisadores ressaltam que a maioria das pesquisas realizadas teve como foco o papel dos combustíveis fósseis na poluição atmosférica. No entanto, aproximadamente 3 bilhões de pessoas em todo o mundo estão expostas a poluentes oriundos da queima de biomassa – decorrente de práticas agrícolas, desmatamento, queima de madeira ou carvão para uso como combustível, em fogões ou aquecimento residencial.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em 2012 apontou que aproximadamente 7 milhões de mortes – uma em cada oito ocorridas no mundo – era resultado de exposição à poluição atmosférica.
“A combinação de incêndio florestal e ocupação humana transformou a queima de biomassa em uma séria ameaça à saúde pública. A maioria dos incêndios florestais ocorre no arco do desmatamento, impactando diretamente mais de 10 milhões de pessoas na região. Muitos estudos identificaram severos efeitos na saúde humana, como aumento na incidência de asma e elevação na morbidade e mortalidade principalmente na população mais vulnerável, composta por crianças e idosos”, apontam os autores. (ecodebate)