quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cidades costeiras são mais vulneráveis às mudanças climáticas

 Cidades costeiras são mais vulneráveis às mudanças climáticas, em especial ao aumento do nível do mar
O Rio de Janeiro é uma das cidades costeiras mais preparadas para lidar com as mudanças climáticas.
As cidades brasileiras situadas em zonas costeiras são mais vulneráveis às mudanças climáticas, em especial ao aumento do nível do mar, mas também a eventos como fortes chuvas, tempestades, inundações e erosão costeira, que causa destruição e impactos à infraestrutura desses municípios.
O dado consta do relatório especial Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas, que o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) divulgou no Rio de Janeiro. Este é o segundo documento sobre mudanças climáticas e cidades elaborado pelo organismo científico criado em 2009 pelos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e Meio Ambiente. O  primeiro foi divulgado durante a Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP 21), da Organização das Nações Unidas (ONU), no Marrocos, em 2016.
No relatório especial, foram avaliados os cenários de mudanças climáticas para o Brasil e como essas cidades poderão ser impactadas pelo aquecimento global. De acordo com o estudo, 18 das 42 regiões metropolitanas brasileiras se encontram na zona costeira ou sofrem influência dela. O documento abordou municípios costeiros das regiões Nordeste, Sudeste e Sul.
 
Nível do mar
Os cenários mais pessimistas citados no relatório apontam que o nível do mar pode chegar a subir 40 centímetros até 2050, provocando perdas econômicas de até US$ 1,2 bilhão para as 22 maiores cidades costeiras latino-americanas. Não há ainda, entretanto, mensuração no Brasil dos custos econômicos provocados pelas mudanças climáticas.
De acordo com a presidente do comitê científico do PBMC, Suzana Kahn, professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a elevação do nível do mar e das temperaturas têm impacto muito maior no Brasil, porque grande parte das regiões está localizada nas áreas litorâneas. “Não há como evitar os danos, mas sim implantar soluções, no sentido de que possamos nos adaptar a uma nova realidade”, externou.
Além do nível do mar, os eventos extremos de chuvas também são citados como causas dos problemas ambientais nas regiões costeiras, acarretando riscos de deslizamento de terras, enxurradas e enchentes. Também foi constatada nas cidades litorâneas a forte emissão de gases poluentes. De acordo com o relatório do PBMC, o Rio de Janeiro se destaca com a maior emissão de gás carbônico (CO2) por habitante, da ordem de 3,47 toneladas.
 
Mapeamento
Entre as cidades mais vulneráveis estão o Rio de Janeiro, Santos, Fortaleza, Recife, Salvador e, no Sul do Brasil, o Vale do Itajaí. A costa de Santa Catarina, apresenta risco não só o aumento do nível do mar, mas também a possibilidade de se tornar rota de furacões. As fortes tempestades na região, com ventos superiores a 80 quilômetros por hora, já são indicativo da tendência, disse à Agência Brasil a secretária executiva do comitê científico do Painel, Andrea Santos.
O relatório recomenda que sejam realizadas novas avaliações de risco de desastres associados, de aumento na frequência de extremos de clima e aumento do nível do mar nas cidades costeiras, sobretudo no Norte e Nordeste do país. Segundo o comitê científico do Painel, esses estudos podem permitir a reavaliação dos riscos para os quais municípios e populações estão preparados.
O Rio de Janeiro e Santos são os únicos municípios que já estão investindo em relação às mudanças do clima, aponta o estudo. “São duas cidades que estão atuando em política pública no sentido de promover ações de adaptação”, disse Andrea.
O relatório atesta que a maioria das cidades que fizeram políticas de clima não conseguem monitorar as metas anunciadas. “A gente não tem visto o acompanhamento dessas políticas, tanto de mitigação, para redução das emissões de gases de efeito estufa, tanto das políticas e ações integradas no âmbito de medidas de adaptação”, afirmou a secretária-executiva do comitê.
Medidas
A secretária executiva do comitê indicou que a infraestrutura de todas essas cidades costeiras está suscetível a impactos físicos, em razão das mudanças climáticas e seus efeitos. O documento faz recomendações de políticas públicas que sejam construídas pela União, estados e municípios para atenuar esses impactos. Ela citou como exemplos novamente o Rio de Janeiro e Santos, que “estão pensando no planejamento de médio e longo prazo, mas também têm ações que podem ser feitas no curto prazo”.
Entre elas, destacou a construção de um piscinão na Praça da Bandeira, centro do Rio de Janeiro, que durante anos passou por inundações e alagamentos. Andrea Santos considerou que reservatório subterrâneo construído naquela área pode ser considerado uma medida de adaptação, já que, na prática, evitou novas enchentes.
Além de barreiras de proteção contra a elevação do nível do mar, a secretária do comitê científico do PBMC recomendou que as cidades costeiras preservem seus ecossistemas. O mangue tem um papel fundamental ao conter o avanço da água salina.
Medidas de curto prazo como a integração do transporte público também são recomendadas. O transporte rodoviário é o mais afetado em inundações e sistemas integrados podem diminuir o impacto das chuvas no dia a dia de usuários. Outra medida simples, em que a população tem um papel a cumprir, diz respeito à destinação de resíduos. “Se a população não joga lixo na rua, isso facilita”, observou. (ecodebate)

Trump sai do Acordo de Paris

Trump sai do Acordo de Paris. Ruim para o planeta, pior para os EUA
 
Após muitas ameaças, o presidente americano enfim cumpriu sua promessa e deu o primeiro passo para tirar os EUA do maior acordo internacional sobre clima da história.
Donald Trump hesitou em cumprir sua promessa. Foram reuniões e mais reuniões com seus conselheiros até bater o martelo e anunciar, nesta quinta-feira (1º), que está tirando os Estados Unidos do Acordo de Paris – o tratado assinado na capital francesa e ratificado por mais de 130 países com metas para reduzir poluição emitida por fábricas, veículos e desmatamento e, desta forma, limitar o aumento da temperatura do planeta. "Para cumprir meu dever de proteger a América, os Estados Unidos vão se retirar do Acordo do Clima de Paris e começar renegociações para reentrar no acordo de uma forma que seja justa com o povo americano", disse o presidente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia que o país está se retirando do Acordo de Paris.
As medidas não são surpresa para ninguém. Desde o início da campanha eleitoral, Trump ataca as regulações ambientais e o acordo internacional do clima. Seu escolhido para chefiar a Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, iniciou o processo de desmontar as medidas climáticas aprovadas no governo anterior, do ex-presidente Barack Obama. Mas ainda havia dúvidas se Trump tomaria o caminho longo e complicado de bater de frente contra a comunidade internacional e o multilateralismo. Foi esse o caminho escolhido, amparado por seu mote "America first". Nesse caso, o que vem primeiro não é o meio ambiente americano, mas possíveis postos de trabalho que a indústria de carvão e petróleo poderia gerar se ela ficar livre de restrições ambientais.
O ataque de Trump às políticas para conter o aquecimento global nos EUA tem muitas frentes. Na área da diplomacia, o presidente americano fez questão de mostrar seu isolamento na última reunião do G7, na Itália – os líderes das outras seis maiores economias do mundo disseram que o combate às mudanças climáticas é prioridade. No cenário doméstico, a administração americana promove o total desmonte das políticas ambientais aprovadas por Obama. Em apenas 100 dias, Trump desfez 23 regulamentações ambientais da era Obama, mostra um levantamento do jornal americano The New York Times.
Entre essas mudanças está a que fala em "reescrever" o Plano de Energia Limpa (Clean Power Plan), uma das medidas ambientais mais importantes do governo Obama. O plano determinava a redução de emissões de usinas de energia já existentes nos Estados Unidos. Não está claro como ele será reescrito, exceto que deverá ser norteado pelo princípio de "reduzir a dependência de outros países para energia". O que, no jargão de Trump, deve significar facilidades para extrair carvão e petróleo em solo americano. A outra medida relevante acaba com uma moratória nas concessões de novas áreas para a mineração de carvão em terras públicas americanas. A moratória foi apresentada por Obama no começo de 2016, sob o argumento de que os resultados do programa deveriam ser reavaliados para saber se ainda valia a pena ser custeado pelo contribuinte. Trump não esperou o resultado da avaliação e já tem a resposta. Para ele, vale o contribuinte custear uma operação cara e que danifica o ambiente se isso resultar em empregos para a indústria do carvão.
Separadas, essas medidas podem parecer ter pouco efeito sobre a política climática americana. Porém, elas formam os principais alicerces da tentativa de Obama para reduzir emissões: tirar investimentos das energias fósseis, como no caso da mineração de carvão, e forçar as indústrias já existentes a emitir menos e ser mais eficientes. Sem essas regulações, e sem uma política climática para substituí-las, é provável que os Estados Unidos não consigam reduzir emissões como prometeu Obama. É exatamente isso que Trump quer.
Mais do que as ações de Trump, no entanto, são seus discursos que terão o impacto mais negativo para a política internacional de combate ao aquecimento global. Trump representa um buraco no meio de um acordo que, apesar das críticas, conseguiu colocar todo mundo na mesa de negociação. O Acordo de Paris já foi assinado e ratificado por 147 países, incluindo a China, que só passou a assumir metas após a diplomacia da era Obama, sem falar em União Europeia, Índia, Japão e Brasil. Ao dizer que o acordo é "um mau negócio" para os EUA, Trump prefere se alinhar a Rússia, Turquia e Irã, os três únicos países entre os maiores poluidores que até o momento não ratificaram o Acordo de Paris.
O problema da política de Trump é que, diferentemente de seu nacionalismo, não há muro na fronteira que impeça os impactos previstos pela mudança nas médias de temperatura do planeta. Segundo o National climate assessment, um relatório feito por 300 cientistas americanos ainda durante a administração Obama, os Estados Unidos já estão enfrentando os efeitos de um clima desregulado. Esses efeitos aparecem, por exemplo, em ondas de calor e mudança nos padrões de tempestades. A situação da Califórnia é um exemplo do que os cientistas esperam de alternância de eventos climáticos extremos. Depois de anos com uma seca severa, o estado foi atingido por tanta chuva e neve (que abastece as represas locais quando derretem) que uma barragem quase se rompeu. Ao mesmo tempo, na outra costa do país, moradores de Nova York vivem quase anualmente com os "vórtices polares", trazendo grandes tempestades de neve, que não eram tão comuns no passado. Segundo a NOAA, agência que monitora oceanos e atmosfera dos EUA, uma possível causa para essas tempestades é o aquecimento global no Ártico – o Polo Norte mais quente que o normal está "empurrando" o frio para latitudes mais baixas. Isso sem falar no risco de aumento da intensidade de furacões. Ou seja, enfrentar as mudanças climáticas, para os Estados Unidos, não deveria ser visto como caridade para outros países. É também do interesse deles.
Trump deixará os EUA vulneráveis a esses impactos, tudo em nome de empregos. Mas não há evidências de que as medidas regulatórias de Obama tenham destruído empregos. Pelo contrário, segundo o Bureau of Labor Statistics, a taxa de desemprego no país é a menor desde a crise financeira de 2008. O que aconteceu foi que os empregos migraram. Um estudo da Environmental Entrepreneurs, uma associação de empresários e investidores para promover a economia limpa, chegou à conclusão que, no ano passado, 2,5 milhões de americanos trabalhavam em empregos relacionados a uma economia limpa. Só a energia solar, por exemplo, emprega 300 mil pessoas. O mercado indica que essa tendência continuará. Carvão e petróleo estão em baixa, nos Estados Unidos, principalmente porque enfrentam a concorrência do gás natural obtido pela técnica fracking. Ao mesmo tempo, as renováveis crescem a passos largos, impulsionadas pelo barateamento da tecnologia de geração de energia limpa. Esse é um cenário criado por forças de mercado, e Trump dificilmente mudará isso, com ou sem regulação. Quem sofre, nesse caso, é só o meio ambiente – e a população.
O presidente americano, seja ele quem for, tem uma responsabilidade com sua população – e com o resto do mundo. Afinal, os EUA ainda são o segundo maior emissor de gases de efeito estufa anualmente, e o maior emissor acumulado. Os impactos que esse CO2 a mais na atmosfera causará será sentido no mundo todo. Ao sair do Acordo de Paris, Trump mostra que não se preocupa com essa responsabilidade e que vai deixar a população de seu país arcar com os impactos que isso pode causar. Os Estados Unidos abandonam a liderança que construíram nas negociações climáticas, deixando um vácuo que provavelmente não será assumido por ninguém. Sem lideranças, o clima internacional pode ficar desgovernado. (globo)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Observatório do Clima e a saída dos EUA do Acordo de Paris

Nota do Observatório do Clima sobre saída dos EUA do Acordo de Paris
Numa lamentável demonstração de irresponsabilidade, cegueira ideológica e inépcia estratégica, o presidente Donald J. Trump anunciou em 01/05/17 que os Estados Unidos sairão do acordo do clima de Paris. A decisão é um erro histórico, que terá repercussões gravíssimas para toda a humanidade e para a população e a economia dos EUA.
O ato praticamente sepulta a chance da humanidade de atingir a meta de estabilizar o aquecimento global em 1,5ºC neste século, objetivo mais ambicioso do Acordo de Paris e medida de segurança para evitar a extinção de pequenas nações insulares. Também traz riscos para o objetivo de limitar o aquecimento a menos de 2°C, ao eliminar da mesa de negociações o maior emissor histórico de gases de efeito estufa e uma das principais fontes de financiamento climático – potencialmente levando outras nações a repensar os próprios compromissos.
Na geopolítica global, o dia 1º de junho de 2017 ficará conhecido como a data em que os Estados Unidos claramente abandonaram a ordem mundial construída no pós-Segunda Guerra e voltaram ao seu isolacionismo.
Ao sair do Acordo de Paris, Donald Trump também faz o oposto da sua promessa de botar “a América em primeiro lugar” e de proteger a população e os empregos americanos, como repetiu à exaustão em seu discurso. Ao virar as costas para o setor de energias renováveis – que gera empregos 12 vezes mais rápido que o restante da economia – e ao dobrar a aposta em setores moribundos, como o de carvão, o governo federal americano entrega a competitividade da indústria à China, que já investe mais que os EUA em energia eólica e solar.
Além de prejudicar as empresas e a geração de empregos, expõe toda a população dos Estados Unidos (e do restante do mundo) a impactos cada vez mais graves da mudança do clima. O aquecimento “pequenininho” do qual o presidente fez troça terá um efeito grande sobre cidades como Nova York, terra natal de Trump. Infelizmente, o clima não liga para ideologia ou “fatos alternativos”; ele simplesmente aquece.
O recuo imoral do governo americano não é o fim do Acordo de Paris, nem da ação climática global. É, ao contrário, um chamado à ação. Cabe agora ao resto do mundo, inclusive a Estados e empresas dos EUA, aumentar sua ambição para fazer frente a Trump e cumprir os objetivos do tratado de garantir um planeta habitável neste século. (ecodebate)

Será que podemos comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente?

No dia 5 de junho de 1972, foi realizada em Estocolmo a primeira conferência da ONU sobre meio ambiente. Desde então, a data passou a ser celebrada como o Dia Mundial do Meio Ambiente e nos oferece a oportunidade de refletir sobre o que temos a comemorar. Certamente, houve avanços, mas ainda há muito que fazer.
Um exemplo é o Acordo de Paris, compromisso considerado histórico que foi negociado por 195 países, chegando a um consenso de que o aumento da temperatura global deverá ser limitado a patamares abaixo de 2°C. Para que isso seja possível, esse acordo precisa avançar rapidamente com a prática efetiva de políticas que visam reduzir a emissão dos gases de efeito estufa (GEE), com a redução iminente ou até mesmo, o fim dos combustíveis fósseis e do desmatamento. No entanto, já temos indicações de que EUA e outros países retirarão o apoio.
É sabido que, caso os países não consigam cumprir o objetivo, considerando um aumento da temperatura maior do que o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, poderemos ter a redução de área agricultável e de pastagens com impacto direto no preço que os consumidores pagam pelos alimentos. Entre 2002 e 2026, eventos climáticos extremos causaram uma perda econômica média de 0,68% no PIB (R$ 278 bilhões no período). Até 2058, se o aquecimento global superar 1,4°C, o PIB pode diminuir até 2,3% a cada ano, totalizando R$ 3,6 trilhões daqui até lá.
Outro ponto a se observar de que ainda há muito por fazer, é na maioria das vezes a visão do empresariado de que investimento em meio ambiente ainda é custo e não uma oportunidade de se melhorar processos. Isto porque ainda, os valores impostos em penalidades estão muito aquém dos gastos na área. Ou seja, vale mais a pena pagar a multa do que prevenir o dano ambiental. Não que não se tenha mecanismos punição com valores suficientes, mas na prática há um descolamento entre o estrago e a correção aplicada.
Um exemplo é o caso do rompimento da barragem de Mariana, em que os valores de multa de R$ 250 milhões aplicados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e de R$ 122 milhões, pelo governo de Minas Gerais, são bem menores do que a estimativa dos danos causados que ultrapassa os R$ 10 bilhões e até mesmo, o seguro contra acidentes ambientais, no valor de US$ 1 bilhão. Vale lembrar que o instituto de responsabilidade civil ambiental existente no Brasil prevê a recuperação do meio ambiente ao status anterior ao dano ocorrido, além da aplicação das penalidades de multa nas esferas civil, penal e administrativa.
O fato é que o trabalho de prevenção tem que ser contínuo e demanda, muitas vezes, além de esforço, investimentos maiores, de longo prazo e cujo benefício pode ser difícil de mensurar. Talvez, por isso, diante do nosso judiciário, as atividades industriais são sempre consideradas vilãs do meio ambiente. Neste aspecto, o poder judicial tem se mostrado favorável às causas socioambientais, sendo que em 50% dos casos propostos em 1º instância foi acolhido o pedido do autor integralmente e 17,5% o pedido foi acolhido parcialmente, muitas vezes modificando apenas o valor da indenização. Nos tribunais, 80% dos casos julgados procedentes em primeira instância são confirmados pelos TJ’s e TRF’s.
Em geral, a justiça e seus representantes veem adotando uma postura mais protecionista ao meio ambiente, sendo que diante da dúvida, o princípio da precaução tem sido constantemente evocado. Então será que podemos comemorar esse dia 05 de junho? Talvez seja a oportunidade de repensar ações e apenas colocar em prática o que já está previsto em lei e estimular a prevenção! (ecodebate)

sábado, 3 de junho de 2017

Transição religiosa na cidade de São Paulo: 1991-2030

São Paulo é a maior cidade do Brasil. O município tem uma população maior do que a grande maioria dos Estados do país. Segundo dados do censo demográfico de 2010, do IBGE, se a cidade de São Paulo fosse uma Unidade da Federação ela ficaria atrás em número de habitantes apenas dos Estados de São Paulo (41.262.199), Minas Gerais (19.597.330), Rio de Janeiro (15.989.929) e Bahia (14.016.906). A população da cidade de São Paulo equivalia, em 2010, à soma dos 2.333 municípios brasileiros de menor tamanho populacional.
Portanto, o que acontece com os paulistanos têm um grande peso nacional.
Assim como o Brasil, o município de São Paulo está passando por uma transição religiosa, que significa queda das filiações católicas, aumento das filiações evangélicas, aumento de outras religiões e aumento das pessoas que se declaram sem religião. Ou seja, está havendo uma mudança de hegemonia entre os dois grandes grupos cristãos e um aumento da pluralidade religiosa.
Em 1991, São Paulo tinha 9,6 milhões de habitantes, sendo 78,1% católicos, 8,3% evangélicos, 7,5% de outras religiões e 6,1% sem religião. Em 2010, a população de São Paulo passou para 11,3 milhões de habitantes, com 58,2% católicos, 22,1% evangélicos, 10,3% outras e 9,4% sem religião. O declínio dos católicos foi de 1,05% ao ano, o aumento dos evangélicos foi de 0,73% ao ano, o aumento das outras religiões foi de 0,15% ao ano e o aumento dos sem religião foi de 0,17% ao ano.
Supondo que essas tendências das duas últimas décadas permaneçam nas duas décadas seguintes, podemos fazer uma projeção linear sobre o percentual de cada grupo religioso até 2030. Na tabela acima, usamos a projeção populacional da Prefeitura de São Paulo, que estima 11,8 milhões de habitantes em 2020 e de 12,3 milhões em 2030.
O que a projeção mostra é que haverá um empate técnico entre católicos (37,3%) e evangélicos (36,6%) em 2030. Sendo que, ceteris paribus, os evangélicos passarão os católicos em 2031. As outras religiões somadas devem representar 13,3% e os sem religião 12,8% da população paulistana em 2030. Assim, os cristãos (católicos + evangélicos) que representavam 86,4% em 1991, caíram para 80,3% em 2010 e devem ficar com 73,9% em 2030. Isto quer dizer que a cidade de São Paulo deve assistir a mudança da hegemonia entre católicos e evangélicos e uma maior pluralidade religiosa no início da década de 2030.
Este exercício de projeção não tem o objetivo de acertar na mosca qual vai ser o panorama religioso da cidade de São Paulo no futuro próximo. A ideia aqui é apenas mostrar o que aconteceria se as tendências ocorridas entre 1991 e 2010 fossem mantidas. Este tipo de cenário é interessante para confrontar com os dados reais e, quando forem publicados os dados dos censos demográficos de 2020 e 2030, avaliar se as tendências se aceleraram ou desaceleraram.
Existem indicações de que a transição religiosa no Brasil continua no mesmo ritmo ou até se acelerou. Pesquisa Datafolha, divulgada no dia de Natal (25/12/2016), mostra que a percentagem de católicos caiu de 63% em 2010 para 50% em 2016, os evangélicos subiram de 24% para 29%, os sem religião de 6% para 14% e as outras denominações ficaram constante em 7%, no mesmo período, segundo a Datafolha. Entre 1994 e 2016 a perda dos católicos tem sido de 1,14% ao ano, superior ao que aponta os censos demográficos do IBGE.
O dinamismo das atividades evangélicas pode ser exemplificado pela realização da “Marcha para Jesus”, que é um evento interdenominacional (realizado conjuntamente por diversas denominações evangélicas) realizado anualmente no feriado de Corpus Christi. A primeira Marcha na cidade de São Paulo ocorreu em 1992 e, segundo os organizadores, reuniu 350 mil pessoas. A última ocorreu no dia 15 de junho de 2017 e, segundo os organizadores, reuniu 2 milhões de pessoas.
Pesquisa encomendada à Universidade Municipal de São Caetano pela Diocese de Santo André para diagnosticar a transformação do Grande ABC e sua população desde os anos 1960 até 2016, apontou que a Igreja Católica vem gradativamente perdendo fiéis. Cinquenta e seis anos atrás, dos 499.398 moradores da região, 90,7% eram católicos. Em 2010, das 2,5 milhões de pessoas, 56,5% se declararam seguidoras do catolicismo e, neste ano, elas representam 46,8% em universo de 2,7 milhões de habitantes. Portanto, os católicos perderam quase 10 pontos em apenas 6 anos. O que mostra que a transição está se acelerando e não se reduzindo (Oliveira, 07/12/2016).
A capital mais adiantada na transição religiosa é Rio Branco, no Acre. Das grandes capitais, a cidade do Rio de Janeiro (segunda maior cidade do Brasil) está mais adiantada do que São Paulo, sendo que os evangélicos, ceteris paribus, devem passar os católicos antes de 2030 (mais precisamente em 2027). A pluralidade também é maior na capital fluminense. O fato de o Rio ter um prefeito que também é bispo de uma igreja evangélica neopentecostal é apenas um sinal dos tempos. Tempos de mudança no panorama religioso nacional.
Outro sinal de mudança no sentido da secularização são as enormes paradas gays de São Paulo. A parada do orgulho LGBT é uma parada em prol da garantia dos direitos civis da população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Trangêneros e Queer (LGBTTTQ) e aconteceu, pela primeira vez em São Paulo, em 1997, quando reuniu cerca de duas mil pessoas. A 21ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo que ocorre em 18/06/2017, com o tema “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todas e todos por um estado laico“, reuniu, segundo os organizadores, cerca de 3 milhões de pessoas.
No curto espaço de três dias, São Paulo reuniu duas multidões com cores e propósitos bem diferentes. Esse artigo não teve como foco avaliar se são bons ou ruins a transição religiosa e o processo de secularização em curso no Brasil e na maior cidade do país.
O fato é que a composição das filiações religiosas e a sociedade estão se modificando rapidamente. Isto é um fato inédito nos mais de 500 anos de história do Brasil, desde que foi rezada a primeira missa, em Cabrália, na Bahia, supostamente no dia 26 de abril de 1500. Nos artigos disponíveis nos links abaixo, há uma discussão mais aprofundada da transição religiosa brasileira. Quem tiver interesse nessa discussão pode acessar gratuita e livremente os trabalhos indicados abaixo. (ecodebate)

45 anos do Dia Mundial do Meio Ambiente

45 anos do Dia Mundial do Meio Ambiente: a responsabilidade também é nossa
Em 1972, durante a Conferência de Estocolmo, o dia 5 de junho foi instituído como o Dia Mundial do Meio Ambiente. No Brasil, o dia virou semana, com início em 01 de junho. Hoje, portanto, celebramos o encerramento de mais uma Semana do Meio Ambiente. São 45 anos desde a definição da data, mas qual é o cenário diante deste marco tão importante?
De um lado, temos pontos a comemorar. O tema tem sido amplamente debatido pelos governantes mundiais, pela mídia, pelas escolas. Empresas passaram a contar com departamentos inteiros dedicados à sustentabilidade e responsabilidade social. Em toda essa trajetória, instituições ativistas passaram a ser consideradas, ouvidas, capazes de grandes mobilizações. As redes sociais contribuíram para que as pessoas pudessem se informar e participar mais ativamente, com a criação de abaixo-assinados virtuais, boicotes a empresas e produtos. Artistas se engajam, filmes retratam o tema, livros, músicas, artigos e toda uma produção cultural e intelectual permeia o Meio Ambiente e o risco que corremos ao ignorar seus avisos de que estamos indo longe demais na busca por desenvolvimento econômico e material.
De outro, vemos as mesmas empresas com campanhas emocionantes e produtos ditos ecológicos, aproveitando-se do tema para lucrar e produzir mais. Ainda, observando o panorama das atitudes efetivas tomadas pelos políticos, chegamos a um patamar com cada vez mais acordos selados e menos metas cumpridas. Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris, grandes eventos como Rio 92, Rio +20, e a própria Conferência de Estocolmo são parte das agendas políticas, mas não se convertem em resultados, em efetividade. O compromisso assumido é divulgado, fotografado, mas não há cobrança por planejamentos realmente transformadores.
Cria-se um cenário positivo, valorizando as assinaturas dos protocolos, que na verdade é apenas um simulacro, quando na realidade a discussão que tem mais força na Câmara é a flexibilização da legislação ambiental. O Brasil se orgulha de ter o conjunto de leis mais completo para a defesa do Meio Ambiente, mas seus resultados estão longe de demonstrar que sua população, suas empresas e seus governantes são defensores e compreendem a importância destas leis e regulamentações. E, pelo exemplo, os indivíduos seguem sem dar tanta importância ao tema.
O primeiro passo para sairmos, então, desta realidade de compromissos assumidos para um cenário de ações e resultados é, senão, assumirmos a responsabilidade que cada um exerce sobre esta questão. Desde o microcosmos, onde se recicla, se reduz o tempo no chuveiro, onde não se é conivente com pequenas infrações, se boicota empresas que usem mão de obra escrava ou poluam a natureza; até o macro, onde se cobra ações efetivas de políticos, se contribui para a fiscalização e denúncia, onde se observa a sustentabilidade da cadeia produtiva de um produto, somos todos responsáveis.
A decisão de utilizar o carro, de descartar uma embalagem na rua, de votar sem estar atento ao que oferece seu candidato, de não se preocupar com questões ambientais porque isso é responsabilidade das empresas ou do governo, impacta diretamente nos resultados que deixamos de obter. Escolha se informar melhor, participe e promova o debate saudável sobre o tema, observe as pequenas atitudes e as grandes mudanças que podemos promover individual e coletivamente. E vamos juntos fazer com que a próxima Semana do Meio Ambiente possa ser cheia de vitórias. (ecodebate)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Relatório do desperdício de água em redes de distribuição

ONU lança relatório sobre desperdício de água em redes de distribuição
Pacto Global da ONU lança relatório sobre desperdício de água em redes de distribuição do Brasil.
Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.
Rio Piracicaba
Em 2015, 182 bilhões de litros de água foram perdidos em vazamentos, fraudes, roubos ou problemas de medição nos 74 municípios banhados pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O número é de um levantamento divulgado nesta semana (7) pelo Movimento Menos Perdas, Mais Água – iniciativa criada pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Volume desperdiçado seria suficiente para abastecer 2,7 milhões de pessoas.
Lançado durante as atividades da Semana do Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o relatório lembra que as bacias dos três cursos fluviais atravessam 74 municípios — cinco em Minas Gerais e 69 em São Paulo. Juntas, cidades têm uma população de 5,6 milhões de moradores. A região das bacias PCJ responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
Segundo Alceu Galvão — pesquisador do instituto responsável pela elaboração do estudo, o Trata Brasil — a média das perdas no sistema de distribuição do país, em 2015, foi de 36,7%, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) do Ministério das Cidades.
O especialista explicou que, acompanhando os indicadores do SNIS nos últimos anos, é possível observar que o Brasil (36,7%), a região Sudeste (32,9%) e o estado de São Paulo (33,5%) têm avançado no combate às perdas de água, já que atingiram em 2015 índices próximos à meta estipulada para 2018. Entretanto, os municípios das bacias PCJ, com média de 37,2%, não acompanharam essa tendência.
Também presente no lançamento da pesquisa, o presidente-executivo do Trata Brasil, Edson Carlos, apresentou um panorama da crise hídrica entre 2012 e 2017, ressaltando que houve um aumento da demanda de água nas cidades e pelo setor agrícola, ao mesmo tempo em que houve uma estagnação do volume das reservas do recurso. Outro problema foi a falta de chuva, especialmente no Nordeste.
“Os números só não são piores porque houve investimentos de infraestrutura em segurança hídrica. No entanto, ainda temos 50% da população brasileira sem coleta de esgoto e 34 milhões de pessoas sem acesso à água tratada, o que gera uma grande pressão sobre recursos hídricos”, alertou.
Para o superintendente de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), Sérgio Ayrimoraes Soares, é necessário implementar políticas de controle do uso da água. O dirigente lembrou que, para a renovação em maio da outorga do Sistema Cantareira – do qual faz parte a bacia do PCJ –, uma resolução da ANA determinou a redução da média mensal de retirada de água. “Com isso, o uso será reduzido para 56% do sistema”, disse.
Meta nacional
No final de 2013, a Presidência da República do Brasil promulgou o Plano Nacional de Saneamento de Básico (PLANSAB). A estratégia tem como meta a redução da média nacional de perdas nos sistemas de distribuição para 31% até 2033.
Alceu Galvão afirmou que já existem números sobre os volumes e os custos de produção de água que poderão ser economizados pelos municípios a partir da redução dos atuais índices de desperdício. Em um cenário factível, a diminuição dos índices de perdas na distribuição chegaria a 30%.
“O volume a ser economizado seria de 63 milhões de metros cúbicos por ano (63 bilhões de litros), o que representa uma economia anual de 104 milhões de reais”, afirmou.
O estudo da Rede Brasil do Pacto Global aponta ainda que, em todos os cenários traçados, a demanda futura de água nas bacias PCJ tende a ser superior à disponibilidade hídrica até 2035. Na simulação para esse ano, que estima em 25% a redução de perdas em todos os municípios, bem como uma queda da demanda para a irrigação, os números mostram que a demanda total de água estimada para as bacias PCJ superaria em 22% a disponibilidade atual.
Outras medidas
O estudo conclui que, apesar dos volumes de água significativos que poderão ser economizados com programas de redução e controle de perdas, o déficit hídrico estimado pelo Plano de Bacias não será superado apenas com iniciativas desse tipo.
Esses programas devem estar associados ao planejamento e à implementação de outras ações que busquem o aumento da oferta de água — como o crescimento dos índices de tratamento de esgotos dos municípios, a utilização da água de reuso e a redução dos consumos per capita. O levantamento também recomenda a criação de projetos de gestão operacional periódica nos sistemas de abastecimento.
"Precisamos migrar para uma sociedade que consuma menos água e que possamos cumprir o nosso papel de usá-la de forma racional, o que vai ao encontro da segurança hídrica no Brasil. As perdas nos sistemas de distribuição são grandes e contribuem para isso. Portanto, é preciso chegar a um controle de perdas a um nível satisfatório. Trata-se de uma questão complexa, mas precisamos seguir em frente”, afirmou a secretária adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos do estado de São Paulo, Mônica Porto.
Acesse o sumário executivo do relatório Perdas de água nos sistemas de distribuição como agravante à vulnerabilidade das bacias hidrográficas – o caso das bacias PCJ” clicando aqui. Documento foi elaborado em parceria com a Reinfra Consultoria.
Saiba mais sobre o Movimento Menos Perdas, Mais Água: (ecodebate)
 

Caixa d’água da Bahia vai secar!

Chapada Diamantina: a caixa d’água da Bahia vai secar!
Conhecida por ser uma das principais atrações turísticas do Brasil, por conta de suas belezas naturais, o mundo desconhece a importância que a Chapada Diamantina tem no fornecimento de água para o estado da Bahia, e para o equilíbrio da rede hidrográfica brasileira.
Refém dos interesses comerciais de grandes produtores rurais, abandonada e maltratada pelo poder público, a Chapada está secando e seus rios estão morrendo. Comunidades ao longo da Chapada já sofrem com a escassez de água, conflitos que podem se tornar mais violentos estão se intensificando na região e a capital soteropolitana também vai sofrer com a falta d’água.
Em Utinga, os índios Payayás já perceberam há uns anos o tamanho do problema e começaram um trabalho de conscientização, articulação política e ação. Hoje, Otto Payayá, avalia que a ação é a única ferramenta que ele ainda crê. “Do governo a gente tá cansado. A gente junta a comunidade e vamos limpar o rio, plantar na beirada dele, fazer algo prático, recuperar a vegetação para que a água volte a correr”, afirmou.
Otto Payayá
Viveiro com mudas produzidas pelos Payayás para reflorestamento.
A descrença de Otto não é à toa, além do abandono relegado pelo estado à região, quando ele enfim age, o faz sem planejamento e acaba por piorar a situação. O rio Utinga nasce na comunidade de Cabeceira do Rio, distante cerca de oito quilômetros da sede do município de Utinga. Ele é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Utinga, Wagner, Lajedinho e Andaraí. Em 1977 foi construída uma barragem na cabeceira da nascente do rio Utinga, literalmente em cima da nascente e de seus fervedouros – nascentes de rios subterrâneos. E para piorar ainda mais, a retirada da mata ciliar na área da barragem provocou o desbarrancamento, o que tem assoreado o rio. O indígena relatou que recentemente conseguiu levar ao local o engenheiro responsável pela obra da barragem e que ele se emocionou ao ver o tamanho do erro que cometeram.
O rio Utinga é apenas um dos vários rios que compõem a bacia do Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de várias cidades da região e da capital baiana, Salvador. Assim como o Jacuípe, que abastece, por exemplo, o distrito do município de Piritiba, França. No distrito, a Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A.) joga no próprio rio os rejeitos da estação de tratamento. Além dos rejeitos, uso de agrotóxicos por produtores locais e plantações em área de preservação permanente têm poluído e assoreado o rio, cuja vazão tem diminuído a olhos vistos.
Rejeitos da estação da Embasa em França sendo despejados no rio.
O rio assoreado no distrito de França.
Seguindo o exemplo dos payayás, assentamentos da região têm se organizado para reflorestar as margens dos rios e assim tentar retomar a riqueza de águas da região. É o caso do assentamento São Sebastião, no município de Wagner, que após ver o rio Utinga quase secando, fez mutirões para plantação de mudas nativas nas margens do rio e para a limpeza do local. Os assentados descrevem com tristeza terem testemunhado o rio secar e os peixes morrerem. Mesmo com as ações, em fevereiro deste ano os assentamentos ficaram sem água. Na cidade de Wagner aconteceu o mesmo.
Sem a presença do poder público, grandes produtores, também impactados pela falta d’água, destilam acusações contra os assentados e pequenos produtores, acusando-os de serem os responsáveis pela escassez de água. Porém, são os grandes produtores que multiplicam bombas para alimentar sistemas de irrigação de suas produções, ao longo do rio. Segundo os produtores, nos últimos 10 anos houve um aumento do plantio irrigado de culturas, que absorvem um grande volume de água, saindo de aproximadamente 200 hectares para mais de 1.000 hectares. Isso é equivalente a mais de 1,6 milhão de plantas, que para manter sua produtividade necessita de 40 litros de água por dia para cada planta. Sem controle, plano de manejo ou fiscalização, boa parte dessas bombas para irrigação não possui sequer outorga de uso do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia).
Conflitos pela água: a violência iminente
A comunidade do povoado de São José, próximo a Lençóis (BA), ficou 120 dias sem água. Toda sua produção foi perdida. Endividados, pois conseguiram a terra em que vivem através do crédito fundiário e não pela reforma agrária, chegaram a passar fome. Em fevereiro desse ano, quando chegaram ao limite, bloquearam os dois sentidos da BR-242, na altura do km-308. Segundo relato das famílias, policiais militares da CIPA (Companhia Independente de Policiamento Ambiental) dispararam contra os manifestantes. Ninguém ficou ferido. A polícia teria, segundo eles, levado duas pessoas presas e, no trajeto até a delegacia, os próprios policiais teriam quebrado o vidro da janela da viatura e colocado a culpa em um dos manifestantes, que ficou preso por dois dias sob acusação de vandalismo. Ele foi solto somente após o pagamento de fiança no valor de R$ 2.800,00.
Régua para medir altura da água do rio que abastece a comunidade de São José.
Líderes da comunidade têm sofrido constantes ameaças por conta de sua atuação e denúncias feitas. As ameaças, conforme relataram, partem tanto de fazendeiros da região, quanto da polícia. Fazendeiros disseram também a eles que “se virassem” com caminhões pipa ou que “criassem camelos, que não bebem água”. “Quando é da natureza você tem que concordar. Mas a minha sensação é que não era da natureza essa falta d’água, era somente por que tem gente que se acha melhor do que a gente”, desabafou uma das moradoras da comunidade. Temerosos com o rio baixando novamente, os moradores declararam que vai haver mais embate, pois não irão aguentar novamente a falta d’água, quietos.
Bacia do Paraguaçu
A bacia hidrográfica do Paraguaçu é uma das mais importantes para o estado da Bahia, sendo fundamental para o abastecimento de água da região metropolitana de Salvador. Mais de três milhões de pessoas dependem das águas deste rio, cuja bacia se estende por mais de 55 mil km², abrangendo 86 municípios e 10% do território do estado. O Paraguaçu tem suas nascentes em áreas de Caatinga, Campos de Altitude e encraves de Mata Atlântica na Chapada Diamantina. Das nascentes até a foz, na Baía de Todos os Santos, o rio percorre 600 km, cruzando uma região com alta diversidade social, cultural e ecológica. Tamanha importância torna ainda mais preocupante o atual estado de degradação ambiental da bacia.
Além da sua importância no fornecimento de água e no equilíbrio da biodiversidade local, a região possui grande potencial turístico e econômico, mas nem mesmo isso tem livrado a Chapada da degradação. Um de seus cartões postais, a Cachoeira da Fumaça, localizada entre os municípios de Lençóis e Palmeiras, que possui 340 metros de altura e é a segunda maior cachoeira do Brasil, também enfrenta problemas com o desequilíbrio das águas na região. Segundo moradores da região, têm aumentado os momentos no ano em que a cachoeira seca. O Poço Azul, outra atração turística, atraente por sua gruta com águas cristalinas que ficam mais azuis com a entrada de feixes de luz do sol, está cercado de plantações irrigadas e que utilizam agrotóxicos.
Poço Azul – atração turística que também está ameaçada pelo uso de agrotóxicos e retirada indiscriminada de água em seus arredores.
De acordo com Rogério Mucugê, da Conservação Internacional e coordenador do projeto “Semeando Águas no Paraguaçu”, todos esses fatores já citados, como poluição, retirada indiscriminada de água, ausência do Estado e de políticas públicas que garantam a conservação do ecossistema local, são agravados ainda pelas constantes queimadas. “A maioria dessas queimadas são criminosas”, afirmou ele. Além disso, espaços de reivindicação da sociedade civil para a resolução de problemas como esses, estão dominados pelos representantes de grandes empreendimentos rurais. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraguaçu é um deles. Apesar da ideia de composição diversificada e democrática dos Comitês, a população em geral e as entidades de preservação ambiental são sempre voto vencido nas decisões sobre a Bacia.
Como disse o senhor Ramiro de Souza, do Assentamento São Sebastião, “dizem na televisão que o agro é tudo, mas não é, a água é tudo. Ninguém vive sem água”. Comungando dessa ideia e preocupada com a situação na região, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Ruy Barbosa (BA) dará início a uma campanha de conscientização sobre a necessidade de ações imediatas de preservação das águas da Chapada Diamantina. Articulada com as comunidades locais e organizações de defesa do meio ambiente, ela espera visibilizar a situação crítica das águas da Chapada e, assim, mobilizar a sociedade para salvar esse patrimônio natural, bem como o mais fundamental de nossos recursos naturais, a água. (ecodebate)
 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Privatização da água na Encíclica Laudato Sí

A questão da privatização da água na Encíclica Laudato Sí
Muitos de nós raramente paramos para pensar, quando estamos bebendo um copo com água, que este líquido é essencial para nos manter vivos. Humanos podem morrer após três dias sem ingerir líquidos. A água é tão central para manter a vida no planeta que ela vem sendo a causa de guerras por milhares de anos entre sociedades que muito cedo aprenderam que a sua posse resulta em poder.
Sede não tem um competidor a altura. Bastariam estes motivos para impedir que ela seja controlada por grupos econômicos.
Não é sem motivo que a palavra água foi citada quarenta e sete vezes pelo Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si´(*). Isso mostra a preocupação do Papa e a importância dada por ele a água como elemento sagrado e essencial para manter a vida. Nesta que é a sua mais famosa encíclica, ele afirma que “Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de vários produtos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de sofrer uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas, se não forem tomadas medidas urgentes. Os impactos ambientais poderiam afetar milhares de milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século.” Sem dúvida, a escalada inflacionária de alguns alimentos tem, muitas vezes, a falta de acesso a água como causa e, em alguns casos, o agronegócio aproveita-se da situação para lucrar ainda mais, mesmo sendo ele o setor produtivo que gasta 70% da água doce no planeta. O Brasil conhece bem esta situação.
Ao comentar sobre a poluição das águas no planeta, o Papa Francisco afirma que “Em muitos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados pela poluição produzida por algumas atividades extrativas, agrícolas e industriais, sobretudo em países desprovidos de regulamentação e controles suficientes. Não pensamos apenas nas descargas provenientes das fábricas; os detergentes e produtos químicos que a população utiliza em muitas partes do mundo continuam a ser derramados em rios, lagos e mares.” Não há quem duvide que esta poluição é a causa de muitas enfermidades no planeta. Se a poluição e a falta de saneamento básico ceifa milhões de vidas todos os anos vítimas de doenças que poderiam ser evitadas, especialmente de crianças, as soluções apontadas pelo pensamento Neoliberal, inclusive no Brasil, é a privatização do saneamento básico, como alerta o documento papal ao ressaltar que, “Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado.” Ressaltemos que muitas distribuidoras de água estaduais do nosso país estão em processo de estudo para a sua privatização, ou concessão para a iniciativa privada como o governo eufemisticamente a chama, neste momento. É a confirmação da tendência que Laudato Si´ nos alerta.
Em um mundo onde mais de 50% das pessoas vivem em grandes cidades, o resultado é que muitos dos seres humanos estão perdendo o contato com os ciclos da natureza ou tem uma relação de distância com o que podemos chamar de velocidade natural da Terra. Este fato afeta profundamente a percepção de como se deve lidar com a água no cotidiano. Reflitamos sobre o seguinte exemplo: uma família está visitando a cidade de do Rio de Janeiro em um daqueles verões escaldantes e decide parar em um restaurante para o almoço. O garçom vem com o cardápio e pergunta se querem uma bebida. Depois de andar sob o sol do verão carioca por horas, a única coisa que os integrantes desta família desejam é beber um pouco de água gelada que logo será trazida engarrafada e servida pelo garçom para todos os que estão sentados à mesa. Quando ao final da refeição a conta chega, a família será cobrada pela água que, a depender do restaurante, muitas vezes é mais cara do que gasolina na mesma quantidade. Isso não aconteceria em países como os Estados Unidos, já que é uma tradição nos restaurantes de lá ter água servida de forma gratuita. Na cidade de Nova York, por exemplo, você pode até mesmo tomar água vinda da torneira, pois aquela cidade é famosa por pagar aos proprietários das terras de onde vem as águas para abastecer as casas de seus residentes para que eles preservem os rios e assim a cidade não precise utilizar agentes químicos para trata-la.
No Brasil, seja porque a água não é tratada adequadamente para o consumo humano ou porque os restaurantes lucrarão mais vendendo água engarrafada para os seus clientes, esta família deve estar preparada para gastar entre 10 e 20 Reais pelo dia de passeio apenas com a compra de água para se manter hidratada. Isso sem contar com a incerteza se a água comprada é mesmo tratado ou não. A outra opção seria levar a própria água de sua casa, um hábito que deve começar a aumentar cada vez mais entre os brasileiros.
O preço da água tem aumentado em várias partes do mundo depois de sua privatização. A história da relação entre a iniciativa privada e a água não é nova. Em décadas recentes a sua privatização tem sido causa de conflito em países como a França, os Estados Unidos, Brasil, Honduras, Argentina, Israel, Palestina, Turquia, Sudão, Sudão do Sul, Egito e muitos outros. Um dos conflitos mais conhecidos aconteceu na Bolívia no ano 2000 quando dezenas de pessoas morreram em um protesto contra a privatização da água na cidade de Cochabamba, no que ficou conhecido como A Guerra da Água. Neste momento, a cidade de Buenaventura, na Colômbia, passa por grandes protestos e novamente a questão da água é uma das razões. Como chegamos a este ponto? Como permitimos que multinacionais tomassem um dos elementos essenciais para manter a vida no nosso planeta sob seu poder? Uma das respostas pode ser encontrada nos documentos do Banco Mundial. Esta organização internacional tem feito lobby para modificar leis relacionadas com a posse da água e para que ela seja classificada como passível de valor econômico, isto é, uma mercadoria, o que facilita a sua comercialização. O fato é que algumas multinacionais veem a água como o novo ouro, ou ouro azul como é agora chamada e a perspectiva de lucro é imensurável para elas.Comunidades ao redor do mundo estão se organizando para resistir a privatização da água.
Bolívia tomou de volta a concessão que deu para a multinacional americana que administrava a água em Cochabamba. Nos Estados Unidos há ONGs nos estados de Michigan, Califórnia e Oregon que estão em batalha contra políticos que apoiam privatização da água e contra multinacionais como a Nestlé, famosa pelo comércio de água mineral. Na França, a cidade de Paris está retomando a administração da distribuição da água após protestos contra os altos preços e denúncias de corrupção no sistema. Em Minas Gerais, comunidades se organizam contra a escalada privatista de suas fontes de águas minerais. No Rio de Janeiro, a privatização da CEDAE levou milhares para as ruas este ano. Na Paraíba, a pressão dos movimentos organizados fez com que o governador desistisse de privatizar a CAGEPA.
Laudato Si´ nos convoca a proteger a sacralidade da água, tão sagrada que simboliza o sacramento do batismo para católicos e vários outros credos. Esta encíclica nos chama a tomar uma atitude para que a água se torne um direito para todos os seres do planeta. Nós devemos lutar para que água não se torne causa de sofrimento para os mais marginalizados de nossa sociedade e que a situação não piore ainda mais caso a água se torne apenas um produto de mercado como outro qualquer. Não é à toa a advertência que Francisco nos faz ao lembrar que “Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável.” Sem o direito a água, todos os outros direitos sequer podem ser reivindicados. (ecodebate)

Contaminação, escassez d'água e terremotos minam ‘credibilidade’ do fracking

Contaminação, escassez da água e terremotos minam ‘credibilidade’ do fraturamento hidráulico (fracking)
Novo estudo qualitativo mostra que as pessoas estão preocupadas com os impactos ambientais e sociais e tendem a apoiar investimentos em energias renováveis.
Berço do fraturamento hidráulico, ou fracking, os Estados Unidos vivem o que parecer ser o ocaso da tecnologia usada há décadas para extrair o petróleo e gás de xisto do subsolo. São incontáveis os sinais de que a fatura da produção de ‘energia barata’ que libertou os americanos da dependência do petróleo do Oriente Médio começa a ser cobrada. A primeira delas é a perda do apoio da população e a desconfiança nas instituições que sempre defenderam a tecnologia e omitiram seus riscos e perigos.
Este é o cenário de destruição no campo de petróleo da Chevorn em Sierra Nevada, na Califórnia.
Basta dar um Google para constatar, quase que diariamente, o surgimento de novos estudos e pesquisas e notícias que comprovam o que desde o princípio já se sabia: O alto custo ambiental e social da utilização dessa tecnologia definitivamente não compensa seus riscos e impactos. Atualmente, o fracking já está relacionado à contaminação de reservas subterrâneas e de superfície de água, à ocorrência de terremotos, à fragmentação dos ecossistemas, ao agravamento da saúde das pessoas e animais e, para piorar, ao agravamento do aquecimento global pela emissão sistemática do metano e outros gases de efeito estufa.
Num recente estudo de pesquisadores da UC Santa Barbara foram incluídas questões-chave como o risco de contaminação da água, bem como preferências para as fontes de energia renováveis sobre os combustíveis fósseis para atender às necessidades energéticas nacionais. A pesquisa contou com a participação do Reino Unido, onde o fracking é tido pelo governo como uma ‘solução’ para alcançar a eficiência energética, o que é contestado pela maior parte da população.
Com base em mais de uma década de pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Nanotecnologia na Sociedade da UCSB (CNS) e pela Universidade de Cardiff no País de Gales, o estudo demonstrou como os métodos deliberativos de engajamento público podem ser aplicados a esses objetivos. Este é o primeiro estudo qualitativo, interdisciplinar, transnacional de percepções públicas dos EUA e da U.K sobre a extração de xisto. Os resultados foram publicados na Revista Nature Energy.
“Este estudo encontrou surpreendentemente altos níveis de preocupação ambiental e social sobre fraturamento hidráulico em áreas sem experiência direta com a tecnologia”, disse a co-autora Barbara Harthorn, diretora do CNS e professora do Departamento de Antropologia da UCSB. “Esse método fornece fortes evidências de que diversos membros do público são capazes de pesar de forma crítica e refletir sobre as decisões locais e coletivas do sistema de energia e seus impactos”.
Metodologia
Os pesquisadores dos EUA e Reino Unido realizaram uma série de oficinas de deliberações cuidadosamente planejadas, com vários membros do público em quatro cidades: Los Angeles, Santa Barbara, Londres e Cardiff. Essas discussões aprofundadas permitiram aos pesquisadores olhar além das evidências existentes sobre opiniões públicas a respeito do fraturamento hidráulico baseadas principalmente em áreas já impactadas.
Os resultados mostraram que o desenvolvimento de xisto foi amplamente visto como uma correção de curto prazo, levando a uma dependência indesejada de combustíveis fósseis finitos em detrimento do desenvolvimento de energias renováveis. Os participantes em ambos os países observaram que a maioria dos benefícios propostos seria relativamente de curto prazo (empregos especializados de duração limitada), ao passo que os riscos seriam quase certamente de longo prazo (degradação ambiental).
Os impactos da exploração do petróleo e gás de xisto por fracking são irreversíveis.
O estudo concluiu que os entrevistados consideravam os impactos potenciais distribuídos de forma desigual, argumentando que os benefícios econômicos e de emprego atribuídos ao desenvolvimento do xisto não eram exclusivos e se aplicariam igualmente a investimentos significativos e a ampliação de tecnologias renováveis.
Ou seja, os participantes do estudo questionaram por que investir numa tecnologia altamente poluente, que pode causar danos permanentes e irreversíveis, ao invés de priorizar o desenvolvimento de uma matriz a partir de energias renováveis? Todos os olhares recaem sobre os gestores públicos.
Diferentes preocupações nos dois países refletiram diferentes modelos de governança das indústrias extrativas. Nos EUA, alguns participantes queriam mais diretrizes federais padronizadas e responsabilidade de longo prazo. Por outro lado, no Reino Unido, onde a regulamentação é predominantemente a nível nacional, houve pedidos de maior controle local. Independentemente da localização, os participantes expressaram profunda desconfiança do governo e das instituições.
Risco iminente
“Na Califórnia, experiências passadas e atuais com a indústria petrolífera regional minimizaram a preocupação com alguns sobre o futuro desenvolvimento do xisto”, disse o coautor Tristan Partridge, um pós-doutorado do CNS e do Departamento de Antropologia da UCSB. “No entanto, para outros, as experiências pessoais de escassez de água e terremotos amplificaram esse senso de risco”.
Na Inglaterra, onde a extração de petróleo e gás em terra é menos comum, os participantes se basearam em experiências tangenciais do carvão e das indústrias pesadas ao fazer sentido do que o desenvolvimento de xisto pode significar para eles no futuro.
“Isto – e outras pesquisas que temos realizado – mostra que o público em ambos os países claramente quer um movimento em direção a um sistema de energia mais limpo e mais sustentável no futuro”, disse o autor correspondente Nick Pidgeon, professor de psicologia ambiental na Universidade de Cardiff. “Os resultados confirmam que o desenvolvimento do xisto não é compatível com essa visão”.
O financiamento principal desta investigação foi fornecido pela National Science Foundation com apoio suplementar do programa de investigação e inovação Horizon 2020 da União Europeia.
Brasil contra o fracking
“Muito interessante essa percepção, pois no Brasil vivenciamos exatamente essa desconfiança da população em relação ao fracking, seja pelos impactos ambientais, econômicos e sociais omitidos por governantes e empresas, seja pela certeza de que essa indústria fóssil irá reproduzir aqui a mesma dinâmica perversa e devastadora de outros países”, diz Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da 350.org Brasil e América Latina e coordenadora nacional da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.
Campanha Não Fracking Brasil avança em todo o Brasil com centenas de cidades provando legislação proibindo operações para exploração do gás de xisto.
Desde 2013, a COESUS, 350.org Brasil e centenas de parceiros desenvolvem a campanha Não Fracking Brasil com o objetivo de impedir que o fraturamento hidráulico chegue ao país. Aproximadamente 300 cidades já aprovaram leis municipais para banir operações de fraturamento hidráulico para exploração de gás de xisto. O Estado do Paraná aprovou em dezembro da Lei 18.947/2016 que suspende por 10 anos o licenciamento para essa exploração, inclusive com a proibição dos testes sísmicos nesse período.
“As justificativas são os riscos que a tecnologia traz para a agricultura, para a saúde e para as reservas de água, a falta de transparência dos governantes e o simples fato de que a indústria do fracking mente sobre os impactos, especialmente para o clima, e está intimamente ligada aos casos de corrupção”, completa Nicole.
Para a diretora da 350.org Brasil e América Latina, “vivemos a insegurança das mudanças climáticas que já fazem milhões de vítimas no mundo e nos colocam como imperativo o desinvestimento em novos projetos fósseis e o cancelamento dos atuais.
A única alternativa para garantirmos as condições necessárias para a existência humana e de todas as formas de vida neste planeta é investirmos em energias renováveis”.
O objetivo é alertar as pessoas e os líderes mundiais sobre os efeitos destruidores das mudanças climáticas e a urgência do rompimento com a indústria dos combustíveis fósseis. (ecodebate)