segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O mundo vai descartar 70% mais lixo e resíduo até 2050

A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista.
A insana e insone máquina de acumulação de riqueza e capital, que funciona na base do modelo “Extrai-Produz-Descarta”, deve aumentar o volume global de descarte de lixo e de resíduos sólidos em cerca de 70% até 2050, quando se alcançará 3,4 bilhões de toneladas, frente a 2,01 bilhões de 2016, segundo o Banco Mundial.
Evidentemente, a vertiginosa proliferação de lixo e resíduos no mundo é uma ameaça adicional para a saúde da população humana, da população não humana e do meio ambiente, além de agravar as mudanças climáticas, segundo o relatório “What A Waste 2.0: A Global Snapshot on Solid Waste Management to 2050”.
Os países desenvolvidos (economias avançadas) que representem somente 16% da população mundial, descartam mais de um terço (34%) dos resíduos do planeta, mas o leste asiático (com grande presença da China) e a região do Pacífico não estão muito distantes e são responsáveis por quase um quarto (23%) do total de resíduos.
As demais regiões do mundo respondem por mais de 40% dos resíduos e aumentam o descarte a um ritmo mais elevado do que os países ricos. Por exemplo, para 2050, estima-se que a África subsaariana triplicará o nível de seus dejetos e o sudeste asiático o duplicará.
O Banco Mundial está preocupado com a má gestão do plástico, que é particularmente perigoso pois pode afetar os ecossistemas durante centenas ou até milhares de anos. Em 2016, o mundo gerou 242 milhões de toneladas de dejetos de plástico, 12% do total de dejetos sólidos. Enquanto os países ricos reciclam cerca de um terço de seus dejetos, somente 4% é reciclado nos países pobres.
Segundo a Fundação Ellen MacArthur (em parceria com a consultoria McKinsey) a proporção entre as toneladas de plástico e as de peixe era de um para cinco. Caso não ocorram mudanças na maneira de descarte do lixo, em 2025, a proporção será de um para três. E o mais drástico, em 2050, a quantidade de lixo plástico nos oceanos deverá superar a de peixes.
Uma pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido, publicada na Biology Letters, mostrou que os microplásticos – fragmentos de polímeros inferiores a 5 mm – já não são mais um problema apenas para as criaturas que vivem nos oceanos atulhados por mais de 8 milhões de toneladas de plásticos por ano. Agora eles estão invadindo as cadeias alimentares de outros animais terrestres e povoando áreas de terra firme anteriormente consideradas intocadas. Animais como os mosquitos ou as libélulas podem ingerir os microplásticos e transportá-los. Depois, uma vez que os insetos forem comidos por outros animais, os microplásticos entram totalmente na cadeia alimentar de outras espécies, “democratizando” o consumo de resíduos plásticos entre os seres vivos da Terra.
Desta forma, considerando o quadro mais amplo: é impossível manter o modelo “Extrai-Produz-Descarta” sem correr o risco de um colapso ambiental. Porém, existem pensadores utópicos ou cornucopianos que consideram ser possível manter o modelo de crescimento do consumo, mas desmaterializando os bens físicos, quer seja pelo crescimento da sociedade da informação e do conhecimento ou pelo desacoplamento (decoupling) entre bens de consumo e recursos naturais.
A ideia do desacoplamento é tema central do Painel Internacional de Recursos da ONU (UNEP, 2015), que sonha em dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais. Todavia a realidade tem mostrado que a degradação do patrimônio natural continua concomitantemente ao crescimento da poluição em todas as suas formas. O próprio Painel de Recursos da ONU reconhece que o uso global per capita de materiais (biomassa, combustíveis fosseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, em 2000 e chegou a dez toneladas, em 2010. Houve, portanto aumento absoluto no uso e abuso dos materiais arrancados das entranhas da Terra.
Mas também houve crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000 para 1,4 kg, em 2010. Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e o montante de luxo e lixo é muito alto. Vale a pena ler os textos de Vaclav Smil sobre as ilusões do desacoplamento.
Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97% (Ron Patterson, apud Alves 2014). Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. O domínio do egoísmo humano sobre o Planeta (Antropoceno) está provocando a sexta extinção em massa das espécies e acelerando a degradação dos ecossistemas.
Portanto, tem sido uma ilusão conciliar os imperativos gêmeos da sustentabilidade e do desenvolvimento. A ideia do “desenvolvimento sustentável” tem sido apenas um bordão cada vez mais difícil de ser vendido aos cidadãos (transformados em consumidores) do mundo. O desenvolvimento sustentável virou uma contradição em termos e o tripé da sustentabilidade virou um trilema.
A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista. Mas o CONSUMICÍDIO pode destruir todo o processo civilizatório que ocorre deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus.
Aterro sanitário
Ou se muda o estilo de vida da população mundial ou haverá um grande desastre ambiental e a vida na Terra será afetada pela montanha de lixo e resíduo sólido que cresce em ritmo acelerado como mostrou o próprio Banco Mundial. (ecodebate)

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