Instituições financeiras da Holanda, Alemanha e
Noruega têm grandes investimentos em companhias que atuam em setores que estão
ligados a ações de desmatamento dos principais biomas brasileiros.
Idec
A
compilação de três estudos realizados pela rede Fair Finance International
(FFI) divulgada em 15/10/2020 revelou que instituições financeiras da Holanda,
Alemanha e Noruega investiram mais de US$ 11 bilhões (R$ 59,3 bilhões em
valores correntes) em 26 empresas líderes do agronegócio e varejo brasileiro,
selecionadas entre companhias que atuam com alto risco de envolvimento com
desmatamento no Cerrado e a na Amazônia, nos setores de carne e soja.
No
Brasil, a rede FFI é representada pelo Guia dos Bancos Responsáveis (GBR),
coalizão de organizações da sociedade civil liderada pelo Instituto Brasileiro
de Defesa do Consumidor (Idec), que avalia o comprometimento dos bancos
brasileiros com pautas ambientais, sociais e de governança.
Segundo
o levantamento feito nos três países foram identificados investimentos de 31
instituições financeiras, dentre seguradoras, bancos, gestoras de recursos
(asset managers) e fundos de pensão que fizeram investimentos ou empréstimos
totalizando de quase R$ 60 bilhões. Se contabilizadas empresas chinesas e
europeias que não necessariamente operam no Brasil, mas que consomem os
produtos do agronegócio brasileiro (principalmente soja e ração), aumenta-se o
número de empresas para 59 e o valor investido ou emprestado passa para quase
US$ 21 bilhões (R$ 110,5 bilhões).
“A ineficácia dos atores envolvidos de cessar com o desmatamento e violações de direitos humanos que vêm junto coloca o agronegócio brasileiro na mira desses grandes bancos. Se medidas urgentes não forem tomadas, há um risco de fuga de capitais ou de redução de investimentos”, ressalta Gustavo Machado de Melo, analista de serviços financeiros do Idec. Apesar da crescente ameaça de desinvestimento que as instituições financeiras têm feito, os estudos identificam muito a se fazer. “É preciso melhorar as políticas, com metas mais claras, e no monitoramento e engajamento de clientes, com resultados concretos.”, pontua Machado.
O estudo com maior representatividade para o mercado brasileiro é o holandês. Ele identificou quase US$ 3,2 bilhões de investimentos em ações e títulos de empresas que atuam nesses setores. Praticamente metade desse valor foi para as 26 empresas líderes do agronegócio brasileiro, um montante de US$ 1,4 bilhões. Além do valor em investimentos, essas empresas atuantes no mercado brasileiro receberam mais US$ 7,8 bilhões em empréstimos que ainda estão vigentes e outros US$ 1,1 bilhão em subscrição de ações entre 2015 e 2020. Contabilizando investimentos, subscrições e empréstimos, 19 instituições financeiras atuantes na Holanda destinaram quase US$ 10,4 bilhões às empresas que lideram o agronegócio e a distribuição de seus subprodutos no Brasil.
No
caso da Alemanha, o valor encontrado é menor, mas não menos relevante: US$
764,1 milhões destinados às empresas que operam no agronegócio e varejo
brasileiros, além de outros quase US$ 2 bilhões que foram para aquelas que
beneficiam carne e soja brasileira na China e na Europa. Já na Noruega, o
levantamento encontrou US$ 292 milhões investidos em empresas operando no
Brasil, além de outros US$ 419 milhões para as chinesas e europeias.
Resumo dos valores totais
identificados nos estudos do FFI, em milhões de dólares.
|
País |
Tipo investimento |
Tipo instituição financeira |
Montante destinado às 59 empresas selecionadas
(US$ milhões) |
Montante
destinado às 26 empresas líderes do agronegócio brasileiro (US$ milhões) |
|
Alemanha |
Ações
e Títulos |
Seguradoras
e suas gestoras de recursos |
2.760,9 |
764,1 |
|
Holanda |
Ações,
títulos, subscrições e empréstimos. |
Fundos
de pensão, seguradoras, bancos e gestoras de recursos. |
17.987,6 |
10.394,7 |
|
Noruega |
Ações
e Títulos |
Bancos
e suas gestoras de recursos |
711,1 |
292,2 |
|
Total |
Ações,
títulos, subscrições e empréstimos. |
Fundos
de pensão, seguradoras, bancos, gestoras de recursos. |
20.936,7 |
11.231,0 |
Ainda
que as categorias de instituição financeira pesquisada em cada país seja
diferente os volumes saltam aos olhos. A retirada desses investimentos, ainda
que parcial, teria significativo impacto em empresas nacionais como JBS,
Marfrig, Minerva, Terra Santa e SLC Agrícola. Os valores absolutos dos
investimentos podem ser encontrados aqui.
“Os
estudos realizados pelos países membros do FFI questionam os bancos localmente
e apontam a necessidade de mais engajamento dos bancos europeus, já que
têm investimentos significativos nas cadeias de soja e carne, uma necessidade
também urgente por parte dos bancos brasileiros”, ressalta Machado.
E
as instituições brasileiras?
O
cenário de pouca transparência utilizado pelas instituições financeiras
brasileiras dificulta a identificação e envolvimento delas com empresas direta
ou indiretamente ligadas ao desmatamento. Enquanto a maioria dos 9 maiores
bancos do país em ativos (Banco do Brasil, BNDES, Bradesco, BTG Pactual, Banco
BV, Caixa, Itaú-Unibanco, Banco Safra e Santander Brasil) informa o número de
casos ou clientes que passam por análise socioambiental, nenhum deles informa
com quais empresas mantêm relações comerciais. Apesar dos bancos
brasileiros informarem publicamente a porcentagem de ativos sobre gestão que
passam por essa análise, raramente detalham o resultado dos engajamentos que
fazem a partir dessas análises.
Para os organizadores do GBR no Brasil, que realizaram a compilação dos estudos, seriam necessários sete passos para que instituições financeiras brasileiras conseguissem evoluir em suas medidas para conter investimentos que possam estar ligadas ao desmatamento: 1) Análise, engajamento e prestação de contas; 2) Metas inteligentes; 3) Monitoramento; 4) Transparência; 5) Envolvimento de todas as partes interessadas; 6) Exercício do poder de voto; e 7) Adiantar-se às tendências. Saiba mais sobre esses pontos no GBR.
Campos desmatados.
Bancos
europeus estão por trás do desmatamento da Amazônia.
Bancos e instituições financeiras europeias financiam empresas que promovem o desmatamento da Amazônia. (ecodebate)



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