Regiões mais industrializadas como a Europa ocidental,
o nordeste da América do Norte e alguns estados do Golfo Pérsico estão entre os
maiores emissores de gases de efeito estufa na Terra, mas as áreas do planeta
que sofrerão mais com as consequências climáticas dessas emissões são outras: o
Ártico polar, a Ásia Central e a África, que têm algumas das menores taxas de
poluição no mundo. É o que estima um estudo publicado no periódico científico
Science Advances.
A pesquisa mapeou um vasto conjunto de dados dos
quatro principais gases de efeito estufa emitidos entre 1970 e 2018 pela ação
humana: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido
nitroso (N2O) e carbono negro (constituído por partículas
originárias da combustão incompleta de madeira, biomassa e combustíveis
fósseis).
Em seguida, os locais de origem dessas emissões foram
comparados às projeções de aumento da temperatura global para toda a superfície
do planeta ao longo de 2050–2099, considerando o cenário RCP 8.5 do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas/IPCC – o que equivale à uma
concentração de carbono levaria à um aumento de temperatura de cerca de 4,3˚C
em 2100 em relação às temperaturas pré-industriais.
O cálculo da equipe prevê que as regiões que
registraram as menores taxas de emissão de poluentes – a exemplo de territórios
como Alaska, Tajiquistão, Finlândia, Mali e Níger – serão as mais atingidas
pelo aquecimento global. Por outro lado, “mudanças relativamente pequenas” de
temperatura são estimadas para as áreas que mais emitiram gases de efeito
estufa durante o período, como é o caso da Bélgica, Holanda, Pensilvânia,
Alemanha e Kuwait.
"Um dos truques sujos da mudança climática é que a poluição local tem consequências de longo alcance", explica, em comunicado, Kyle Van Houtan, ex-cientista-chefe do Aquário da Baía de Monterey, que liderou o estudo durante sua gestão. "Quando queimamos combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás localmente, nós os misturamos na ‘latrina experimental’ da atmosfera de nosso planeta. O resultado é que seus impactos de aquecimento são frequentemente exportados para locais distantes", acrescenta o pesquisador.
Acima, o histograma da disparidade global mostra que 99% dos pixels ficam acima de zero ou ocorrem acima da linha diagonal em (A). Valores negativos (ciano) indicam relativamente mais emissões do que mudanças de temperatura, enquanto valores positivos (preto e vermelho) indicam o inverso.
As regiões foram divididas em dois grupos, conforme o
que os cientistas chamaram de índice de disparidade climática global (LCDI): as
que tinham um LCDI positivo (baixas emissões, grandes mudanças de temperatura),
e as de LCDI negativo (altas emissões, pequenas mudanças de temperatura). Numa
escala entre -3 e 6 pontos, a mediana da LCDI do Brasil aparece entre 0 e 2, o
que significa que o país integra o primeiro grupo.
De acordo com o estudo, em todas as projeções de
mudanças climáticas analisadas, 99% da área da superfície terrestre tem um
valor de índice positivo. “Esse resultado ressalta que, embora as emissões
sejam geograficamente concentradas, o aquecimento é globalmente generalizado”,
escreveram os autores no documento.
As disparidades ilustradas em um mapa global também
foram encontradas a nível local de cada país. Nos Estados Unidos, por exemplo,
a maioria dos gases de efeito estufa têm origem na região mais industrializada
e povoada, que corresponde à porção nordeste do território – incluindo estados
como New Jersey, Connecticut e Pensilvânia –, mas os cientistas estimam que os
efeitos do aquecimento global deverão recair com mais força na região oeste,
sobretudo nos estados do Alasca, Dakota do Sul, Idaho e Montana, que são
escassamente povoados.
Embora algumas áreas que provavelmente sofrerão mais
com as mudanças climáticas tenham populações pequenas, o estudo reitera que
muitas delas abrigam comunidades indígenas e são “ecologicamente únicas” devido
à presença de oceanos e de sua criosfera, que desempenham um papel vital na
regulação do clima global.
Segundo a pesquisa, as temperaturas da superfície da
terra estão subindo mais rapidamente do que as dos corpos de água: mais de 95%
das emissões de gases de efeito estufa calculadas tiveram origem na terra.
"Nossas descobertas oferecem uma representação nítida do que o oceano faz por nós", avalia Houtan. "Cobrindo 72% do nosso planeta, o oceano global serve como o coração do nosso sistema climático, regulando os padrões climáticos e transferindo calor e água ao redor do planeta. Mas não podemos dar o oceano como garantido. Precisamos proteger a saúde dos oceanos para que eles continuem a desempenhar esse papel vital para todas as pessoas na Terra”, alerta o cientista.
Visualização do EarthTime mostra como o clima pode aumentar no mundo até 2100.
Os autores do estudo também consideram que as
projeções de aquecimento reforçam a necessidade urgente de uma ação coletiva
global para evitar o aumento de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais até o
final do século, como estipula o Acordo de Paris. (revistagalileu.globo)



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