Apesar das aparências, a água
é um recurso finito. Em termos simplificados e para compreensão do conceito,
podemos afirmar que o volume total de água é essencialmente o mesmo há milhões
de anos, na medida em que praticamente não existe “produção” de novas moléculas
de água, sendo que a disponibilidade de água doce variou ao longo dos períodos
glaciais ou interglaciais.
A água, portanto, não muda em
termos de volume total, mas pode variar em seu estado físico (sólido, gasoso e
líquido), distribuição geográfica e disponibilidade.
O uso, no entanto, vem
crescendo de acordo com o aumento da população. Há quem afirme que atualmente
exploramos a água em níveis 30% superiores à reposição, através do ciclo
hidrológico [processo de circulação das águas composto por: evaporação,
precipitação, transporte, escoamento superficial, infiltração, retenção e
percolação] e para atender aos 12 bilhões de 2050 necessitaremos de 20% acima
dos níveis atuais.
Evidente que quanto maior a
população maior a demanda por água, que já se encontra em situação crítica na
maior parte do planeta.
Na última década, pelo menos,
cientistas, pesquisadores e ambientalistas insistentemente alertam para riscos
de grave crise hídrica.
Alertaram para a necessidade
de revitalizar bacias hidrográficas, recuperar mananciais, ampliar ao máximo os
sistemas de captação e tratamento de esgoto, conservar e proteger as áreas de
recarga dos aquíferos. Isto sem falar, da redução do desperdício dos sistemas
de distribuição, do uso perdulário da água pela agricultura e do desperdício
pelos consumidores.
Além disto, cientistas,
pesquisadores e ambientalistas também alertavam que o desmatamento da floresta
amazônica ameaçava os ‘rios voadores’, de fundamental importância para o clima
e as chuvas na região sudeste.
Alertaram em vão e foram
rotulados de catastrofistas e apocalípticos, para dizer o mínimo. Os
desenvolvimentistas a qualquer custo e os paladinos do agronegócio, em
especial, sempre desqualificaram os alertas, por maior embasamento científico
que tivessem.
Sei disto muito bem porque perdi a conta de quantas vezes enfrentei esta desqualificação.
Pois bem, exatamente como nos alertas, a crise hídrica chegou.
Estamos diante de uma grave
crise hídrica que caminha rapidamente para níveis desastrosos. No Brasil, por
exemplo, sempre tivemos a fantasia que nossos imensos recursos hídricos eram
inesgotáveis, que podíamos superexplorar ao infinito. Mas hoje, mesmo no
Brasil, sobram provas de que a água se torna um recurso cada vez mais escasso.
Isto ocorre porque a
exploração é maior do que a capacidade de recarga oferecida pela natureza,
causando esgotamento de bacias e mananciais, bem como o lento esvaziamento dos
reservatórios. Processo de esvaziamento dos reservatórios é chamado de depleção
[resultado da retirada de água de um reservatório superficial ou subterrâneo em
ritmo mais rápido do que sua recarga / enchimento].
Além da crescente demanda, as
atividades antropogênicas [atividades de origens humanas] interferem na
qualidade e disponibilidade da água, principalmente, em razão de sua
contaminação por poluentes, tais como, metais pesados, produtos químicos,
agrotóxicos, esgotos, medicamentos e hormônios, etc.
No Brasil, nossas bacias
hidrográficas [conjunto de terras drenadas por um rio principal e seus
afluentes. A noção de bacia hidrográfica inclui naturalmente a existência de
cabeceiras ou nascentes, divisores d’ água, cursos d’água principais, afluentes,
subafluentes, etc. Em todas as bacias hidrográficas deve existir uma
hierarquização na rede hídrica e a água se escoa normalmente dos pontos mais
altos para os mais baixos. O conceito de bacia hidrográfica deve incluir também
noção de dinamismo, por causa das modificações que ocorrem nas linhas
divisórias d’água sob o efeito dos agentes erosivos, alargando ou diminuindo a
área da bacia – fonte CETESB] não apenas estão sendo esgotadas pela
superexploração como também são contaminadas pelos efluentes líquidos
industriais e pelo esgoto em natura, tornando o processo de tratamento cada vez
mais difícil e caro. São Paulo e Rio de Janeiro já são abastecidos por sistemas
de transposição de bacias [transferência de águas entre bacias] e tendem a
buscar água em bacias cada vez mais distantes.
Em escala global, os recursos hídricos, são tratados como recursos locais, ou seja, cada país desenvolve sua própria política de uso, conservação e proteção. O Brasil, por exemplo, vem investindo no aumento da captação e tratamento dos efluentes líquidos industriais e esgoto. Segundo dados de 2020 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 63,2% da população eram atendidos com coleta de esgoto, enquanto 50,8% possuía tratamento de esgoto. Avançamos, mais ainda estamos longe do necessário.
O retrato do Saneamento Básico no Brasil – 175,5 milhões de brasileiros têm acesso à água tratada, enquanto outros 114,6 milhões contam com coleta e tratamento de esgoto em suas residências. Além disso, 190,9 milhões de pessoas contam com coleta e manejo de resíduos sólidos urbanos.
|
|
Abastecimento d’água |
Esgotamento sanitário |
Manejo resíduo sólido |
Drenagem/manejo águas pluviais |
|
|
% Pop. total |
% Pop. total |
% Pop. total |
% domicílios situação de risco de inundação |
|
Brasil |
84,1 |
55,0 |
90,5 |
3,9% |
|
Norte |
58,9 |
13,1 |
80,7 |
4,0% |
|
Nordeste |
74,9 |
30,3 |
83,1 |
3,1% |
|
Sudeste |
91,3 |
80,5 |
96,1 |
4,1% |
|
Sul |
91,0 |
47,4 |
91,5 |
4,1% |
|
Centro-Oeste |
90,9 |
59,5 |
91,3 |
4,1% |
Água é essencial à vida e, por isto, é necessário e cada vez mais urgente desenvolver ações locais e globais, baseadas em conservação e tecnologia, que garantam a disponibilidade necessária, reduzindo a contaminação e o desperdício de recursos hídricos.
É uma responsabilidade de
governos, é claro, mas também depende de nossa participação como consumidores e
cidadãos. (ecodebate)



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