sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Derretimento da criosfera acelera e ameaça ecossistemas globais

Ações urgentes e risco de irreversibilidade

Em suma, as mudanças na criosfera têm um impacto profundo e complexo nos ecossistemas globais. Cientistas envolvidos nos estudos alertam que a continuidade das atuais taxas de emissão coloca o planeta em risco de ultrapassar pontos de não retorno.
Gelo polar e geleiras perdem massa em todas as regiões; cientistas alertam que aquecimento de +1,5°C é excessivo e exigem ações climáticas imediatas.

O derretimento acelerado da criosfera — que engloba lençóis de gelo, geleiras e o descongelamento do permafrost — está gerando impactos rápidos, irreversíveis e desastrosos em todo o mundo.

A criosfera é, inclusive, considerada o “canário na mina de carvão” do sistema climático, indicando mudanças significativas que afetam os ecossistemas globais.

Relatórios científicos recentes, como o “Arctic Report Card” da NOAA e o “State of the Cryosphere 2024”, confirmam que o fenômeno se generalizou, com todas as regiões glaciais do planeta registrando redução de massa. Dados alarmantes mostram que o ritmo de derretimento das geleiras dobrou nas últimas duas décadas, contribuindo maciçamente para a elevação dos oceanos.

O aquecimento global, impulsionado pela emissão de gases de efeito estufa, é o principal responsável por essa aceleração.

Os impactos das alterações climáticas na criosfera têm vindo a acelerar

Ameaça irreversível ao nível do mar

A perda de massa das vastas camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida quadruplicou desde a década de 1990, tornando-se o motor principal do aumento do nível médio global do mar. A contribuição dessas calotas polares já supera a das geleiras de montanha.

O aumento do nível do mar é uma das consequências mais significativas, impactando dramaticamente as zonas costeiras. A manutenção do ritmo atual de aquecimento pode comprometer severamente ecossistemas costeiros, infraestruturas urbanas e a segurança de milhões de pessoas em todo o mundo.

Cientistas alertam que a meta internacional de limitar o aquecimento a +1,5 °C acima dos níveis pré-industriais é insuficiente e excessiva. O estudo aponta que, mesmo o aquecimento atual, em torno de +1,2 °C, já configura um risco extremo e tem potencial para desencadear um aumento de vários metros no nível do mar ao longo do tempo. Para mitigar esses impactos, sugere-se que a temperatura média global seja estabilizada em um patamar mais próximo de +1 °C.

Além disso, o derretimento dessas vastas camadas de gelo pode estar desacelerando correntes oceânicas importantes nos dois polos. Essa desaceleração tem consequências potencialmente graves, incluindo um norte da Europa mais frio e um aumento do nível do mar ao longo da costa leste dos EUA. O derretimento acelerado no Ártico, por exemplo, tem o potencial de desencadear o colapso da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), crucial para a distribuição de calor no planeta.

Fim das geleiras

O Ártico em “novo regime” e o risco do permafrost

O Ártico é uma região particularmente sensível, aquecendo três vezes mais rápido do que a média global. Relatórios indicam que a região está entrando em um “novo regime”, com alterações dramáticas em comparação com décadas anteriores. As temperaturas anuais do ar na superfície do Ártico (entre outubro de 2023 e setembro de 2024) foram as segundas mais altas desde 1900.

As previsões são sombrias: modelos climáticos sugerem que o Ártico pode experimentar seu primeiro verão sem gelo marinho já em 2027. A perda de gelo nessa região ameaça ecossistemas e espécies, como os ursos polares, cuja população pode ter um terço extinto nos próximos 50 anos devido à redução do território de caça e reprodução.

Outra preocupação urgente é o permafrost. O permafrost, encontrado em regiões como a tundra ártica, armazena cerca de duas vezes mais carbono do que a atmosfera hoje. O seu aquecimento está levando à liberação desse carbono, agravando as mudanças climáticas. O permafrost das montanhas, que representa 30% da área global, também é extremamente sensível, com taxas de aquecimento a 10 metros de profundidade excedendo 1°C por década em várias montanhas europeias entre 2013 e 2022.

O recorde de degelo da Antártida pode ser o fim das praias do Rio de Janeiro/RJ.

Crise de recursos hídricos

O derretimento acelerado também tem um impacto direto nos recursos hídricos globais. Cerca de 70% da água doce da Terra está armazenada em geleiras e lençóis de gelo. A perda de massa das geleiras atingiu um aumento alarmante, com uma perda coletiva de mais de 600 gigatoneladas de água em 2023, o que equivale a cerca de 13% do consumo anual de água do mundo.

A redução a longo prazo da água armazenada como gelo afetará criticamente os futuros recursos hídricos para ecossistemas e comunidades, especialmente aquelas que dependem do degelo sazonal, como em partes da Ásia e da América do Sul. A urgência dessa situação levou à declaração de 2025 como o Ano Internacional da Preservação das Geleiras.

Ações urgentes e risco de irreversibilidade

Em suma, as mudanças na criosfera têm um impacto profundo e complexo nos ecossistemas globais.

Cientistas envolvidos nos estudos alertam que a continuidade das atuais taxas de emissão coloca o planeta em risco de ultrapassar pontos de não retorno. Se o aumento da temperatura global ultrapassar os 2°C a longo prazo, as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica podem atingir pontos de inflexão, levando a um derretimento irreversível.

Tais conclusões destacam a urgência de reduzir drasticamente as emissões de combustíveis fósseis e adaptar as comunidades a estas novas realidades. A transição para fontes de energia renovável e a implementação de políticas ambientais rigorosas são essenciais. Além disso, os relatórios apontam a importância do conhecimento indígena na adaptação às mudanças climáticas no Ártico.

A janela para evitar danos irreversíveis está se fechando rapidamente, e o futuro depende de uma resposta rápida e decisiva às evidências científicas.
Derretimento precoce do Ártico ameaça os ecossistemas, que podem entrar em colapso

O derretimento dos polos vai alterar a circulação do oceano, ameaçando a biodiversidade e afetando cadeias alimentares e ecossistemas inteiros. (ecodebate)

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