sábado, 29 de novembro de 2025

Emissões de CO2 de combustíveis fósseis atingem nível recorde em 2025

 Apesar dos avanços em energias renováveis e descarbonização em vários países, as emissões globais de CO2 de origem fóssil deverão registrar um aumento de 1,1% em 2025, alcançando um volume recorde de 38,1 bilhões de toneladas.

As emissões globais de carbono dos combustíveis fósseis devem aumentar 1,1% em 2025, atingindo um recorde, de acordo com uma nova pesquisa do Global Carbon Project.

A concentração de CO2 na atmosfera deve atingir 425,7 ppm em 2025, 52% acima dos níveis pré-industriais

O Orçamento Global de Carbono de 2025 projeta 38,1 bilhões de toneladas de emissões fósseis de dióxido de carbono (CO2) este ano.

A descarbonização dos sistemas energéticos avança em muitos países, mas isso não é suficiente para compensar o crescimento da procura global de energia.

Com as emissões projetadas da mudança do uso da terra (como o desmatamento) para 4,1 bilhões de toneladas em 2025, as emissões totais de CO2 devem ser ligeiramente menores do que no ano passado.

Com o fim do padrão climático El Niño de 2023-24, que causa calor e seca em muitas regiões, a terra “pia” (absorção de CO2 por ecossistemas naturais) recuperada este ano para o nível pré-El Niño.

O relatório deste ano, publicado ao lado de um novo artigo na revista Nature, examina o impacto das mudanças climáticas nos sumidouros terrestres e oceânicos. Ele descobre que 8% do aumento da concentração atmosférica de CO2 desde 1960 é devido à mudança climática enfraquecendo a terra e os sumidouros do oceano.

O relatório diz que o orçamento de carbono restante para limitar o aquecimento global a 1,5°C está “praticamente esgotado”.

Sem nenhum sinal do declínio urgentemente necessário das emissões globais, o nível de CO2 na atmosfera e os impactos perigosos do aquecimento global continuam a aumentar.
Emissões geradas por combustíveis fósseis vão bater recorde em 2025

Outras descobertas-chave do Orçamento Global de Carbono de 2025 incluem:

• As emissões da China em 2025 devem aumentar 0,4%, crescendo mais lentamente do que nos últimos anos, devido a um crescimento moderado no consumo de energia combinado com um crescimento extraordinário de energia renovável.

• Prevê-se que as emissões da aumentem 1,4%, também mais lentas do que as tendências recentes. Uma monção precoce reduziu os requisitos de resfriamento nos meses mais quentes. Combinado com o forte crescimento das energias renováveis, isso levou a um crescimento muito baixo no consumo de carvão.

• Prevê-se que as emissões cresçam nos EUA (+1,9%) e na União Europeia (0,4%) em 2025. As emissões nessas regiões diminuíram nos últimos anos, mas o clima mais frio e outros fatores levaram a um aumento em 2025.

• As emissões projetadas no Japão, desde este ano pela primeira vez, caíram 2,2%, de acordo com as tendências recentes.

• Prevê-se que as emissões para o resto do mundo aumentem 1,1%.

• O aumento projetado nas emissões de CO2 fósseis em 2025 é impulsionado por todos os tipos de combustível: carvão +0,8%, petróleo +1%, gás natural +1,3%.

• Prevê-se que as emissões aumentem 6,8% para a aviação internacional (superando os níveis pré-COVID), mas permaneçam estáveis para o transporte marítimo internacional.

• Durante o período 2015-2024, as emissões do desmatamento permanente permanecem altas em cerca de 4 bilhões de toneladas de CO2 por ano, enquanto as remoções permanentes por meio de reflorestamento e crescimento florestal compensam cerca de metade das emissões permanentes de desmatamento.

• Total de emissões de CO2, a soma de emissões de mudanças fósseis e de uso da terra, cresceu mais lentamente na última década (0,3% ao ano), em comparação com a década anterior (1,9% ao ano).

• O orçamento de carbono restante para limitar o aquecimento global a 1,5°C está praticamente esgotado. O orçamento restante para 1,5°C é de 170 bilhões de toneladas de CO2, equivalente a quatro anos nos níveis de emissões de 2025.

• Os efeitos combinados da mudança climática e do desmatamento transformaram o sudeste asiático e grandes partes das florestas tropicais sul-americanas, desde sumidouros de CO2 até fontes.

• A concentração de CO2 na atmosfera deve atingir 425,7 ppm em 2025, 52% acima dos níveis pré-industriais.

Níveis de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera bateram recordes em 2024, recordes estes serão ultrapassados em 2025.

O relatório Global Carbon Budget, produzido por uma equipe internacional de mais de 130 cientistas, fornece uma atualização anual, revisada por pares, com base em metodologias estabelecidas de maneira totalmente transparente. (ecodebate)

Crise climática sobrecarrega a saúde pública

A crise climática sobrecarrega a saúde pública ao agravar doenças respiratórias e cardiovasculares, aumentar a incidência de doenças transmitidas por vetores e vetores, causar problemas de saúde mental e afetar a segurança alimentar. Aumento de ondas de calor, eventos climáticos extremos como enchentes e secas, e a poluição do ar exacerbam essas questões, levando a mais internações, estresse psicológico e desnutrição, o que pressiona os sistemas de saúde.

Impactos diretos e indiretos

Doenças respiratórias e cardiovasculares: Ondas de calor extremo e poluição do ar, especialmente de queimadas, pioram asma, bronquite e aumentam o risco de AVC e infarto.

Doenças transmitidas por vetores: Temperaturas mais altas e chuvas intensas ampliam o habitat de mosquitos, aumentando casos de dengue, zika e chikungunya em novas áreas.

Saúde mental: Eventos extremos como enchentes, secas e furacões causam estresse pós-traumático, ansiedade e depressão, especialmente em sobreviventes e populações deslocadas.

Segurança alimentar e hídrica: Secas e inundações afetam a agricultura, diminuindo a disponibilidade e a qualidade dos alimentos, levando à desnutrição e insegurança alimentar.

Doenças infecciosas: O desmatamento e outras alterações ecológicas aumentam o risco de novas pandemias e a transmissão de doenças zoonóticas.

Vulnerabilidade e sobrecarga do sistema de saúde

Grupos vulneráveis: Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas são particularmente vulneráveis aos efeitos da crise climática.

Sobrecarga dos sistemas de saúde: Aumento da demanda por atendimento médico, internações e serviços de urgência sobrecarrega hospitais e a capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dificuldade de acesso: Eventos climáticos extremos, como secas severas na Amazônia, podem dificultar o acesso de populações a medicamentos e consultas, como observado na Amazônia.

Ações e adaptação

Planos de adaptação: O governo brasileiro, por exemplo, lançou o Plano de Ação em Saúde do Belém (AdaptaSUS) para fortalecer a resiliência do setor de saúde diante das mudanças climáticas, focado em prevenção, cuidado e vigilância.

Necessidade de adaptação: Especialistas reforçam a necessidade de adaptar os sistemas de saúde já existentes para lidar com as consequências da crise climática e salvar vidas no presente.

Pesquisa mostra como eventos extremos e mudanças ambientais estão aumentando doenças, lotando emergências e pressionando sistemas de saúde em colapso.

A crise climática já deixou de ser uma ameaça distante para se tornar um problema urgente nos corredores dos hospitais e nos prontos-socorros do mundo todo.

O estudo “Understanding the health impacts of the climate crisis”, publicado no Future Healthcare Journal, revela como as mudanças climáticas estão transformando a saúde pública e sobrecarregando sistemas médicos que já operam no limite.

A pesquisa, que analisa dados globais, aponta que desastres naturais, ondas de calor, poluição do ar e surtos de doenças infecciosas estão se tornando mais frequentes e intensos, levando a um aumento drástico na demanda por atendimento médico – muitas vezes em regiões já fragilizadas pela falta de recursos.

Saúde e justiça climática: a vida acima do lucro!

Impactos na saúde pública: doenças em ascensão e grupos vulneráveis

1. Avanço de doenças infecciosas

• Mosquitos e patógenos em expansão: Temperaturas mais altas e chuvas intensas estão ampliando o habitat de vetores como o Aedes aegypti, aumentando casos de dengue, zika e chikungunya em áreas antes consideradas seguras.

• Zoonoses em alta: Desmatamento e alterações ecológicas elevam o risco de novas pandemias, como visto com a COVID-19 e a febre amarela.

2. Doenças respiratórias e cardiovasculares

• Poluição do ar e queimadas: Partículas finas de incêndios florestais (como os da Amazônia e do Pantanal) agravam asma, bronquite e aumentam o risco de AVC e infarto.

• Ondas de calor extremo: Temperaturas recordes levam a desidratação, insolação e pioram condições crônicas, como diabetes e hipertensão.

3. Transtornos mentais e deslocamentos forçados

• Trauma pós-desastres: Enchentes, furacões e secas prolongadas causam estresse pós-traumático, ansiedade e depressão em sobreviventes.

• Migrações climáticas: Populações desabrigadas por eventos extremos enfrentam condições precárias, aumentando surtos de doenças em abrigos temporários.

Colapso nos hospitais e sistemas de emergência

1. Sobrecarga nos prontos-socorros

• Após eventos como enchentes ou ondas de calor, os hospitais registram picos de até 40% a mais em atendimentos de emergência, segundo o estudo.

• Exemplo recente: No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 não só causaram mortes, mas também interromperam o funcionamento de hospitais, com UTIs inundadas e falta de medicamentos.

2. Falta de infraestrutura adaptada

• Muitos hospitais não têm resfriamento adequado para suportar temperaturas extremas, colocando pacientes (especialmente idosos e bebês) em risco.

• Falhas no abastecimento: Secas afetam o acesso à água potável, essencial para higiene hospitalar, enquanto tempestades interrompem energia e redes de transporte de insumos.

3. Profissionais de saúde sob pressão

• Médicos e enfermeiros enfrentam jornadas exaustivas durante crises climáticas, com aumento de casos complexos (ex.: insuficiência renal por desidratação em idosos).

• Falta de treinamento: Poucos sistemas de saúde incluem protocolos para doenças climático-sensíveis, como hipertermia ou intoxicação por fumaça de queimadas.

O que pode ser feito?

O estudo propõe medidas imediatas:

Hospitais resilientes: Construir unidades com energia solar, sistemas de refrigeração eficientes e estoques estratégicos para emergências.

Monitoramento climático em tempo real: Usar dados meteorológicos para prever surtos de doenças e alocar recursos com antecedência.

Treinamento médico: Capacitar equipes para lidar com doenças emergentes e crises em massa (ex.: golpe de calor em multidões).

Políticas integradas: Combater desmatamento, reduzir emissões e investir em saneamento básico para prevenir epidemias.
A crise climática exige ação imediata

“O clima está reescrevendo a história da saúde pública”, alertam os autores. Se nada for feito, os sistemas de saúde entrarão em colapso antes mesmo de 2050. A solução exige não apenas cortes de emissões, mas uma revolução na medicina – transformando hospitais em estruturas adaptáveis e priorizando a prevenção. (ecodebate)

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Mudanças climáticas e a crise silenciosa das doenças tropicais negligenciadas

As mudanças climáticas e a crise silenciosa das doenças tropicais negligenciadas: Uma análise socioambiental.

As mudanças climáticas agravam a crise das doenças tropicais negligenciadas (DTNs) ao expandir a área de vetores de doenças, como mosquitos, e ao alterar a qualidade do ar e da água. Essa interconexão é um problema de saúde pública global, pois a crise climática favorece a proliferação de doenças como dengue e malária, enquanto a negligência com os sintomas e a falta de saneamento básico prejudicam ainda mais as populações mais vulneráveis, ressalta EcoDebate e Brasil de Fato.

Como as mudanças climáticas impactam as DTNs

Expansão de vetores: O aumento da temperatura e da umidade favorece a proliferação e a expansão geográfica de vetores como mosquitos, que transmitem doenças como dengue, zika, chikungunya e malária.

Disponibilidade de água: A alteração dos padrões de chuva e a escassez de água potável, combinadas com a falta de saneamento básico, aumentam a exposição a doenças transmitidas pela água, como a esquistossomose e o tracoma.

Qualidade do ar e alimento: A poluição do ar, muitas vezes intensificada por eventos como queimadas, agrava doenças respiratórias. A insegurança alimentar, também relacionada ao clima, pode levar à adoção de hábitos alimentares que facilitam a transmissão de outras doenças infecciosas.

Impacto em comunidades vulneráveis: As populações mais pobres são desproporcionalmente afetadas, pois têm menos acesso a saneamento, moradia digna e saúde, o que as torna mais suscetíveis a contrair e sofrer com as DTNs.

Exemplos de DTNs: Leishmaniose, Malária, Dengue e Zika, Chikungunya, Filariose linfática (elefantíase), Oncocercose (cegueira dos rios), Tracoma, Esquistossomose, Doença de Chagas

Aumento previsto na incidência da dengue devido às mudanças climáticas até 2050. Os círculos negros mostram cidades nos países de estudo com mais de 5 milhões de habitantes.

Introdução

As Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) representam um grupo de 20 doenças que afetam mais de 1,7 bilhão de pessoas, predominantemente nas comunidades mais pobres e marginalizadas do mundo. Caracterizadas por sua forte correlação com a pobreza, a falta de saneamento básico e o acesso limitado à saúde, as DTNs têm seu fardo agravado por uma ameaça emergente e global: as mudanças climáticas.

Este artigo visa aprofundar a análise sobre a interconexão entre o aquecimento global e a dinâmica das DTNs, explorando os mecanismos científicos de transmissão, o impacto socioeconômico desproporcional e a urgência de políticas públicas integradas para um enfrentamento eficaz.

Palavras-chaves: crise global, doenças parasitárias, saúde única, saúde pública, zoonoses.

2. Mecanismos científicos da interconexão

A influência das mudanças climáticas sobre as DTNs não é linear, mas opera através de complexos mecanismos biofísicos e ecológicos que alteram a distribuição, a incidência e a intensidade dessas enfermidades.

Alteração do ciclo de vida dos vetores

O aumento da temperatura média global é o fator mais direto. As temperaturas mais elevadas aceleram o ciclo de vida de vetores como mosquitos (Aedes, Anopheles) e flebotomíneos, reduzindo o tempo de incubação extrínseca do parasita (o período que o parasita leva para se desenvolver no vetor e se tornar infeccioso). Isso significa que o vetor pode transmitir a doença mais rapidamente, aumentando o potencial de surtos (Tabela 1).

Tabela 1: Tabela de fatores climáticos e os efeitos que podem influenciar os vetores ou transmissão.

Fator Climático

Efeito no Vetor/Transmissão

Doenças Afetadas

Aumento temperatura

Acelera ciclo de vida do vetor e a replicação do patógeno (redução do período incubação Extrínseca).

Chikungunya, Malária, Dengue, Leishmaniose.

Alteração precipitação

Inundações criam novos criadouros (águas paradas); Secas concentram populações humanas e vetores em fontes de água limitadas.

Doenças transmissão hídrica,  Esquistossomose,  Malária.

Eventos extremos

Destruição de infraestrutura de saúde e saneamento, aumento da exposição a água contaminada.

DTNs de transmissão hídrica e vetorial.

Expansão geográfica

Temperaturas mais amenas em altitudes e latitudes mais elevadas permitem que vetores se estabeleçam em novas áreas.

Malária, Dengue, Leishmaniose.

3. Eventos climáticos extremos e saneamento

Eventos como inundações e secas têm um impacto devastador na infraestrutura de saneamento básico. Inundações, como as observadas no Paquistão (2022) e no Brasil (Rio Grande do Sul, 2024), contaminam fontes de água e destroem sistemas de esgoto, levando ao aumento de doenças de transmissão hídrica, como a esquistossomose e doenças diarreicas, além de criar vastos criadouros para mosquitos. Por outro lado, as secas forçam a concentração de populações humanas e animais em torno de fontes de água escassas, aumentando o contato e a transmissão de patógenos.

Mudanças climáticas podem levar doença de Chagas para novas áreas amazônicas

Transmissão Vetorial – ocorre quando o barbeiro pica e defeca na pele. Ao coçar, a pessoa pode levar o parasita para dentro do corpo.

As mudanças climáticas estão alterando de forma silenciosa, mas progressiva, o cenário de saúde pública na Amazônia. Além dos impactos já observados em enchentes, estiagens e surtos de doenças como dengue e malária, um novo alerta científico aponta para a reemergência de uma enfermidade negligenciada: a Doença de Chagas.

4. O impacto socioeconômico e a injustiça climática

A crise climática é, fundamentalmente, uma crise de justiça social. O impacto das DTNs, já concentrado em populações de baixa renda, é exponencialmente agravado pelas alterações climáticas.

“O impacto das alterações climáticas será suportado de forma desproporcional pelas pessoas mais pobres”. – Daniel Madandi, Diretor do Programa Global da Malária da OMS.

O custo socioeconômico é colossal. As DTNs causam incapacidade, estigma e morte prematura, perpetuando o ciclo da pobreza. Quando um evento climático extremo atinge uma comunidade, a destruição de moradias, a perda de meios de subsistência e a subsequente eclosão de DTNs (como a malária após inundações) impõem uma pressão insustentável sobre famílias e sistemas de saúde frágeis. O resultado é a perda de produtividade, o aumento dos gastos com saúde e a dificuldade de recuperação econômica, tornando a adaptação climática uma miragem para essas populações.

A falta de pesquisa também reflete essa desigualdade. Uma análise da OMS revelou que a maioria dos estudos sobre DTNs e clima se concentra em países de baixa carga da doença e com amplo acesso a cuidados de saúde, enquanto as DTNs mais negligenciadas permanecem sub-representadas na literatura científica. Essa lacuna de conhecimento impede a formulação de estratégias de mitigação e adaptação baseadas em evidências para quem mais precisa.

Fortalecendo a intersetorialidade em tempos de emergência climática na luta contra as iniquidades em saúde

5. A urgência de políticas públicas integradas

O enfrentamento dessa crise exige uma mudança de paradigma, passando de uma abordagem setorial de saúde para uma visão holística e intersetorial:

Vigilância e modelagem preditiva

É crucial investir em modelagem mais abrangente, colaborativa e padronizada para prever os efeitos das alterações climáticas na dinâmica das DTNs. A vigilância epidemiológica deve ser fortalecida, integrando dados climáticos (temperatura, precipitação, umidade) com dados de saúde para criar sistemas de alerta precoce eficazes.

Ação intersetorial e saneamento

As políticas públicas devem reconhecer a saúde como um resultado da interação entre ambiente, clima e condições sociais. Iniciativas como o programa “Brasil Saudável” demonstram a necessidade de alinhar o combate às DTNs com ações de manejo ambiental, transferência de renda e garantia de moradia e saneamento básico. O combate à esquistossomose, por exemplo, não é apenas uma questão de tratamento médico, mas fundamentalmente de garantir água de qualidade e saneamento básico, o que se torna ainda mais crítico em cenários de eventos climáticos extremos.

Fortalecimento dos sistemas de saúde

Os sistemas de saúde nas áreas vulneráveis devem ser adaptados para serem resilientes ao clima. Isso inclui a capacidade de resposta a surtos pós-desastres, o estoque estratégico de medicamentos e insumos, e a formação de profissionais de saúde com foco nas questões socioambientais e na saúde planetária.
6. Conclusão

As mudanças climáticas estão intensificando a crise das Doenças Tropicais Negligenciadas, criando uma “tempestade perfeita” de vulnerabilidade social e ambiental. A luta contra as DTNs é inseparável da luta por justiça climática e ambiental.

A mensagem do Dia Mundial das DTNs — Unir, Agir, Eliminar — nunca foi tão pertinente. É imperativo que a comunidade global, governos, academia e sociedade civil unam esforços para preencher as lacunas de pesquisa, implementar políticas públicas intersetoriais e garantir que as populações mais afetadas não sejam desassistidas. Somente através de uma ação climática ambiciosa e de um compromisso renovado com a equidade em saúde poderemos proteger a civilização humana dessa ameaça silenciosa e crescente. (ecodebate)

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Consequências econômicas e ambientais do desmatamento na Amazônia

Desmatamento na Amazônia acarreta sérias consequências econômicas e ambientais, como a perda de biodiversidade, o aumento do aquecimento global, a alteração do ciclo hídrico com impacto na produção de alimentos e energia, e o aumento de doenças zoonóticas. Economicamente, gera prejuízos a longo prazo, compromete a geração de energia, aumenta a pobreza de comunidades locais e afeta o agronegócio.

Consequências ambientais

Mudanças climáticas: A floresta absorve grande quantidade de CO2; com o desmatamento, mais CO2 é liberado na atmosfera, intensificando o efeito estufa e o aquecimento global.

Perda de biodiversidade: A destruição do habitat de milhares de espécies de plantas e animais, algumas ainda desconhecidas, leva muitas delas à extinção, ameaçando a diversidade genética e os potenciais usos medicinais ou cosméticos.

Alterações no ciclo hídrico: A floresta é fundamental para o ciclo da água. O desmatamento causa redução das chuvas, aumenta o período de seca e pode impactar a umidade atmosférica.

Erosão e degradação do solo: Remoção da vegetação causa erosão, perda de fertilidade do solo e aumenta o risco de deslizamentos de terra.

Aumento de doenças: A destruição do habitat de animais aumenta o contato com espécies que podem transmitir doenças zoonóticas para os seres humanos. Consequências econômicas Prejuízos à geração de energia: A alteração no regime de chuvas pode reduzir a capacidade de geração de hidrelétricas e comprometer o abastecimento de água.

Impacto na agricultura: A diminuição da chuva e a estiagem afetam diretamente a produção de alimentos e a pecuária, com perdas econômicas significativas.

Aumento da pobreza: Comunidades que dependem da floresta para subsistência perdem suas fontes de renda, tornando-se mais vulneráveis à pobreza, especialmente em áreas rurais.

Custos de longo prazo: Embora a exploração de curto prazo gere lucro, a degradação ambiental resultante dificulta a recuperação econômica a longo prazo, podendo gerar prejuízos bilionários.

Este episódio, do Podcast EcoDebate, discute um relatório do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) e do projeto Amazônia 2030, destacando as consequências econômicas e ambientais do desmatamento na Amazônia.

O relatório revela que a destruição da floresta já resulta em prejuízos anuais bilionários, afetando a economia brasileira de diversas maneiras.

Particularmente, o setor elétrico tem perdas significativas devido ao comprometimento da capacidade de geração em hidrelétricas como Itaipu e Belo Monte, que dependem dos rios voadores formados pela umidade da floresta.

Além disso, o desmatamento ameaça a agropecuária pela dependência da chuva, o abastecimento de água em sistemas cruciais como o Cantareira, e intensifica o risco de incêndios e prejuízos às hidrovias devido a secas.

Os pesquisadores alertam que a proteção da Amazônia é um imperativo estratégico para a segurança energética, hídrica e alimentar do Brasil, ressaltando a importância das políticas de combate ao desmatamento.

A expansão urbana, atividades de mineração e a crescente expansão do agronegócio são apontados como fatores que impulsionam a remoção da cobertura vegetal. (ecodebate)

domingo, 23 de novembro de 2025

Metas climáticas atuais levam o mundo a um aquecimento de 2,5°C e colapsos irreversíveis

A comunidade científica é unânime em afirmar que ultrapassar o aquecimento de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais desencadeia consequências catastróficas e irreversíveis. No entanto, o mundo deve superar esse limite crítico em uma questão de anos, com as emissões globais batendo um novo recorde em 2024.
Mundo caminha para até 2,5°C de aquecimento até o fim do século 21

Relatório “Emissions Gap Report 2025” alerta que promessas nacionais são “insuficientes” para conter a crise; mundo caminha para ultrapassar o limite seguro de 1,5°C em poucos anos, com emissões batendo novo recorde em 2024.

De acordo com a ONU: As emissões em 2030 teriam que cair 25% em relação aos níveis de 2019 para chegar a 2°C e 40% para 1,5°C – com apenas cinco anos restantes para atingir a meta de 1,5°C.

Relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) expõe a lacuna perigosa entre as promessas climáticas das nações e a ação necessária para evitar impactos devastadores.

O “Emissions Gap Report 2025: Off Target” (Relatório de Lacuna de Emissões 2025: Fora do Alvo, em tradução livre) conclui que os compromissos atuais, para reduzir a poluição que aquece o planeta, limitariam o aquecimento global a, no melhor cenário, 2,5°C neste século – um patamar considerado “inaceitável” pela ciência.

A comunidade científica é unânime em afirmar que ultrapassar o aquecimento de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais desencadeia consequências catastróficas e irreversíveis. No entanto, o mundo deve superar esse limite crítico em uma questão de anos, com as emissões globais batendo um novo recorde em 2024.

A crise se acelera, a ação fica para trás

Com o excesso de 1,5°C agora considerado inevitável, o foco global desloca-se para a velocidade com que as temperaturas poderão ser reduzidas a níveis menos arriscados. Para isso, os grandes poluidores são pressionados a adotar cortes de emissões mais rápidos e profundos. No entanto, a última rodada de metas anunciadas antes da COP30 “mal moveu a agulha”, segundo o relatório.

As projeções indicam que os compromissos climáticos coletivos, se integralmente cumpridos, resultariam em um aquecimento entre 2,3°C e 2,5°C até 2100. Essa trajetória representa uma ameaça existencial para nações insulares e regiões costeiras, e o fracasso coletivo em enfrentar esse desafio pairará sobre as negociações da COP30.

Pontos de não retorno e a inércia dos países

O relatório destaca que cada décimo de grau acima de 1,5°C não apenas intensifica furacões, enchentes e secas, mas também aumenta significativamente o risco de atingir “pontos de inflexão climática” climáticos catastróficos e irreversíveis. A 1,4°C de aquecimento, a maioria dos recifes de coral tropicais já está condenada. Abaixo de 2°C, o gelo da Groenlândia e a Floresta Amazônica podem sofrer alterações severas e duradouras, com impactos em cascata para todo o planeta.

O Acordo de Paris estabelece que cada nova rodada de metas deve ser mais ambiciosa que a anterior. Contudo, o PNUMA revela que, até 30/09/25 apenas dos países haviam anunciado uma meta de redução de emissões para 2035, como são obrigados a fazer.

Ganhos frágeis e a sombra de Trump

A projeção de aquecimento para este ano é 0,3°C mais baixa que a do relatório de 2024, mas especialistas alertam que isso se deve mais a ajustes metodológicos (0,1°C) e aos compromissos dos EUA sob o governo Biden (0,1°C) do que a um esforço global genuíno.

Esses ganhos, porém, estão sob ameaça. O relatório ressalta que a eleição do presidente Donald Trump, que prometeu retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris e revogar as políticas climáticas de seu antecessor, coloca em risco a implementação desses cortes. Os EUA são um dos maiores emissores globais.

Cenário atual: emissões em alta e políticas insuficientes

O panorama atual é sombrio:

• Emissões em ascensão: As emissões globais cresceram 2,3% em 2024, um aumento puxado pela Índia, seguida por China, Rússia e Indonésia – um ritmo comparável ao da década de 2000.

• Falta de liderança: As economias do G20 são responsáveis por 75% das emissões globais. Dentre os seis maiores poluidores, apenas a União Europeia reduziu seus gases de efeito estufa em 2024.

• Meta distante: Com base apenas nas políticas atualmente em vigor – e não nas promessas –, a Terra está a caminho de um aquecimento catastrófico de 2,8°C até 2100.

A COP30 em Belém terá a difícil missão de reverter a percepção de que a ação climática perdeu urgência, diante da retirada americana do processo, do descumprimento de metas coletivas e de governos que priorizam outras agendas em detrimento do futuro do planeta.
(ecodebate)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Solução verde que transforma drenagem urbana

Jardins de chuva: Solução verde que transforma drenagem urbana.
Sistema de drenagem natural utiliza camadas para filtrar partículas e armazenar a água

Novo modelo de infraestrutura preserva recursos naturais e reduz significativamente a necessidade de obras emergenciais e a ocorrência de desastres naturais nas cidades

Jardins de chuva são essenciais: eles filtram poluentes da chuva, garantem água mais limpa para rios e córregos, e promovem o retorno da fauna e o enriquecimento da biodiversidade local

Os investimentos em áreas verdes urbanas têm se consolidado como uma estratégia crucial para a resiliência das cidades frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Nesse contexto, os jardins de chuva se destacam como uma das ações mais eficazes de mitigação e adaptação, oferecendo múltiplos benefícios ambientais e hidrológicos que impactam diretamente a qualidade de vida dos moradores.

A introdução de áreas verdes, de maneira geral, desempenha um papel fundamental na redução das ilhas de calor e contribui significativamente para a melhoria da qualidade de todo o ar, no entanto, os jardins de chuva se sobressaem por sua capacidade de lidar especificamente com a gestão do excesso de água em ambientes urbanos.

Resiliência Urbana e Prevenção de Desastres

Jardins de chuva melhoram o escoamento das águas e trazem beleza para a capital paulista

São muito mais de 300 somente na cidade de São Paulo. Prefeitura leva iniciativas amigáveis com o meio ambiente para Casa Brasil, no Chile.

Investir em soluções verdes não só preserva recursos naturais, mas também é vital para reduzir a necessidade de obras emergenciais e minimizar desastres naturais.

Os jardins de chuva são notáveis por sua capacidade de drenar a água que costumava se acumular no asfalto. O sistema funciona de maneira engenhosa: a água permeia o solo através de uma rede de drenagem subterrânea. Na prática, essa estrutura atua como um reservatório para o excesso de água.

Além de gerenciar o volume hídrico, a vegetação presente nos jardins tem um papel crucial na saúde ambiental: ela é capaz de filtrar os poluentes da chuva, ajudando a entregar uma água mais limpa para os rios e córregos da cidade.

Estrutura e Enriquecimento da Biodiversidade

Esses “oásis verdes” são projetados com uma composição específica, o que garante sua eficiência funcional e ecológica. Os jardins são formados por três camadas distintas:

1. Um poço de infiltração com cerca de um metro de profundidade.

2. Uma estrutura intermediária formada por rachões, brita, terra e composto orgânico.

3. Por fim, a camada superficial visível de plantas e flores.

Um jardim de chuva ajuda a reduzir os alagamentos na região do Pacaembu, em São Paulo

Ao utilizar essa composição, os jardins de chuva garantem não apenas a drenagem, mas também a restauração da vegetação nativa. Eles promovem a conservação, preservação e enriquecimento da biodiversidade, contribuindo ainda para o retorno da fauna local.

Portanto, ao restaurar processos ecológicos e hídricos, os jardins de chuva representam uma ferramenta poderosa de adaptação, tendo um impacto direto na qualidade de vida dos moradores da cidade. (ecodebate)

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

As diferentes dinâmicas do envelhecimento da população brasileira por cor/raça e gênero

As diferenças no processo de envelhecimento refletem diferentes inserções sociais e maneiras específicas de como lidar com o aumento da longevidade.
O Brasil se manteve como um país jovem na maior parte da sua história. Mas os idosos vão superar o número de crianças e adolescentes no século XXI. Haverá uma inversão da estrutura etária, com um estreitamento da base e um alargamento do topo da pirâmide populacional.

A transição demográfica (redução das taxas de mortalidade e natalidade) alterou a dinâmica populacional do Brasil. A população de crianças está diminuindo e a população de idosos está crescendo. Em 1950, havia 4,3 crianças de 0-4 ano para cada idoso de 60 anos e +. Mas em 2100, haverá 10 idosos de 60+ para cada criança de 0-4 anos.

A proporção de idosos de 60 anos e mais, no Brasil, estava em torno de 5% em 1950, chegou a quase 16% em 2022 e deve alcançar algo em torno de 40% no final do século XXI. Mas estas proporções variam entre homens e mulheres e conforme a declaração de cor/raça.

A tabela abaixo, com dados do censo demográfico 2022, mostra que a proporção total de idosos de 60 anos e mais para o Brasil era de 15,8%, sendo 14,4% para os homens e 17,1% para as mulheres. Entre as pessoas que se declaram amarela (de origem oriental) e branca as proporções estão acima da média nacional. Entre as pessoas que se declaram pretas as proporções são semelhantes à média nacional. E entre as pessoas que se declaram pardas e indígenas a proporção de idosos é menor do que a média nacional.

Em 2022, a população amarela total tinha uma proporção de idosos de 60 anos e mais de 29%, sendo 27,8% entre os homens e 30,2% entre as mulheres. Esta alta proporção de idosos entre a população amarela decorre das menores taxas de fecundidade e mortalidade e da maior expectativa de vida ao nascer da população brasileira de origem oriental.

Em seguida, vem a população branca com uma percentagem total de 18,8% de idosos de 60 anos e mais, sendo 17,1% entre os homens e 20,4% entre as mulheres.
A proporção de idosos de 60 anos e mais entre a população preta, no Brasil, em 2022, foi de 15,4% no total, ligeiramente menor do que a média nacional, sendo 13,8% entre os homens e 17% entre as mulheres.

A proporção de idosos de 60 anos e mais, entre a população parda, foi de 13% no total, sendo 12,1% entre os homens e 13,9% entre as mulheres. A proporção de idosos de 60 anos e mais entre a população indígena, no Brasil, em 2022, foi de 9,2% no total, bem abaixo da média nacional, sendo 8,4% entre os homens e 10% entre as mulheres.

O envelhecimento populacional brasileiro é diferenciado por gênero e cor/raça. As mulheres são a força majoritária do envelhecimento em todos os grupos de cor/raça. A população amarela possui a estrutura etária mais envelhecida, seguida da população branca. A população preta está mais próxima da média nacional. Enquanto as populações pardas e, em especial, a indígena, possuem a estrutura etária mais rejuvenescida.

Estas diferenças no processo de envelhecimento refletem diferentes inserções sociais e maneiras específicas de como lidar com o aumento da longevidade. Garantir um envelhecimento digno e equitativo para todos, requer o reconhecimento destas desigualdades no desenho das políticas públicas de saúde, previdência, moradia e cuidado. (ecodebate)

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

O preço humano da inação climática

O preço humano da inação climática se manifesta em mortes evitáveis, deslocamento de populações, perda de meios de subsistência e aumento da pobreza, além de custos econômicos e sociais crescentes. A dependência de combustíveis fósseis já causa mais de 2,5 milhões de mortes por ano, e a poluição do ar por incêndios florestais causou 154 mil mortes apenas em 2024. Eventos climáticos extremos, como ondas de calor e chuvas, também estão ceifando vidas e destruindo lares.
A inação diante das mudanças climáticas está custando milhões de vidas todos os anos.

Impacto na saúde

Mortes relacionadas ao calor: A taxa de mortes por calor aumentou 23% desde 1990, chegando a 546 mil mortes anuais.

Poluição do ar: Em 2024, a poluição do ar por fumaça de incêndios florestais foi ligada a 154 mil mortes.

Doenças infecciosas: A poluição do ar também agrava doenças respiratórias e cardiovasculares. Em 2025, o potencial de transmissão da dengue aumentou 49% desde 1950.

Saúde mental: A crise climática é um multiplicador de riscos, afetando a saúde mental e a segurança alimentar das populações vulneráveis.

Impacto socioeconômico

Pobreza e desigualdade: Os efeitos negativos do clima podem levar milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030.

Deslocamento: Eventos climáticos extremos deslocaram 6,6 milhões de pessoas em 2023 e o número deve crescer, aumentando a migração climática.

Perda de meios de subsistência: A inação climática compromete as economias locais, especialmente a agricultura, que é altamente dependente do clima.

Custos econômicos e ambientais

Perdas financeiras: Desastres climáticos custaram $368 bilhões em 2023. A inação climática pode custar até US$178 trilhões à economia mundial até 2070.

Danos à infraestrutura: Eventos climáticos extremos, como inundações, secas e tempestades, causam danos à infraestrutura urbana e rural.

Impactos em ecossistemas: A Amazônia, os recifes de coral e outros ecossistemas enfrentam riscos graves devido às mudanças climáticas.

É importante notar que esses custos são desproporcionais, afetando mais as comunidades mais vulneráveis, que são as que menos contribuem para o problema.

A dependência contínua de combustíveis fósseis e a falha em se adaptar às mudanças climáticas estão sendo pagas com a vida, saúde e meios de subsistência das pessoas

• Novas descobertas globais no 9º relatório anual de indicadores do Lancet Countdown on Health and Climate Change (Contagem Regressiva Lancet sobre Saúde e Mudanças Climáticas) revelam que a dependência contínua de combustíveis fósseis e a falha em se adaptar às mudanças climáticas estão sendo pagas com a vida, saúde e meios de subsistência das pessoas, com 12 dos 20 indicadores que monitoram as ameaças à saúde atingindo níveis sem precedentes.

• O relatório afirma que a falha em conter os efeitos do aquecimento das mudanças climáticas fez com que a taxa de mortes relacionadas ao calor aumentasse 23% desde a década de 1990, chegando a 546.000 por ano. Somente em 2024, a poluição do ar pela fumaça de incêndios florestais foi ligada a um recorde de 154.000 mortes, enquanto o potencial médio global de transmissão da dengue aumentou em até 49% desde a década de 1950.

• Os autores dizem que 2,5 milhões de mortes todos os anos são atribuíveis à poluição do ar que resulta da contínua queima de combustíveis fósseis. Isso também está pressionando os orçamentos nacionais – à medida que os preços dos combustíveis fósseis dispararam, os governos gastaram coletivamente 956 bilhões de dólares americanos em subsídios líquidos a combustíveis fósseis em 2023. Enquanto isso, as gigantes do petróleo e gás continuam expandindo seus planos de produção – para uma escala três vezes maior do que um planeta habitável pode suportar.

• Embora alguns governos estejam recuando em compromissos climáticos, o relatório também expõe o impacto de salvar vidas das ações já em curso. Estima-se que 160.000 vidas sejam salvas anualmente pela mudança de foco do carvão e pelo ar mais limpo resultante, enquanto a geração de energia renovável atingiu recordes. O relatório revela a liderança emergente de governos locais, comunidades, organizações e do setor de saúde, e apela por um esforço conjunto (“all hands on deck”) para acelerar o progresso.

À medida que as ameaças à saúde decorrentes das mudanças climáticas atingem níveis sem precedentes e o retrocesso político na ação climática ameaça paralisar o progresso, o Relatório de 2025 do The Lancet Countdown on Health and Climate Change emite um novo e claro apelo por um “esforço conjunto” (“all hands on deck”) para acelerar e intensificar os esforços para simultaneamente reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e se adaptar às mudanças climáticas.

“O balanço de saúde deste ano pinta um quadro sombrio e inegável dos danos devastadores à saúde que atingem todos os cantos do mundo – com ameaças recordes à saúde devido ao calor, eventos climáticos extremos e fumaça de incêndios florestais matando milhões. A destruição de vidas e meios de subsistência continuará a aumentar até que acabemos com nosso vício em combustíveis fósseis e melhoremos drasticamente nossa capacidade de adaptação”, alertou a Dra. Marina Romanello, Diretora Executiva do Lancet Countdown na University College London.

Ela acrescentou: “Já temos as soluções em mãos para evitar uma catástrofe climática – e comunidades e governos locais em todo o mundo estão provando que o progresso é possível. Do crescimento da energia limpa à adaptação urbana, a ação está em curso e proporcionando benefícios reais para a saúde – mas devemos manter o impulso. A eliminação rápida dos combustíveis fósseis continua sendo a alavanca mais poderosa para desacelerar as mudanças climáticas e proteger vidas.

Ao mesmo tempo, a mudança para dietas mais saudáveis e amigas do clima e sistemas agrícolas mais sustentáveis reduziria massivamente a poluição, os gases de efeito estufa e o desmatamento, potencialmente salvando mais de 10 milhões de vidas por ano”.

O 9º relatório anual de indicadores do Lancet Countdown, liderado pela University College London e produzido em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), representa o trabalho de 128 especialistas líderes de 71 instituições acadêmicas e agências da ONU em todo o mundo.

Publicado antes da 30ª Conferência das Partes da ONU (COP), o relatório fornece a avaliação mais abrangente até o momento das conexões entre as mudanças climáticas e a saúde, incluindo novas métricas que registram mortes por calor extremo e fumaça de incêndios florestais, a cobertura de espaços azuis urbanos (rios, lagos e linhas costeiras), financiamento para adaptação em saúde e o engajamento individual com a saúde e as mudanças climáticas.
Custo da inação climática é inaceitável

Custo recorde à saúde devido à persistente dependência excessiva de combustíveis fósseis e atrasos na adaptação

O ano de 2024 foi o mais quente já registrado, com consequências catastróficas para a saúde, vidas e meios de subsistência das pessoas em todo o mundo, diz o relatório. Globalmente, a pessoa média foi exposta a um recorde de 16 dias quentes extras que ameaçaram a saúde devido diretamente às mudanças climáticas, com os mais vulneráveis (aqueles com menos de 1 ano e mais de 65 anos) experimentando, em média, um pico histórico de 20 dias de onda de calor – um aumento de 389% e 304%, respectivamente, em relação à média anual de 1986–2005.

Paralelamente, um novo indicador no relatório deste ano revela que a mortalidade relacionada ao calor por 100.000 pessoas aumentou 23% desde a década de 1990, com o total de mortes relacionadas ao calor atingindo uma média de 546.000 anualmente entre 2012 e 2021.

Condições mais quentes e secas também alimentaram as condições para incêndios florestais, com a poluição por partículas finas (PM 2.5) da fumaça de incêndios florestais resultando em um recorde de 154.000 mortes em 2024 (um aumento de 36% em relação à média anual de 2003–2012), enquanto secas e ondas de calor aumentaram o número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave em 123 milhões em 2023, em comparação com a média anual entre 1981 e 2010.

Somado a isso, os atrasos na adoção de energia limpa e amiga do clima significam que mais de 2 bilhões de pessoas ainda usam combustíveis poluentes e não confiáveis em suas casas. Em 65 países com baixo acesso à energia limpa, a poluição do ar proveniente do uso doméstico de combustíveis sujos resultou em 2,3 milhões de mortes evitáveis em 2022; incluindo algumas das 2,52 milhões de mortes ainda atribuíveis à poluição do ar ambiente pela queima de combustíveis fósseis globalmente.

Sistemas alimentares insustentáveis também estão alimentando as mudanças climáticas, e dietas ricas em carbono e não saudáveis contribuíram para 11,8 milhões de mortes relacionadas à dieta em 2022, que poderiam ser amplamente evitadas pela transição para sistemas alimentares mais saudáveis e amigos do clima.

De forma mais ampla, o relatório destaca que as mudanças climáticas estão destruindo cada vez mais os meios de subsistência, tensionando a economia e sobrecarregando os orçamentos de saúde. A exposição ao calor resultou em um recorde de 639 bilhões de horas potenciais de perda de produtividade de trabalho em 2024, com perdas de renda equivalentes a impressionantes US$ 1,09 trilhão (quase 1% do PIB global).

Ao mesmo tempo, os custos das mortes relacionadas ao calor em pessoas com mais de 65 anos atingiram um recorde histórico de US$ 261 bilhões. Em resposta à alta dos preços dos combustíveis fósseis, e com redes de energia desatualizadas excessivamente dependentes deles, governos em todo o mundo destinaram US$ 956 bilhões em subsídios líquidos a combustíveis fósseis em 2023 para manter a energia acessível localmente – aumentando as pressões fiscais e superando os US$ 300 bilhões por ano comprometidos para apoiar os países mais vulneráveis ao clima na COP29.

De forma preocupante, 15 dos 87 países responsáveis por 93% das emissões globais de  CO2 gastaram mais em subsídios líquidos a combustíveis fósseis do que em seus orçamentos nacionais de saúde em 2023.

Como a Dra. Romanello explicou, “O aumento da acessibilidade e disponibilidade da energia renovável limpa apresenta uma oportunidade para aumentar a geração de energia local, reduzir os danos à saúde causados pelos combustíveis fósseis e apoiar o redirecionamento dos subsídios a combustíveis fósseis para a promoção de um futuro mais saudável”.

Também está sendo publicado hoje o Relatório da América Latina 2025 do Lancet Countdown, que também identifica uma alarmante intensificação e confluência de riscos climáticos. A Professora Stella Hartinger, Diretora do Lancet Countdown América Latina e autora do relatório global, disse: “Em todo o mundo, estamos vendo esses múltiplos impactos na saúde se agravarem mutuamente para desencadear uma cascata de danos que minam as próprias bases sociais e econômicas que sustentam a saúde e o bem-estar das pessoas.

Após nove anos de monitoramento global, é claro que esses danos à saúde são o preço que estamos pagando pela falha consistente dos líderes globais em entregar a ação necessária para combater as mudanças climáticas e proteger a saúde – um preço pago mais severamente por países vulneráveis que contribuíram menos para a crise”.

Os autores dizem que os atrasos na adaptação estão exacerbando os danos à saúde causados pelas mudanças climáticas. “O escasso apoio financeiro para a adaptação continua sendo uma barreira fundamental, e os dados deste relatório mostram que ainda é extremamente insuficiente para cobrir as necessidades financeiras divulgadas pelos países”, disse a Dra. Romanello. “Uma mudança política em direção à redução do apoio à ajuda externa de alguns dos países mais ricos do mundo, restringe ainda mais o apoio financeiro para a ação climática, deixando todas as populações cada vez mais desprotegidas”.
Impactos das mudanças climáticas já são sentidos por humanos e animais

O retrocesso político nos compromissos climáticos exacerbará as ameaças à saúde e sobrevivência das pessoas

Somado a esses danos crescentes, o relatório diz que o retrocesso político na ação climática e de saúde ameaça condenar milhões a um futuro de doenças, desastres e morte prematura. E, no entanto, encorajadas pelos lucros crescentes e por um consenso político fraturado sobre os compromissos climáticos, as 100 maiores gigantes de combustíveis fósseis do mundo aumentaram sua produção projetada (a partir de março de 2025), o que faria com que suas emissões de GEE ultrapassassem em quase três vezes os níveis compatíveis com 1,5°C até 2040, afastando as possibilidades de esforços de adaptação protetores da saúde.

Bancos privados estão apoiando essa expansão mortal de combustíveis fósseis, com os 40 principais credores do setor de combustíveis fósseis investindo coletivamente um máximo de 5 anos de US$ 611 bilhões em 2024 (aumento de 29% em relação a 2023).

Isso excedeu em 15% seus empréstimos ao setor verde, dificultando ainda mais a transição energética de emissão zero, ameaçando a saúde pública e comprometendo as economias nacionais das quais dependem os meios de subsistência das pessoas.

Enquanto as emissões relacionadas à energia atingem novos recordes, mais de 128 milhões de hectares de floresta foram destruídos em 2023 (aumento de 24% desde 2022), diminuindo a capacidade natural do mundo de mitigar as mudanças climáticas.

“A dura realidade é que uma das maiores ameaças à prosperidade humana vem de líderes e empresas que estão recuando nos compromissos climáticos, atrasando a ação e dobrando a aposta na produção de combustíveis fósseis – enquanto isso, cada unidade de gases de efeito estufa emitida eleva os custos e desafios da adaptação”, disse a Professora Nadia Ameli, Co-Presidente do Grupo de Trabalho 4 do Lancet Countdown. “Se permanecermos presos à dependência de combustíveis fósseis, os sistemas de saúde, a infraestrutura de refrigeração e as capacidades de resposta a desastres serão rapidamente sobrecarregados – colocando ainda mais em risco a saúde e as vidas dos 8 bilhões de pessoas do mundo”.

Os países que enfrentam as piores consequências são consistentemente rastreados como os mais engajados politicamente em mudanças climáticas e saúde, mas estão sendo deixados para trás na transição para energia limpa.

O acesso profundamente desigual à tecnologia e às energias limpas está deixando as comunidades mais vulneráveis dependentes de combustíveis sujos e prejudiciais. Apenas 3,5% da eletricidade provém de energias renováveis limpas em países de baixa renda, em comparação com 13,3% em países ricos, enquanto 88% dos lares em países mais pobres ainda dependem de biomassa poluente para cozinhar e aquecer suas casas.
Mudanças climáticas impactam nossa vida

Aproveitando o impulso global para a ação climática que promove a saúde

Embora alguns governos nacionais estejam recuando nos compromissos climáticos, o relatório destaca que governos locais, indivíduos, sociedade civil e o setor de saúde estão liderando o caminho na construção de um futuro mais saudável, sinalizando o que poderia ser o início de uma ação climática transformadora.

Um número crescente de cidades (834 de 858 que reportaram em 2024) completou ou pretende completar avaliações de risco de mudanças climáticas, de acordo com o CDP. O próprio setor de saúde demonstrou impressionante liderança climática, com as emissões de GEE relacionadas à saúde caindo 16% globalmente entre 2021 e 2022, e quase dois terços dos estudantes de medicina em todo o mundo receberam educação sobre clima e saúde em 2024, construindo capacidade para progresso adicional.

De acordo com o relatório, o impulso global para a ação contra as mudanças climáticas já está proporcionando benefícios econômicos e de saúde associados. Uma maior mudança do carvão, particularmente em países ricos, evitou cerca de 160.000 mortes prematuras anualmente entre 2010 e 2022, devido à poluição do ar por partículas finas (PM 2.5) da queima de combustíveis fósseis.

A participação da eletricidade gerada por energias renováveis modernas atingiu um recorde de 12% em 2022, com a transição para energia limpa gerando empregos mais saudáveis e sustentáveis. Globalmente, mais de 16 milhões de pessoas trabalharam direta ou indiretamente em energias renováveis em 2023 (um aumento de 18,3% em relação a 2022).

Como o Professor Tafadzwa Mahbhaudi, Diretor do Lancet Countdown África, explicou, “A ação contra as mudanças climáticas permanece como uma das maiores oportunidades de saúde do século XXI, também impulsionando o desenvolvimento, estimulando a inovação, criando empregos e reduzindo a pobreza energética.

A concretização dos inúmeros benefícios de uma resposta centrada na saúde requer o desbloqueio de oportunidades até agora inexploradas para mitigar as mudanças climáticas e construir resiliência aos impactos já sentidos”. Como o Professor Anthony Costello, Copresidente do Lancet Countdown, alertou, “À medida que um número crescente de líderes mundiais ameaça reverter o pouco progresso feito até agora, são necessários esforços urgentes em todos os níveis e em todos os setores para entregar e exigir ação acelerada que trará benefícios imediatos para a saúde.

Mudanças climática deixa o nosso planeta TERRA cada vez mais doente!!!

À medida que alguns governos mantêm um status quo insustentável, insalubre e, em última análise, inabitável, pessoas em todo o mundo estão pagando o preço final. Temos que construir sobre o impulso que vimos da ação local: Entregar uma transição protetora da saúde, equitativa e justa requer um esforço conjunto”. (ecodebate)

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