quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Favelas podem ser 15°C mais quentes que bairros arborizados

Em São Paulo, favelas podem ser 15°C mais quentes que bairros arborizados.

Imagens de satélite que registram a temperatura de superfícies como telhados, ruas e solo revelaram diferenças de até 15°C entre territórios de favelas e bairros vizinhos na cidade de São Paulo.
Regiões do mundo com maior risco de ondas de calor de alto impacto

No último verão, imagens de satélite que registram a temperatura de superfícies como telhados, ruas e solo revelaram diferenças de até 15°C entre territórios de favelas e bairros vizinhos na cidade de São Paulo.

Enquanto o Morumbi registrou valores em torno de 30°C, na favela de Paraisópolis, sua vizinha, os números chegaram a 45°C. Em Heliópolis, outra das favelas mais populosas do município, os registros ficaram acima de 44°C nos dias mais quentes. Os dados constam de estudo realizado por Rohit Juneja, Flávia Feitosa e Victor Nascimento, pesquisadores do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Os resultados iniciais da pesquisa foram publicados na plataforma Nexo Políticas Públicas. Para o estudo, foram utilizados dados de 19 imagens termais do Satélite Landsat 8, referentes ao período de dezembro/2024 a fevereiro/2025. As imagens medem a temperatura das superfícies e assim os valores obtidos são mais altos do que a temperatura do ar.

De acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade de São Paulo abriga cerca de 11,5 milhões de habitantes. Mais de 1,7 milhão deles vivem em 1.359 favelas, que ocupam aproximadamente apenas 4% do território, mas concentram mais de 15% da população. Nessas áreas, as temperaturas das superfícies frequentemente superam os 40 °C, como mostra mapa interativo produzido pelo CEFAVELA.

Em São Paula, as favelas ocupam 4% do território e concentram mais de 15% da população (vista aérea de Paraisópolis e Morumbi).

As diferenças entre as favelas também são reveladoras. Enquanto comunidades situadas em áreas densas e sem vegetação registram valores extremos, outras se beneficiam da proximidade de corpos d’água ou corredores verdes.

Em Capão Redondo, distrito densamente ocupado da zona sudoeste, estão 4 das 10 favelas mais quentes da cidade: Jardim Capelinha/Nuno Rolando registrou 47,4°C, seguida por Jardim D’Abril II (47,3 °C) e Basílio Teles (47,2°C). Entre as que apresentaram as menores temperaturas está o Jardim Apurá, próximo da represa Billings, com 23,7°C, e o Alto da Riviera B/Jardim Guanguará, na região da represa Guarapiranga, com 23,6°C.

“É relevante ampliar a sensibilização de que o calor não é apenas um fenômeno meteorológico, é também resultado das escolhas de planejamento do território, capazes de mitigá-lo ou intensificá-lo”, destacam os pesquisadores no artigo. “Nesse contexto, as soluções baseadas na natureza ganham destaque: corredores verdes, parques, árvores, jardins de chuva, telhados verdes, hortas comunitárias e sistemas de drenagem sustentável podem funcionar como um ‘ar-condicionado natural’ das cidades, reduzindo temperaturas e aumentando a resiliência urbana”, apontam.

Calor nas favelas supera bairros vizinhos em até 15 °C

“O desafio não é apenas técnico, mas político. Incluir o calor como dimensão da inadequação habitacional significa reconhecer que a exclusão urbana também se mede em graus Celsius”, concluem os pesquisadores, que também foram apoiados pela FAPESP por meio de bolsas de treinamento técnico para Juneja e pós-doutorado para Feitosa. (ecodebate)

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