Pesquisa revela como
alimentos ultraprocessados afetam saúde e meio ambiente simultaneamente
Uma revisão científica de
grande escala, publicada na revista Frontiers in Science, revela uma conexão
alarmante: o mesmo sistema alimentar que está tornando a população mundial
obesa também está acelerando o aquecimento global.
O estudo demonstra que
enfrentar os sistemas alimentares insustentáveis é urgente tanto para a saúde
pública quanto para o clima do planeta.
Os pesquisadores analisaram evidências mostrando que tanto a obesidade quanto os danos ambientais resultam de um sistema alimentar orientado pelo lucro, que incentiva alto consumo e prejudica a saúde. O ambiente alimentar atual promove produtos hipercalóricos e pobres em fibras, especialmente alimentos ultraprocessados, que favorecem o ganho de peso. Esses mesmos sistemas de produção, particularmente envolvendo produtos de origem animal, liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa e exercem pressão sobre terra e água.
Metade da população mundial com sobrepeso até 2035
As projeções são preocupantes:
até 2035, metade da população mundial deverá viver com sobrepeso ou obesidade,
doenças que aumentam o risco de condições graves como doenças cardíacas e
câncer. Paralelamente, o aquecimento global já mata uma pessoa a cada minuto em
todo o mundo, contabilizando cerca de 546 mil mortes por ano no período de 2012
a 2021, um aumento de 63% em relação à década de 1990.
A produção de alimentos é
responsável por entre um quarto e um terço do total de emissões de gases de
efeito estufa, sendo a principal causa de desmatamento e perda de
biodiversidade. Os autores destacam um dado alarmante: mesmo que as emissões de
combustíveis fósseis cessassem hoje, apenas os sistemas alimentares atuais já
poderiam empurrar as temperaturas globais além do limite de 2°C estabelecido
nos acordos climáticos.
Produção de carne e
ultraprocessados no centro do problema
A produção de carne de
ruminantes é particularmente impactante, com a carne bovina gerando emissões
muito superiores às fontes vegetais. O estudo enfatiza que nem todos os
alimentos ultraprocessados são iguais: carnes processadas e produtos
ultraprocessados pobres em fibras e ricos em energia têm resultados de saúde e
ambientais piores do que ultraprocessados menos calóricos, ricos em fibras e de
base vegetal.
Um estudo recente na China descobriu que metade dos cânceres recém-diagnosticados estavam relacionados à obesidade, com aumento alarmante entre as gerações mais jovens. Os impactos à saúde fazem da obesidade um dos maiores contribuintes para problemas de saúde global, além de sua carga econômica. As despesas relacionadas à obesidade custaram mais de 2% do PIB global em 2019, com projeções de exceder US$ 4 trilhões até 2035 se as tendências continuarem.
Além dos medicamentos: soluções sistêmicas são necessárias
Os pesquisadores contestam a
percepção de que medicamentos para perda de peso são uma panaceia para a
obesidade, pois não abordam os impulsionadores sistêmicos que também prejudicam
o clima. Embora medicamentos para perda de peso e cirurgia bariátrica forneçam
opções importantes para indivíduos com obesidade, eles falham em abordar o
ambiente mais amplo que afeta populações inteiras e ecossistemas.
Preocupações permanecem sobre
acessibilidade a longo prazo, segurança e acesso global sustentado a esses tratamentos,
especialmente porque a obesidade afeta cada vez mais populações mais jovens e
de baixa renda.
Seis ações urgentes para
saúde e clima
Com base em evidências
recentes de epidemiologia, endocrinologia, psicologia, saúde pública, nutrição,
economia e ciência ambiental, os pesquisadores recomendam:
1. Impostos sobre
ultraprocessados e bebidas açucaradas: Taxação de alimentos ultraprocessados
ricos em energia e bebidas adoçadas com açúcar para desincentivar o consumo.
2. Subsídios para alimentos
saudáveis: Tornar alimentos minimamente processados e saudáveis mais
acessíveis, financiados por impostos sobre alimentos não saudáveis.
3. Educação sobre o custo
real dos alimentos: Melhorar a conscientização pública educando a população e
profissionais de saúde sobre os verdadeiros impactos dos alimentos.
4. Rotulagem e restrições de
marketing: Implementar rotulagem frontal similar ao modelo do tabaco e
restringir a comercialização de alimentos não saudáveis para crianças,
especialmente em comunidades de baixa renda.
5. Políticas para alimentação
escolar saudável: Apoiar refeições escolares saudáveis e fornecimento local de
alimentos.
Prevenir o ganho de peso
através de ambientes alimentares mais saudáveis seria “muito mais barato e
menos prejudicial” do que adaptar-se às consequências tanto da obesidade quanto
das mudanças climáticas, ou tratar indivíduos em vez de mudar sistemas,
observam os autores.
Os pesquisadores enfatizam
que as estratégias nacionais para combater a obesidade têm se concentrado na
responsabilidade pessoal, baseadas na percepção de que é uma questão de estilo
de vida. Essa abordagem falhou em desacelerar o aumento da obesidade. Eles
argumentam que reformas coordenadas e baseadas em evidências científicas dos
ambientes alimentares podem abordar tanto a causa raiz da obesidade quanto os
danos ambientais.
Mudança de paradigma
O estudo defende que
reenquadrar a obesidade como uma doença deve ajudar a melhorar a formulação de
políticas, transferindo a responsabilidade dos indivíduos para os sistemas que
moldam suas escolhas. Os autores reconhecem que, embora múltiplas linhas de
evidência conectem alimentos ultraprocessados, obesidade e impactos climáticos,
os caminhos subjacentes são complexos e vários mecanismos propostos permanecem
insuficientemente compreendidos, enfatizando que mais pesquisas são
necessárias.
A mensagem central do estudo é clara: enfrentar as crises gêmeas de obesidade e mudanças climáticas requer uma transformação fundamental em como produzimos, comercializamos e consumimos alimentos, com políticas que priorizem a saúde pública e a sustentabilidade ambiental sobre o lucro da indústria alimentícia.
Inter-relações entre a obesidade e a crise climática. (ecodebate)





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