O
cenário de preparação é dividido por regiões:
•
Região Norte e Nordeste: Enfrentam o risco de secas severas, especialmente na
Amazônia.
•
Região Sul: Prepara-se para o aumento de eventos extremos, chuvas volumosas e
temporais.
•
Região Sudeste (incluindo Jundiaí): O padrão exige monitoramento devido ao
risco de instabilidades intercaladas com ondas de calor intenso e
irregularidade de chuvas, o que impacta os reservatórios.
Com
probabilidade acima de 90% de formação do El Niño no segundo semestre de 2026,
cientistas alertam que temos ciência de ponta para prever, mas seguimos
falhando em proteger quem está no caminho da catástrofe.
Nem
todo El Niño produz os mesmos efeitos, e é importante evitar simplificações
excessivas. Mas nosso país esbarra na dificuldade histórica de incorporar o
conceito de risco ambiental às suas atividades de planejamento territorial. É
importante aprendermos a lidar com nossas vulnerabilidades
O
fenômeno El Niño voltou a aparecer com frequência no noticiário internacional
nos últimos meses. A razão é simples: alguns modelos climáticos indicam a
possibilidade de desenvolvimento de um evento relativamente intenso entre 2026
e 2027. Isso não significa, evidentemente, que o planeta caminhe
inevitavelmente para uma catástrofe climática global, mas chama atenção porque
os episódios mais fortes de El Niño costumam alterar o regime de chuvas e
temperaturas em diferentes partes do mundo.
O
El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas
superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação
atmosférica tropical e acaba influenciando o clima em várias regiões do
planeta. A climatologia conhece esse mecanismo há bastante tempo, embora ainda
existam dificuldades importantes quando se tenta antecipar, com muitos meses de
antecedência, a intensidade exata de cada evento e seus impactos regionais
(Trenberth, 1997; McPhaden et al., 2006).
Nem
todo El Niño produz os mesmos efeitos. Os episódios de 1982/1983, 1997/1998 e
2015/2016 ficaram conhecidos pela intensidade e pelos impactos observados em
diferentes continentes, mas cada um deles apresentou características próprias.
A atmosfera não responde de maneira idêntica em todos os eventos, e isso é
importante para evitar simplificações excessivas.
No
Brasil, os efeitos do El Niño variam bastante de uma região para outra.
Historicamente, a Região Sul tende a registrar aumento das chuvas durante esses
episódios, enquanto áreas do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam
redução das precipitações e períodos mais secos. Mas isso não funciona como uma
regra absoluta. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no
comportamento climático sul-americano, especialmente as condições térmicas do
Atlântico Tropical.
Ainda
assim, existe uma preocupação compreensível em relação ao cenário atual. O país
vem enfrentando, nos últimos anos, uma sequência de eventos extremos bastante
significativa. Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor
persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção
passaram a fazer parte da rotina climática recente do Brasil.
O problema brasileiro, contudo, não é apenas climático.
Desastres
raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor.
Eles dependem muito das condições sociais e territoriais sobre as quais esses
eventos atuam. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente
diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por
ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social.
Isso
vale igualmente para as secas. Seus efeitos são muito mais graves onde há baixa
segurança hídrica, maior dependência de agricultura de sequeiro e pouca
capacidade de resposta institucional. Por isso, fenômenos como o El Niño acabam
expondo fragilidades que já existiam antes deles.
Em
muitas cidades brasileiras, a expansão urbana continuou ocorrendo em áreas
suscetíveis a enchentes e movimentos de massa. Em outras regiões, a pressão
sobre recursos hídricos aumentou sem planejamento compatível com a
variabilidade climática do país. Grande parte dos problemas aparece justamente
aí: menos na ausência de informação e mais na dificuldade histórica de
incorporar risco ambiental ao planejamento territorial.
Preparar-se
para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a
ocorrência do fenômeno. Isso simplesmente não é possível. A questão central é
reduzir vulnerabilidades. Melhorar drenagem urbana, fortalecer sistemas de
alerta, proteger encostas, ampliar monitoramento hidrológico e planejar melhor
o uso do território continua sendo medidas muito mais efetivas do que respostas
emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.
Talvez
a principal lição trazida pela discussão atual sobre o El Niño seja justamente
essa. Eventos climáticos extremos fazem parte da dinâmica natural do sistema
climático. O que transforma esses eventos em desastres de grandes proporções é,
muitas vezes, a forma como as sociedades organizam seus territórios e lidam, ou
deixam de lidar, com suas próprias vulnerabilidades.





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