Os dados fazem parte do
“Estudo de Perdas de Água” elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria
com a consultoria GO Associados.
Principais pontos do cenário
de perdas:
• O Volume Desperdiçado: O
desperdício diário equivale a cerca de 4,8 mil piscinas olímpicas ou 16,2
milhões de caixas d'água.
• Causas Principais: As
perdas ocorrem por vazamentos nos canos, fraudes (os chamados
"gatos") e erros de medição nos hidrômetros.
• Disparidade Regional: Os
piores índices estão nas regiões Norte e Nordeste, onde o desperdício supera a
marca de 55%.
• Metas de Melhoria: A meta oficial é reduzir o índice nacional de perdas para 25%. Se o país conseguir alcançar esse patamar economizará 2,8 bilhões de metros cúbicos de água, gerando uma grande economia de recursos.
Volume de água desperdiçado no Brasil seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas, aponta estudo
Estudo do Instituto Trata
Brasil aponta que, por dia, o país perde o equivalente a 16,2 milhões de caixas
d’água.
• Esse volume perdido
corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao
abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da
população do país em 2024;
• Reduzir as perdas totais
dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano,
volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades
vulneráveis por dois anos;
• O volume total de água
referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente
a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo
de 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas
desperdiçadas por dia;
• 12 dos 100 municípios mais
populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216
L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO),
Teresina (PI) e Campo Grande (MS);
• Redução de perdas de água
de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033;
• A eficiência no controle é
uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz
a pressão sobre os mananciais;
O Instituto Trata Brasil
(ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publica o “Estudo de Perdas
de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no
Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da
ineficiência no controle de perdas de água em nosso país.
Em meio ao agravamento das
mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água
potável, o país desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às
torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024
(cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas
desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo
volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco
pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um
ano.
O levantamento foi elaborado
a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento
Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas
cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais
populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking
do Saneamento de 2026.
O que é perda de água?
No processo de abastecimento
de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição
e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao
meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa
mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os
usuários.
Então o ideal seria termos
zero de perdas de água? Apesar da resposta ser sim, de acordo com a literatura
sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos
(em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites
técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de
materiais, ferramentas e logística).
No Brasil, o Ministério das
Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria
788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021
(Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do
Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para
os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o
normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou
financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou
inferiores a:
1. 35% e 303,0 L/ligação/dia
até 2025;
2. 30% e 263,0 L/ligação/dia
entre 2026 e 2032;
3. 25% e 216,0 L/ligação/dia
a partir de 2033.
Impacto das perdas de água no
Brasil
Para entender o impacto do
controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo,
os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para
abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade
não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como
também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao
abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.
Além disso, com esse mesmo
volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em
comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas
perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população
sem a necessidade de captação de água em novos mananciais.
Com o cenário de mudanças
climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam
cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de
produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas
equivale a uma captação e a uma produção superior ao volume efetivamente
demandado, gerando as seguintes ineficiências:
Quadro 2 – Impactos na
produção de água e no meio ambiente das perdas de água
|
Desequilíbrios na
produção de água |
Desequilíbrios
ambientais |
|
- Maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento,
entre outros fatores de produção - Maior custo de manutenção da rede e de equipamentos - Uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição
existente - Maior custo oriundo da possível utilização de fontes de
abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso |
- Pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso
hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população - Maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos
dessa atividade (externalidades) |
Instituto Trata Brasil
Benefícios sociais com a
redução de perdas
Quadro 3 a seguir aponta as
principais estatísticas descritivas a partir da redução de perdas, desagregadas
por estado. Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução
dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado
seria da ordem de 2,8 bilhão de m3. Isso equivale ao consumo médio
de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.
Cenário nacional de perdas
nos últimos 5 anos
O indicador mais comumente
utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na
Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água
efetivamente consumida nas residências. Considerando os últimos cinco anos, o
valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos
significativamente superior à meta de 25%.
Recorte por região
A situação de perdas no
Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas
macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e
que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas.
Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores
de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.
De 2020 a 2024, a
macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto
percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com
redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.
Recorte de indicadores por
estado
A análise comparativa dos
indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do
desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais,
diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais
implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do
indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de
perdas no país.
A análise evidencia um padrão
de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste
do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%),
Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de
perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da
média nacional (39,53%).
O indicador médio computado
na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos
31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem
níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14
municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%.
É possível observar uma forte
concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12
dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios
como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente
inferiores à média nacional.
Por outro lado, os municípios
com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e
Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%.
Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas
significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande
(MT), com 59,03%.
Municípios nos padrões de
excelência
Conforme a já mencionada
Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até
25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.
Somente doze dentre os 100
municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024
simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na
busca pela redução das perdas de água.
Recorte para as capitais
brasileiras
Apenas quatro das 27
capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores
inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das
capitais foi de 39,30%.
Estima-se que as capitais
brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais
aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes
(comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais
(físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o v
Ganhos econômicos com a
redução das perdas de água portável
Para calcular os ganhos
econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de
três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à
média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário
otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista).
O estudo evidencia que as
perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na
distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09
L/dia/ligação, valores significativamente superior aos parâmetros de eficiência
estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia,
respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais
desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e
as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de
perdas de água.
Em uma realidade que já se
faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos
no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a
necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de
abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos.
Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade
econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras
e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos
serviços.
Para tanto, é necessário
priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e
inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o
Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme
previsto pela Portaria 788/2024.
“A redução das perdas de água
deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de
saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática
dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de
governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante
fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às
populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e
tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse
sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já
captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos
operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a
eventos climáticos extremos”. – Declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO
Associados. (ecodebate)







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