terça-feira, 7 de julho de 2026

Degradação dos oceanos avança mais rápido

A degradação dos oceanos está avançando mais rápido que as respostas globais, segundo a Terceira Avaliação Global dos Oceanos da ONU e o Barômetro Starfish 2026. Impactos como o aumento do nível do mar, poluição química e branqueamento de corais ameaçam economias costeiras e a biodiversidade global de forma sem precedentes.

Dados Alarmantes

• Elevação do Mar: A taxa de aumento saltou para 4,3 mm por ano, quase o dobro das décadas anteriores, impulsionada pelo aquecimento e expansão térmica.

• Estresse Térmico: Em junho de 2025, ondas de calor marinhas severas atingiram 20% da superfície oceânica, e 84% dos recifes de coral enfrentaram níveis de estresse capazes de causar branqueamento.

• Poluição e Desoxigênio: O oceano absorveu cerca de 30% das emissões de CO2, o que causa acidificação e a expansão de "zonas mortas" hipóxicas (sem oxigênio para a vida marinha).

• Poluentes Emergentes: Além do plástico, cientistas alertam para a alta concentração de "poluentes invisíveis", como antibióticos encontrados nas águas.

Impactos no Brasil

Com 8 mil quilômetros de litoral, o país é altamente vulnerável. A costa brasileira perdeu 15% de sua faixa de areia nos últimos 30 anos. O avanço do mar ameaça infraestruturas nas capitais dos 17 estados costeiros, enquanto modelos apontam que no Rio de Janeiro a subida do nível do mar pode superar a média global.

Para entender o panorama completo da Terceira Avaliação Global dos Oceanos ou conferir o detalhamento corporativo do Barômetro Starfish, o acesso aos relatórios na íntegra traz a dimensão exata do problema.

Oceanos em 2050 vão ter mais plástico do que peixes, alerta Fórum de Davos.

Com recordes de estresse térmico em recifes de coral e avanço acelerado do nível do mar, pesquisadores alertam para o aumento dos riscos ambientais, econômicos e sociais

A degradação dos oceanos continua avançando em diversos indicadores ambientais, enquanto as respostas de governos, instituições e mercados permanecem abaixo da escala considerada necessária pelos especialistas. A conclusão é do Barômetro Starfish 2026, relatório anual sobre a saúde dos oceanos, publicado na revista científica State of the Planet, em 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos.

Produzido por 29 especialistas de 14 países, o estudo reúne dados recentes sobre aquecimento dos oceanos, elevação do nível do mar, perda de biodiversidade, poluição e governança oceânica. Segundo os autores, diversos indicadores seguem em trajetória de deterioração, enquanto medidas de proteção, conservação e financiamento avançam em ritmo mais lento.

“Nenhum ano como 2026 deixou tão claro que o oceano está na interseção entre geopolítica, comércio e finanças”, disse Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da ONU para os Oceanos. “Este Dia Mundial dos Oceanos deve nos levar a refletir tanto sobre os riscos quanto sobre as oportunidades à frente, porque não existe um caminho crível para a ação climática, a segurança energética e a segurança econômica sem colocar o oceano no centro”.

Segundo Thomson, clima, biodiversidade e proteção dos oceanos estão cada vez mais interligados, exigindo avanços mais rápidos na redução do uso de combustíveis fósseis e maiores investimentos em resiliência oceânica e economias azuis.

Entre os resultados apresentados, a taxa média de elevação do nível do mar atingiu 4,2 milímetros por ano entre 2012 e 2025, quase o dobro da observada em décadas anteriores. Em junho/2025, ondas de calor marinhas severas afetaram 20% da superfície oceânica global, enquanto 84,4% dos recifes de coral foram expostos a níveis de estresse térmico capazes de provocar branqueamento.

“Ao analisar aquecimento, poluição e perda de biodiversidade como parte de um mesmo sistema, conseguimos compreender não apenas o que está acontecendo, mas também como esses fenômenos se relacionam”, diz Marina Lévy, presidente do comitê científico do Barômetro Starfish.

O relatório também aponta que ¼ dos primeiros mil metros da coluna d’água dos oceanos já está submetido a múltiplas pressões ambientais simultâneas, resultado da combinação de fatores como aquecimento, acidificação, perda de oxigênio e outras alterações associadas às mudanças climáticas.
Emissões, plástico e pesca continuam pressionando os oceanos

Segundo o documento, as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) atingiram um recorde de 38,1 bilhões de toneladas em 2025, enquanto os avanços na descarbonização do transporte marítimo seguem limitados. A poluição plástica também continua crescendo, com cerca de 130 milhões de toneladas já acumuladas nos oceanos e milhões de toneladas adicionais chegando ao ambiente marinho todos os anos.

O relatório também identifica falhas persistentes na governança dos oceanos. Segundo os autores, 67% dos navios pesqueiros industriais que operam em áreas marinhas protegidas não são monitorados publicamente.

Além disso, 31 contratos ativos de exploração mineral em águas profundas seguem em vigor, levantando preocupações sobre potenciais impactos de longo prazo nos ecossistemas marinhos. O número de espécies marinhas ameaçadas já alcança 1.685 em escala global.

Impactos econômicos

Segundo o levantamento, tempestades e inundações provocaram prejuízos estimados em US$ 212 bilhões em 2024, quase o dobro do registrado em 2023. As perdas associadas à pesca, aquicultura, manguezais, recifes de coral e infraestrutura portuária já atingem valores comparáveis aos custos sociais mais amplos relacionados às emissões de carbono.

O estudo também aponta aumento nos custos dos seguros marítimos em razão da combinação entre riscos climáticos e geopolíticos. Em 2025, 8.260 pessoas perderam a vida no mar.

Os impactos econômicos dos oceanos vão muito além das regiões costeiras. “Nem toda nação é definida por sua costa, mas toda nação é moldada pelo comércio — e o comércio depende de um oceano saudável”, disse Chantal Line Carpentier, chefe da área de Comércio, Meio Ambiente e Mudança Climática da Divisão de Comércio Internacional e Commodities da ONU Comércio e Desenvolvimento. “Mais de 80% do comércio mundial em volume é transportado por via marítima, e os setores baseados nos oceanos movimentam aproximadamente US$ 2,5 trilhões, perto de 7% do comércio global”.

Segundo ela, cerca de 600 milhões de pessoas dependem dos oceanos para sua subsistência, e essa resiliência está sob pressão crescente devido às mudanças climáticas, à poluição e à perda de biodiversidade.

Avanços em proteção

Apesar do cenário descrito pelo relatório, a edição de 2026 também analisa alguns avanços institucionais. Dois acordos internacionais entraram em vigor, entre eles o Tratado do Alto-Mar (BBNJ). As áreas marinhas protegidas ultrapassaram pela primeira vez 10% da superfície oceânica global. Novas medidas de proteção para tubarões e raias também foram adotadas no âmbito do comércio internacional.

Os investimentos na chamada economia oceânica continuam em expansão. O relatório contabiliza mais de 40 fundos dedicados ao setor e mais de 2.000 startups atuando em inovação marinha. Ainda assim, os autores observam que apenas 3,2% do oceano é atualmente considerado altamente ou totalmente protegido.

Para Angelique Pouponneau, principal negociadora para Oceanos da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), os próximos anos serão decisivos para avaliar se os compromissos assumidos pelos governos serão transformados em ações concretas.

“Os próximos 2 anos serão decisivos para determinar se os compromissos globais relacionados ao oceano serão convertidos em ação coordenada. A saúde do oceano sustenta a resiliência de comunidades e economias em todo o mundo, incluindo economias insulares cujo futuro está intimamente ligado a um oceano saudável e produtivo”.

Enfraquecimento do monitoramento

Pela primeira vez, o Barômetro Starfish destaca o enfraquecimento dos sistemas de observação oceânica como um risco relevante para a compreensão das mudanças em curso.

As observações oceânicas in situ alcançaram cerca de 120 mil medições por dia em 2025. No entanto, redes consideradas fundamentais para o monitoramento dos oceanos — como boias ancoradas e observações realizadas por embarcações — vêm apresentando redução desde a pandemia.

Segundo o relatório, fatores como restrições orçamentárias, diminuição das atividades de campo e redução de pessoal especializado têm contribuído para esse cenário. Os autores argumentam que toda a base de conhecimento apresentada no relatório depende dessa infraestrutura de monitoramento.

“Ao conectar observações oceânicas, ciência e impactos sociais, o Barômetro ajuda a identificar lacunas de conhecimento, orientar prioridades de pesquisa e investimento e apoiar ações mais coordenadas”, disse Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International.

Segundo ele, os sistemas de observação oceânica devem ser considerados infraestrutura estratégica para resiliência climática, redução de riscos de desastres e cooperação científica internacional. (ecodebate)

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