quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Água para todos, menos para o Xingu

Em 27/07/2011 foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto nº7535, instituindo o Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Água, denominado “Água Para Todos”.
Dentre suas diretrizes estão a “priorização da população em situação de extrema pobreza” e o “fomento à implementação de infraestrutura e equipamentos de captação, reservação, tratamento e distribuição de água, oriunda de corpos d’água, poços ou nascentes e otimização de seu uso”. Tudo isso articulado com os órgãos responsáveis pela segurança alimentar e nutricional e pela saúde e meio ambiente, dentre outros.
Não há como deixar de notar a enorme incoerência, mesclada com pitadas de demagogia e sadismo, por parte do Governo Federal.
Ao mesmo tempo em que edita uma medida de vital importância para qualquer ser humano, o acesso à água potável, reconhecido em julho/2010 pela Assembleia Geral da ONU como um direito universal, Dilma, Lobão e companhia, continuam com a insanidade de construir Belo Monte.
Quando se fala em hidrelétrica, a correlação natural que qualquer cidadão faz é com inundação, causando o deslocamento de famílias e a perda de biodiversidade, com a morte de vários espécimes animais e vegetais. O projeto de barramento do Xingu consegue a proeza de juntar duas catástrofes ambientais: o alagamento de 500 km², parte deles com floresta nativa, e o ressecamento de 100 km de um dos maiores rios do mundo.
O discurso do Governo Federal e do consórcio Norte Energia – NESA é tão cínico que afirma que “nenhuma área indígena será inundada, o que garantirá a permanência das comunidades indígenas em suas terras”.
A afirmação não é totalmente mentirosa, pois, de fato a inundação para a formação do lago da UHE Belo Monte não atingirá terras indígenas, a princípio. O cinismo está no fato de, tanto a NESA, quanto o governo Dilma, incluindo o presidente do IBAMA, saberem que o problema (um deles) para as Terras Indígenas Paquiçamba e Arara da Volta Grande será a redução de 80% do volume de água do rio Xingu, no trecho em que passa no meio das duas áreas indígenas.
Assim, a permanência dos índios em suas terras está ameaçada, não pelo aumento na quantidade de água, mas por sua falta. Além de cínico é um discurso sádico, pois sabem, também, que os peixes do Xingu representam 80% da fonte de proteína das comunidades nativas.
Dilma, Curt Trennenpohl, Edson Lobão, o governador Jatene, NESA e demais defensores de Belo Monte estão autorizando medidas que, se não forem evitadas, serão responsáveis pelo extermínio das últimas populações indígenas da região de Altamira, contribuindo com a invasão de suas terras, assassinatos, perda da identidade cultural, desnutrição e danos irreparáveis na saúde e bem estar das aldeias.
E o governo brasileiro vem falar de “acesso universal à água”, “segurança alimentar e nutricional”, “saúde e meio ambiente”? Qual o objetivo? Fazer “média” com a ONU e a OEA? Faça-me o favor, Dona Dilma…
O programa deveria ser rebatizado: “Água Para Todos, Menos Para a Volta Grande do Xingu”. Soaria menos hipócrita. (EcoDebate)

Bancos de água

EUA: ‘Bancos de água’, reservas de água para uso futuro ou para venda, geram polêmica e processos judiciais
‘Bancos de água’ geram polêmica e processos judiciais nos Estados Unidos – Peter Key sabia que havia algo de estranho quando o nível da água no seu tanque de peixes tropicais começou a diminuir no verão passado. Depois ele percebeu que eram necessários 40 minutos para encher de água a máquina de lavar roupa e que não era mais possível dar descarga nos vasos sanitários.
Mas, apesar de Key e os seus vizinhos estarem dispendendo US$ 14 mil para aumentar a profundidade do poço que fornece água à sua comunidade, eles identificaram a provável causa do problema.
Eles responsabilizam os “bancos de água”, um sistema no qual os detentores dos direitos de uso da água – na sua maioria pessoas da região rural no oeste – fazem reservas em enormes cisternas subterrâneas para uso futuro ou para venda às áreas urbanas que crescem rapidamente.
Assim, a pequena companhia de fornecimento de água que atende ao bairro foi à justiça estadual a fim de contestar os interesses dos fazendeiros ricos que dominam dois dos maiores aquíferos do país.
Os processos movidos são vistos como um teste para determinar a magnitude e a abrangência das operações dos bancos de água. Segundo a argumentação contida nos processos, essas operações resultaram em uma redução enorme do nível dos aquíferos, provocando danos geológicos, interrupção de fornecimento e obras de reparo bastante caras.
Os administradores das reservas de água e os fazendeiros cujos interesses eles defendem são há muito tempo uma força política aqui no Condado de Kern, um centro de poder político conservador. Mas, mesmo no interior desses círculos fechados de poder, existe uma fricção crescente já que governos, empresas – especialmente as de agronegócios – e uma população que teve um aumento de 26% em um período de uma década competem pela água. Até mesmo uma fruta que está na moda, a romã, desempenha um papel nestas guerras pela água.
Um termo de entendimento entre a pequena empresa fornecedora de água que entrou com o processo na justiça, o Distrito de Armazenamento de Água Rosedale-Rio Bravo, que atende a 20 mil consumidores, e a Agência de Água do Condado de Kern, que opera um dos bancos de água, estipulou que qualquer problema resultante dos seus bancos será responsabilidade da agência.
Mas a agência afirmou que não tem culpa alguma e não se dispôs a cobrir nenhum custo.
“Durante dois anos, nós pedimos a eles que fizessem isso, mas eles nada fizeram”, reclama Eric Averett, gerente geral do distrito.
Os distritos menores e a cidade de Bakersfield acabaram tendo que pagar pelas obras para aumentar a profundidade dos poços. As duas empresas que operam os bancos de água, uma pública e uma semipública, negaram ter qualquer responsabilidade quanto ao problema.
A água continua sendo uma questão problemática. Todo mundo está reclamando, explica Key, um treinador de cavalos, que teve que pegar água emprestada com o vizinho para dar banhos nos animais que estão sob a sua responsabilidade.
Os bancos de água tem sido amplamente adotados como um instrumento para tornar os suprimentos de água confiáveis, sustentáveis e comercializáveis. Grupos que tradicionalmente não se entendem – os ambientalistas que desejam rios preservados para os peixes e os fazendeiros que cultivam pistaches e romãs – concordam que o sistema de bancos de água se constitui em uma estratégia útil para o gerenciamento de um recurso vital. Um grupo de consultoria do Estado de Idaho, o WestWater Research, calcula que existam até 30 bancos de água em operação no oeste dos Estados Unidos.
E, atualmente, quando o aquecimento global faz com que a neve acumulada no inverno se derreta mais cedo, fazendo com que os aquíferos recebam um excesso de água no início da primavera e pouca água no verão, a necessidade de armazenamento aumenta.
“Os bancos de água são uma forma que encontramos para lidar com a questão da volatilidade do fornecimento”, afirma Bruce Aylward, um especialista em economia de recursos de água que fundou a companhia Ecosystem Economics, no Estado de Oregon.
O conceito econômico é simples. Os fazendeiros, por meio dos distritos que controlam a água, e que são por eles controlados, adquiriram terras que lhes dá o direito de usar água, ou fizeram contratos para a utilização de suprimentos de água que fluem para a região em que eles se encontram. Os usuários municipais e industriais também têm direitos.
Embora alguns distritos imponham restrições à venda de água a áreas urbanas distantes, outros permitem essa prática. Um distrito do Condado de One Kern, Berrenda Mesa, por exemplo, vendeu parte dos seus direitos estaduais pelo preço de US$ 3.000 por acre-pé (aproximadamente 24 centavos de dólar por metro cúbico) – um valor cerca 90% maior do que os custos. Os compradores foram os distritos que fornecem água a casas e campos de golfe em Palm Springs.
O valor da operação dos bancos de água reside na certeza de que a água estará disponível quando for necessária. Nos anos de muita chuva, um excesso de água repõe os níveis do aquífero excessivamente utilizado, o que se constitui em uma linha de defesa contra uma seca prolongada.
O subsolo poroso desta região, abaixo do cascalho e da areia trazidos da Sierra Nevada pelo Rio Kern, é ideal para este fim.
“Essa estrutura subterrânea funciona como um balde enorme”, explica Florn Core, ex-gerente de recursos de água da prefeitura de Bakersfield, que fica em um deserto natural, no qual o índice médio de pluviosidade anual é de 14,5 centímetros.
Mas, graças às reservas locais e ao acesso à água transportada pelos governos estadual e federal, o Condado de Kern é um paraíso agrícola para a produção de cenoura, romã e pistache.
Mudanças na economia agrícola nos últimos 15 anos, incluindo o aumento da popularidade da romã e do pistache, fizeram com que vários fazendeiros passassem a cultivar culturas permanentes, deixando de arar os campos para culturas sazonais em anos de seca. Assim, o sistema de bancos de água cresceu.
Desde 1978, quando este sistema teve início aqui, 5,7 milhões de acres-pés (7,03 bilhões de metros cúbicos) – o que corresponde a cerca de um terço da vazão anual do Rio Colorado – foram armazenados nos dois maiores bancos de água, diz James M. Beck, gerente geral da Agência de Água do Condado de Kern, que regulamenta o uso local. Juntos, os dois bancos têm uma capacidade de armazenamento de cerca de 2 milhões de acres-pés (2,5 bilhões de metros cúbicos).
Antigamente acreditava-se que o bombeamento de quantidades maciças de água armazenada nos anos de seca provocava pouco impacto na geologia do subsolo. Essa crença persistiu até o fluxo da água do chuveiro começar a falhar. Atualmente os engenheiros acreditam que essa prática reverteu o gradiente hidráulico subterrâneo da água, transformando um aquífero em forma de colina, que podia ser alcançado por meio de poços rasos, em um verdadeiro vale.
O fator que precipitou o uso maciço da água armazenada foi uma seca que teve início em 2007. A alocação de água do norte da Califórnia para o Condado de Kern foi suspensa. Depois, nos 40 meses a partir de março de 2007, cerca da metade da capacidade dos bancos de água foi bombeada dos reservatórios para impedir que as culturas de frutas e amêndoas morressem.
“Eu não acredito que alguém tenha compreendido integralmente a magnitude do impacto provocado pelas pessoas sobre os reservatórios de água”, diz Averett, do Distrito de Armazenamento de Água Rosedale-Rio Bravo.
A POM Wonderful, que faz parte do império de sucos de frutas de Stewart e Lynda Resnick, obtém os seus lucros com as árvores que são mantidas verdes pela Autoridade de Banco de Água de Kern. Essa instituição, que é tecnicamente uma agência pública, é controlada pela Paramount Farming Corporation, que, assim como a POM, é uma subsidiária da Roll Global, uma companhia de propriedade do bilionário casal Resnick.
Ernest Conant, um advogado do Banco de Água de Kern, discorda das principais queixas contidas no processo – de que o bombeamento rápido provocou problemas na zona oeste de Bakersfield e que as análises ambientais, que não anteciparam o problema, foram inadequadas.
“As pessoas têm o direito de operar bancos de água, mas isso tem que ser feito de uma forma que não prejudique significativamente os outros”, diz ele. “E eu acho que o nosso programa conseguiu fazer isso”.
Beck, cuja agência administra o Banco de Água Pioneer, e que é acusado em um outro processo judicial, afirma: “Nós não vimos dados suficientes que indicassem que as nossas operações tivessem provocado a redução do nível de água”.
Como há muita coisa em jogo, muita gente espera que haja um acordo antes que um juiz possa tomar uma decisão quanto a essas questões. Os problemas de fornecimento de água diminuíram de intensidade e há quem afirme que o aquífero se recuperou por si próprio – embora Averett afirme que os níveis da água no subsolo estejam mais baixos do que antes. Um processo separado movido por ambientalistas um ano atrás contesta uma operação comercial da década de noventa que transferiu o Banco de Água de Kern do Estado para um grupo de fornecedores de água.
Todos os três processos poderão ter amplas consequências.
“Todo mundo quer controlar um banco de água e vender as reservas. Todo mundo”, enfatiza Core. “Se um processo como o da Rosedale-Rio Bravo tiver sucesso, alguém que poderá estar neste momento trabalhando em um projeto de banco de água poderá paralisar as suas operações subitamente depois que começar a fazer as contas relativas ao dinheiro”. (EcoDebate)

Crise de abastecimento de água em São Paulo

Crise de abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo é um problema ecológico e social.
Problema na represa de Guarapiranga não é apenas acológico, mas também social - Pesquisa mostra que moradores da região da Guarapiranga não são os principais responsáveis pelo problema.
A crise de abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo não é um problema apenas ecológico, mas social. É o que diz estudo de Frederico Bertolotti, defendido em fevereiro de 2011 como dissertação de mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação de Ana Fani Alessandri Carlos.
Problema na represa Guarapiranga não é apenas ecológico, mas também social.
Bertolotti estudou o crescimento urbano na região da represa Guarapiranga, na zona sul da cidade de São Paulo, por meio de observações de campo, leitura de textos e análise de dados oficiais de 2006 de diversos órgãos, entre eles a Sabesp, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a ONG Instituto Socioambiental, e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Segundo ele, os moradores dessa região são responsabilizados pela poluição das águas da represa e indiretamente pela crise de abastecimento de água que ameaça São Paulo. “O objetivo do trabalho era desconstruir essa ideia. Há outros fatores que contribuem para piorar a qualidade da água”, afirma.
Para o pesquisador, existem ao menos três outros fatores importantes para compreender a crise no abastecimento de água na região metropolitana de São Paulo. O primeiro é o consumo desigual entre os bairros. Regiões nobres como Pinheiros e Perdizes consomem até cinco vezes mais água que a periferia. “Inclusive, os moradores das regiões próximas à Guarapiranga sofrem com falta de água. É irônico. Justo quem mora perto da fonte de água tem dificuldade em consumi-la”, afirma. Além disso, o tipo de consumo entre os bairros é qualitativamente diferente. “Em bairros nobres se utiliza água em fontes, piscinas, em um número maior de banheiros por residência, além do uso básico. Na periferia o uso é quase que exclusivamente para fins essenciais”.
Outro fator é a carência de saneamento básico nas áreas de mananciais. “Na região da Guarapiranga, apenas 54% das residências possuem coleta de esgoto. E destes, cerca de 80% retorna à represa sem tratamento por não existirem sistemas de escoamento e nem capacidade de tratamento do esgoto coletado na região”, afirma Bertolotti. Ampliando a análise para toda a metrópole percebe-se que 82% das moradias possuem coleta de esgoto. Desse total, apenas cerca de 59% recebe tratamento e o restante acaba sendo despejado em diferentes cursos d’água espalhados pela metrópole. “Isso mostra que a Sabesp não tem infraestrutura suficiente para tratar todo o esgoto coletado”.
Por fim, o terceiro fator é o desperdício de água dentro do próprio sistema operado pela Sabesp. São perdidos 20,8 metros cúbicos (m³) de água por segundo. A Guarapiranga produz 14,8 m³ e o consumo total da metrópole é de 67 m³ por segundo. “Perde-se mais água do que a Guarapiranga produz. As perdas são da ordem de 31% segundo dados da própria empresa e ocorrem por vazamentos e ligações irregulares”, explica Bertolotti.
Ocupação da região da represa se deve à periferização da cidade de São Paulo.
Ocupação
O pesquisador credita a ocupação das áreas de mananciais a um processo mundial que é a periferização das cidades. “A cidade é negada ao trabalhador empobrecido, ela o segrega. Com isso, conforme há a valorização de áreas periféricas, os antigos moradores, que não conseguem pagar um aluguel ou comprar um imóvel, vão habitar em regiões cada vez mais distantes do centro”, explica. Na zona sul de São Paulo esse deslocamento esbarra nas áreas de mananciais. “A crise de abastecimento, portanto, não é apenas ecológica, mas social”.
Áreas urbanizadas e parques podem ser encontrados na área da Guarapiranga.
Além disso, o pesquisador mostra que não são apenas classes mais pobres que habitam a região da represa. “Lá existe um bairro fechado, a Riviera Paulista, onde existem casas luxuosas. É comum ver os moradores desse bairro velejarem e andarem de jet-ski em uma margem da represa e enquanto na outra os moradores mais pobres se divertem de outras maneiras”, explica. Por lá também já existem bairros de classe média, bem urbanizados, além de parques e espaços para agricultura.
Geração de energia
Segundo Bertolotti, as represas Billings e Guarapiranga não foram criadas para o abastecimento de água, mas sim para a geração de energia elétrica. “No início do século 20, sanitaristas defendiam que as represas deveriam abastecer a região, pois a cidade crescia de forma muito rápida e já enfrentava problemas de escassez de água para o abastecimento público. Mas o setor hidroenergético, representado pela empresa Light, de capital internacional, queria o seu uso para geração de energia. Prevaleceu o desejo da empresa”, lembra. Ele ainda diz que quanto mais poluídas eram as águas da bacia, mais se confirmava o monopólio da Light sobre elas. “A empresa não tratava o esgoto por interesse. Se a água estivesse suja não seria utilizada para abastecimento e um maior volume seria empregado na geração de energia”.
Atualmente a Billings possui uso misto, mas ainda é utilizada para gerar energia, contribuindo com apenas 5% do consumo energético da região metropolitana de São Paulo. “Uma das propostas que faço em meu trabalho é o de utilizar essa água para abastecimento e buscar esses 5% de energia em outro lugar”, afirma Bertolotti. (EcoDebate)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Bioplástico é mesmo plástico?

Bioplástico: nome é diferente, mas o plástico é o mesmo
As garrafas de Coca-Cola e de Pepsi, mesmo feitas a base de plantas, ainda prejudicam o meio ambiente.
Será que o plástico feito com material vegetal é melhor? Em março, a Pepsi divulgou para a imprensa “a primeira garrafa feita 100% a base de plantas, uma garrafa PET feita com fontes renováveis”. Em seguida, a Coca devolveu: “Odwalla, do grupo Coca-Cola é a primeira indústria a comercializar embalagens feitas 100% a base de plantas”. As manchetes seguintes foram ainda mais fortes: “Garrafas da Pepsi: agora sem plástico” (Christian Science Monitor), “Pepsi pressiona mercado com garrafas feitas a base de plantas, uma garrafa 100% sem plástico” (GreenBiz), “Coca-Cola está desenvolvendo garrafas de plástico reciclado e materiais vegetais” (Guardian). No mês passado a Coca-Cola lançou um comercial para sua água mineral Dasani argumentando que a embalagem feita com material vegetal foi desenvolvida para “fazer a diferença”.
Mas, apesar de todo o barulho, as garrafas a base de plantas ainda resultam no velho e conhecido plástico. As empresas simplesmente substituíram combustíveis fósseis (como o petróleo e o gás natural) pelo etanol. E embora o etanol seja renovável e fonte de baixa emissão de carbono, o plástico resultante é quimicamente idêntico ao PET (polietileno tereftalato) ou ao PEAD (polietileno de alta densidade), materiais comumente usados na fabricação de garrafas plásticas. E, uma vez que o material vegetal se torna plástico, eles causam os mesmos impactos ambientais que um plástico feito de combustível fóssil. Ou seja, como não são biodegradáveis, poluem os oceanos e o solo e ainda contaminam os alimentos com químicos que migram da embalagem para o conteúdo interno. “Eles estão simplesmente utilizando plantas para fazer os mesmos polímeros que se encontram em plásticos. Isso não tem efeito nenhum para o meio ambiente”, explica Marcus Eriksen, um dos criadores da 5 Gyres, entidade que estuda a poluição de plástico em áreas como a grande mancha de lixo do Oceano Pacífico.
Eriksen e sua equipe acabam de explorar as cinco maiores correntes do mundo onde o plástico se acumula. Eles acharam plástico se acumulando em várias das ilhas pesquisadas e no estômago de pássaros e peixes mortos que consumiram plástico, pensando se tratar de pequenos peixes ou algas marinhas.
O plástico feito a base de plantas (ou não) prejudica a saúde de humanos da mesma forma. Os perigos de aditivos químicos normalmente usados em sua produção – como ftalatos e bisfenol A – têm sido amplamente divulgados: os dois já foram associados à obesidade, autismo e várias formas de câncer.
“Algumas formulas de bioplásticos usam os mesmos tipos de aditivos que os plásticos feitos com petróleo ou gás natural”, reconhece Melissa Hockstad, vice presidente da SPE (The Society of the Plastics Industry), uma associação de indústrias de plástico dos Estados Unidos. “Algumas empresas estão trabalhando para conseguir alternativas” diz Hockstad. A dúvida é: se as empresas “estão trabalhando no desenvolvimento”, esses bioaditivos ainda não existem? (EcoDebate)

Plásticos a partir de fibras naturais

Pesquisadores da UNESP desenvolvem plásticos a partir de fibras naturais extraídas de resíduos agroindustriais
Superplásticos naturais – De resíduos agroindustriais saem fibras que poderão dar origem a uma nova geração de superplásticos. Mais leves, resistentes e ecologicamente corretos do que os polímeros convencionais utilizados industrialmente, as alternativas vêm sendo pesquisadas pelo grupo coordenado pelo professor Alcides Lopes Leão na Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Botucatu.
Obtidas de resíduos de cultivares como o curauá (Ananas erectifolius) – planta amazônica da mesma família do abacaxi –, além da banana, casca de coco, sisal, o próprio abacaxi, madeira e resíduos da fabricação de celulose, as fibras naturais começaram a ser estudadas em escalas de centímetros e milímetros pelo professor Lopes Leão e colegas no início da década de 1990.
Ao testá-las nos últimos dois anos em escala nanométrica (da bilionésima parte do metro), os pesquisadores descobriram que as fibras apresentam resistência similar às fibras de carbono e de vidro. E, por isso, podem substituí-las como matérias-primas para a fabricação de plásticos. O resultado são materiais mais fortes e duráveis e com a vantagem de, diferentemente dos plásticos convencionais originados do petróleo e de gás natural, serem totalmente renováveis.
“As propriedades mecânicas dessas fibras em escala nanométrica aumentam enormemente. A peça feita com esse tipo de material se torna 30 vezes mais leve e entre três e quatro vezes mais resistente”, disse Lopes Leão à Agência FAPESP.
Em testes realizados pelo grupo por meio de um acordo de pesquisa com a Braskem, em que foi adicionado 0,2% de nanofibra ao polipropileno fabricado pela empresa, o material apresentou aumento de resistência de mais de 50%.
Já em ensaios realizados com plástico injetável utilizado na fabricação de para-choques, painéis internos e laterais e protetor de cárter de automóveis, em que foi adicionado entre 0,2% e 1,2% de nanofibras, as peças apresentaram maior resistência e leveza do que as encontradas no mercado atualmente, segundo o cientista.
“Em todas as peças utilizadas pela indústria automobilística à base de polipropileno injetado nós substituímos a fibra de vidro pela nanocelulose e obtivemos melhora das propriedades”, afirmou.
Além do aumento na segurança, os plásticos feitos de nanofibras possibilitam reduzir o peso do veículo e aumentar a economia de combustível. Também apresentam maior resistência a danos causados pelo calor e por derramamento de líquidos, como a gasolina.
“Por enquanto, estamos focando a aplicação das nanofibras na substituição dos plásticos automotivos. Mas, no futuro, poderemos substituir peças que hoje são feitas de aço ou alumínio por esses materiais”, disse Lopes Leão.
Por meio de um projeto apoiado por meio do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP, a fibra de curauá passou a ser utilizada no teto, na parte interna das portas e na tampa de compartimento da bagagem dos automóveis Fox e Polo, fabricados pela Volkswagen.
Outras indústrias automobilísticas já manifestaram interesse pela tecnologia, segundo Lopes Leão. Entre elas está uma empresa indiana, cujo nome não foi revelado, que tomou conhecimento da pesquisa após ela ser apresentada no 241º Encontro e Exposição Nacional da Sociedade Norte-Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), que ocorreu no final de março em Anaheim, nos Estados Unidos.
Fibras mais promissoras
Segundo o coordenador da pesquisa, além da indústria automobilística as nanofibras podem ser aplicadas em outros setores, como o de materiais médicos e odontológicos.
Em um projeto realizado em parceria com a Faculdade de Odontologia da Unesp de Araraquara, os pesquisadores pretendem substituir o titânio utilizado na fabricação de pinos metálicos para implantes dentários pelas nanofibras.
Em outro projeto desenvolvido com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu, o grupo utiliza as nanofibras para desenvolver membranas de celulose bacteriana vegetal.
Em testes de biocompatibilidade in vivo, realizados com ratos, os animais sobreviveram por seis meses com o material. “Nenhuma pesquisa do tipo tinha conseguido atingir, até então, esse resultado”, afirmou Lopes Leão.
Por meio de outros projetos financiados pela FAPESP, o grupo da Unesp também está estudando a utilização de fibras naturais para o desenvolvimento de compósitos reforçados e para o tratamento de águas poluídas por óleo.
De acordo com o coordenador, entre as fibras de plantas, as do abacaxi são as que apresentam maior resistência e vocação para serem utilizadas na fabricação de bioplástico.
Dos materiais, o mais promissor é o lodo da celulose de papel, um resíduo do processo de fabricação que as indústrias costumam descartar em enormes quantidades e com grandes custos financeiros e ambientais em aterros sanitários.
Para utilizar esse resíduo como fonte de nanofibras, Lopes Leão pretende iniciar um projeto de pesquisa com a fabricante de papel Fibria em que o lodo da celulose produzido pela empresa seria transformado em um produto comercial. “É muito mais simples extrair as nanofibras desse material do que da madeira, porque ele já está limpo e tratado pelas fábricas de papel”, disse.
Para preparar as nanofibras, os cientistas desenvolveram um método em que colocam as folhas e caules de abacaxi ou das demais plantas em um equipamento parecido com uma panela de pressão.
O “molho” resultado dessa mistura é formado por um conjunto de compostos químicos e o cozimento é feito em vários ciclos, até produzir um material fino, parecido com o talco. Um quilograma do material pode produzir 100 quilogramas de plásticos leves e super-reforçados. (EcoDebate)

Abacaxi e banana viram plástico para veículos

Um superplástico para carros feito com fibras retiradas de abacaxi e banana foi desenvolvido por pesquisadores brasileiros. Segundo Alcides Leão, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as propriedades desse plástico são "incríveis". "Eles são leves, mas muito fortes - 30% mais leves e entre três e quatro vezes mais fortes", afirma o pesquisador. De acordo com ele, o plástico poderá ser usado na fabricação de diversas partes de carros, como para-choques e painéis.
O plástico criado tem outra vantagem: como deixará os carros mais leves, levará a uma economia de combustível. Leão afirma que esses plásticos poderão ser usados em dois anos.
Em 2009, outro brasileiro, o professor de engenharia química Leonardo Simon, mostrou na Universidade de Waterloo, no Canadá, que a palha do trigo poderia fazer parte de peças de veículos e substituir materiais não renováveis obtidos por meio da mineração.
A palha é uma alternativa viável ao uso de carbonato de cálcio, talco e mica.
Transformada em um pó, ela é misturada com polipropileno (plástico) e pode formar peças tanto para a parte interna quanto para a externa dos veículos. No ano passado, o novo plástico já era utilizado em algumas peças do carro Ford Flex. (OESP)

Resíduos agrícolas para produzir PET

Empresas usam resíduos agrícolas para produzir PET
Iniciativas ainda são alvo de dúvidas e controvérsias; presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET diz que desconhece a patente
A Pepsico anunciou recentemente ter conseguido produzir uma garrafa apenas com resíduos agrícolas, como cascas de pinheiro, laranja e batata. Em 2012, a empresa colocará a embalagem experimentalmente no mercado, num projeto-piloto. Depois, a ideia é expandir o seu uso. Desde o ano passado, a Coca-Cola produz a "plant bottle" (garrafa vegetal, em tradução livre) - embalagem feita com até 30% de cana-de-açúcar.
Tendência
Fábrica da Coca nos EUA; no Brasil, a companhia diz produzir uma embalagem feita com até 30% de cana-de-açúcar; a concorrente Pepsico deve lançar embalagem análoga
Nos dois casos, a boa notícia é a substituição de uma fonte não renovável - o petróleo - por outra renovável na produção do PET (sigla para politereftalato de etileno).
A demanda por PET só cresce no País. De 1994 até 2010, o aumento chegou a 525% - no último ano foram produzidas 500 mil toneladas.
Mas as iniciativas ainda são controversas. Até mesmo o presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), Auri Marçon, tem dúvidas.
Ele louva a iniciativa das empresas em pesquisar matérias-primas mais sustentáveis, mas faz ressalvas. Diz não conhecer "o pulo do gato" que permitiu à Pepsico fazer uma garrafa apenas com resíduos agrícolas.
"Tentei inúmeros caminhos e não consegui descobrir a rota. Os cientistas do setor de PET desconhecem a rota química ou a patente que tenha sido adotada e dizem que isso é um desafio extraordinariamente difícil", afirmou Marçon.
Para ele, é preciso ter cuidado ao falar de um produto "que ainda não está na mão". "Respeito, porque é empresa de renome, mas gostaria de entender melhor como fizeram." O Estado solicitou entrevista à Pepsico, mas ela não foi concedida.
Dificuldades técnicas
O plástico PET é produzido a partir da reação química de dois componentes: MEG (monoetileno glicol), responsável por cerca de 30% de seu peso, e o PTA (ácido politereftálico), responsável pelos 70% restantes.
Segundo a Coca-Cola, "atualmente, podemos produzir em escala industrial o MEG a partir de origem vegetal". A empresa diz, porém, que trabalha "para desenvolver o outro componente, o PTA, também a partir de fonte vegetal renovável". Mas não há previsão de quando o objetivo será alcançado.
Marçon mostra uma incongruência no caso da Coca-Cola. Ele explica que o resíduo da cana é mandado do Brasil para a Índia, onde está parte da matéria-prima, para produzir o MEG. A resina PET é fabricada no país asiático e depois volta para o Brasil para embalar o refrigerante.
"Se for levar em consideração essa equação logística, provavelmente não há um equilíbrio ambiental, não é viável em termos de meio ambiente. Porque vai transportar o líquido lá para a Ásia, olha a emissão que se tem de combustível de navio", avalia o presidente da Abipet. Mas ele também afirma que, no futuro, esse conceito pode trazer bons resultados.
Distribuição
A plant bottle da Coca ainda hoje é comercializada no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Belo Horizonte, em Curitiba, no Recife e em Porto Alegre.
O processo é usado para produzir embalagens de 500 ml e 600 ml - mas ainda não atingiu o total fabricado dessas garrafas. A empresa não informou, porém, quanto do total produzido hoje é de plant bottle. Segundo a assessoria de imprensa da Coca, a meta da empresa "é que, até 2014, todos os seus produtos comercializados em embalagens PET sejam em plant bottle".
Crítica
Auri Marçon – Presidente da ABIPET
"Eu vejo com bons olhos que empresas bem conceituadas no mercado estejam dedicando energia e pesquisando esse novo caminho. Mas é preciso ter cuidado para fazer propaganda de uma coisa que ainda não está na mão."
CRONOLOGIA
1941 - Invenção
A primeira amostra da resina foi desenvolvida pelos ingleses Whinfield e Dickson.
O poliéster se apresentou como um substituto para o algodão e passou a ser usado na indústria têxtil.
1962 - Pneus
O material foi útil no período pós-guerra, quando os campos agrícolas estavam destruídos. Na década de 1960, o poliéster passou a ser usado na indústria de pneus, comprovando sua resistência mecânica.
1970 - Embalagens
No início da década de 1970, surgiram as primeiras embalagens de PET nos Estados Unidos. Logo depois, elas apareceram também no continente europeu.
1988 - Brasil
O PET chegou ao Brasil somente em 1988. Aqui, o material seguiu uma trajetória semelhante à do resto do mundo, sendo utilizado primeiramente na indústria têxtil.
1993 - Refrigerantes
Apenas a partir de 1993 o PET passou a ter forte expressão no mercado de embalagens, principalmente para os refrigerantes. Hoje, embala também água mineral, óleo de cozinha, sucos e outros. (OESP)

Calotas polares perderam 12,5 trilhões de toneladas de gelo em menos de 50 anos

Aquecimento global: é preocupante que os polos da Terra estejam cada vez menos brancos. Poluição reduz a capacidade das calotas polares de...