quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mudanças climáticas e seus impactos potenciais

As evidências das mudanças climáticas e seus impactos potenciais, segundo o IPCC
Segue um resumo, com base em informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sobre as evidências científicas das mudanças climáticas e seus impactos às vésperas do próximo encontro climático das Nações Unidas, entre 28 de novembro e 9 de dezembro, em Durban, África do Sul.
O IPCC é um órgão científico formado por um colegiado de mais de 500 especialistas, criado pelas Nações Unidas.
- As evidências de ocorrência de aquecimento global são “inequívocas” e há mais de 90% de probabilidade de que os humanos sejamos os grandes responsáveis. A principal causa é a emissão de gases causadores de efeito estufa a partir da queima de combustíveis fósseis, que prendem o calor do sol na atmosfera, aquecendo a superfície terrestre.
- Os níveis de dióxido de carbono (CO2) aumentaram cerca de um terço desde a época pré-industrial e agora atingem seu pico em 650.000 anos. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), estes níveis aumentaram em 2,3 partes por milhão (ppm) entre 2009 e 2010. Isto é mais do que a média dos anos 1990 (1,5 ppm) e da década passada (2 ppm).
- Entre 1990 e 2010, houve um aumento de 29% na “força radioativa”, ou seja, o efeito de aquecimento sobre nosso sistema climático, segundo a OMM. O CO2 permanecerá na atmosfera por décadas, intensificando o aquecimento, mesmo se todas as emissões forem detidas amanhã.
- Desde 1900, o nível do mar aumentou entre 10 e 20 centímetros. A temperatura média global da superfície aumentou 0,8º Celsius. As temperaturas médias em terra aumentaram muito mais rápido: 0,91º C desde meados do século XX, segundo o Berkeley Earth Surface Temperature Project.
- As mudanças climáticas já são visíveis na elevação do nível do mar, no recuo das geleiras alpinas e na cobertura de neve, na redução do gelo marinho no verão ártico, no derretimento do permafrost (solo permanentemente congelado) e na imigração para os polos de muitos animais e plantas em busca de hábitats mais frios.
- As “melhores estimativas” para a elevação nas temperaturas médias globais em 2010 oscilariam entre 2,4ºC e 4º C, dependendo do uso dos combustíveis fósseis. Estes números também mascarariam grandes variações, de acordo com a região e o país.
- Em 2007, o IPCC projetou uma elevação do nível do mar em pelo menos 18 centímetros até 2100. Desde então, muitos estudos apontam para o derretimento na cobertura de gelo da Groenlândia e da Antártida ocidental. A maioria dos especialistas afirmam que a elevação do nível do mar em um metro é plausível.
- Entre 20% e 30% das espécies de plantas e animais enfrentarão ameaça de extinção se as temperaturas globais aumentarem entre 1,5º e 2,5ºC, em comparação com as temperaturas médias das últimas duas décadas do século XX.
- Na África, por volta de 2020, entre 75 milhões e 250 milhões de pessoas ficarão expostas a um maior estresse hídrico. O produto da agricultura irrigada por chuvas em alguns países da África poderá ser reduzido em até 50%. Áreas similares a desertos podem se expandir entre 5% e 8% em 2080.
- Na Ásia, a disponibilidade de água doce diminuirá em meados do século. Os megadeltas costeiros correrão risco de inundações devido ao aumento do nível dos mares. A mortalidade atribuída a doenças associadas a cheias e secas aumentará.
- Eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e temporais podem se tornar mais frequentes e/ou intensos, segundo o relatório especial do IPCC, publicado em 18 de novembro.
- Estabilizar as emissões de 445 ppm a 535 ppm de CO2-equivalente limitaria a elevação da temperatura global desde a época pré-industrial entre 2ºC e 2,8º C. As concentrações estão atualmente em 389 ppm. O nível de 450 ppm corresponde à meta de 2º C, estabelecida durante as negociações climáticas da ONU de 2010, em Cancún (México).
- Os países precisam fechar um abismo colossal de CO2 para alcançar a meta de 2ºC. Cientistas do Instituto de Ciência Climática e Atmosférica, vinculado ao Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), calculam que as emissões precisam cair 8,5% até 2020 e, depois, continuar diminuindo. (EcoDebate)

Mudança Climática ameaça rios na África

Mudança Climática ameaça rios Nilo, Limpopo e Volta, na África
A mudança climática deve elevar o regime de chuvas em grandes bacias fluviais do mundo, mas os padrões meteorológicos tendem a se tornar mais instáveis, e a época das estações chuvosas pode mudar, ameaçando a agricultura, disseram especialistas nesta segunda-feira.
Além do mais, algumas bacias fluviais da África – a do Limpopo, no sul do continente, do Nilo, no norte, e do Volta, no oeste – ficarão propensas a receber menos chuvas do que atualmente, o que afetará a produção de alimentos e provocará tensões internacionais.
A perspectiva é particularmente ruim na bacia do Limpopo, que abrange partes de Botsuana, África do Sul, Zimbábue e Moçambique, numa área habitada por 14 milhões de pessoas.
“Em algumas partes do Limpopo, nem mesmo a adoção disseminada de inovações como a irrigação por gotejamento pode ser suficiente para contrabalançar os esforços negativos da mudança climática sobre a disponibilidade hídrica”, disse Simon Cook, do Centro Internacional de Agricultura Tropical.
As preocupações para o Alto Nilo Azul, que passa por Etiópia, Sudão e Egito, resultam principalmente da evaporação intensa que deveria advir do aumento previsto de 2º C a 5º C nas temperaturas médias globais.
Cientistas do Programa Desafio para Água e Comida (PDAC), uma entidade mundial de pesquisas agrícolas, disseram que isso pode causa atritos entre o Egito e a Etiópia.
A pesquisa sobre dez grandes bacias fluviais do mundo, incluindo grandes áreas da América do Sul e Ásia, foi divulgada a poucos dias de uma conferência climática global importante a ser realizada em Durban, na África do Sul.
Em geral, o relatório concluiu que o aumento da evaporação, em consequência do maior calor, será compensado pela intensificação das chuvas. Ligeiras alterações nas épocas de chuvas e estiagem, mantidas intactas nos últimos séculos, “irão criar um pesadelo gerencial e exigirão um foco muito maior do que era historicamente necessário em abordagens adaptativas e projeções climáticas de longo prazo”, disse Alain Vidal, diretor do PDAC.
“A mitigação de inundações e as estratégicas de gestão serão cruciais em áreas com clima cada vez mais errático e com mais enxurradas, como o Limpopo e o Volta.” (EcoDebate)

Nem os céticos duvidam mais

Mudanças Climáticas: Nem os céticos duvidam mais
No mês de outubro caíram sobre a cidade de São Paulo 146,9 milímetros de chuvas, mais que o dobro de outubro do ano passado (69,6 milímetros) ou 19,3% mais que a média histórica do mês. Foram registrados 68 pontos de alagamento, ante 36 em 2010. O Instituto Nacional de Meteorologia prevê (Estado, 2/11) que até dezembro a tendência estará entre 15% e 20% acima da média. E é nesse panorama que este jornal chama a atenção (24/10) para o fato de os poderes estadual e municipal haverem aplicado apenas 23,5% e 8,3% das verbas previstas para combate a enchentes este ano. No Litoral Norte do Estado, pesquisadores da Escola Politécnica da USP já haviam mostrado que a maré baixa tem aumentado sete centímetros por década, desde 1944, e previsto que nos próximos cem anos ela subirá um centímetro por ano (Estado, 24/10). Nesta mesma hora, a Tailândia está com a maior parte de seu território debaixo de água, com a própria capital inundada, centenas de mortos. Quase na mesma situação, Camboja, Laos, Paquistão, Vietnã, com milhões de pessoas atingidas.
Tudo isso sugere que governantes deveriam ler com atenção informações de relatórios científicos recentes como o Keeping Track of Our Changing Environment: From Rio 92 to Rio+20 http://www.unep.org/geo/pdfs/Keeping_Track.pdf, que acaba de ser editado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), após três anos de avaliações de centenas de cientistas. Diz esse documento que “sem ação coordenada e rápida para reduzir a depleção de recursos naturais e a poluição da atmosfera (que acentua mudanças climáticas) o crescimento da economia e outras atividades humanas poderão destruir o próprio ambiente que mantém a economia e sustenta a vida”. O balanço do relatório sobre “eventos extremos” diz que em duas décadas eles dobraram, de 200 para 400 anuais, e exigem dos governos ações preventivas rápidas; em 2010 eles foram a causa de 90% dos deslocamentos de pessoas vitimadas.
Algumas das últimas dúvidas sobre o processo de aquecimento da Terra por causa de poluentes (motivo básico dos eventos) estão sendo desfeitas também por estudos como o do físico Richard Muller, da Universidade da Califórnia – um dos chamados “cientistas céticos” em questões do clima. Depois de estudar durante dois anos os prognósticos do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos e da Nasa, concluiu ele que estão corretos, que a temperatura do solo já está 1,6 grau Celsius acima do registrado na década de 1950 (Estado, 1.º/11). Também o Instituto Terra, da Universidade de Columbia, afirma que os eventos extremos deslocarão até 10 milhões de pessoas por ano no futuro próximo. E o Institute for Atmospheric and Climate Science, de Zurique, diz que, no ritmo atual, as emissões de dióxido de carbono (CO2) chegarão a 44 bilhões de toneladas anuais (foram de 30,6 bilhões em 2010), quando a maior parte dos cientistas acredita que, se passarem de 32 bilhões de toneladas/ano, será impossível conter o aumento da temperatura da Terra em 2 graus (já subiu 0,8 grau) e eventos muito fortes.
Segundo o relatório, as emissões de dióxido de carbono aumentaram 36% entre 1992 e 2008 (para 30 bilhões de toneladas anuais). O maior aumento foi nos “países em desenvolvimento”, especialmente Brasil, China e Índia: mais 64% entre 2002 e 2008; o aumento de emissões per capita nesses países foi de 29%. Em 2010 cerca de 80% das emissões ocorreram em 19 países (industrializados e emergentes), por causa de novas indústrias e aumentos da população. Só que nos países emergentes parte das emissões maiores se deve à transferência para eles de indústrias poluidoras dos países industrializados. Geração de energia elétrica, transportes e calefação continuam sendo as principais fontes de emissões de poluentes. Na indústria, o destaque é para a de cimento, com mais 230% de emissões desde 1992. E a notícia boa é de que do final da década de 90 até 2007 as emissões de CO2 por unidade de produto baixaram 23%, graças a novas tecnologias. De qualquer forma, a indústria ainda responde no mundo por 19% das emissões e só perde para a geração de energia (26%). O desmatamento emite 17% do total, ao lado da agricultura (14%) e do transporte (13%). O restante cabe ao consumo de energia em edifícios residenciais e comerciais (8%) e ao lixo e a práticas que levam ao desperdício de água (3%).
Os dez anos mais quentes da história da Terra foram de 1998 para cá. O aumento médio da temperatura tem sido de 0,2 graus por década. No extremo norte do planeta, a elevação é maior (3 graus) por causa do derretimento de gelos polares. O nível das águas oceânicas tem aumentado 2,5 milímetros por ano (1992-2011). A concentração de CO2 tem deixado a água mais ácida – o que pode afetar a biodiversidade, a pesca, o turismo. Outra questão séria está na redução de geleiras nas montanhas, já que um sexto da população mundial depende da água que delas escorre.
E que se vai fazer, lembrando que 1,44 bilhão de pessoas ainda não contam com energia elétrica e o suprimento dependerá (principalmente na Índia e na China) da queima de petróleo e carvão? As energias renováveis ainda são apenas 13% do total, apesar do investimento de US$ 211 bilhões no ano passado.
Mas, com todo esse panorama dramático, já se sabe que não haverá progressos na reunião da Convenção do Clima no final deste mês. Na reunião dos emergentes (Brics) em Pequim, no começo do mês, eles decidiram que não assumirão compromissos obrigatórios de redução de emissões, por entenderem que essa obrigação é dos 37 países industrializados – e estes alegam que sem os emergentes tudo seria inútil, pois estes já são os maiores emissores. E sem consenso não é possível acordo em convenção da ONU. Os Brics deram prioridade a uma prorrogação do Protocolo de Kyoto, mas Japão, Rússia, Austrália e outros países não concordam. E os Estados Unidos já estão fora.
Como se sairá do impasse? (EcoDebate)

Derretimento de geleiras no Himalaia chinês

Mudanças Climáticas: Estudo registra derretimento de geleiras no Himalaia chinês
Distribuição das estações de monitoramento
Estações a mais de 4.000 m registraram 1,7º de aquecimento em 47 anos. Lagos alimentados pelo gelo das montanhas aumentaram de tamanho.
A rápida elevação das temperaturas, causada pelas mudanças climáticas, está provocando o derretimento das geleiras chinesas na Cordilheira do Himalaia, um impacto que ameaça habitats, o turismo e o desenvolvimento econômico da região, alerta um estudo publicado nesta terça-feira (25).
Das 111 estações meteorológicas espalhadas pelo sudoeste da China, 77% demonstraram elevações significativas de temperaturas entre 1961 e 2008, segundo o estudo [Climate and glacier change in southwestern China during the past several decades], publicado no periódico britânico “Environmental Research Letters“.
Nas 14 estações de monitoramento acima dos 4.000 metros, o salto neste período foi de 1,73 graus Celsius, aproximadamente duas vezes a elevação média global registrada ao longo do último século.
Cientistas liderados por Li Zhongxing, da Academia Chinesa de Ciências, identificaram três alterações em curso nas geleiras que poderiam ser causadas, pelo menos em parte, por esta tendência constante de aquecimento.
Segundo eles, a maior parte das geleiras examinadas demonstrou um “recuo drástico”, além de uma grande perda de massa.
O estudo também demonstrou que lagos glaciais, alimentados pelo gelo derretido de geleiras, aumentaram de tamanho.
“As implicações destas mudanças são muito mais sérias do que uma mera alteração da paisagem”, alertaram os cientistas.
“As geleiras integram milhares de ecossistemas e desempenham um papel crucial no sustento de populações humanas”, acrescentaram.
O sudoeste da China tem 23.488 geleiras, cobrindo uma área de 29.523 quilômetros quadrados, através do Himalaia e das montanhas Nyainqntanglha, Tanggula e Hengduans.
Mudanças no padrão de chuvas e das nevascas foram menos marcantes, mas ainda consistentes com as previsões de modelos de mudanças climáticas, afirmaram.
“É imperativo que determinemos a relação entre as mudanças climáticas e variações nas geleiras, particularmente o papel das precipitações, uma vez que as consequências do recuo do gelo são muito abrangentes”, disse Li. (EcoDebate)

Cientistas medem a mudança climática

Cientistas medem pela 1ª vez a ‘velocidade’ da mudança climática
Um grupo de cientistas internacionais mediu em 37 quilômetros por década no Hemisfério Norte e 17 no Sul o deslocamento médio dos regimes térmicos a latitudes mais altas em decorrência da mudança climática. A análise [The Pace of Shifting Climate in Marine and Terrestrial Ecosystems], publicada na revista “Science”, quantifica de forma global a velocidade da mudança climática e estabelece o avanço dos regimes térmicos em uma velocidade média de 27 quilômetros por década.
O pesquisador Carlos Duarte, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha, um dos integrantes do estudo, explicou nesta quinta-feira à Agência Efe que a análise fixa a velocidade das “variações na distribuição de espécies” devidas à mudança climática.
“Conhecer a velocidade da mudança climática e não a taxa de aumento da temperatura é o relevante para prever as mudanças na biodiversidade”, destacou Duarte. Na opinião do especialista, esta é a conclusão mais relevante do estudo.
Entre as mudanças descobertas, os cientistas cronometraram a precocidade da primavera, cujo “sinal térmico” se adianta entre um e dois dias a cada dez anos.
Da mesma forma que no Hemisfério Norte a mudança climática desloca os regimes climáticos e suas espécies rumo a latitudes mais setentrionais, o mesmo fenômeno ocorre no Hemisfério Sul, distanciando-se da linha do Equador rumo ao Polo Sul, mas a uma velocidade menor, de 17 quilômetros por década.
Após o deslocamento dos regimes climáticos já existentes rumo ao norte e ao sul, Duarte destaca o surgimento de outros novos, mais calorosos, no paralelo 0 (Equador), onde não se sabe se “os organismos podem tolerá-los”.
Conforme se analisou no período de estudo, de 50 anos, os ecossistemas terrestres se aqueceram o triplo que os marítimos, obrigando as espécies a alterar seu ciclo reprodutivo ou a se deslocar para sobreviver.
“Quando a velocidade da mudança climática supera a velocidade de dispersão dos organismos, ou quando existem barreiras que impeçam essa dispersão, as espécies só podem se adaptar ou se extinguir”, explica Duarte em comunicado.
O artigo equipara a gravidade do impacto do aquecimento global sobre a biodiversidade marinha e terrestre em latitudes similares.
A falta de continuidade dos oceanos impede que as espécies possam migrar rumo ao norte, como é o caso do Mar Mediterrâneo, fechado pela placa euroasiática, explica a pesquisadora Johanna Holding, do Instituto Mediterrâneo de Estudos Avançados, indica o CSIC em nota.
No caso do Ártico, “as espécies não têm lugares mais frios para onde migrar”, assinala a coautora do estudo. Quando as espécies do Ártico percebem que não existem lugares mais frios para onde ir, o velocímetro da mudança climática no equador se acelera até superar os 200 quilômetros por década. (EcoDebate)

Mudanças no clima já afetam litoral norte de SP

Fragilidade. Orla de Caraguatatuba, no litoral paulista, sofre com avanço do nível do mar.
O aquecimento global já afeta o litoral norte de São Paulo. Além de elevar a maré, o fenômeno torna mais comuns eventos climáticos extremos. Catástrofes como deslizamentos e inundações deverão ocorrer com mais frequência na região. O alerta foi dado pela Rede Litoral, grupo que integra cientistas de diversas instituições no Estado e em Minas.
Paolo Alfredini, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), analisou dados registrados desde 1944 nos marégrafos do litoral norte. Descobriu que a maré baixa tem crescido sete centímetros por década. Ele não tem dúvidas quanto ao papel desempenhado pelo aquecimento global nas transformações. E prevê, para o próximo século, uma taxa de elevação da maré de um centímetro por ano.
A frequência de chuvas torrenciais também preocupa. A pesquisadora Graziela Balda Scofield, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec-Inpe), reuniu os dados de 1970 a 1999 de sete pluviômetros distribuídos na região costeira do litoral norte.
Graziela criou um modelo computacional para analisar a evolução das chuvas e identificou um provável aumento no número de fenômenos de maior intensidade na região.
A pesquisadora afirma que não é possível atribuir, de forma inequívoca, a mudança ao aquecimento global, embora a hipótese seja plausível.
Há fortes indícios de uma intensificação dos fenômenos climáticos. Em Caraguatatuba, o modelo apontou uma diminuição no número de dias com chuvas no ano, mas a precipitação total permaneceu estável. Na prática, ocorreram mais eventos com chuva intensa no ano. Resultados semelhantes foram obtidos para as demais cidades: São Sebastião, Ubatuba e Ilha Bela.
Desastre. Os municípios do litoral norte estão prensados em uma faixa estreita de terra entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, descreve Marcos Eduardo Cordeiro Bernardes, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). 'A elevação do nível do mar e a intensificação das chuvas, que fazem transbordar os rios que descem a serra, tornam as cidades vulneráveis', diz.
Ele está estudando o impacto dos eventos climáticos na dinâmica da água e dos sedimentos levados pela correnteza ou pela maré. Sua pesquisa tentará responder, por exemplo, o impacto das mudanças em um possível assoreamento do Rio Juqueriquerê, único navegável na região.
Apenas 5% das regiões costeiras no litoral norte não apresentam risco algum de desastre natural. O porcentual constitui uma primeira aproximação, fruto dos cálculos de estudiosos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). O pesquisador do ITA, Wilson Cabral de Souza Junior, pretende agora estimar a vulnerabilidade específica - que pode variar de baixa a alta - nas regiões onde há algum risco (ou seja, 95% do território).
Souza Junior coordena um grupo que tenta estimar os custos financeiros e humanos dos eventos climáticos extremos. Outra equipe do instituto procura identificar como os materiais e estruturas utilizados em obras de engenharia na região reagem às intempéries decorrentes do aquecimento global.
Propostas. 'Há também um terceiro grupo que pretende formular propostas e políticas que possam ser aplicadas na região para minimizar o risco', explica Wilson, que também atua como coordenador geral da rede. 'Mas o trabalho ainda é incipiente.'
Bernardes não tem dúvida de que a rede só se justifica se produzir conhecimento capaz de ser traduzido em políticas públicas. 'Estamos tentando estabelecer uma colaboração com as prefeituras do local', afirma.
Emilia Arasaki, da Poli-USP, também considera importante o diálogo com as autoridades locais. 'Mas é um enorme desafio para os políticos: algumas decisões necessárias não são populares, como remover moradores de uma área de risco.'
O grupo já realizou três workshops. Dois deles dentro das instituições de pesquisa que apoiam a rede e um, em Caraguatatuba. O próximo, que ocorrerá nos dias 24 e 25 de novembro, será em São Sebastião (SP). A ideia é atrair para o debate gestores públicos e associações da sociedade civil.
'A questão é quando vai acontecer algo ruim'
A aposentada Maria José da Silva, de 65 anos, mudou-se há 26 anos para Caraguatatuba, no litoral norte paulista. Queria tratar achaques do coração e dos ossos. Seu trabalho é sentar sob um toldo na calçada e vigia carros de médicos, dentistas e enfermeiros no posto de saúde do bairro Casa Branca. Sua casa está no sopé de um morro que técnicos consideram área de risco, mas garante que não tem medo: 'Não vai acontecer nada não.'
Emanoel Gomes de Carvalho discorda. Ele já trabalhou na Defesa Civil do município e hoje atua no Grupo de Auxílio Civil (GAC), organização que colabora com as autoridades locais em situações de emergência. Ele acredita que o futuro reserva desastres graves. 'Áreas de risco são assim. A questão não é se vai acontecer algo ruim, mas quando algo ruim vai acontecer', afirma. Emanoel conhece bem a região e guiou cientistas da Rede Litoral que queriam conhecer áreas vulneráveis da cidade.
Ele aponta que quase todas as pessoas que vivem em áreas consideradas de risco convencem-se de que não há problema algum. A emprega doméstica Valdineia Anerth, de 36 anos, é vizinha de Maria José. Quando começa a chover à noite, recebe sempre uma ligação da sogra: 'Vem dormir aqui em casa com as crianças. Tenho medo que a casa de vocês caia.' Mas ela nunca vai. 'Não tenho medo', diz.
Mas o pesquisador Paolo Alfredini, da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), teme o que pode acontecer. Ele recorda a tragédia de 1967, quando um deslizamento em Caraguatatuba deixou 436 mortos e cerca de 3 mil desabrigados. 'Isso ocorreu quando Caraguatatuba tinha 15 mil habitantes', recorda. 'Hoje a cidade tem 100 mil, grande parte vivendo em áreas de risco.'
Ele espera que os estudos da Rede Litoral sirvam para evitar tragédias semelhantes ou de ainda maiores proporções.
Caraguatatuba foi em boa parte destruída por uma catástrofe causada pelas chuvas em 1967. Mais de 40 anos depois, áreas de risco afetadas na época estão novamente ocupadas por invasões. São os casos do Bairro do Rio do Ouro, Caputera e Benfica. (OESP)

Saúde e a estabilidade global

Mudanças climáticas representam uma ameaça à saúde e à estabilidade global, dizem especialistas
Mudança climática ameaça a saúde, dizem especialistas – As mudanças climáticas representam uma ameaça imediata e séria à saúde e à estabilidade global, na medida em que enchentes e secas destroem moradias e a produção de alimentos, além de aumentar as migrações em massa, afirmaram especialistas.
Em comunicado emitido durante uma reunião em Londres, eles pediram ações mais duras para reduzir as mudanças climáticas, dentre elas elevar a meta da União Europeia para o corte das emissões dos gases do efeito estufa de 20% para 30%, tendo como base os níveis de 1990.
“Não é suficiente que os políticos tratem das mudanças climáticas como um conceito acadêmico abstrato”, disse o signatário Hugh Montgomery, diretor do Instituto para Saúde e Performance Humana da University College London (UCL).
“O preço da complacência será pago em vidas e sofrimento humanos e todos serão afetados. O combate às mudanças climáticas pode evitar isso, enquanto mudanças de estilo independentes produzem benefícios significativos na questão da saúde. É hora de vermos uma liderança verdadeira daqueles que professam assumir tal papel”, afirma o comunicado.
Outros signatários do documento são Michael Jay, presidente da entidade médica Merlin; Ian Gilmore, ex-presidente do Royal College of Physicians; e Anthony Costello, diretor do Instituto para Saúde Global da UCL.
O comunicado destaca como a elevação das temperaturas e a instabilidade do clima vai resultar em eventos climáticos mais frequentes e extremos, o aumento da dispersão de doenças infecciosas, a destruição de hábitats e a falta de água e alimentos. Isso pode dar início a conflitos, crises humanitárias e migrações em massa, diz o documento.
Tomar atitudes rápidas para combater as mudanças climáticas pode não apenas reduzir esses ricos, mas também melhorar a saúde global, dizem os especialistas, citando medidas para eliminar progressivamente o uso de produção de energia em usinas movidas a carvão, o que vai melhorar a qualidade do ar.
Os especialistas pediram que a União Europeia e outros países desenvolvidos adotem objetivos mais duros para a redução das emissões e que países desenvolvidos identifiquem as formas como as mudanças climáticas ameaçam a saúde e busquem maneiras de mitigar essas causas ou se adaptem a elas. (EcoDebate)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...