segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Mudanças Climáticas: ‘Tostados, assados e grelhados’

“Como disse antes, se não fizermos nada a respeito da mudança climática, seremos tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos. (…) Se não encararmos essas duas questões – mudança climática e desigualdade crescente – avançaremos a partir de agora em direção a sombrios 50 anos”. Quem fala é Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, durante um painel da Future Investment Initiative, ocorrido em 25 de outubro em Riad, na Arábia Saudita.
É positivo que o FMI funcione como uma caixa de ressonância da ciência e que junte sua voz ao coro dos alertas sobre a situação-limite em que a humanidade e a biosfera se encontram. Mas o FMI é o primogênito e um dos principais gendarmes da ordem econômica internacional que está condenando os homens e a biosfera a serem “tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos”. Não tem, portanto, autoridade moral para emitir alertas desse gênero. “Como disse antes”, afirma acima Lagarde… De fato, já em 2012, às vésperas da Rio+20, ela havia declarado num encontro do Center for Global Development, em Washington, que “a mudança climática é claramente um dos grandes desafios de nosso tempo, um dos grandes testes de nossa geração. Para os mais pobres e mais vulneráveis do mundo, a mudança climática não é uma possibilidade distante. É uma realidade presente”. E anunciava então que o FMI desenvolveria pesquisas e daria suporte analítico aos países com políticas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE), em particular através de instrumentos fiscais, como precificação do carbono e eliminação dos subsídios. Passados cinco anos, eis o que aconteceu:
1. Os subsídios à indústria de combustíveis fósseis continuam a crescer. Em 2013, eles montavam a US$ 4,9 trilhões e em 2015 atingiram US$ 5,3 trilhões, ou 6,5% do PIB mundial, segundo um estudo recente. “A eliminação desses subsídios”, afirmam seus autores, “teria reduzido as emissões de carbono, em 2013, em 21%, e em 55%, as mortes por poluição causada pela queima de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que teria elevado a renda em 4% do PIB global e o bem-estar social em 2,2%”. Se entendidos stricto sensu, ou seja, como privilégio fiscal ou transferência de recursos estatais para essa indústria, os subsídios dos governos do G20 – os mesmos que prometeram seu fim em 2009 – montavam em 2015 a US$ 444 bilhões.
2. Imposto sobre a emissão de carbono (carbon tax). A segunda medida apoiada por Lagarde era a precificação adequada do carbono: “corrigir seus preços significa usar uma política fiscal capaz de garantir que o malefício que causamos reflita-se nos preços que pagamos”. Tal imposto foi sugerido já em 1973 por David Gordon Wilson, do MIT, e reproposto agora, pela enésima vez, por 13 economistas, no âmbito de uma iniciativa presidida por Joseph Stiglitz e Sir Nicholas Stern. O estudo sugere que este seja em 2020 de 40 a US$ 80 por tonelada de CO2 emitido e, em 2030, de 50 a 100 dólares. Não se sabe em quanto esse imposto, se adotado, contribuiria para a redução das emissões de GEE. Mas se sabe que o FMI em nada tem contribuído para viabilizá-lo. De resto, em março último, Trump descartou-o e sem o apoio dos EUA, um dos maiores produtores mundiais de petróleo, ele parece hoje mais irrealista que nunca.
Leonardo Martinez-Diaz, do World Resources Institute, percebe bem a hipocrisia do FMI: “Uma das funções centrais do FMI é a vigilância macroeconômica. (…) O Fundo deveria colocar o risco climático no diálogo com os Estados, como um item formal de suas consultas”. E, sobretudo, “considerar as despesas em resiliência como investimentos dos Estados devedores”. Mas isso Christine Lagarde não fez, e não fará, porque prejudicaria os interesses dos credores.
Voluntários posam nus, na geleira de Aletsch, nos Alpes suíços, durante campanha ambiental sobre o aquecimento global, em 2007.
Quatro décadas de alertas científicos
Se é nula a credibilidade do FMI no que se refere à sua contribuição para mitigar essa situação extremamente grave, isso não altera o fato de que o diagnóstico de Lagarde baseia-se no mais consolidado consenso científico. Há décadas a ciência adverte que o aquecimento continuado da atmosfera e dos oceanos – causado, sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pelo surto global de carnivorismo – lançaria o século XXI num série de crescentes desastres sociais e ambientais. Quase quatro décadas atrás, em 1981, quando o aquecimento global era ainda de apenas 0,4o C acima dos anos 1880, James Hansen e colegas afirmavam num trabalho da Science:
“Efeitos potenciais sobre o clima no século XXI incluem a criação de zonas propensas a secas na América do Norte e Ásia Central como parte de uma mudança nas zonas climáticas, erosão das camadas de gelo da Antártica com consequente elevação global do nível do mar e a abertura da famosa passagem do Noroeste [no Ártico]. (…) O aquecimento global projetado para o próximo século é de uma magnitude quase sem precedentes. Baseados nos cálculos de nosso modelo, estimamos que ele será de ~2,5°C para um cenário com lento crescimento de energia e um misto de combustíveis fósseis e não fósseis. Esse aquecimento excederia a temperatura durante o período antitermal (6.000 anos atrás) e o período interglacial anterior (Eemiano) e se aproximaria da temperatura do Mesozoico, a idade dos dinossauros”.
Entre 1984 e 1988, James Hansen depôs três vezes no Senado dos Estados Unidos. Na última vez, diante de 15 câmaras de televisão, projetou cenários de aquecimento global de até 1,5°C em 2019 em relação à média do período 1951-1980, como mostra a Figura 1, reproduzida a partir desse histórico documento de 1988.
Figura 1 - Projeção de aquecimento médio superficial global até 2019, segundo três cenários.
O Cenário A supõe uma taxa de aumento das emissões de CO2 típica dos 20 anos anteriores a 1987, isto é, um crescimento a uma taxa de 1,5% ao ano. O Cenário B assume taxas de emissão que estacionam aproximadamente no nível de 1988. O Cenário C é de drástica redução dessas emissões atmosféricas no período 1990 – 2000. A linha contínua descreve o aquecimento observado até 1987. A faixa cinza recobre o nível pico de aquecimento durante os períodos Antitermal (6.000 anos AP) e Eemiano (120.000 anos AP). O ponto zero das observações é a média do período 1951-1980.
Fonte: “The Greenhouse Effect: Impacts on Current Global Temperature and Regional Heat Waves”, figura 3. Documento apresentado ao Senado por James Hansen em 1988. Veja-se: https://climatechange.procon.org/sourcefiles/1988_Hansen_Senate_Testimony.pdf
As projeções de Hansen são uma das mais espetaculares demonstrações de inteligência do sistema Terra na história recente da ciência, que só hoje podemos aquilatar em sua real dimensão. Seus Cenários A e B anteciparam a uma distância de 30 anos um aquecimento médio global entre ~1,1°C e 1,5°C. Foi exatamente o que aconteceu, como mostra a Figura 2.
Figura 2 – Temperaturas superficiais globais em relação ao período de base 1880-1920.
Como se vê, desde 1970 as temperaturas médias globais têm se elevado 0,18°C por década e em 2016 elas atingiram +1,24°C em relação a 1880-1920. Mantida a aceleração do aquecimento médio global observada no triênio 2015-2017 (~0,2°C), deveremos atingir ou estar muito próximos, em 2019, do nível de aquecimento previsto no pior cenário assumido por James Hansen e colegas.
Energias fósseis x energias renováveis e de baixo carbono
Naturalmente, quem está no controle do mundo não se interessa por acurácia científica, quando esta interfere em seus planos de negócios. Os alertas de toda uma legião de cientistas no mundo todo continuam a se espatifar contra o muro inexpugnável das corporações, que impuseram e continuam a impor à humanidade e à biosfera o “Cenário A” previsto por James Hansen. Os números, melhor que quaisquer argumentos, revelam a extensão do crime: desde 1988, data do testimony de Hansen no Senado dos EUA, mais CO2 foi lançado na atmosfera do que entre 1750 e 1987, como mostra a Figura 3.
Figura 3 - Emissões industriais de CO2 entre 1751 e 2014. De 1751 a 1987 foram emitidas 737 Gt (bilhões de toneladas). Entre 1988 e 2014 foram emitidas 743 Gt. Fonte: T. J. Blasing, “Recent Greenhouse Gas Concentrations”. Carbon Dioxide Information Analysis Center (CDIAC), Abril, 2016, baseado em Le Quéré et al. (2014) e Boden, Marland e Andres (2013).
Em 2017 teremos já ultrapassado 800 Gt de CO2 emitidos na atmosfera em quarenta anos. As corporações que lucram com essas emissões e com a destruição das florestas – em especial os xifópagos Big Oil & Big Food – venceram e continuam vencendo. Em Riad, na semana passada, Christine Lagarde acrescentou que “as decisões devem ser imediatas, o que provavelmente significará que nos próximos 50 anos o petróleo se tornará uma commodity secundária”. Foi contradita por Amin Nasser, presidente da estatal Saudi Arabian Oil Company (Aramco): “Alternativas, carros elétricos e renováveis estão definitivamente ganhando participação no mercado e estamos vendo isso. Mas décadas serão ainda necessárias antes que assumam uma participação maior na oferta de energia global”.
Mantido o paradigma expansivo do capitalismo (obviamente dependente das reservas restantes de petróleo, algo incerto), o prognóstico de Amin Nasser afigura-se mais credível que o de Christine Lagarde. Ele ecoa a convicção de seus pares de que a hegemonia dos combustíveis fósseis não será sequer ameaçada, quanto menos superada, por energias de baixo carbono pelos próximos dois ou três decênios. Barry K. Worthington, diretor da toda poderosa United States Energy Association, afirma, e é fato, que “nenhuma projeção credível” mostra uma participação menor que 40% dos combustíveis fósseis em 2050. Mesmo o carvão, cujo declínio iniciado nos dois últimos anos parecia a muitos ser irreversível, resiste. Nos EUA, sua produção em 2017 será 8% maior que em 2016. No mundo todo havia, em outubro de 2017, 154 unidades termelétricas movidas a carvão em construção e 113 em expansão, um número ainda superior ao das unidades que estão sendo desativadas.
Um argumento em favor da ideia de uma ainda longa hegemonia futura dos combustíveis fósseis provém de um trabalho de três pesquisadores da Universidade de Bergen, na Noruega. Os autores partem da constatação de que em 2015 o consumo energético global foi de 17 Terawatts (TW), dos quais apenas 3,9% (0,663 TW) provieram de energias eólica (0,433 TW) e fotovoltaica (0,230 TW). Assumem em seguida a projeção de que esse consumo quase dobre em 2050, atingindo 30 TW. Detectam então indícios de que a taxa de crescimento das energias eólica e fotovoltaica comece a declinar já ao longo da próxima década, saturando sua capacidade instalada não acima de 1,8 TW em 2030, o que as levaria a assumir a forma da curva de uma função logística ou sigmóide (em “S”), como mostra a Figura 4.
Figura 4 - Capacidade instalada global total de energia eólica e fotovoltaica (pontos verdes).
A linha contínua é a do modelo logístico (curva sigmóide), semelhante à evolução das energias hidrelétrica e nuclear. As linhas pontilhadas indicam um intervalo de confiança de 95%. O ponto vermelho indica os prognósticos das associoções de acionistas. O quadro inserido mostra o declínio previsto das taxas de crescimento dessas energias. | Fonte: J.P. Hansen, P.A. Narbel, D.L. Aksnes, “Limits to growth in the renewable energy sector”. Renewable and Sustainable Energy Reviews, 70, IV/2017, pp. 769-774.
A COP 23 e a “catastrófica brecha climática”
Como se sabe, abre-se hoje, 6 de novembro de 2017, em Bonn, mais uma reunião anual da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC), a 23ª Conferência das Partes (COP23). Sua agenda central será fazer avançar as diretrizes (rule-book) de implementação do Acordo de Paris, preparadas por um grupo de trabalho – o Ad-hoc Working Group on the Paris Agreement (APA) –, coordenado pela Nova Zelândia e pela… Arábia Saudita. Por improvável que seja a projeção de Christine Lagarde de que “nos próximos 50 anos o petróleo se tornará uma commodity secundária”, suas declarações na capital mundial do petróleo têm o mérito de reforçar o senso de urgência requerido para mais essa rodada de negociações.  Esse senso de urgência é mais que nunca necessário, pois o contexto político e ambiental em que se abre a COP23 não poderia ser mais adverso, como bem indica o quadro atual de bloqueio do Acordo, em contraste com a angustiante aceleração da degradação ambiental nos últimos meses:
1. Quase dois anos após sua assinatura, o Acordo de Paris não foi ainda ratificado (i.e., não está em vigor) por 13 países produtores e detentores das maiores reservas mundiais de petróleo, conforme mostra a tabela abaixo:
A esses 13 países que não ratificaram o Acordo, acrescentam-se os EUA, em vias de deixá-lo. De modo que mais de um terço da produção mundial de petróleo encontra-se em nações que não reconhecem oficialmente o Acordo de Paris, e não o reconhecem, declaradamente ou não, porque não têm intenção de diminuir sua produção.
2. Em julho, reunido na China, o G20 deu uma demonstração de fraqueza ou de oportunismo ao ceder às pressões dos EUA e da Arábia Saudita para eliminar de sua declaração conjunta final qualquer menção à necessidade de financiar a adaptação dos países pobres às mudanças climáticas, condição de possibilidade do Acordo de Paris.
3. Em 18 de outubro passado, o Global Forest Watch revelou que em 2016 foram destruídos globalmente 297 mil km2 de florestas pelo avanço da agropecuária, da mineração, da indústria madeireira e de incêndios mais devastadores, criminosos e/ou exacerbados pelas mudanças climáticas. Trata-se de um recorde absoluto em área destruída e de um recorde no salto de 51% em relação a 2015, como mostra a Figura 5.
Figura 5 – Perdas de cobertura florestal global de 2011 a 2016.
Em 30 de outubro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) reconheceu um avanço de 3,3 ppm (partes por milhão) nas concentrações atmosféricas de CO2 no intervalo de apenas 12 meses. Essas concentrações “deram em 2016 um salto, numa velocidade recorde, atingindo seu mais alto nível em 800 mil anos”. Desde 1990, afirma o boletim da OMM, houve um aumento de 40% na forçante radiativa total (o balanço entre a energia incidente e a energia refletida de volta para o espaço pelo sistema climático da Terra) causada pelas emissões de GEE, e um aumento de 2,5% apenas em 2016 em relação a 2015.
Enfim, o oitavo Emissions Gap Report, de 2017, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), adverte que as reduções de emissões de GEE acordadas em Paris estão muito aquém do requerido para conter o aquecimento médio global abaixo de 2°C ao longo deste século. Como faz notar Erik Solheim, diretor do (PNUMA), “as promessas atuais dos Estados cobrem não mais que um terço das reduções necessárias. (…) Os governos, o setor privado e a sociedade civil devem superar essa catastrófica brecha climática”. E reafirma que, se os compromissos nacionais (NDCs) forem implementados, chegaremos ao final deste século com um aquecimento médio global de cerca de 3,2°C (2,9°C a 3,4°C). Mas os governos estão descumprindo até mesmo esse terço por eles prometido em 2015. Segundo Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, “os primeiros balanços das políticas nacionais mostram que, globalmente, estamos abaixo dos engajamentos assumidos em Paris. E sem os EUA, será muito difícil pedir aos outros países que aumentem suas ambições. (…) Para manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2°C é necessário que o pico das emissões seja atingido no mais tardar em 2020”.

Não há que se preocupar. Faltam ainda mais de dois anos. (ecodebate)

sábado, 11 de novembro de 2017

Mudança climática é mais mortífera em assentamentos africanos

As mudanças climáticas podem ser mais mortíferas nos assentamentos africanos pobres.
As condições nos assentamentos urbanos superpovoados na África tornam os efeitos da mudança climática piores, elevando as temperaturas a alturas perigosas para crianças e idosos nessas áreas. É o que sugere um novo estudo [Temperature and heat in informal settlements in Nairobi] liderado por um cientista da Universidade Johns Hopkins.
Kibera, Nairobi 
O estudo sugere que a mudança climática atingirá as pessoas que vivem nesses assentamentos porque suas condições de vida muitas vezes criam um “microclima” mais quente, devido a materiais de construção de casa, falta de ventilação, espaço verde escasso e acesso fraco à energia elétrica e outros serviços.
O estudo acabou de ser publicado no jornal online PLOS ONE, focado em três assentamentos em Nairobi, no Quênia. O maior deles é Kibera, um bairro de ruas estreitas e casas com paredes de barro e telhados de ferro e assoalhos de concreto, que abriga até um milhão de pessoas. É o maior desses bairros da África, muitas vezes chamado de “assentamentos informais”.
Conduzido por sete instituições, incluindo três organizações da Cruz Vermelha, o estudo mostra a necessidade de alertas e assistência de calor mais direcionados. As temperaturas elevadas em Kibera e em outros dois bairros próximos são mostrados no estudo como 5 e quase 10°F maiores do que aqueles relatados na estação meteorológica oficial de Nairobi a menos de um quilômetro de distância.
Pesquisas anteriores, de outros cientistas citados no estudo, descobriram que as mortes para crianças até aos 4 anos e as pessoas com mais de 50 anos aumentaram em 1% para um aumento de quase 2° acima de 68°F.
O calor extremo pode ser uma causa de insolação, que pode danificar o cérebro e outros órgãos. O calor também pode aumentar a probabilidade de morte por uma condição cardíaca, acidente vascular cerebral ou dificuldade em respirar.
Aproximadamente um terço dos 3,1 milhões de pessoas que moram em Nairobi, a maior cidade e capital do país da África Oriental, fazem suas casas em assentamentos como Kibera, Mukuru e Mathare, as áreas estudadas para este relatório.
Em Mathare, as casas são comumente construídas com paredes de ferro e telhados. Casas em Mukuru são uma mistura de alguns prédios e casas construídas com folhas de ferro. Existem poucas ruas pavimentadas, árvores ou vegetação em qualquer uma dessas áreas.
A equipe de pesquisa de 11 membros – incluindo dois estudantes de Johns Hopkins e dois membros da faculdade – examinou a informação sobre a temperatura que reuniram durante 80 dias a partir de 2 de dezembro de 2015 até 20 de fevereiro de 2016. Esse período acabou por ser o verão mais quente de Nairobi desde a Década de 1970.
Os membros da equipe instalaram 50 termômetros em árvores e postes de madeira nos três assentamentos, a maioria deles em tons parciais ou completos. Eles também colocaram um sensor na Universidade de Nairobi, uma área a cerca de sete quilômetros a nordeste de Kibera, que tem mais árvores e espaço verde.
No final dos 80 dias, os pesquisadores compararam as informações coletadas nos bairros com as temperaturas registradas na sede do Departamento de Meteorologia do Quênia, localizadas em um campus arborizado gramado a menos de um quilômetro de Kibera.
Os resultados foram impressionantes. A alta temperatura diurna média registrada pelo site do governo durante o período foi um pouco mais de 25°C, ou 78°F. A média era um pouco mais de 82 em Kibera, 85 em Mathare e 87 em Mukuru.
A informação mostrou que grama e árvores ajudam a reduzir a temperatura e sugerem que, à medida que a Terra aquece, o peso das mudanças climáticas não cairá igualmente de uma parte do planeta para outra. O impacto da exposição ao calor é entendido como uma função tanto do aumento da temperatura como do aumento da população, que devem crescer mais rapidamente em África do que na Europa. Como resultado, espera-se que o ônus das mudanças climáticas seja 100 vezes maior em África.

Outras instituições que participaram do estudo incluem o Centro de Previsão e Previsão do Clima, parte da Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento, com sede em Nairobi; o Departamento de Meteorologia da Universidade de Nairobi, o Instituto Politécnico de Virginia ea Universidade Estadual, a Cruz Vermelha Americana, a Cruz Vermelha do Quênia e o Centro do Clima da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho nos Países Baixos. A pesquisa foi financiada pela Cruz Vermelha, a National Science Foundation e os National Institutes of Health. (ecodebate)

USA divulga relatório climático contrário ao discurso de Trump

Cientistas do governo norte-americano divulgam relatório sobre clima contrário ao discurso de Trump.
O Relatório Especial de Ciência Climática divulgado em 03/11/17 pela administração de Donald Trump afirma ser extremamente provável que as atividades humanas, especialmente a emissão de gases do efeito estufa, sejam a causa dominante do aquecimento global observado desde a metade do século 20.
“Não há nenhuma explicação alternativa convincente para o aquecimento global do último século que seja baseada na mesma extensão de evidências observadas”, diz o estudo de um grupo de mais de 50 cientistas do governo norte-americano, segundo informações da agência Reuters.
O relatório afirma que os Estados Unidos sofrem os impactos das mudanças climáticas, com tempestades mais frequentes e intensas, os incêndios florestais mais extensos e maior número de inundações.
Há ainda um alerta para o risco de elevação do nível do mar. De acordo com o relatório, a média global do nível do mar deve crescer “ao menos diversos centímetros nos próximos 15 anos” por conta do aumento de temperaturas.
A publicação do relatório é uma exigência de uma lei aprovada em 1990 pelo Congresso dos Estados Unidos e apresenta estudos produzidos por diversas agências federais e por acadêmicos.
A comunidade científica chegou a especular que o governo de Donald Trump pudesse editar o conteúdo ou impedir a publicação do documento, uma vez que as informações contradizem o discurso e a política de Trump para a questão do clima.
Em diversas ocasiões, o presidente questionou a responsabilidade humana sobre os efeitos do aquecimento global. Nos últimos meses, a Casa Branca tem trabalhado para impulsionar a indústria de combustíveis fósseis e revogar leis criadas pelo ex-presidente Barack Obama para incentivar a produção de energia limpa.
Em junho, Trump anunciou a saída do país do Acordo de Paris, assinado por 195 nações para combater os efeitos das mudanças climáticas. Diversas empresas e estados confrontaram o presidente e afirmaram que vão cumprir as metas, mesmo que os Estados Unidos abandonem o pacto. Apesar da decisão do presidente, os Estados Unidos vão participar da Conferência do Clima em Bonn, na Alemanha, marcada para semana que vem. O encontro vai discutir a implementação do Acordo de Paris. Os Estados Unidos participarão do evento porque o tratado determina que nenhum país pode abandoná-lo antes de 2020.

O porta-voz da Casa Branca Raj Shah disse hoje que “o governo apoia análises científicas rigorosas e debate e encoraja comentários públicos sobre esboços de documentos sendo divulgados hoje.” (ecodebate)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Hidrocídio Brasileiro

Em Artigo, Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, aborda o "hidrocídio" de rios brasileiros. "A cada chega a notícia da morte de um rio".
A cada dia chega a notícia da morte de um rio, ou que um rio famoso agoniza. Afluentes dos grandes rios brasileiros estão sendo mortos às centenas, aos milhares, num verdadeiro hidrocídio, isto é, a matança das águas.
Esses dias nos chegou a visão do leito seco do Paracatu, um dos maiores afluentes do São Francisco.
No ano passado, em Macapá, me contaram que a pororoca do rio Araguari estava extinta.
Esse ano, no Acre, me contaram que o prognóstico científico é que o rio do Acre seque em dez anos.
Em Miracema, quando estive lá no ano passado, quase atravessamos o rio Tocantins a pé, com a água alcançando no máximo a cintura.
Ali mesmo nos contaram que o rio Javaés, que faz a Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo, também tinha secado.
O Velho Chico agoniza a olho nu, com pouco mais de 500 m3/s, e na sua foz o mar avança São Francisco adentro, já salinizando as águas antigamente doces das comunidades ribeirinhas.
Leito seco do Rio Paracatu, no município de mesmo nome. Principal afluente do S.Francisco, o rio tinha quase 500 quilômetros de extensão, e uma bacia hidrográfica de área equivalente à do Estado do Rio.
Nosso ciclo das águas, que se origina na Amazônia e depois se espalha por todo território brasileiro, chegando até Buenos Aires, Assunção e Montevideo, está sendo estrangulado pelas atividades predadoras que precisam destruir a vegetação para se impor. Ao destruir a Amazônia matamos a bomba biótica que injeta água na atmosfera, ao destruir o Cerrado matamos nossos maiores reservatórios naturais, aquíferos como o Bambuí, Urucuia e Guarani. A riqueza derivada da rapinagem não tem fôlego e também entrará em colapso com o colapso de nossas águas.
Não sabemos exatamente o que será e nem como será, só sabemos que estamos preparando o inferno para as gerações futuras.

Mesmo assim não nos conformamos. Como diz uma frase atribuída a Martin Luther King, “se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, mesmo assim hoje eu plantaria uma árvore”. (cptnacional)

Como surgem as nascentes de água?

Ó, fonte viva de saber, hidrate minha curiosidade. Como surgem as nascentes de água? Como brotam do chão suas borbulhas? - Juan Senna, Juiz de Fora, MG.
Nascentes surgem a partir de lagos, do derretimento de geleiras ou de aquíferos. A água destes reservatórios subterrâneos provém da chuva, que passa pelos poros do solo e das rochas até ficar acumulada em uma camada menos permeável.

Por causa da erosão ou do movimento das placas tectônicas, os aquíferos podem aflorar na superfície, fazendo borbulhas para te encantar, como tanto já cantou Raimundo. (abril)

Injustiça hídrica e clamor por água

Precedida por doze pré-romarias, em doze cidades do noroeste, norte e centro-oeste de Minas, com a participação de seis mil pessoas, a 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais teve sua celebração final em Unaí, no noroeste de Minas, na Diocese de Paracatu, dia 23 de julho de 2017, com o tema: “Povos da Cidade e do Sertão Clamando por Água, Terra e Pão”; e com o lema: “Povos, Rios, Veredas e Nascentes são Dons de Deus em Romaria e Resistência”.
Percorrendo os 12 municípios envolvidos diretamente na 20ª Romaria, constatamos o alto grau de degradação do Bioma Cerrado e do ecossistema que o envolve, em uma região considerada “caixa d’água” de Minas: rios secos ou com baixo volume de água, devido ao uso abusivo de pivôs na irrigação de monoculturas de cana, soja, milho, capim, além de extensas plantações de eucalipto e mineração devastadora. A ênfase no agronegócio, que engorda a conta bancária de empresas e de alguns privilegiados não esconde os malefícios advindos dessa política predatória: contaminação do lençol freático e dos alimentos pelo uso de agrotóxicos; espantoso aumento da incidência de câncer e de outras doenças em toda a região noroeste de MG; morte de animais, extinção de espécies vegetais, seca prolongada, desertificação, desemprego (devido ao alto grau de mecanização nas grandes lavouras), conflitos agrários, violência no campo e nas cidades. Os rios Urucuia, Paracatu e Preto estão à míngua e o Rio São Francisco por um fio…  Essas mesmas práticas acontecem em outras regiões de Minas Gerais e do Brasil, com a cumplicidade do poder público/órgãos ambientais, afetando outros biomas, esgotando e poluindo as águas, expulsando populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros e pescadores, quebrando tradições e conhecimentos seculares.
Guimarães Rosa dizia: “Meu rio de amor é o Urucuia”. Assim como os rios Preto, Paracatu e São Miguel, no noroeste de Minas Gerais, o rio Urucuia está na UTI, pois está sofrendo com o processo de assoreamento por parte do agronegócio e do hidronegócio. A captação de água no rio Urucuia para irrigar monoculturas do agronegócio é muito maior do que o que a COPASA capta para abastecer a população da cidade de Buritis. Seu leito está secando devido à construção de barragens e pivôs ao longo de seus afluentes, prejudicando o rio e a população que necessita da sua água para trabalhar, beber e viver. Mas o rio não está sozinho: “Na luta por liberdade / Você não está sozinho / São milhares de pessoas / Que te têm muito carinho”. Nas palavras de Jorge Augusto Xavier de Almeida, o Jorjão Sem Terra, preso político em Unaí, MG, referindo-se tão carinhosamente, ao córrego Barriguda. Impossível não associar a todas as fontes de água doce do nosso país.
Durante a Caravana Cultural da 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais, com sete shows “Eco-lógico”, dos cantores Carlos Farias e Wilson Dias, em sete cidades do noroeste de MG, várias vezes, o violeiro Wilson Dias fez referência a uma metáfora muito eloquente. Dizia ele: “Não sei se vocês já viram um roçado pegando fogo. Quando o roçado pega fogo, os pássaros, em alvoroço, cantam e gritam muito para alertar que algo muito perigoso está acontecendo. Sem o roçado, os pássaros sabem que não terão futuro. Com tanta devastação ambiental, nós violeiros juntamos nossas vozes para cantar e convocar todo mundo para salvarmos o roçado que está pegando fogo. Nosso roçado é Minas Gerais, é o Brasil, é o mundo. Os rios onde nadávamos na nossa infância já foram secados. Com urgência, precisamos frear os processos de devastação. Basta de monoculturas, de agronegócio, de hidronegócio. Cuidar dos olhos de água se tornou necessário e vital para o futuro das próximas gerações.”
As famílias de agricultores familiares dos 77 Assentamentos de reforma agrária do noroeste de Minas estão encurraladas por grandes fazendas industriais mecanizadas, em agricultura do agronegócio e do hidronegócio. Muitos desses assentamentos estão precisando de caminhão-pipa para o fornecimento de água. Os municípios de Unaí e Paracatu se tornaram os campeões do Brasil em número de pivôs de irrigação e em área irrigada, mais de 120.903 mil hectares (Dados da ANA, 2014). Em Unaí, em 2104, havia 663 pivôs irrigando 61.151 hectares de lavouras. Em Paracatu, em 2014, havia 882 pivôs irrigando 59.752 hectares de lavoura. O exagero de agrotóxico jogado na agricultura empresarial tem causado uma “epidemia” de câncer, alzheimer e outras doenças.
Antigamente, esperava-se chegar a chuva para plantar, mas agora os empresários do agronegócio plantam várias vezes por ano lavouras irrigadas, captando água das lagoas, dos córregos, dos rios e do lençol freático via poços artesianos. Só que a captação está beneficiando apenas alguns proprietários empresários e deixando milhares de famílias camponesas na dificuldade. Assim, a miséria está se alastrando no campo e na cidade no noroeste de Minas.
O que acontece no noroeste mineiro é que os grandes fazendeiros praticantes da agricultura empresarial têm avançado na consolidação de seus projetos de irrigação, de forma abusiva. Ocorre que se tornou rotina na região a construção de barragens nas cabeceiras dos principais córregos, em nascentes e lagoas, com o objetivo de captar água para a irrigação. Isso funciona com uma quantidade enorme de água sem que eles sejam autorizados ou licenciados pelos órgãos ambientais. E esses córregos são responsáveis pelo abastecimento dos rios Urucuia, Preto, Paracatu e outros afluentes do rio São Francisco. O poder público/Estado e os órgãos ambientais estão sendo cúmplices dessa devastação socioambiental. Não fiscalizam e concedem licenças ambientais que na prática são usadas para se captar muito mais água do que o permitido legalmente. A 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas denunciou isso e anuncia que o caminho justo e ecologicamente sustentável é reforma agrária, agricultura familiar agroecológica em comunhão com preservação ambiental. Isso precisa ser garantido através de lutas coletivas em nome da nossa responsabilidade socioambiental e geracional.
A ONU reconheceu a água como um direito humano. “O espírito de Deus está nas águas” (Gênesis 1,2). Logo, matar as nascentes de água ou contaminar a água é matar o espírito vivificador. Água é fonte de vida, alertava a Campanha da Fraternidade de 2004. Água é o sangue da terra. A terra sem água é um corpo sem vida. Os córregos e rios são as artérias do grande corpo que é a Terra, Gaia. Por amor à vida, à água, aos povos, a todos os organismos vivos e às próximas gerações, é urgente o compromisso de todos para frear a imensa injustiça hídrica que está em curso. A guerra pela água já iniciou. Feliz quem se comprometer coletivamente com a revitalização de todas as nascentes e das bacias hidrográficas! A luta pela água implica luta pela terra, luta pela redução do agronegócio e das monoculturas dizimadoras das águas. Implica também luta pela superação do modelo de Estado que temos: Estado cúmplice do sistema do capital, com uma classe política profissional que faz o serviço sujo da classe dominante.

Obs: No link abaixo, vídeo ilustrativo da injustiça hídrica e do clamor por água: https://www.youtube.com/watch?v=4SSzzrbnn20 (ecodebate)

Chuvas abundantes provocam vertimento em Itaipu

Usina abriu as comportas em 03/11/17 para escoar excedente de água; previsão era que vertedouro fechasse até domingo.
Mesmo produzindo em alta escala para atender o sistema elétrico do Brasil e Paraguai, a usina de Itaipu informou em 04/11/17 que teve que abrir seu vertedouro por causa das chuvas abundantes que atingiram Foz do Iguaçu e região, área no reservatório.
O vertimento começou em 03/11 às 20h, e atingiu em 04/11 mais de 2,4 mil m3 de água por segundo, o dobro da média normal da vazão das Cataratas do Iguaçu. De madrugada, o escoamento ultrapassou os 3,6 mil m3 de água por segundo.
A previsão de especialistas é de que o cenário devesse permanecer assim pelo menos até 05/11, durante todo dia. A última vez que o vertedouro havia sido aberto foi no dia 28 de junho deste ano, ou seja, há pouco mais de quatro meses. Espetáculo para o público visitante, verter significa escoar o excedente de água não utilizado para a geração de energia. Por causa do feriadão, o movimento de turistas é grande nos atrativos da usina.
Dentro do possível, a usina vem aproveitando toda água que chega para gerar energia. Mês passado, Itaipu teve o quarto melhor outubro de produção de sua história, sem necessidade de rebaixamento do reservatório, medida adotada em situações emergenciais. Enquanto em boa parte do resto do País, com exceção do Sul, a situação hídrica é delicada, em Foz do Iguaçu choveu em outubro 365 milímetros, o dobro da média normal para o mês. (canalenergia)

Fatores ideológicos afetam o apoio a políticas climáticas

Impactos da Ideologia no Clima • Polarização Política: Pessoas com visões mais à esquerda costumam apoiar medidas de transição verde e tax...