terça-feira, 27 de setembro de 2022

Desmatamento e queimadas tornam a Amazônia prevalente na emissão de CO2

Um primeiro impacto, grosso modo, é que 20% da Amazônia desmatada são 20% a menos de contribuição da formação de nuvens de chuva com vapor de água, o que causa, como consequência direta, menos precipitação.

Desmatamento e queimadas tornam a Amazônia prevalente na emissão de CO2. Entrevista especial com Luciana Gatti

Apesar de a floresta ser um enorme manancial de absorção de CO2 e de calor da atmosfera, ações humanas ligadas ao desmatamento e pecuária estão devastando e fragilizando o bioma.

Durante décadas, possivelmente séculos, a Amazônia foi uma região em que os níveis de absorção de CO2 da atmosfera eram superiores aos de emissão. Apesar da floresta, em condições normais, equilibrar seus próprios níveis de emissão e absorção de CO2, com os processos industriais de modernização e a prevalência da queima de combustíveis fósseis o volume de CO2 passou a ser mais rico na atmosfera. Com isso, a Amazônia passou a absorver parte deste “excesso” de gases, retirando também calor da biosfera. Contudo, o que estudos recentes mostram é que agora o bioma também contribui para o aquecimento global.

“Observamos que no saldo entre absorções e emissões a Amazônia emite para a atmosfera 290 milhões de toneladas de carbono por ano. Isso é composto pela diferença da emissão de 410 milhões de toneladas para a atmosfera devido, justamente, às queimadas e da absorção pela floresta de 130 milhões de toneladas de carbono por ano”, aponta a professora e pesquisadora Luciana Gatti, em entrevista por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Toda esta devastação traz ainda impactos no regime de chuvas, o que altera as condições climáticas de boa parte do país. “Um primeiro impacto, grosso modo, é que 20% da Amazônia desmatada são 20% a menos de contribuição da formação de nuvens de chuva com vapor de água, o que causa como consequência direta, menos precipitação”, pontua.

Apesar do desinteresse do governo federal em proteger a Amazônia, quando não age em contrário, no sentido de aprofundar suas fragilidades, é fundamental que a sociedade civil organizada se articule em defesa da preservação do bioma. “A Amazônia poderia ser uma grande proteção para as mudanças climáticas, pois ela absorve gás carbônico, forma muita chuva com a evapotranspiração e com isso reduz a temperatura, servindo de proteção contra as mudanças climáticas. Contudo, ao desmatar estamos transformando a Amazônia em um fator de contribuição para as mudanças climáticas”, complementa.

Luciana Gatti é graduada em Química e mestra em Química Analítica pela Universidade de São Paulo – USP. Realizou doutorado em Ciência pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, no Departamento de Química. É especialista em medidas de alta precisão de Gases de Efeito Estufa e estudos em escala Regional utilizando aviões de pequeno porte. É pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais/Centro de Ciências do Sistema Terrestre e professora de pós-graduação do curso Tecnologia Nuclear do IPEN, na Universidade de São Paulo. Coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa – LaGEE, parte integrante do LaPBio/CCST/Inpe.

IHU – Quais são as principais conclusões do estudo “Amazônia como fonte de carbono ligada ao desmatamento e mudanças climáticas”?

Luciana Gatti – As principais conclusões do nosso estudo são, basicamente, duas. A primeira é o balanço total de carbono da Amazônia. Observamos que no saldo entre absorções e emissões a Amazônia emite para a atmosfera 290 milhões de toneladas de carbono por ano. Isso é composto pela diferença da emissão de 410 milhões de toneladas para atmosfera devido, justamente, às queimadas e da absorção pela floresta de 130 milhões de toneladas de carbono por ano. Essa é uma primeira conclusão importante.

A segunda, e ainda mais importante, foi a possibilidade de entendermos o que está acontecendo com a Amazônia. Esse fenômeno ocorre em razão de a região leste [da Amazônia] já estar muito desmatada, e esse desmatamento está alterando as condições climáticas, principalmente a estação seca. Essa condição muito estressante e adversa faz com que essa região tenha uma emissão de carbono muito maior que a oeste.

Observamos que no saldo entre absorções e emissões a Amazônia emite para a atmosfera 290 milhões de toneladas de carbono por ano – Luciana Gatti

Observamos que a redução de chuvas é, praticamente, proporcional à área desmatada e que houve um aumento muito grande de temperatura, principalmente nos meses de agosto, setembro e outubro. Esses são os meses em que o pessoal, depois de desmatar, coloca fogo nas áreas, pois esperam mais ou menos três meses para a vegetação ficar bem seca. Em função disso, a floresta que não foi desmatada fica tremendamente seca, pois os volumes de chuva são reduzidos. Por exemplo, a região nordeste da Amazônia, que estudamos, está 37% desmatada e perdeu 34% de chuvas; a região sudeste está 28% desmatada e perdeu 24% de chuvas. O aumento de temperatura na região nordeste da Amazônia foi de 1,9ºC e na região sudeste foi de 2,5ºC. Essa variação ocorreu em um cenário de 40 anos. Isso tudo é favorecido por esses fatores que mencionei somados à queima de pastagens para gado, cuja produção está enorme na Amazônia, pois, considerando dados até 2019, 36% do gado brasileiro estava no bioma. Como a floresta está extremamente seca, o fogo acaba entrando nas partes em que não foi desmatada, representando, também, emissões.

As emissões não são somente na hora das queimadas, mas também depois, por ocasião da decomposição das regiões queimadas da floresta. Isso acontece seja com folhas, com galhos, seja com árvores inteiras que morreram ao longo dos anos. Uma segunda emissão adicional é o que está acontecendo com a floresta que não foi nem queimada, nem desmatada, mas que tem relação com a condição de estresse associada a pouca disponibilidade de água somada à temperatura alta. Nós temos de lembrar que a Amazônia é uma floresta tropical úmida, onde as árvores estão habituadas a uma condição de abundância de água e temperaturas amenas, o que não está acontecendo por três, quatro, às vezes, cinco meses ao longo do ano, dependendo da região. Isso tudo faz com que as árvores vão perdendo as folhas, cujo material se junta à decomposição no solo, e leva, até mesmo, à morte das árvores. Alguns estudos apontam que a mortalidade das árvores é muito maior.

IHU – Nessas regiões, pode-se afirmar que chegamos a um ponto de não retorno (tipping point)? Por quê?

Luciana Gatti – Quando começamos a fazer o nosso estudo, em 2010, a Amazônia já era uma fonte de emissão de carbono principalmente por culpa do desmatamento e das queimadas. Não dá para dizer que chegamos a um ponto de não retorno. Se pararmos hoje de queimar e desmatar e passarmos a reflorestar as áreas que estão com desmatamento acima de 30%, seria possível reverter o cenário que estamos observando hoje? Talvez sim. É muito difícil, apenas observando as emissões de carbono, responder isso com certeza. Seria necessário fazer um estudo com pessoas de muitas áreas diferentes para chegar a uma conclusão mais precisa.

Quando começamos a fazer o nosso estudo, em 2010, a Amazônia já era uma fonte de emissão de carbono principalmente por culpa do desmatamento e das queimadas – Luciana Gatti

IHU – No geral, considerando o bioma da floresta amazônica em sentido mais amplo, qual a relação entre absorção e emissão de gases do efeito estufa? Ela (hoje) emite mais gases ou absorve mais gases?

Luciana Gatti – Essa questão é bastante genérica. Nós não podemos falar disso de maneira tão ampla. Cada ciclo, cada espécie de gás tem particularidades. O estudo que fizemos foi sobre CO2. E é sobre CO2 que a planta faz fotossíntese durante o dia, absorvendo-o e eliminando oxigênio e à noite o oposto. Uma floresta madura mantém um equilíbrio entre o que ela absorve e o que ela emite. Considerando, porém, que o ar está mais enriquecido de CO2, porque usa-se muito petróleo, combustíveis fósseis e se derrubam muitas florestas, estamos enriquecendo a atmosfera de CO2 em mais de 100% e isso estimula as árvores a absorverem mais carbono do que na condição de equilíbrio.

O problema é que a Amazônia está com o clima muito adverso, muito estressante e isso está promovendo um desgaste maior. Está ocorrendo mais mortalidade do que crescimento de floresta no sudeste da Amazônia. No nordeste da Amazônia, que também está muito desmatado, essa condição está fazendo com que a floresta compense apenas 20% do total das emissões de desmatamento e queimadas.

Um primeiro impacto, grosso modo, é que 20% da Amazônia desmatada são 20% a menos de contribuição da formação de nuvens de chuva com vapor de água – Luciana Gatti

IHU – Qual a importância da floresta amazônica para o clima no Brasil? Como impacta no regime de chuvas e de estiagem de outras regiões?

Luciana Gatti – As árvores evapotranspiram. As raízes pegam a água no solo e jogam na atmosfera em forma de vapor. Um primeiro impacto, grosso modo, é que 20% da Amazônia desmatada são 20% a menos de contribuição na formação de nuvens de chuva com vapor de água, o que causa, como consequência direta, menos precipitação. A segunda consequência é que, quando a água vai do estado líquido para o estado de vapor, ela precisa “roubar” energia e esta energia é apropriada do ambiente em forma de calor, causando um resfriamento. Se menos árvores estão evapotranspirando (afinal as árvores não existem mais), há o aumento de temperatura. Esse é um processo que poderia estar minimizando o aumento das temperaturas devido às mudanças climáticas.

A Amazônia poderia ser uma grande proteção para as mudanças climáticas, pois ela absorve gás carbônico, forma muita chuva com a evapotranspiração e com isso reduz a temperatura, servindo de proteção contra as mudanças climáticas. Contudo, ao desmatar estamos transformando a Amazônia em um fator de contribuição para as mudanças climáticas, pois estamos:

1) jogando mais gás carbônico para a atmosfera;

2) reduzindo as chuvas, o que já é efeito das mudanças climáticas aqui no Brasil;

3) essas transformações estão trazendo o aumento de temperatura. Tudo isso forma um clima extremamente estressante para a Amazônia, que produz um aumento na mortalidade das árvores de forma ampliada e exponencial.

A Amazônia poderia ser uma grande proteção para as mudanças climáticas, pois ela absorve gás carbônico, forma muita chuva com a evapotranspiração e com isso reduz a temperatura – Luciana Gatti

O desmatamento da Amazônia é, em várias ordens de grandeza, prejudicial a toda a América do Sul, ao Brasil, ao agronegócio, que será o primeiro setor a sentir a redução da produtividade devido ao desmatamento. Isso traz consequências para a sociedade de maneira geral, uma vez que essas mudanças climáticas estão causando vários danos ao volume de chuvas e com isso impactos na produção de energia, eventos extremos com muitos prejuízos e mortes. Isso não será sentido somente no Brasil ou na América do Sul, mas no mundo todo, pois se trata de uma área gigantesca que faz a diferença no planeta. Estamos fazendo com que a Amazônia, que é um benefício gigantesco para o brasileiro, acabe se transformando numa contribuição para a aceleração das mudanças climáticas.

IHU – Que políticas públicas e que ações devem ser tomadas no sentido de preservar o bioma amazônico?

Luciana Gatti – Temos que adotar medidas urgentes para salvar a Amazônia. Em primeiro lugar devemos fazer um grande acordo nacional, uma moratória de dez anos sobre a Amazônia e a proibição de quaisquer tipos de queimadas entre julho e novembro, período de estiagem e maior seca, com incêndios incontroláveis. Esse problema pode ser observado não somente na região Norte do Brasil, mas no país inteiro. Não à toa toda hora vemos incêndios que foram provocados numa área pequena em que a vegetação está tão seca que o fogo acaba saindo de controle, produzindo ainda mais emissão de gases do efeito estufa e contribuindo para as mudanças climáticas.

Estamos “plantando seca”. Ah, e devo acrescentar, estamos plantando incêndio e um futuro muito tenebroso para o Brasil – Luciana Gatti

Isso é uma espécie de “bola de neve” que vai se retroalimentando e piorando cada vez mais. Precisamos de medidas urgentes para minimizar as alterações na vida em sociedade que a mudança climática está trazendo e administrar um futuro que, podemos prever, será uma catástrofe. Até agora nós estamos contribuindo com a catástrofe, fazendo o oposto do que deveríamos estar fazendo ao incentivar o desmatamento e uma série de destruições das leis de proteção ambiental, ou seja, estamos trabalhando contra nós mesmos. Estamos “plantando seca”. Ah, e devo acrescentar, estamos plantando incêndio e um futuro muito tenebroso para o Brasil. (ecodebate)

domingo, 25 de setembro de 2022

No ritmo atual o aquecimento global pode se tornar ‘catastrófico’

Especialistas pedem uma nova agenda de pesquisa ‘ Climate Endgame ‘ e dizem que muito pouco trabalho foi feito para entender os mecanismos pelos quais o aumento das temperaturas pode representar um risco catastrófico para a sociedade e a humanidade.

O aquecimento global pode se tornar “catastrófico” para a humanidade se os aumentos de temperatura forem piores do que muitos preveem ou causarem cascatas de eventos que ainda temos que considerar, ou mesmo ambos.

O mundo precisa começar a se preparar para a possibilidade de um “fim do jogo climático”.

Isso é de acordo com uma equipe internacional de pesquisadores liderada pela Universidade de Cambridge, que propõe uma agenda de pesquisa para enfrentar cenários do pior ao pior. Estes incluem resultados que vão desde uma perda de 10% da população global até a eventual extinção humana.

Em um artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences , os pesquisadores pedem ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que dedique um relatório futuro às mudanças climáticas catastróficas para estimular a pesquisa e informar o público.

“Há muitas razões para acreditar que as mudanças climáticas podem se tornar catastróficas, mesmo em níveis modestos de aquecimento”, disse o principal autor Dr. Luke Kemp, do Centro para o Estudo do Risco Existencial de Cambridge.

“A mudança climática desempenhou um papel em todos os eventos de extinção em massa”. Ajudou a derrubar impérios e moldou a história. Até o mundo moderno parece adaptado a um nicho climático específico.

“Os caminhos para o desastre não se limitam aos impactos diretos das altas temperaturas, como eventos climáticos extremos”.

“Efeitos indiretos como crises financeiras, conflitos e novos surtos de doenças podem desencadear outras calamidades e impedir a recuperação de possíveis desastres, como a guerra nuclear”, disse ele.

“O risco catastrófico existe, mas precisamos de uma imagem mais detalhada.”

Kemp e colegas argumentam que as consequências do aquecimento de 3°C e além, e os riscos extremos relacionados, foram subexaminados.

“Sabemos que o aumento da temperatura tem uma ‘ cauda gorda ‘, o que significa uma ampla gama de probabilidades mais baixas, mas resultados potencialmente extremos” – Dr Luke Kemp

A modelagem feita pela equipe mostra áreas de calor extremo (uma temperatura média anual superior a 29°C), podendo cobrir dois bilhões de pessoas até 2070. Essas áreas não são apenas algumas das mais densamente povoadas, mas também algumas das mais politicamente frágeis.

“Temperaturas médias anuais de 29°C afetam atualmente cerca de 30 milhões de pessoas no Saara e na Costa do Golfo”, disse o coautor Chi Xu, da Universidade de Nanjing.

“Até 2070, essas temperaturas e as consequências sociais e políticas afetarão diretamente duas potências nucleares e sete laboratórios de contenção máxima que abrigam os patógenos mais perigosos. Existe um sério potencial para efeitos catastróficos desastrosos”, disse ele.

O relatório do IPCC do ano passado sugeriu que, se o CO2 atmosférico dobrar em relação aos níveis pré-industriais – algo em que o planeta está a meio caminho –, há uma chance de aproximadamente 18% de as temperaturas subirem além de 4,5°C.

No entanto, Kemp foi coautor de um estudo de “mineração de texto” dos relatórios do IPCC, publicado no início deste ano, que descobriu que as avaliações do IPCC mudaram do aquecimento de alto nível para se concentrar cada vez mais em aumentos de temperatura mais baixos.

Isso se baseia em trabalhos anteriores que ele contribuiu para mostrar que os cenários de temperaturas extremas são “subexplorados em relação à sua probabilidade”. “Sabemos menos sobre os cenários que mais importam”, disse Kemp.

A equipe por trás do artigo da PNAS propõe uma agenda de pesquisa que inclui o que eles chamam de “quatro cavaleiros” do jogo climático final: fome e desnutrição, clima extremo, conflito e doenças transmitidas por vetores.

O aumento das temperaturas representa uma grande ameaça ao suprimento global de alimentos, dizem eles, com crescentes probabilidades de “falhas no celeiro” à medida que as áreas mais produtivas do mundo sofrem colapsos coletivos.

O clima mais quente e extremo também pode criar condições para novos surtos de doenças, à medida que os habitats das pessoas e da vida selvagem mudam e diminuem.

Os autores alertam que o colapso do clima provavelmente exacerbaria outras “ameaças interativas”: da crescente desigualdade e desinformação ao colapso democrático e até novas formas de armas destrutivas de IA.

Um possível futuro destacado no artigo envolve “guerras quentes” nas quais superpotências tecnologicamente aprimoradas lutam tanto pelo espaço cada vez menor de carbono quanto por experimentos gigantes para desviar a luz solar e reduzir as temperaturas globais.

Sobreposição entre a distribuição futura da população e o calor extremo. Os dados do modelo CMIP6 [de nove modelos GCM disponíveis no banco de dados WorldClim (45)] foram usados para calcular o MAT sob SSP3-7.0 durante cerca de 2070 (2060–2080) juntamente com projeções demográficas SSP3 compartilhadas até ~2070 (46). As áreas sombreadas representam regiões onde MAT excede 29°C, enquanto a topografia colorida detalha a disseminação da densidade populacional.

Mais foco deve continuar na identificação de todos os possíveis pontos de inflexão dentro da “Hothouse Earth”, dizem os pesquisadores: desde o metano liberado pelo derretimento do permafrost até a perda de florestas que atuam como “sumidouros de carbono” e até mesmo o potencial para o desaparecimento da cobertura de nuvens.

“Quanto mais aprendemos sobre como nosso planeta funciona, maior o motivo de preocupação”, disse o coautor Prof Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático.

“Cada vez mais entendemos que nosso planeta é um organismo mais sofisticado e frágil. Devemos fazer a matemática do desastre para evitá-lo”, disse ele.

A coautora Prof Kristie Ebi, da Universidade de Washington, disse: “Precisamos de um esforço interdisciplinar para entender como as mudanças climáticas podem desencadear morbidade e mortalidade em massa humana”.

Kemp acrescentou: “Uma maior apreciação dos cenários climáticos catastróficos pode ajudar a impulsionar a ação pública. Compreender o inverno nuclear desempenhou uma função semelhante para os debates sobre o desarmamento nuclear”.

“Sabemos que o aumento da temperatura tem uma ‘cauda gorda’, o que significa uma ampla gama de probabilidades mais baixas, mas resultados potencialmente extremos”, disse ele.

“Enfrentar um futuro de aceleração das mudanças climáticas, permanecendo cego para os piores cenários, é uma gestão de risco ingênua na melhor das hipóteses e fatalmente tola na pior”. (ecodebate)

As mudanças climáticas nos exigem olhar para o futuro

É o pior momento ambiental da nossa história e o mundo inteiro nos cobra mais responsabilidade e empenho para conter o desmatamento, as queimadas, a mineração clandestina e o avanço de lavouras e pastagens sobre a mata nativa.

As mudanças climáticas e a sustentabilidade nos exigem olhar para o futuro. Entrevista especial com Marcelo Dutra da Silva

“Descarbonizar a economia, neste momento, em que se busca recuperar o prejuízo, parece algo impossível, mas talvez seja oportuno para planejarmos nosso futuro econômico”, diz o professor da Universidade Federal do Rio Grande – FURG

Além dos vastos recursos naturais que o Brasil possui em seu território, há mais uma razão para o país investir no caminho de se tornar uma economia sustentável: os efeitos das mudanças climáticas. Segundo o ecólogo Marcelo Dutra da Silva, o último relatório do IPCC coloca o país “em uma posição difícil e ao mesmo tempo muito favorável”. “Difícil porque entre as mudanças colocadas como irreversíveis, pelo menos dentro deste século, está o aumento progressivo do nível dos oceanos, o que deve nos atingir em cheio, pois temos um litoral extenso e densamente ocupado. Também difícil, porque as nossas emissões de gases do efeito estufa estão fortemente associadas ao desmatamento e práticas perversas de extração mineral e ao agronegócio de ocasião, ilegal e sem limites”, explica.

Apesar do cenário projetado, insiste, o Brasil tem condições de zerar o desmatamento ilegal e acelerar o investimento em fontes energéticas alternativas. “Há um largo espaço de oportunidades no mercado brasileiro para geração de energia livre de carbono. Quase 80% da energia gerada no Brasil é limpa e provém de fontes renováveis, apesar dos impactos da hidroeletricidade. Entretanto, tanto aqui [no Rio Grande do Sul] quanto no Brasil inteiro, o potencial de geração eólica e solar é vastíssimo. É um mercado em expansão com perspectiva de forte crescimento, neste momento muito estimulado pelo risco de mais um apagão energético. O que é irônico, pois se, por um lado, vivemos este novo risco de faltar energia e isso está associado à falta de chuvas (a maior em 91 anos), por outro, pouco estamos fazendo para coibir o desmatamento (que continua elevado) e praticamente nada foi feito para prevenir um novo momento de crise energética”, lamenta.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Silva expõe as razões pelas quais o Brasil deveria investir na descarbonização da matriz energética, comenta os efeitos das mudanças climáticas sobre a pressão dos corpos hídricos e ecossistemas aquáticos e suas implicações para o Pampa gaúcho.

Marcelo Dutra da Silva é graduado em Ecologia pela Universidade Católica de Pelotas – UCPel, mestre e doutorado em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Agronomia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. Atualmente, leciona na Universidade Federal do Rio Grande – FURG, no Instituto de Oceanografia – IO. É coordenador do Laboratório de Ecologia de Paisagem Costeira – LEPCost e vice-presidente da Sociedade de Ecologia do Brasil.

IHU – Recentemente, um estudo realizado pelo MapBiomas alertou para a redução da superfície de água em oito das 12 regiões hidrográficas do Brasil e nos biomas brasileiros. Um dos pontos destacados é que as mudanças climáticas aumentaram a pressão sobre os corpos hídricos e ecossistemas aquáticos. Quais são os efeitos das mudanças climáticas no Pampa gaúcho? Que efeitos estão sendo observados na região, associados às mudanças climáticas?

Marcelo Dutra da Silva – A notícia revelada pelo MapBiomas, quanto à retração da superfície coberta com água no Brasil, é estarrecedora. 3,1 milhões de hectares de cobertura hídrica é muita coisa para perder em 30 anos. Significa que 15,7% da área coberta por água evaporou. O que equivale a 62 vezes o tamanho da capital Porto Alegre ou mais de três vezes a superfície da Lagoa dos Patos, a maior laguna da América do Sul. E os dados indicam uma clara tendência de perda de superfície de água em todas as regiões hidrográficas, de todos os biomas do país.

3,1 milhões de hectares de cobertura hídrica é muita coisa para perder em 30 anos. Significa que 15,7% da área coberta por água evaporou – Marcelo Dutra da Silva

Certamente essa é uma forte evidência de que as mudanças climáticas aumentam a pressão sobre os corpos hídricos e ecossistemas aquáticos. E é o que também podemos esperar para o Pampa gaúcho. Na verdade, sempre estivemos expostos a um clima que se alterna – com períodos prolongados de estiagem, altas temperaturas, chuvas torrenciais, granizo, frio intenso, geadas… Nada disso é estranho para o gaúcho. De alguma forma nos acostumamos e convivemos com essas diferenças, mesmo que bastante variáveis de uma região para outra do Estado. Mas tudo pode mudar, em breve. E este é o ponto. A Terra está mais quente (1,07°C) e somos apontados como os verdadeiros culpados. Pelo menos, é o que afirma o sexto relatório de avaliação – AR6 (Climate Change 2021: The Physical Science Basis), do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ao considerar irrefutável nossa responsabilidade pelo aumento da temperatura e nossa influência nas mudanças impostas ao sistema climático da Terra. Mudanças profundas, inequívocas e sem precedentes na história. De acordo com o relatório, nada parecido aconteceu nos últimos 6.500 anos e todas as regiões do globo já foram afetadas de alguma forma, seja por extremos de calor, chuva, seca ou vento de altas velocidades. Cada uma das últimas quatro décadas foi sucessivamente mais quente que qualquer outra, desde 1850; a temperatura vai continuar subindo e a menos que haja reduções drásticas das emissões de gases do efeito estufa (portanto, limitar o aquecimento a 1,5°C, meta do Acordo de Paris para este século), poderá ser impossível reverter o quadro.

A nossa capacidade de influenciar o clima já é a maior em dois mil anos e os valores de temperatura podem ser muito mais acentuados a depender de cada região do globo, em algumas até muito mais elevadas do que a média. Mesmo que boa parte das mudanças se mostrem irreversíveis, é possível que muitas possam ser retardadas ou interrompidas. Só depende de nós e este é o problema. Precisamos cortar drasticamente nossas emissões de gases do efeito estufa, em todas as etapas do processo produtivo. Em outras palavras, descarbonizar a economia, o que não é uma tarefa fácil.

Precisamos cortar drasticamente nossas emissões de gases do efeito estufa, em todas as etapas do processo produtivo. Em outras palavras, descarbonizar a economia – Marcelo Dutra da Silva

De outra parte, tudo que vem acontecendo em outras regiões do país deve nos afetar também. O Sul deve enfrentar mais um longo período de estiagem, com eventos de precipitação intensa, associada a ventos fortes e perturbadores. O risco fica por conta das recorrentes manifestações climáticas extremas e toda sorte de prejuízos. Aliás, isso já está acontecendo. Não faz muito que vimos nevar na Serra e formar geada negra. Agora, as chuvas das últimas semanas têm provocado alagamentos em diversas cidades do litoral e isso ocorre no mesmo momento em que o interior do Estado sofre com a falta de água. E tudo indica que vamos rever o ínterim 2019/2020, quando 394 municípios gaúchos enfrentaram um forte déficit hídrico e mais de 50 municípios autodeclararam emergência devido à estiagem. Um cenário dramático que tende a se repetir e talvez com muito mais intensidade.

IHU – Como avalia o fomento do Estado brasileiro ao setor de carvão mineral, conforme exposto no Programa para Uso Sustentável do Carvão Mineral Nacional, tendo em vista o contexto de mudanças climáticas?

Marcelo Dutra da Silva – A sustentabilidade nos exige olhar para o futuro e fazer diferente desde agora. Fomentar o carvão é continuar insistindo em algo que não dá mais certo. O carvão mineral é uma fonte energética muito suja e ultrapassada. A única avaliação positiva possível, que ainda pode ser feita, diante do cenário de crise, é a de que é uma reserva emergencial importante, para tempos difíceis, mas que precisa ter seu uso desmobilizado. A queima do carvão tem forte impacto no clima e não há a menor possibilidade de sucesso em um “programa de uso sustentável”. Neste caso, para ser sustentável o carvão não pode ser usado.

Fomentar o carvão é continuar insistindo em algo que não dá mais certo. O carvão mineral é uma fonte energética muito suja e ultrapassada – Marcelo Dutra da Silva

IHU – Como o senhor analisa, de outro lado, a proposta do governo do Rio Grande do Sul, de incentivar a implementação da Usina Termelétrica Nova Seival, na região sul do estado, ou mesmo o projeto de exploração de carvão, com a proposta da Mina Guaíba?

Marcelo Dutra da Silva – Na minha avaliação o governo Eduardo Leite é muito mais tradicional e preso às práticas convencionais do que se imagina. Não há espaço para inovação, tampouco a intenção de modernizar nossa matriz energética, com corte significativo das emissões de gases do efeito estufa, entre outras iniciativas necessárias, na conversão para o desenvolvimento com características de sustentabilidade. Tanto a implantação da Usina Nova Seival, quanto a exploração do carvão na Mina Guaíba revelam o quanto é limitado o horizonte do governo, que não vê futuro em fontes energéticas alternativas, mantendo-se preso em conceitos ultrapassados e dissonantes de um futuro de baixo carbono.

O governo Eduardo Leite é muito mais tradicional e preso às práticas convencionais do que se imagina – Marcelo Dutra da Silva

IHU – O que significa investir em fontes energéticas a carvão num momento em que o mundo discute a descarbonização da matriz energética?

Marcelo Dutra da Silva – Significa caminhar na contramão do mundo e em oposição à ideia de um futuro sustentável. E de uma forma profundamente lamentável, já que temos, ao nosso favor, um enorme potencial energético de fontes limpas, ainda pouco explorado. Por aqui, o vento é constante, entre os melhores do mundo para produzir energia, com potência de 500 W/m² (fluxo médio de 7,5 m/s, a 50 m de altura). Apenas 13% da superfície terrestre apresenta vento na velocidade média igual ou superior a esta marca, segundo a Organização Mundial de Meteorologia (WMO). O mesmo para o potencial solar, que é menor comparado a outras regiões brasileiras, mas que supera, em 30%, o potencial solar da Alemanha, país líder neste segmento. Portanto, estamos desperdiçando riquezas ao não criar um ambiente mais favorável ao investimento nas fontes limpas de geração, o que é lamentável.

Estamos desperdiçando riquezas ao não criar um ambiente mais favorável ao investimento nas fontes limpas de geração, o que é lamentável – Marcelo Dutra da Silva

IHU – Tendo em vista o último relatório do IPCC, que ações são urgentes para modificar ou reajustar o plano energético brasileiro?

Marcelo Dutra da Silva – O relatório do IPCC nos coloca em uma posição difícil e ao mesmo tempo muito favorável. Difícil porque entre as mudanças colocadas como irreversíveis, pelo menos dentro deste século, está o aumento progressivo do nível dos oceanos, o que deve nos atingir em cheio, pois temos um litoral extenso e densamente ocupado. Também difícil, porque as nossas emissões de gases do efeito estufa estão fortemente associadas ao desmatamento e práticas perversas de extração mineral e ao agronegócio de ocasião, ilegal e sem limites.

Mas há o que podemos fazer para reverter este quadro e amenizar os efeitos do aquecimento. Podemos conter e zerar o desmatamento ilegal, bastando fortalecer a política ambiental, sobretudo o esforço de fiscalização e controle. Mais do que isso, há um largo espaço de oportunidades no mercado brasileiro para geração de energia livre de carbono. Quase 80% da energia gerada no Brasil é limpa e provém de fontes renováveis, apesar dos impactos da hidroeletricidade. Entretanto, tanto aqui [no Rio Grande do Sul] quanto no Brasil inteiro, o potencial de geração eólica e solar é vastíssimo. É um mercado em expansão com perspectiva de forte crescimento, neste momento muito estimulado pelo risco de mais um apagão energético. O que é irônico, pois se, por um lado, vivemos este novo risco de faltar energia e isso está associado à falta de chuvas (a maior em 91 anos), por outro, pouco estamos fazendo para coibir o desmatamento (que continua elevado) e praticamente nada foi feito para prevenir um novo momento de crise energética.

Mudanças climáticas do passado são fundamentais para o futuro do planeta

IHU – Quais são os efeitos ambientais e sociais que o carvão tem gerado na região sul do RS? Ele impacta o bioma Pampa?

Marcelo Dutra da Silva – Os efeitos diretos da exploração e queima do carvão na região sul do Estado, com o qual aquela região é obrigada a conviver, estão associados à transformação da paisagem e ao risco da contaminação e acidificação do solo e da água, emissões atmosféricas tóxicas, lançamento de particulados e o sequestro biológico de metais pesados pela biota, incluindo o organismo humano. Já os efeitos indiretos, que todos nós sentimos, estão ligados às emissões de gases do efeito estufa, que contribuem fortemente para o aquecimento global e mudanças no sistema climático e todos os efeitos decorrentes.

A criação de gado em campo nativo deve ser fortalecida e ampliada, pois tem mercado, valor agregado e é a principal estratégia de manutenção dos remanescentes do campo original do Pampa – Marcelo Dutra da Silva

IHU – O que significa fazer a gestão e uso sustentável dos recursos naturais, tendo em vista as mudanças climáticas?

Marcelo Dutra da Silva – Significa mudar de rumo, sensibilizar novos hábitos, assumir práticas, tomar novas escolhas e, sobretudo, firmar uma trajetória de aprendizado, quanto à melhor forma de aproveitar nossas potencialidades, que são muito mais amplas do que as fontes energéticas de baixo carbono. Temos um vasto campo de desenvolvimento na produção orgânica em escala e na agricultura familiar de base ecológica para reduzir de forma significativa o uso de veneno e insumos fertilizantes (que estão associados ao uso de óxido nitroso, um importante gás do efeito estufa). A criação de gado em campo nativo deve ser fortalecida e ampliada, pois tem mercado, valor agregado e é a principal estratégia de manutenção dos remanescentes do campo original do Pampa. Assim como a exploração e beneficiamento das nossas rochas ornamentais, o turismo em cenários belíssimos e o incentivo para empresas verdes e responsáveis. E não é só isso. Vivemos em uma região privilegiada, sob diversos aspectos. Nossa posição geográfica é estratégica, nossos rios e essa enorme laguna nos permitem conectar, por via hídrica e sobre trilhos, o interior do Estado com o centro industrial brasileiro de São Paulo (ao norte) e o porto de Montevidéu, no Uruguai (ao sul). Também possuímos um porto marítimo, que para além das relações macroeconômicas regionais, nos permite estabelecer outras conexões com o mundo e tudo isso precisa ser usado a nosso favor.

É o pior momento ambiental da nossa história e o mundo inteiro nos cobra mais responsabilidade e empenho para conter o desmatamento, as queimadas, a mineração clandestina e o avanço de lavouras e pastagens sobre a mata nativa – Marcelo Dutra da Silva

IHU – Considerando as diferentes características regionais do Brasil e o cenário de mudanças climáticas, que alternativas são possíveis para a matriz energética e para a preservação dos biomas brasileiros?

Marcelo Dutra da Silva – Todos os olhares se voltam para o Brasil quando o assunto é meio ambiente, tanto para o que estamos, quanto para o que deixamos de fazer (e foi muita coisa). O desmonte ambiental é enorme e a boiada continua passando na porteira. Renunciamos a recursos importantes, desmobilizamos a política climática e reduzimos o esforço de fiscalização e controle. Em resumo, é o pior momento ambiental da nossa história e o mundo inteiro nos cobra mais responsabilidade e empenho para conter o desmatamento, as queimadas, a mineração clandestina e o avanço de lavouras e pastagens sobre a mata nativa. Não vejo alternativa senão retroceder o desmonte e reabilitar nossa política de meio ambiente, incluindo o orçamento, que caiu para menos da metade no atual governo. Evidentemente, tudo isso acaba refletindo na execução da política ambiental, em cada estado e/ou município, inclusive por aqui.

Mudanças climáticas desenham o cenário de urgência para a saúde do planeta na próxima década

Descarbonizar a economia, neste momento, em que se busca recuperar o prejuízo, parece algo impossível, mas talvez seja oportuno para planejarmos nosso futuro econômico. A ideia de retomarmos o desenvolvimento, dentro das mesmas condições, anteriores à pandemia, é equivocada. Não mais será como já foi um dia e já estava bem ruim e errado. Podemos ser um país de economia sustentável, que sabe aproveitar o melhor de cada região, sem comprometer os recursos e os serviços prestados pela natureza. Há muito o que fazer, seja reduzindo gases do efeito estufa, investindo em tecnologias verdes ou preparando a sociedade, o campo e a cidade para as mudanças que estão por vir. (ecodebate)

Os fatos e a ciência da Mudança Climática

O clima da Terra está mudando e o clima global deverá continuar a mudar ao longo deste século e além.

A magnitude das mudanças climáticas para além das próximas décadas dependerá principalmente da quantidade de gases de efeito estufa (que retêm o calor) emitidos globalmente e da incerteza remanescente na sensibilidade do clima da Terra a essas emissões. Com reduções significativas nas emissões de gases de efeito estufa (GEEs), o aumento médio anual da temperatura global pode ser limitado a 2°C ou menos. No entanto, sem grandes reduções nessas emissões, o aumento das temperaturas globais médias anuais, em relação aos tempos pré-industriais, pode chegar a 5°C ou mais até o final deste século.

O clima global continua a mudar rapidamente em comparação com o ritmo das variações naturais do clima que ocorreram ao longo da história da Terra. Tendências na temperatura média global, aumento do nível do mar, conteúdo de calor no alto do oceano, derretimento do gelo terrestre, gelo do mar ártico, profundidade do degelo sazonal do permafrost e outras variáveis climáticas fornecem evidências consistentes de um planeta em aquecimento. Essas tendências observadas são robustas e confirmadas por vários grupos de pesquisa independentes em todo o mundo.

As observações do sistema climático são baseadas em medições físicas e biogeoquímicas diretas e sensoriamento remoto de estações terrestres e satélites. Informações derivadas de arquivos paleoclimáticos fornecem um contexto de longo prazo dos climas passados. Diferentes tipos de evidências ambientais são usados para entender como era o clima do passado da Terra e por quê. Registros de condições climáticas históricas são preservados em anéis de árvores, trancados em esqueletos de recifes de corais tropicais, selados em geleiras e calotas polares e enterrados em sedimentos laminados de lagos e oceanos. Os cientistas podem usar esses registradores ambientais para estimar condições passadas, estendendo nossa compreensão do clima de centenas a milhões de anos. As observações em escala global da era instrumental começaram em meados do século XIX, e reconstruções paleoclimáticas estendem o registro de algumas quantidades de centenas a milhões de anos. Juntos, isso fornece uma visão abrangente da variabilidade e das mudanças de longo prazo na atmosfera, no oceano, na criosfera e na superfície terrestre.

A importância da educação sobre mudanças climáticas

Paleoclima

Reconstruções de arquivos paleoclimáticos permitem que mudanças atuais na composição atmosférica, nível do mar e sistemas climáticos (incluindo eventos extremos como secas e inundações), bem como projeções de climas futuros, sejam colocadas em uma perspectiva mais ampla da variabilidade climática passada. As informações climáticas passadas também documentam o comportamento de componentes lentos do sistema climático, incluindo o ciclo do carbono, as camadas de gelo e o oceano profundo, para os quais os registros instrumentais são curtos em comparação com suas escalas de tempo características de respostas a perturbações, informando assim sobre mecanismos de mudanças abruptas e irreversíveis.

Mudanças: Registros climáticos nos últimos séculos e milênios indicam que as temperaturas médias nas últimas décadas em grande parte do mundo foram muito mais altas e aumentaram mais rapidamente durante esse período.

O paleoclima pode nos ajudar a entender as mudanças climáticas em uma escala de tempo geológica, em vez de algumas gerações humanas. A Figura 1 apresenta a reconstrução paleoclimática para o Hemisfério Norte (NH), que revela as temperaturas médias anuais, para o período 1983-2012 foram muito provavelmente os períodos de 30 anos mais quente dos últimos 800, anos e provavelmente os períodos de 30 anos mais quente dos últimos 1400 anos.  a) mostra o forçamento radiativo devido a gases de efeito estufa vulcânicos, solares e bem misturado (WMGHGs). Cores diferentes ilustram os dois conjuntos de dados existentes para forçamento vulcânico e quatro estimativas de forçamento solar e a linha cinza representa WMGHGs para o período 850-2000. b)representa as anomalias de temperatura simuladas (vermelho) e reconstruídas (sombreadas) do Hemisfério Norte. A linha vermelha grossa representa a média multimodelo, enquanto as linhas vermelhas finas mostram a faixa multimodelo de 90%. A sobreposição das temperaturas reconstruídas é mostrada pelo sombreamento cinza.

Figura 1. a) Forçante radiativo (W/m2) devido a gases de efeito estufa vulcânicos, solares e bem misturados para o período 850-2000. b) Anomalias de Temperatura do Hemisfério Norte reconstruídas (cinza) e simuladas (vermelhas) para o período 850-2000.

As projeções do modelo (Figura 2) indicam que o aquecimento médio global do século XXI excederá substancialmente o período do Último Máximo Glacial e até mesmo as condições mais quentes do Holoceno; produzindo um estado climático não experimentado anteriormente.

Figura 2.   Anomalias de temperatura global simuladas por modelo para o Último Máximo Glacial (21.000 anos atrás), o Holoceno médio (6.000 anos atrás) e projeção para 2071–2095, sob RCP8.5.

O que isto significa

O clima da Terra está mudando mais rápido do que em qualquer ponto da história conhecida do clima, principalmente como resultado das atividades humanas. Existe um consenso científico de que as emissões não mitigadas de carbono levarão ao aquecimento global de pelo menos vários graus Celsius até 2100, resultando em altos impactos de riscos locais, regionais e globais para a sociedade humana e os ecossistemas naturais. A mudança climática global já resultou em uma ampla gama de impactos em todas as regiões da Terra, bem como em muitos setores econômicos.

Os impactos relacionados às mudanças climáticas são evidentes em todas as regiões e em muitos setores importantes para a sociedade, como saúde humana, agricultura e segurança alimentar, abastecimento de água, transporte, energia, biodiversidade e ecossistemas; Espera-se que os impactos se tornem cada vez mais disruptivos nas próximas décadas. Existe uma confiança muito alta de que a frequência e a intensidade de eventos de calor extremo e precipitação pesada estão aumentando na maioria das regiões continentais do mundo. Essas tendências são consistentes com as respostas físicas esperadas para um clima em aquecimento. A frequência e a intensidade dos eventos de temperaturas extremamente altas provavelmente aumentarão no futuro à medida que a temperatura global aumentar. Existe uma grande confiança de que os eventos extremos de precipitação muito provavelmente continuarão a aumentar em frequência e intensidade na maior parte do mundo.

O que é Mudança Climática

As mudanças observadas ao longo do século 20 incluem aumentos na temperatura global do ar e do oceano, aumento do nível do mar global, redução generalizada sustentada de longo prazo da cobertura de neve e gelo e mudanças na circulação atmosférica e oceânica, bem como padrões climáticos regionais, que influenciam as chuvas sazonais.

Condições: Essas mudanças são causadas pelo calor extra no sistema climático devido à adição de gases de efeito estufa à atmosfera. Esses gases de efeito estufa adicionais são gerados principalmente por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), desmatamento, agricultura e mudanças no uso da terra. Essas atividades aumentam a quantidade de gases de efeito estufa ‘retentores de calor’ na atmosfera. O padrão de mudanças observadas no sistema climático é consistente com um aumento do efeito estufa.

Clima refere-se à média regional ou global de longo prazo de temperatura, umidade e padrões de precipitação ao longo de estações, anos ou décadas.

Enquanto o clima pode mudar em apenas algumas horas, o clima muda em prazos mais longos. A mudança climática é a variação significativa das condições climáticas médias tornando-se, por exemplo, mais quentes, mais úmidas ou mais secas – ao longo de várias décadas ou mais. É a tendência de longo prazo que diferencia as mudanças climáticas da variabilidade natural do clima.

A atividade humana leva a mudanças na composição atmosférica diretamente (via emissões de gases ou partículas) ou indiretamente (via química atmosférica). As emissões antrópicas impulsionaram as mudanças nas concentrações de WMGHG durante a Era Industrial. O forçamento radiativo (RF) é uma medida da mudança líquida no balanço de energia do sistema terrestre em resposta a alguma perturbação externa; RF positivo leva a um aquecimento e RF negativo a um resfriamento. O conceito de RF é valioso para comparar a influência na temperatura média global da superfície da maioria dos agentes individuais que afetam o balanço de radiação da Terra. A Figura 3 mostra o Forçamento Radiativo e o Forçamento Radiativo Efetivo (ERF), por variação de concentração, entre 1750 e 2011, com faixa de incerteza associada.

Figura 3. Forçante Radiativa (RF) e Forçante Radiativa Efetiva (ERF) das mudanças climáticas durante a Era Industrial, 1750-2011. As barras sólidas são ERF, as barras hachuradas são RF, os losangos verdes e as incertezas associadas são para RF.

Figura 4.  Total anual de emissões antropogênicas de gases de efeito estufa (GEE) (gigatonelada de CO2 -equivalente por ano, GtCO2 -eq/ano) no período de 1970 a 2010, por gases.

Figura 4. Total anual de emissões antrópicas de GEE por gases no período 1970-2010. Gás: CO2 da combustão de combustíveis fósseis e processos industriais; CO2 de Silvicultura e Outros Usos do Solo (FOLU); metano (CH4); óxido nitroso (N2O); gases fluorados abrangidos pelo Protocolo de Quioto (gases F).

Compreendendo Cenários Climáticos Futuros

Compreender nosso clima atual e o futuro são questões muito grandes e complexas para serem abordadas por um único país, agência ou disciplina científica. Por meio de cooperação científica internacional e parcerias, o World Climate Research Program (WCRP) apoia a coordenação para a produção de compilações de modelos climáticos globais e regionais, que avançam nossa compreensão das interações dinâmicas em várias escalas entre sistemas naturais e sociais que afetam o clima. Esses esforços produzem os Projetos de Intercomparação de Modelos Acoplados, ou CMIPs.

A comunidade científica do clima depende de modelos para entender os feedbacks do ciclo de carbono da Terra em resposta às emissões antropogênicas, que levam a mudanças nas concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa e aerossóis e, portanto, resultam em forçantes radiativas que impulsionam as mudanças no sistema climático. Os CMIPs fornecem uma estrutura de coordenação para esses estudos, definindo um conjunto de experimentos de modelo para a circulação geral atmosférica -oceânica e modelos do sistema terrestre. Ao lado de estudos mais orientados para o processo, um conjunto de experimentos no CMIP está sempre focado na resposta climática a diferentes histórias plausíveis de desenvolvimento social futuro e vias de emissões contrastantes associadas (cenários). O objetivo desses ‘cenários’ é delinear como futuras emissões e mudanças no uso da terra podem se traduzir em respostas no sistema climático. Embora independente dos Relatórios de Avaliação do IPCC-UNFCCC produzidos regularmente, os resultados do CMIP são coordenados e informam diretamente as Avaliações. CMIP fase 5 (CMIP5) forneceu a base para o 5º Relatório de Avaliação lançado em 2013 e 2014, e o 6º Relatório de Avaliação lançado em 2021 e 2022, baseia-se no CMIP6, a mais recente coleção de simulações feitas pela comunidade científica do clima em todo o mundo.

A abordagem de cenário é usada para caracterizar a gama de futuros climáticos plausíveis e para ilustrar as consequências de diferentes caminhos (escolhas de políticas, mudanças tecnológicas, etc.). Eles são escolhidos para abranger uma ampla gama sem qualquer vínculo com a probabilidade; os cenários servem como casos ‘e se’. Nas últimas três décadas, a abordagem para formular os diferentes ‘cenários’ evoluiu de um conceito centrado no clima para um conceito cada vez mais centrado no desenvolvimento social, embora com o mesmo objetivo subjacente de fornecer informações sobre uma série de resultados climáticos plausíveis. Para distinguir a magnitude do forçamento climático, a numeração reflete uma quantidade designada de forçamento radiativo medido em watts por metro quadrado (W/m2) alcançado por 2100 (ou seja, 2,6, 4,5, 6,0 e 8,5 W/m2de mudança em relação ao pré-industrial, respectivamente). O CMIP6 apresenta 1,9 W/m2 para oferecer uma visão da resposta climática que pode refletir a meta do Acordo de Paris. Os resultados do modelo CMIP, orientados por cenários, tornaram-se entradas de referência padrão para trabalhos relacionados à ciência, impactos, vulnerabilidade, adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Os cenários devem ser usados como ferramentas para ajudar a entender as características e a magnitude dos sinais climáticos emergentes para informar as decisões. Concentrar-se apenas nos resultados do final do século é uma maneira inadequada de avaliar a utilidade de um determinado cenário. Para fins de informar as decisões da sociedade, horizontes de tempo mais curtos são altamente relevantes.

CMIP5

Caminhos de Concentração Representativos (RCPs), apresentados no CMIP5, descrevem 4 caminhos diferentes do século XXI. RCPs incluem um cenário de mitigação rigoroso (RCP2.6), 2 cenários intermediários (RCP4.5 e RCP6.0) e um cenário com altas emissões de GEE (RCP8.5). Cenários sem esforços adicionais para restringir as emissões (‘cenários de linha de base’) levam a caminhos que variam entre RCP6.0 e RCP8.5. Cada RCP mostra o planeta capturando progressivamente maiores quantidades de energia de RCP2.6 (mais baixo) para RCP8.5 (mais alto). A Figura 5 mostra as vias de emissão de GEE para cada RCP até o final do século.

Figura 5. Caminhos de Emissão de GEE para cada RCP de 2000-2100.

Os cenários RCP são descritos abaixo.

• Cenário de mitigação rigoroso (RCP2.6): Um cenário de “pico e declínio”; seu nível de forçamento radiativo atinge primeiro um valor de cerca de 3,1 W/m2 em meados do século e retorna a 2,6 W/m2 em 2100. Para atingir esses níveis de forçamento radioativo, as emissões de GEE (e indiretamente as emissões de poluentes atmosféricos) são reduzido substancialmente ao longo do tempo. RCP2.6 é representativo de um cenário que visa manter o aquecimento global provavelmente abaixo de 2°C acima das temperaturas pré-industriais

• Cenário de emissões médias-baixas (RCP4.5): Um cenário de estabilização que pressupõe a adoção de medidas para conter as mudanças climáticas por todos os países, resultando em um aumento da temperatura média global não superior a 2ºC e 3ºC acima dos níveis de temperatura pré-industriais pelo ano 2100.

• Cenário de emissão média -alta (RCP6.0): Um cenário de estabilização em que o forçamento radiativo total é estabilizado logo após 2100, sem overshoot pela aplicação de uma série de tecnologias e estratégias para reduzir as emissões de GEE

• Cenário de emissões de alto nível (RCP8.5): Este cenário representa o extremo da mudança climática plausível, proporcionando um aumento estimado da temperatura média global de aproximadamente 5-6ºC até 2100, em relação aos níveis de temperatura pré-industriais. O RCP8.5 é comumente reconhecido como ‘business as usual’.

CMIP6

As narrativas socioeconômicas associadas a cada cenário RCP são chamadas de Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs), que foram introduzidos no CMIP6. Eles representam possíveis caminhos de desenvolvimento social e política para atender às forças radiativas designadas até o final do século. O CMIP6 inclui cenários com emissões de GEE altas e muito altas (SSP3-7.0 e SSP5-8.5) e emissões de CO2 que praticamente dobram dos níveis atuais até 2100 e 2050, respectivamente, cenários com emissões intermediárias de GEE (SSP2-4.5) e emissões de CO2 permanecendo em torno dos níveis atuais até meados do século, e cenários com emissões de GEE muito baixas e baixas e emissões de CO2 caindo para zero líquido por volta de ou após 2050, seguidos por níveis variados de CO2 líquido negativo emissões (SSP1-1.9 e SSP1-2.6). As emissões variam entre os cenários, dependendo de premissas socioeconômicas, níveis de mitigação das mudanças climáticas e, para aerossóis e precursores de ozônio não metano, controles de poluição do ar. Suposições alternativas podem resultar em emissões e respostas climáticas semelhantes, mas as suposições socioeconômicas e a viabilidade ou probabilidade de cenários individuais não fazem parte da avaliação. A Figura 6 apresenta emissões futuras e causas adicionais de aquecimento para cada um dos SSPs.

Figura 6. a) apresenta as emissões antropogênicas anuais (causadas pelo homem) no período 2015–2100. São mostradas as trajetórias de emissões de dióxido de carbono (CO2) de todos os setores (GtCO2/ano) (gráfico à esquerda) e para um subconjunto de três principais fatores não-CO2 considerados nos cenários: metano (CH4, MtCH4/ano) ; óxido nitroso (N2O, MtN2O/ano); e dióxido de enxofre (SO2, MtSO2/ano), contribuindo para aerossóis antropogênicos no painel (b). b) demonstra a mudança na temperatura da superfície global (°C) em 2081–2100 em relação a 1850–1900 dadas as contribuições de aquecimento por grupos de fatores antropogênicos e por cenário, com indicação do aquecimento observado até o momento. Barras e bigodes representam valores medianos e o intervalo muito provável, respectivamente. Dentro de cada gráfico de barras de cenário, as barras representam: aquecimento global total (°C); contribuições de aquecimento de mudanças no CO2; gases de efeito estufa não-CO2 e resfriamento líquido de outros fatores antropogênicos (barra ‘aerossóis e uso da terra’).

Descrições narrativas para os Caminhos Socioeconômicos Compartilhados:

SSP1 “Sustentabilidade” (Baixos desafios para mitigação e adaptação)

O mundo muda gradualmente, mas de forma generalizada, em direção a um caminho mais sustentável, enfatizando o desenvolvimento mais inclusivo que respeita os limites ambientais percebidos. A gestão dos bens comuns globais melhora lentamente, os investimentos em educação e saúde aceleram a transição demográfica e a ênfase no crescimento econômico muda para uma ênfase mais ampla no bem-estar humano. Impulsionada por um compromisso cada vez maior de alcançar as metas de desenvolvimento, a desigualdade é reduzida tanto entre os países quanto dentro deles. O consumo é orientado para baixo crescimento material e menor intensidade de recursos e energia. A combinação de desenvolvimento direcionado de tecnologias ecologicamente corretas, perspectivas favoráveis para energia renovável, instituições que podem facilitar a cooperação internacional, e a demanda de energia relativamente baixa resulta em desafios relativamente baixos para a mitigação. Ao mesmo tempo, as melhorias no bem-estar humano, juntamente com instituições globais, regionais e nacionais fortes e flexíveis, implicam baixos desafios à adaptação.

SSP2 “Middle of the Road” (Desafios médios para mitigação e adaptação)

Mundo segue um caminho no qual as tendências sociais, econômicas e tecnológicas não se afastam acentuadamente dos padrões históricos. Desenvolvimento e o crescimento da renda prosseguem de forma desigual, com alguns países fazendo progressos relativamente bons, enquanto outros ficam aquém das expectativas. Instituições globais e nacionais trabalham para alcançar as metas de desenvolvimento sustentável, mas fazem progressos lentos. Sistemas ambientais sofrem degradação, embora haja algumas melhorias e, em geral, a intensidade do uso de recursos e energia diminui. Crescimento populacional global é moderado e estabiliza na segunda metade do século. A desigualdade de renda persiste ou melhora apenas lentamente e os desafios para reduzir a vulnerabilidade às mudanças sociais e ambientais permanecem. Essas tendências de desenvolvimento moderado deixam o mundo, em média, SSP3 “Rivalidade Regional” (Altos desafios para mitigação e adaptação)

Um nacionalismo ressurgente, preocupações com competitividade e segurança e conflitos regionais levam os países a se concentrar cada vez mais em questões domésticas ou, no máximo, regionais. As políticas mudam ao longo do tempo para se tornarem cada vez mais orientadas para questões de segurança nacional e regional. Os países se concentram em alcançar metas de segurança energética e alimentar em suas próprias regiões em detrimento de um desenvolvimento mais amplo. Os investimentos em educação e desenvolvimento tecnológico diminuem. O desenvolvimento econômico é lento, o consumo é material-intensivo e as desigualdades persistem ou pioram ao longo do tempo. O crescimento populacional é baixo nos países industrializados e alto nos países em desenvolvimento. Uma baixa prioridade internacional para abordar as preocupações ambientais leva a uma forte degradação ambiental em algumas regiões. A crescente intensidade de recursos e a dependência de combustíveis fósseis, juntamente com a dificuldade em alcançar a cooperação internacional e a lenta mudança tecnológica, implicam em grandes desafios para a mitigação. O progresso limitado no desenvolvimento humano, o crescimento lento da renda e a falta de instituições eficazes, especialmente aquelas que podem atuar em todas as regiões, implicam em grandes desafios de adaptação para muitos grupos em todas as regiões.

SSP5 “Desenvolvimento de combustíveis fósseis” (altos desafios para mitigação, baixos desafios para adaptação)

Este mundo coloca cada vez mais fé em mercados competitivos, inovação e sociedades participativas para produzir rápido progresso tecnológico e desenvolvimento do capital humano como o caminho para o desenvolvimento sustentável. Os mercados globais estão cada vez mais integrados. Há também fortes investimentos em saúde, educação e instituições para aumentar o capital humano e social. Ao mesmo tempo, o impulso para o desenvolvimento econômico e social está associado à exploração de recursos abundantes de combustíveis fósseis e à adoção de estilos de vida intensivos em recursos e energia em todo o mundo. Todos esses fatores levam ao rápido crescimento da economia global, enquanto a população global atinge picos e declínios no século XXI. Problemas ambientais locais, como a poluição do ar, são gerenciados com sucesso. Há fé na capacidade de gerir eficazmente os sistemas sociais e ecológicos, inclusive por geoengenharia, se necessário. Embora os impactos ambientais locais sejam tratados de forma eficaz por soluções tecnológicas, há relativamente pouco esforço para evitar possíveis impactos ambientais globais devido a uma compensação percebida com o progresso no desenvolvimento econômico. A forte dependência de combustíveis fósseis e a falta de preocupação ambiental global resultam em desafios potencialmente altos para a mitigação. A consecução de metas de desenvolvimento humano, crescimento econômico robusto e infraestrutura altamente projetada resultam em desafios relativamente baixos para a adaptação a qualquer potencial mudança climática para todos, exceto para alguns. há relativamente pouco esforço para evitar potenciais impactos ambientais globais devido a uma percepção de compensação com o progresso no desenvolvimento econômico. A forte dependência de combustíveis fósseis e a falta de preocupação ambiental global resultam em desafios potencialmente altos para a mitigação. A consecução de metas de desenvolvimento humano, crescimento econômico robusto e infraestrutura altamente projetada resultam em desafios relativamente baixos para a adaptação a qualquer potencial mudança climática para todos, exceto para alguns. há relativamente pouco esforço para evitar potenciais impactos ambientais globais devido a uma percepção de compensação com o progresso no desenvolvimento econômico. A forte dependência de combustíveis fósseis e a falta de preocupação ambiental global resultam em desafios potencialmente altos para a mitigação. A consecução de metas de desenvolvimento humano, crescimento econômico robusto e infraestrutura altamente projetada resultam em desafios relativamente baixos para a adaptação a qualquer potencial mudança climática para todos, exceto para alguns.

Para uma descrição completa das Narrativas SSP, veja O’Neill et al. 2017

Modelos Individuais vs. Conjuntos de Vários Modelos

Os modelos climáticos são representações matemáticas de processos importantes no sistema climático da Terra. Quando um modelo climático é executado, ele produz uma ‘simulação’ do clima futuro. Várias simulações formam um conjunto. Um multi-model ensemble (MME), portanto, é um grande número de simulações de modelos climáticos. O CCKP prioriza o uso de MMEs para suas projeções, pois os conjuntos multimodelo são mais robustos e comprovadamente mais bem-sucedidos na representação da gama de mudanças esperadas. As diferenças entre a estrutura espacial dos dados e a estrutura da realidade que eles representam também devem ser compreendidas e consideradas para modelar adequadamente o impacto da incerteza espacial nas aplicações do modelo. Enquanto os modelos individuais são mais barulhentos, às vezes, eles podem refletir melhor a faixa de variabilidade em comparação com o conjunto multimodelo que geralmente é muito suave. Modelos individuais também podem ter vieses sistemáticos que se apresentam como fortes outliers. Uma comparação com o conjunto multimodelo é útil para identificar esses possíveis vieses e discrepâncias.

Variabilidade, Tendências, Incerteza

Existe variabilidade decenal, interanual e intersazonal em todo o sistema climático. A variabilidade interna pode diminuir a relevância das tendências em períodos tão curtos quanto 10 a 15 anos de mudanças climáticas de longo prazo. Um esforço crítico de projetar a mudança climática é entender se a ‘mudança’ é parte da variabilidade natural ou se a mudança projetada revela tendências que são estatisticamente significativas da variabilidade natural. Devido a isso, as tendências de variabilidade natural baseadas em registros curtos são muito sensíveis às datas de início e término e, em geral, não refletem tendências climáticas de longo prazo.

A incerteza existe para qualquer projeção futura. Embora os avanços continuem a ser feitos na compreensão da física climática e na resposta do sistema climático ao aumento dos gases de efeito estufa, muitas incertezas provavelmente persistirão. A taxa de aquecimento global futuro depende de emissões futuras, processos de feedback que amortecem ou reforçam distúrbios no sistema climático e influências naturais imprevisíveis no clima, como erupções vulcânicas. Processos incertos que afetarão a rapidez com que o mundo aquece para um determinado caminho de emissões são dominados pela formação de nuvens, mas também incluem feedbacks de vapor de água e gelo, mudanças na circulação oceânica e ciclos naturais de gases de efeito estufa. Embora as informações de mudanças climáticas passadas corroborem amplamente os cálculos do modelo, (ecodebate)

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