sábado, 17 de julho de 2010

Selos verdes confundem consumidor

Estudo indica que há 600 certificações com atributos de sustentabilidade no País; maioria é criada pela própria empresa que fabrica o produto.
De madeira a alimentos, a profusão de selos verdes no mercado confunde o consumidor. No Brasil, levantamento recente realizado pelas consultorias Unomarketing, Mob Consult e Ideia Sustentável apontou a existência de 600 selos verdes ou com atributos de sustentabilidade - grande parte é de selos colocados pelas próprias empresas, sem auditoria ou verificação independente. Um outro estudo, internacional, reforça a ideia: o World Resources Institute (WRI), entidade com sede em Washington (EUA), mapeou a existência de 340 selos socioambientais em 42 países. Menos de um terço dos selos pesquisados monitora os reais impactos sociais e ambientais da cadeia produtiva. Na definição da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a certificação ambiental atesta, por meio de uma marca inserida na embalagem, que determinado produto ou serviço apresenta menor impacto ambiental em relação a outros disponíveis no mercado. Mas a grande fonte de dúvidas para quem vai às compras é a confiabilidade dos selos. "Há uma grande quantidade de selos autodeclarados: eles não são auditados de maneira independente e contam apenas com a chancela da própria empresa que comercializa os produtos", diz Ricardo Voltolini, da consultoria Ideia Sustentável. Isso ocorre, em parte, porque não há no Brasil um órgão ou entidade que faça o papel de dar aval às certificações que existem no mercado. Entidades como a ABNT e o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) são responsáveis pela emissão de alguns selos, como o Procel - de eficiência energética para eletrodomésticos. Já certificações conhecidas no mercado internacional, como FSC (manejo florestal) e Ecocert (orgânicos), passam por auditorias feitas por organismos independentes. Ao mesmo tempo, a questão ambiental vem se tornando uma ferramenta de marketing importante para as empresas, que passam a usar os termos "eco", "orgânico" ou "natural" para vender produtos. "Esse tipo de propaganda na embalagem mais confunde que orienta", diz Voltolini. Para fugir das armadilhas, é preciso buscar informação. "O consumidor deve ler os rótulos com atenção, pesquisar, buscar referências", diz. Ele explica que, embora o porcentual de consumidores brasileiros que levem em conta as questões socioambientais na hora de ir às compras seja pequeno - 21% -, a tendência de certificação ambiental é um fenômeno global. Um exemplo é o Japão, onde existem mais de 3 mil produtos certificados à disposição do consumidor. Tendência. O mercado para produtos verdes está longe de ser irrisório. Segundo dados do estudo A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (Teeb, na sigla em inglês), realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e divulgado ontem em Londres, o mercado para produtos agrícolas certificados, que em 2008 estava orçado em mais de US$ 40 bilhões, alcançará US$ 210 bilhões em 2020. De olho no consumidor mais consciente, empresas brasileiras de setores como cosméticos, têxteis, siderurgia, pneus reformados, gráficas e até de fraldas descartáveis estão buscando uma certificação ambiental mais padronizada. A ABNT tem um programa de certificação chamado Qualidade Ambiental, que, apesar de existir há 17 anos, só passou a receber pedidos das indústrias em 2009. As primeiras certificações verdes da ABNT devem ser emitidas ainda neste ano. Segundo Alfredo Lobo, diretor de qualidade do Inmetro, o consumidor brasileiro já utiliza os selos como um fator de decisão de compra. Ele cita como principal exemplo o selo Procel, emitido pelo Inmetro. "Hoje, 78% dos consumidores levam o selo de economia de energia em conta na tomada de decisão de compra e 40% aceitariam pagar mais pelo produto com selo." Além de economia de energia, o Inmetro certifica produtos de origem florestal - selo Cerflor - e também alimentos, como frutas, dentro de critérios de sustentabilidade. Carros. O Inmetro também avalia, com o Ibama, os critérios para a emissão de um selo verde para carros. A ideia, segundo Lobo, é unir, em uma única certificação, dados referentes ao consumo de combustível dos veículos e também as emissões de poluentes. "Seria uma espécie de Procel para carros", explica. As primeiras reuniões entre os órgãos para discutir a proposta ocorrem neste mês.

Belos, Econômicos e "Sustentáveis"

Arquitetos do mundo todo tentam mostrar que é possível aliar soluções ambientalmente corretas com a beleza de edifícios e casas. A sustentabilidade já é um conceito amplamente disseminado na construção civil. Agora, arquitetos do mundo todo tentam mostrar que é possível reunir soluções ambientalmente corretas e, ao mesmo tempo, investir na beleza de edifícios e casas. Um exemplo da harmoniosa união da sustentabilidade com o design foi dado pelo escritório de arquitetura Philippon-Kalt, que inaugurou recentemente, perto da estação de metrô Barbes, em Paris, o primeiro prédio residencial com uma fachada feita de painéis que captam energia solar. As 17 unidades são destinadas a famílias de baixa renda - que, além de morarem num edifício inovador, de quebra ainda podem obter uma redução de até 40% nos gastos com aquecimento de água. A fachada foi projetada com uma série de painéis azuis que ficam em frente aos terraços. Eles podem ser movidos e, ao mesmo tempo em que fazem a captação da luz, dão um ar moderno à construção. Novas casas e edifícios permitem a entrada da luz natural sem afetar a privacidade dos moradores. A integração completa com o ambiente é a principal característica da H House, projetada a pedido de um casal morador da região de Maastricht, na Holanda. No interior, o que se vê é um loft com um mezanino central. Algumas poucas colunas retangulares sustentam as lajes. Todas as outras paredes, internas e externas, são de vidro, o que permite que a luz exterior tome conta do espaço. A privacidade, que inicialmente poderia ser uma preocupação, foi garantida pela criatividade dos designers. A casa possui uma série de cortinas que podem ser fechadas ao gosto dos proprietários e usadas, ainda, para dividir ambientes internamente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Brasileiro não toma atitudes pró-clima

Quase todos se dizem preocupados com ambiente, mas poucos agem. Praticamente todos os brasileiros se preocupam com o aquecimento global e gostariam de tomar medidas para combatê-lo. Mas apenas uma pequena parcela tomou alguma atitude no último ano para utilizar fontes de energia e combustível mais limpas. É o que revela uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria empresarial Accenture que entrevistou 10.733 pessoas em 22 países. Participaram do estudo 503 brasileiros que residem no País. A amostra reflete a estrutura etária, de renda e de proporção entre os sexos no País. Em torno de 96% afirmaram estar preocupados com o aquecimento global e as mudanças climáticas. O mesmo porcentual acredita que a mudança climática terá algum impacto na sua vida pessoal. O grau de conscientização do brasileiro é maior do que a média dos países avaliados: no resultado geral da pesquisa, 86% dos entrevistados se dizem preocupados com o aquecimento e 83% esperam impactos na sua vida diária. Mas nem sempre as intenções são traduzidas em ações. Na edição de 2007 da pesquisa, 99% dos entrevistados brasileiros afirmaram estar dispostos a adotar fontes de energia ou combustível mais limpas, como álcool, biodiesel, gás natural ou aquecedores solares. Contudo, na edição deste ano, só 13% relataram ter optado por uma fonte limpa nos últimos 12 meses. Para Marcelo Gil de Souza, da Accenture na América Latina, as empresas ainda precisam reconhecer a oportunidade latente no mercado de produtos sustentáveis. “Há uma classe de consumidores emergente no País”, afirma Souza. “Entraram na economia há pouco tempo e ainda estão delineando suas preferências de consumo: a pesquisa mostra que se preocupam com o ambiente.” Ele recorda que na Europa as pessoas pagam um pouco mais caro para receber energia elétrica de fonte eólica, limpa e renovável, em suas casas. Impacto social Segunda a pesquisa, em torno de 98% dos consumidores brasileiros entrevistados estariam dispostos a trocar um produto convencional por outro semelhante, mas com certificado de menor impacto no clima. O diretor presidente do Instituto Akatu, Hélio Mattar, também considera que há dificuldades práticas para o consumidor adotar um comportamento responsável do ponto de vista ecológico. Mas recorda que nem todas as medidas de consumo consciente recebem a mesma adesão. “Fechar bem as torneiras ou desligar as luzes são práticas comuns para muitos brasileiros, pois têm um impacto direto nas contas de água ou energia”, exemplifica Mattar. “Mas comprar um carro menos poluente exige planejamento e o benefício não é tão direto para o consumidor. Ele precisa pensar no impacto social.” Os dados mundiais da pesquisa confirmam a percepção de Mattar. Em torno de 82% dos entrevistados admitiram que adotariam medidas concretas para combater as mudanças climáticas se percebessem que um comportamento pouco sustentável leva a um aumento no custo de vida. (jornaldaciencia)

Brasil continuará sofrendo com catástrofes

Ignorando mudanças climáticas, Brasil continuará sofrendo com ‘catástrofes naturais’. Durante a Copa do Mundo, o Brasil voltou a sofrer um duro choque de realidade em seu interior: com chuvas em níveis nunca registrados, o agreste de Pernambuco e Alagoas teve dezenas de cidades devastadas pelas enchentes decorrentes dos temporais, causando a morte de mais de 60 pessoas. Para analisar o que está por trás de mais uma chuva calamitosa, após fenômenos parecidos por todas as regiões do país nos últimos anos, o Correio da Cidadania entrevistou Philip Fearnside, especialista em clima do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e uma das maiores autoridades internacionais nos debates sobre o aquecimento global, fazendo parte também do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU. De acordo com Fearnside, a tendência de ocorrências semelhantes se repetirem é crescente, já que as tempestades do Nordeste foram mais intensas que o normal por conta de uma maior temperatura das águas do Atlântico. O professor salienta que tal fenômeno se alinha ao El Niño (no Pacífico), levando aos mesmos efeitos de chuvas violentas e secas alternadas entre a Amazônia e o Nordeste, ameaçando, portanto, também a maior floresta tropical do mundo. Diante disso, o pesquisador do INPA alerta para a urgência de uma mudança radical na atitude do país nas discussões globais sobre o aumento da temperatura e concentração de gases na atmosfera, o que poderá ser feito na convenção climática marcada para o México, no final deste ano. No entanto, destaca que a aprovação de mudanças no Código Florestal a que assistimos é um temerário passo ao caminho oposto. Correio da Cidadania: Especialistas dizem que volume d’água em Pernambuco e Alagoas foi causado por uma frente de calor que provinha do Oceano Atlântico, a partir do aquecimento maior que o normal de suas águas. A que atribui as chuvas tão intensas ocorridas nas últimas semanas em várias cidades do agreste destes estados, que geraram uma enorme tragédia e cerca de 60 mortes? Philip Fearnside: Há uma marcha de água do Atlântico que faz parte de uma gangorra, com águas do Atlântico Norte mais frias e do Atlântico Sul mais quentes, o que por vezes se inverte. Trata-se de um fenômeno que tende a aumentar com o aquecimento global. Isso aconteceu pelo outro lado em 2005, com uma seca enorme na parte sul da Amazônia, com vários afluentes do Rio Amazonas quase ficando secos, causando uma calamidade humana, pois vários deslocamentos, para hospitais, por exemplo, eram feitos pelos rios e não podiam se realizar. É algo que acontece porque a Zona de Inter-convergência Tropical se desloca, o que teve relação com o acidente que derrubou o avião da Air France no meio do Atlântico. Havia uma parede de nuvens e massas de ar se misturando, causando chuvas mais fortes e turbulência. Um ano depois, em 2006, houve grandes chuvas no Nordeste brasileiro e na Amazônia, registrando, inclusive, recordes do nível de água no Rio Amazonas. Com a água mais quente perto da costa brasileira, a evaporação é maior e vão se formando nuvens de chuvas mais fortes. Os dois lados do ciclo devem se intensificar, tanto de chuva como de seca. Estamos acostumados com o El Niño, mas ele é causado por massas de ar quente no Oceano Pacífico, não no Atlântico. Em 2003, tivemos enchentes em Roraima, assim como em 1997-98; em 1982, também houve enchentes na Amazônia, que causaram muitas mortes. Naquela época, em 1982, o desastre foi apresentado ao mundo como se fosse um ato de Deus; ‘simplesmente aconteceu, não foi culpa de ninguém’. Não se falava em conseqüências do desmatamento. Na hora que o El Niño e este fenômeno são ligados ao aquecimento global, aí fica muito diferente. Porque o aquecimento global tem culpados, sim, dá pra saber da emissão de gases de cada indivíduo e país. No último Painel do Clima, em 2007, eu citei modelos que mostravam que, com mais aquecimento, vamos ter mais condições de ver o El Niño se manifestar, isto é, massas de ar quente no Pacífico. No caso do Atlântico, não há, digamos assim, uma teoria oficial. Há pesquisas que indicam ser mesmo fruto do aquecimento global, que tem aumentado a freqüência desse tipo de seca e chuva por conta da temperatura do Atlântico. Um artigo na Revista Science de 2008 dá conta de que, se as emissões de gás carbônico no ar ultrapassarem 400 ppm (partes por milhão), a probabilidade de aqueles tipos de seca de 2005 se repetirem, e também de chuvas como as vemos hoje, explode, pois fica muito mais pesada a concentração de gases na atmosfera. E já estamos em 389 ppm, com um aumento médio de 2 ppm por ano, ou seja, já estamos quase nesse nível apontado como temerário. Portanto, é muito importante, nas negociações no México no final do ano, se chegar a um acordo para manter um nível abaixo de 400 ppm. Porém, a questão não está resolvida, o número mais cogitado por aí é 450 ppm, e com esse acordo o Nordeste e a Amazônia enfrentarão eventos catastróficos novamente. É muito importante que se estabeleça, portanto, tal limite de 400 ppm. Correio da Cidadania: Esses desastres não se associam muito claramente também à falta de planejamento e de investimento em infra-estrutura, para fazer frente às intempéries naturais? Philip Fearnside: Estamos com muitos problemas no Nordeste e é possível mesmo ter planejamento melhor. Em Santa Catarina aconteceram danos mínimos. Em 1982 houve grandes enchentes em Blumenau, que causaram um dano muito grande, mas lá existem algumas medidas para que a população não fique tão exposta, não ficaram tantas casas destruídas. Por isso é importante ter um planejamento de verdade, para que se evitem tantas conseqüências. Correio da Cidadania: O volume de água acumulado na época das chuvas na região não deveria levantar um questionamento sobre a tão difundida idéia da falta de água que assola os nordestinos? Philip Fearnside: São coisas diferentes. Existem secas no Nordeste e a tendência é de que aumentem. Ao menos de acordo com previsões de modelos climáticos. Tanto o aumento do El Niño quanto esse novo fenômeno levam a seca ao Nordeste. Portanto, mesmo com enchentes, teremos anos com muitas secas. E essa é uma região que já está no limite, um lugar que já sofre tremendamente com o clima atual, imagine com o clima dos próximos anos. E não há como se aproveitarem essas chuvas hoje. Se caírem mais chuvas como essas, não se poderá armazenar a água para a sua utilização. Ou seja, joga-se fora o beneficio das chuvas, das quais o Nordeste precisa. Mas não dessa forma. Correio da Cidadania: Ficou evidente a má conservação das matas ciliares dos rios que alagaram as cidades nordestinas, do que decorreu um fluxo das águas muito mais descontrolado. Esse fato vai, a seu ver, se agravar com a possível aprovação das mudanças no Código Florestal Brasileiro, envolvendo questões como a redução das Áreas de Proteção Permanente, no projeto proposto pelo deputado Aldo Rebelo? Philip Fearnside: Esse era um dos pontos centrais do debate do Código Florestal, de abrir brechas para diminuir o tamanho das matas ciliares em margens, e realmente agora fica claro que é preciso conservá-las. Sem dúvidas a situação pode piorar com as mudanças no Código que estão sendo aprovadas. E o pior de tudo é que se abrem brechas à presunção de que haverá mais anistia no futuro para quem desmatou acima do permitido por lei até aqui; fica a idéia de que quem desmatar ilegalmente também será perdoado futuramente. Assim, ainda se verão muito mais problemas. O governo aceita os danos já praticados e coloca à disposição mecanismos para que ocorram outros mais, com as pessoas que respeitaram as leis sendo feitas de bobas, pois não desmatam, não cortam árvores, enquanto quem cometeu práticas ilegais é beneficiado. Logo, vão pensar em cortar também, e o hábito vai se perpetuando. Evidentemente, tudo termina tendo um custo muito alto para as pessoas que sofrem as conseqüências da falta de tais precauções, como em relação à preservação das matas ciliares em rios etc. Correio da Cidadania: É possível projetar os prejuízos ao país caso realmente se flexibilize o Código Florestal? Philip Fearnside: Não se pode saber quanto será legalizado em termos de desmatamento ilegal de hoje. Mas o que não há como mensurar é o custo futuro, com as pessoas presumindo que poderão cometer todas essas ilegalidades e depois serem perdoados. Isso é muito perigoso. Correio da Cidadania: Que medidas os governos estaduais, e o federal, deveriam adotar, a curto, médio e longo prazos, para evitar que futuramente se repitam os mesmos trágicos incidentes? Philip Fearnside: Acho que a primeira prioridade deve ser a Convenção do Clima, pois o Brasil não tem tido um papel muito positivo nessas negociações. Só em 1999 que o governo aceitou a marca de 2 graus Celsius como definição de mudança climática perigosa, levando em conta a média de aumento da temperatura até a revolução industrial. Porque a convenção do clima assinada na Eco 92, no Rio, estabeleceu como objetivo evitar que os gases do efeito estufa chegassem a níveis perigosos. A palavra chave é ‘perigoso’. O que está em discussão é quantas partes por milhão (ppm) de gás carbônico recebem tal consideração. É isso que está em negociação. Houve um acordo no ano passado de que 2 graus seriam a definição de perigoso, o que o Brasil só aceitou após o endosso de mais de 100 países. Mas agora é preciso traduzir isso em relação à concentração dos gases. Até hoje o país não tomou decisões, dando a entender de que pensa em adiá-las ao máximo, permitindo mais emissões, desmatamento… Isso tem um custo muito grande e é um perigo para o Brasil. Especialmente para o Nordeste e a Amazônia, que, se continuar perdendo sua vegetação, sofrerá com secas também. Por isso é importante o país não deixar as coisas ‘irem rolando’, de modo a deixar tudo mais confortável para os países ricos. Se o número escolhido for 450 ppm, haverá uma chance muito grande de se atingir o aumento da temperatura em dois graus. É jogar uma moeda no ar, com 50% de chances para cada possibilidade, colocando em risco a Floresta Amazônica, um desastre para o Brasil. E há outras medidas a tomar, como a preservação de acordo com a necessidade e leis atuais, cuidado com as matas dos rios, enfim, um trabalho de prevenção para que se evitem tantos danos. Enchentes acontecem mais freqüentemente quando não se conservam bem os rios, pois suas águas acabam sofrendo mudanças em seus cursos. Enfim, há muito o que fazer, e o que destaco é que, à frente de tudo, se coloca a discussão sobre os efeitos dos gases estufa. Correio da Cidadania: Acredita que haja vontade política para a tomada dessas decisões? Philip Fearnside: Não quero ser fatalista, de achar que vai dar tudo errado, mas acontece que ninguém faz nada. É preciso ver os custos e benefícios de cada possibilidade. Mas, se ficarmos mais uns cinco anos sem fazermos nada, teremos conseqüências muito graves. Mesmo que não exista uma vontade política mais visível, ela precisa aparecer. (EcoDebate)

Como se fôssemos rãs em água fervente

Mudanças climáticas: Como se fôssemos rãs em água fervente.
Cenários previstos como prováveis pelo IPCC. É mais do que oportuna a divulgação (Estado, 15/6) de estudo de várias instituições respeitadas (INPE, Unicamp, UNESP, USP e FAPESP) segundo o qual a temperatura média na Região Metropolitana de São Paulo subirá entre 2 e 3 graus Celsius neste século. E com isso dobrará o número de dias com chuvas intensas (hoje, de duas a cinco por ano). O estudo dramatiza a necessidade de ações concretas nas zonas urbanas, para impedir, além dos deslizamentos de morros e encostas, a formação de ilhas de calor, que atraem os “eventos extremos”. Questão aguda, quando o próprio estudo enfatiza que, se a expansão urbana continuar como hoje, em 2030 a mancha ocupada será o dobro da atual e 11% das ocupações humanas estarão em áreas com risco de deslizamento e mais de 20% em áreas sujeitas a enchentes e inundações. Tudo isso reforça mais uma vez a necessidade de mudanças radicais em nossas políticas de mitigação (redução de emissões de gases poluentes) e de adaptação a mudanças climáticas. E estas, muito urgentes, exigem mudanças de padrões de construção urbana e rodoviários (pontes, viadutos, aterros, etc.); obrigatoriedade de manter nas zonas urbanas áreas permeáveis, que permitam a infiltração de água e reduzam inundações; leis para obrigar a retenção de água em cada imóvel, com a possibilidade de utilizá-la em descargas sanitárias e outros usos; proibição efetiva de ocupação de áreas de risco (30% da população paulistana, 2,7 milhões de pessoas, vive em cortiços, habitações precárias e comunidades ilegais, todos vulneráveis aos eventos climáticos); e muitas coisas mais. Também é decisivo no momento em que as chuvas intensas em Alagoas e Pernambuco destroem cidades inteiras, rompem barragens, produzem dezenas de mortes, centenas de desaparecidos, mais de 150 mil desabrigados. Só neste ano, 1.635 municípios (quase 30% do total) relataram “situação crítica causada por chuva ou seca”. E no momento em que, dizem relatórios oficiais, menos de cem municípios têm alguma instituição capaz de cuidar da defesa civil. Já perdemos muito tempo. Como está registrado por climatologistas da USP há muitos anos no Atlas do Verde e do Meio Ambiente (editado pela respectiva secretaria na capital paulista), a diferença de temperatura entre as áreas paulistanas que mais conservam a vegetação (Serra do Mar, Cantareira) e as áreas de ocupação industrial e trânsito mais intenso (como a Mooca) pode chegar a 6 graus. E estas “ilhas de calor” geradas pelo asfalto, por fábricas e edifícios atraem chuvas intensas. A consequência é que chove menos nas áreas de mananciais e reservatórios, onde a água seria benéfica, e chove mais nas áreas onde ela é problemática para o trânsito e provoca inundações. Mas há também uma consequência na distribuição temporal das chuvas: cai mais água de segunda a sexta-feira nas áreas de alta ocupação quando ela é mais problemática e menos nos fins de semana, quando o trânsito se reduz. Mas as nossas políticas e nossas cidades terão também de chegar a alguma formulação em relação ao transporte urbano e às suas consequências para a saúde humana e o clima. Não dá para aceitar passivamente que a frota de veículos no País cresça 38% de 2000 para cá e chegue a 27,8 milhões, quando no mesmo período a população aumentou 12,7%. Da mesma forma, a frota de motocicletas, que cresceu no mesmo período 243% e chegou a 8,55 milhões. Que se espera que aconteça em matéria de trânsito, emissões e poluição? A má qualidade do ar urbano (Correio Braziliense, 27/10/2008) custa R$ 1 bilhão por ano na saúde. Só em 41 dias do ano a qualidade do ar foi adequada na Região Metropolitana de São Paulo (Estado, 6/3/2009). Seis em dez paulistas vivem em cidades saturadas por ozônio (18/8/2009). Nada menos que 3,5 mil pessoas morrem a cada ano no País por causa da má qualidade do ar (Envolverde, 23/4/2009). Na capital paulista são 20 por dia. É certo que o Conselho Nacional do Meio Ambiente tornou obrigatória a inspeção anual de veículos e que o Estado de São Paulo está pondo em vigor uma política de mudanças climáticas, que visa a reduzir as emissões de gases poluentes em 20% (calculadas sobre as de 2005) até 2020. Também é certo que empresas começam a se empenhar em reduzir emissões e a promover um registro público voluntário das suas. Afinal, o Brasil já é o quarto maior emissor do planeta. Mas é preciso muito mais, diante da gravidade da situação planetária em matéria de clima, como têm demonstrado tantos estudos e eventos recentes (mais de 2,5 milhões de desalojados na China). E ainda há poucos dias a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, depois de rever 1.322 estudos de cientistas que se dizem céticos quanto à influência de ações humanas no agravamento de mudanças climáticas, afirmou que as credenciais desses “céticos” são insuficientes para negar conclusões em contrário, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas e outras instituições e outros cientistas. Precisamos de um esforço dramático que não está ocorrendo, diz o ex-secretário da Convenção do Clima Yvo De Boer. Porque o risco, diz ele, é de nos comportarmos como a rã que está na água e não percebe que ela se aquece; quando perceber, pode ser tarde. De Boer disse, entre muitas coisas, que a China não poderá continuar crescendo 8% ou 10% ao ano para estender o atual modelo a toda a sua população, porque as emissões serão insuportáveis. Da mesma forma, acentuou como fazer se 5,4 bilhões de pessoas no mundo que vive hoje com menos de US$ 10 (R$ 18) por dia querem ampliar seu consumo o que exigirá mais emissões nos formatos atuais? “Teremos de aprender a viver consumindo menos recursos, para que todas as pessoas possam viver”, alertou, no recente Fórum Global da Mídia, o diretor da Organização Meteorológica Mundial, Mannava Sivakumar. Não há como contestar. (EcoDebate)

Mudanças climáticas agrava erosão no Nordeste

Mudanças climáticas podem agravar erosão da costa do Nordeste. Nos últimos cinquenta anos, o mar avançou mais de 200 metros sobre a planície costeira de Caravelas, na Bahia, destruindo uma grande área de manguezais. O fenômeno natural, conhecido como erosão costeira, em que há o recuo para o interior do continente da linha de costa, que limita o mar da terra firme, também atinge diversas outras regiões do nordeste. E deverá se agravar nos próximos anos devido às mudanças climáticas globais. “O aquecimento global, além de provocar a elevação do nível do mar, ainda pode alterar a distribuição e a frequência dos ventos no nordeste”, diz o professor de geologia costeira e sedimentar da Universidade Federal da Bahia (UFBA), José Maria Landim Dominguez. “Como as ondas são geradas pelos ventos, a direção e a intensidade delas também deve mudar, provocando alterações no transporte de sedimentos ao longo da linha de costa e desencadeando processos erosivos no litoral nordestino”, afirma. O especialista abordará esse assunto em uma conferência que fará na 62ª Reunião Anual da SBPC – evento que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizará de 25 a 30 de julho em Natal (RN). De acordo com Dominguez, desde o início desta década tem se constatado no nordeste um aumento na freqüência das ondas vindas do sudeste que, se persistir, agravará os problemas de erosão costeira na região. Mas ainda não se sabe se o fenômeno já está relacionado ao aquecimento global ou é apenas reflexo de uma variabilidade climática natural. Segundo ele, há mil anos ocorreu na costa leste do Brasil um período de grave erosão costeira desencadeado por uma mudança acentuada na frequência direcional das ondas. Pelas estimativas dos cientistas, é possível que o fenômeno se repita e agrave nos próximos cem anos, quando o nível do mar deve subir em torno de 50 centímetros, conforme as previsões mais pessimistas do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). “A combinação do aumento do nível do mar com as mudanças na frequência direcional das ondas será desastrosa e vai acelerar o processo de erosão costeira no nordeste”, prevê. “A partir do que ocorreu no passado podemos nos preparar e tentar proteger as áreas mais vulneráveis à erosão costeira na região”, alerta. Efeitos – O geólogo explica que o nordeste é extremamente sensível à erosão costeira porque os rios que deságuam na região trazem um volume muito pequeno de sedimentos. Por isso, são comuns as falésias nos tabuleiros costeiros da região. O estado de Pernambuco é um dos mais afetados pelo fenômeno no nordeste. Entretanto, segundo o especialista, o problema foi agravado pela ocupação irregular da costa pernambucana, onde muitos imóveis foram construídos sobre a faixa de praia, como demonstram estudos realizados pela Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). “Há uma grande densidade populacional na zona costeira de Pernambuco e no passado foram construídos diversos imóveis muito próximos à praia”, conta. Na tentativa de minimizar o problema, os órgãos de fiscalização de Pernambuco e de outros estados nordestinos estabeleceram nos últimos anos faixas de recuo, medidas a partir da linha máxima de preamar, no sentido no continente, onde não devem ser construídas estruturas permanentes. No estado da Bahia, por exemplo, a faixa de recuo, criada com o objetivo de absorver as variações naturais da linha de costa nas próximas décadas e as decorrentes do aumento do nível do mar, tem uma largura de 60 metros. Em Pernambuco foi estabelecida em 50 metros para os projetos de empreendimentos imobiliários recentemente aprovados na costa do estado. Já em áreas urbanas consolidadas, em que é impossível reverter o avanço do processo de erosão costeira pelo mar, uma das soluções indicadas, de acordo com Dominguez, é o “engordamento de praia”. O processo consiste na criação de praias artificiais através de aterros, a exemplo do Aterro do Flamengo e da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. (EcoDebate)

terça-feira, 13 de julho de 2010

A Mãe Terra é quem nos culpa

Nas vésperas da festa de São João, festa da colheita do milho no Nordeste brasileiro, assistimos com muita tristeza as enchentes na Zona da Mata Sul de Pernambuco e Zona da Mata Norte de Alagoas. Foram vidas ceifadas, casas destruídas, escolas e hospitais sem condições de funcionarem, pontes levadas pela força das águas, um verdadeiro cenário de guerra. As últimas estimativas falam em 57 mortes, sendo 39 em Alagoas e 20 em Pernambuco. No estado alagoano, passa de 26 mil o número de desabrigados e de 47 mil de pessoas desalojadas. Já em Pernambuco, são mais 26 mil desabrigados e mais de 55 mil desalojados. Mas, como todo cenário de guerra tem sempre inimigo e culpados, escolheram desta vez a Natureza como responsável. Não podemos negar que existem fatores climáticos por trás da tragédia ocorrida. Durante quatro dias choveu mais de 400 mm³ nas regiões afetadas. Precipitação essa, provocada, segundo os especialistas, pelo aquecimento do Atlântico. No entanto, é preciso ter um olhar mais profundo do ocorrido. As regiões atingidas pelas enchentes são marcadas pala concentração da terra, pelo monocultivo exportador da cana-de-açúcar, pelo trabalho precarizado e análogo ao trabalho escravo e pela degradação ambiental. Municípios da Zona da Mata Pernambucana, por exemplo, possuem índices GINI de concentração de terras que chegam a atingir 0,9 (pelo índice de GINI, quanto mais próximo do número 1, maior é a concentração de terras). O modelo de desenvolvimento, historicamente e geograficamente implementado no Brasil e, em especial no Nordeste, tem sacrificado o meio ambiente e empurrado populações empobrecidas para lugares menos propícios para a ocupação humana. Na Zona da Mata de Pernambuco, nos últimos 30 anos, mais de 150 mil trabalhadores perderam seus trabalhos no setor canavieiro e estima-se que mais de 40 mil sítios foram destruídos durante os primeiros anos do Pró-álcool (1975) – um dos maiores períodos de expansão da cana no Estado e no Brasil. As matas foram “dando” espaço à cana e as populações, sem trabalho, privadas das terras e sem alternativa econômica foram sendo empurradas para as periferias das cidades, para as chamadas áreas de risco e “pontas de ruas”, como é chamado por eles. As cidades da Região canavieira, como é chamada por muitos, se transformaram em um verdadeiro confinamento de populações empobrecidas e privadas dos seus direitos. Pernambuco aparece com o quinto pior IDH do País, e é justamente na região da Zona da Mata que se concentra um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Estado e um dos piores índices de saneamento e água em rede domiciliar. As populações das cidades desta Região vivem com saneamento básico precário, sem abastecimento de água potável regular, sem assistência médica que atenda as necessidades das pessoas, ou seja, sem uma mínima infraestrutura social eficaz. Foi justamente nessa região que os usineiros cometeram um dos piores crimes ambientais da humanidade. Da mata Atlântica original, resta apenas menos de 3%. Em 2008, depois de muitas denúncias de movimentos sociais no estado, o IBAMA, autuou as 24 usinas pernambucanas por crime ambiental: por elas não terem os 20% de reserva legal e as matas ciliares estarem quase que dizimadas em todas usinas fiscalizadas pelo Instituto. Não há matas nos topos de morros e nas encostas para facilitar a infiltração das águas no solo e diminuir o escoamento superficial das águas de chuvas. Não existe mais matas ciliares, que servem, entre outras coisas para proteger os rios e servir de “barreiras” para a contenção dos grandes volumes de águas. A Mãe terra não merece e não deve ser culpada pelas consequencias desta catástrofe, que é muito mais de responsabilidade do modelo de desenvolvimento, do que de uma ação incontrolável da natureza. Vale apena lembrar Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”, que denuncia a Região da Zona da Mata de Pernambuco, como uma Região de maior pobreza e fome no Estado. O “cidadão do mundo” denunciava também a concentração de terra e o sistema do monocultivo da cana como um dos elementos principais da fome e da pobreza na Região. A combinação de fatores climáticos com as ilhas de pobrezas no “mar” de cana, que é a Zona da Mata em Pernambuco, tornou vulnerável as cidades da Região às catástrofes ditas “naturais”. A Mãe terra é quem nos culpa. Comissão Pastoral da Terra – Regional Nordeste II (EcoDebate)

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