segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Reservas Hidrogeológicas – Uma proposta Indispensável

A água utilizada pela população de Natal era considerada como a mais pura e saborosa do país e, consequentemente, um motivo de orgulho. O crescimento urbano acelerado, entretanto, contribuiu decididamente para a deterioração da qualidade desse amor-próprio potiguar. Tornou-se comum, especialmente a partir da década de 80, as notícias de contaminação da água fornecida à população.
Esse processo conduziu, inclusive, a mudanças no comportamento social. O raro hábito de se beber água mineral foi se ampliando e, hoje, é uma prática que atinge todas as camadas sociais. Água mineral se tornou um item obrigatório nas listas de despesas da maioria das famílias potiguares.
Cabral et al. (2009) afirmam que apesar da importância que as águas subterrâneas representam para o abastecimento da cidade de Natal, cerca de 65% do total, sua qualidade, a cada dia, se dete­riora em decorrência das crescentes atividades urbanas. Righetto & Rocha (2005) relatam que dentre as ativi­dades mais impactantes, destaca-se a infiltração no solo de águas servi­das das fossas e sumidouros.
Cabral et al. (2009) estudaram a evolução hidroquímica do nitrato em duas captações da porção Sul de Natal, abrangendo os bairros do Tirol e Nova Descoberta (Captação Dunas) e o bairro de Planalto (captação Planalto) e compreendendo o período de 1996 a 2006. Os tratamentos estatísticos desenvolvidos indicaram, para o bairro Planalto, que os resultados de nitrato estavam abaixo do limite de potabilidade vigente, mas existia uma tendência clara e preocupante de aumento com o decorrer do tempo nos teores desse parâmetro A situação da captação Dunas era mais grave e preocupante, já que os resultados para nitrato indicavam, na grande maioria dos casos, valores tí­picos de contaminação provenientes de efluentes domésticos. Além dis­so, Era indicado o agravante de que esse processo de contaminação parece se incrementar com o passar dos anos. Esse aumento de nitrato teria uma correspondência direta com o aumento da densidade populacional associado à ausência de um sistema de saneamento apropriado.
Os mapas de isoconcentrações de nitrato de 2006 a 2012 (Nascimento, 2012) evidenciam a evolução da contaminação na região de Natal e ilustram a gravidade da situação. De maneira simplificada e elementar, pode-se afirmar que Natal estava assentada sobre um magnífico aquífero, tanto no parâmetro de reserva, como de qualidade de água e que o processo de crescimento urbano está levando a desintegração irreversível e completa de sua potabilidade.
Isoconcentrações de Nitrato na cidade de Natal em 2006 e 2012. (nascimento, 2012).
Uma lição simples e objetiva da história do Aquífero Barreiras em Natal é que esse desastre ambiental não pode ser repetido. É fundamental assegurar que em uma área com característica hidrogeológica similar, não se deva permitir que processos contaminantes, antropogênicos, se instalem. Em termos práticos, finalmente, é garantir a preservação ambiental, com criação de um tipo de Reserva Hidrogeológica em setores onde o Barreiras tenha recursos e qualidade hídricas significativas.
Em recente trabalho coordenado pela ANA-SEMARH-RN (Nascimento, 2012), foram mapeadas na Região Metropolitana de Natal, espaços relativamente extensos com alta favorabilidade à explotação do Aquífero Barreiras, devido ao potencial expressivo de reserva hídrica em zonas com pouca ou nenhuma atuação antropogênica. A região ao longo da média bacia do rio Maxaranguape é um dos exemplos desse adequado ambiente.
Vegetação da região do Médio Maxaranguape.
A proposta, então, urgente e indispensável é a definição, após detalhamento hidrogeológico e hidro geoquímico, de áreas de proteção de aquíferos, para abastecimentos estratégicos. Essas reservas hidrogeológicas, fundamentais para o fornecimento hídrico atual e futuro da sociedade, devem ser radicalmente mantidas, estando imunes à atuação antropogênicas.
Malvezzi (2014) afirma que não existe, na lei brasileira de recursos hídricos, nenhum parágrafo que normatize o cuidado com os mananciais, a não ser um princípio geral da referida lei que afirma ser necessária a gestão dos recursos hídricos integrada à gestão ambiental. O autor comenta, ainda, que não existe nenhum programa relevante em termos de proteção dos mananciais e que sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos. (ecodebate)

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