segunda-feira, 15 de maio de 2017

Concentração de CO2 na atmosfera chega a 410 ppm

“Por mim ficaria contente se todos os prados do mundo ficassem em estado selvagem como consequência das iniciativas dos homens para se redimirem” - Duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (12/07/1817 – 06/05/1862)
Exatamente na semana do Dia da Terra e quando se realizou em todo mundo a Marcha pela Ciência (dia 22/04/2017), o mundo atingiu novo recorde no efeito estufa. A concentração de CO2 na atmosfera chegou a 410 partes por milhão (ppm), segundo dados da NOAA. É o maior índice dos últimos três milhões de anos.
No curto prazo, como a concentração de CO2 segue um padrão sazonal, com pico (valor máximo) nos meses de maio e vale (valor mínimo) em setembro, é de se esperar que a concentração fique próxima ou acima de 410 ppm em maio de 2017, caia entre junho e setembro, mas volte a subir com força a partir de outubro de 2017. Foi assim com o limiar de 400 ppm, atingido, primeiramente, em alguns dias de maio de 2013.
Em 2015, a marca das 400 ppm foi ultrapassada em 8 dos 12 meses, sendo fevereiro (400,28), março (401,54), abril (403,28), maio (403,96), junho (402,80), julho (401,31), novembro (400,16) e dezembro (401,85). Na média anual, 2015 foi o primeiro ano a ultrapassar a barreira simbólica, marcando a cifra de 400,83 ppm. O ano de 2016 foi o primeiro a ultrapassar a marca de 400 ppm em todos os meses e em todas as semanas. Somente no dia 29 de agosto a concentração de CO2 ficou abaixo da marca histórica e marcou 399,46 ppm. Nos demais 364 dias do ano, a concentração se manteve acima de 400 ppm, com o recorde no dia 10 de abril com 409,34 ppm.
O ano de 2017 começou com concentração de 406,36 ppm, no dia 01 de janeiro. A média do mês de janeiro foi de 406,13 ppm. A média do mês de fevereiro de 2017 foi de 406,42 ppm. O mês de março teve média de 407,2 ppm. A semana de 9 a 15 de abril de 2017 teve a marca semanal de 408,85 ppm e a semana de 16 a 22 de abril de 2017 teve a marca recorde semanal de 409,61 ppm. Assim, o mês de maio de 2017 pode ter média acima de 410 ppm.
Portanto, esse limiar histórico acontece apenas 4 anos após ter sido atingido o recorde mensal de 400 ppm, em 2013. O ritmo de subida na última década tem sido algo em torno de 2,5 ppm por ano. Isto significa que, mantida as atuais tendências, a concentração de CO2 pode ultrapassar 600 ppm em 2100. Isto seria catastrófico, pois aceleraria a desintegração do permafrost (solo congelado do Ártico) e aumentaria o degelo do Ártico, Antártica, Groenlândia e dos Glaciares, podendo elevar o nível do mar em vários metros em poucos séculos.
Nos 800 mil anos antes da Revolução Industrial e Energética a concentração de CO2 estava abaixo de 280 ppm, conforme mostra o gráfico abaixo da NOAA. As medições com base no estudo do gelo, mostram que em 1860 a concentração atingiu 290 ppm. Em 1900 estava em 295 ppm. Chegou a 300 ppm em 1920 e atingiu 310 ppm em 1950. Com base nos dados do laboratório de Mauna Loa, constata-se que a concentração de CO2 na atmosfera, na média mensal, chegou a 399,76 partes por milhão (ppm) em maio de 2013 e agora, em 2017, chega aos 410 ppm.
O dramático é que a coisa não para por aí. Artigo de Gavin L. Foster e colegas, publicado na Nature Communications (04/04/2016) mostra que o mundo caminha para um efeito estufa potencial sem precedentes nos últimos 420 milhões de anos, como mostra o gráfico abaixo. Os atuais níveis de dióxido de carbono são inéditos na história humana e estão no caminho certo para subir a alturas ainda mais sinistras em apenas algumas décadas. Se as emissões de carbono continuarem em sua trajetória atual, a atmosfera poderia atingir um estado não visto em 50 milhões de anos. Naquela época, as temperaturas eram até 10°C mais quentes e os oceanos eram dramaticamente mais altos do que hoje. A pesquisa que originou o artigo compilou 1.500 estimativas de dióxido de carbono para criar uma visão que se estende por 420 milhões de anos. A civilização pode estar criando uma situação catastrófica.
Assim, o mundo corre sério perigo. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera contribuiu para o fato dos anos de 2014, 2015 e 2016 terem sido os mais quentes já registrados e aponta para novos recordes futuros de aquecimento. O efeito estufa trará custos enormes e as sociedades podem não estar preparadas para pagar o alto preço de limpar no futuro a sujeira feita no passado e no presente.
O nível minimamente seguro de concentração atmosférica é de 350 ppm. Assim, o mundo vai ter não só de parar de emitir gases de efeito estufa (GEE) como terá que fazer “emissões negativas”, ou seja, terá que sequestrar carbono e fazer uma limpeza da atmosfera. O custo deste processo será muito mais caro do que o custo de reduzir as emissões.
Superar a era dos combustíveis fósseis e fazer uma mudança da matriz energética é um passo fundamental. Mas a lentidão da redução da queima de energia fóssil pode levar o mundo ao caos climático. Além disto, as demais atividades antrópicas também emitem GEE. Por exemplo, a pecuária é grande emissora de gás metano que é pelo menos 21 vezes mais poluente do que o CO2. E uma grande ameaça que se agrava com o processo de degelo é a “bomba de metano” que existe no permafrost.
Artigo de Eric Roston e Blacki Migliozzi, na Bloomberg (19/04/2017) mostra que a temperatura do Ártico aumentou muito mais do que a temperatura média global. Em relação à média de 1981-2010 a temperatura global aumentou 1ºC e a do Ártico aumentou 2ºC. Isto gera um efeito feedback positivo, ou seja, o degelo do permafrost libera CO2 e metano, aumentando o efeito estufa e acelerando o degelo.
Artigo de Bob Berwyn, no site InsideClimate, mostra que grandes terrenos de permafrost do ártico ao noroeste do Canadá estão se desintegrando, enviando grandes quantidades de lama e sedimentos ricos em carbono em riachos e rios. Um novo estudo que analisou quase 1 milhão km2 no noroeste do Canadá descobriu que esta degradação do permafrost está afetando 52 mil km2 daquele vasto trecho de terra e podem sufocar a vida a jusante, até onde os rios descarregam para o Oceano Pacífico, além de acelerar a concentração de GEE na atmosfera. A liberação do CO2 e do metano existente nos solos congelados pode tornar o efeito estufa uma bomba incontrolável, como existia há 200 milhões de anos, quando a biodiversidade da Terra era muito menor do que a atual.
O derretimento do permafrost pode ser uma nova “Caixa de Pandora” (deixando escapar todos os males do mundo, menos a esperança). Segundo a BBC, Batagaika, uma gigantesca cratera, emerge de forma dramática na floresta boreal da Sibéria à medida que o permafrost – tipo de solo que está sempre congelado – derrete como efeito do aquecimento global. As camadas de sedimento expostas revelam como era o clima na região há 200 mil anos. Resquícios de árvores, pólen e animais indicam que, no passado, a área foi uma densa floresta. Esse registro geológico pode ajudar a compreender como será, no futuro, a adaptação da região ao aquecimento global. E, ao mesmo tempo, o crescimento acelerado da cratera é um indicador imediato do impacto cada vez maior das mudanças climáticas no degelo do permafrost.
Ainda segundo a BBC, a cratera Batagaika pode oferecer lições cruciais, em especial sobre os mecanismos que aceleram o aquecimento em áreas de permafrost. À medida que o degelo avança mais e mais carbono é exposto a micróbios. Estes micro-organismos consomem carbono e produzem dióxido de carbono e metano – gases causadores do efeito estufa. O metano é capaz de acumular 72 vezes mais calor que o dióxido de carbono num período de 20 anos. Além disso, os gases liberados pelos micróbios na atmosfera aceleram ainda mais o aquecimento. É o que se chama de ‘feedback positivo’, como explica o cientista Frank Gunther, do Instituto Alfred Wegener: “O aquecimento acelera o aquecimento e, no futuro, poderemos ver mais estruturas como a cratera de Batagaika”.
Tudo isto foi confirmado no artigo “Methane Hydrate: Killer cause of Earth’s greatest mass extinction” (Uwe Branda et. al., 2016) publicado na prestigiosa revista Palaeoworld, em dezembro de 2016. A mensagem é clara: “O aquecimento global provocado pela liberação maciça de dióxido de carbono pode ser catastrófico. Mas a liberação do hidrato de metano pode ser apocalíptica”.
A pior extinção em massa da Terra foi causada por mudanças climáticas descontroladas. O evento de extinção em massa do Permiano-Triássico (também conhecida como a Grande Agonia) ocorreu há aproximadamente 250 milhões de anos e eliminou 96% da vida marinha e 70% da vida em terra. O artigo confirma que a causa deste evento foi o crescente nível de dióxido de carbono e metano que desencadeou o aquecimento global. Em artigo anterior (Alves, 03/04/2017) relatei reportagem do jornal “The Siberian Times” que revelou como a alta temperatura do verão derreteu o permafrost causando a liberação de gases congelados no solo. Portanto, o efeito retroalimentação já é real e está acelerando o aquecimento global.
Artigo de David Lamb, na CBC News (17/04/2017), mostra que o Canadá está derretendo. O permafrost no norte do país está descongelando a um ritmo cada vez mais rápido. Metade do Canadá é coberta em alguma forma de permafrost, incluindo remendos nos trechos do norte de Ontário e as províncias da pradaria. Muitos terrenos estão afundando e levando para o fundo as benfeitorias.
Reportagem do jornal El Pais, mostra como o derretimento acelerado de uma das maiores geleiras do rio Yukon, localizado no noroeste do Canadá, provocou o desaparecimento de outro rio em apenas quatro dias, segundo artigo publicado na segunda-feira pela revista Nature Goeoscience. A água se desviou totalmente para outro leito, no que os cientistas consideram como o primeiro caso observado de “pirataria fluvial” repentina. Os especialistas que documentaram o fenômeno, ocorrido na primavera de 2016, consideram o incidente como um exemplo inquietante de como o aquecimento global está modificando drasticamente a geografia do planeta.
Artigo de Naia Carlos em Nature World News (03/04/2017) descreve uma cratera do deserto de Karakum do Turcomenistão, conhecida como “Porta para o Inferno” – apelido da Cratera Darvaza – que tem sido queimada por quase meio século. De acordo com um relatório da National Geographic a fogueira misteriosa, que é tão grande quanto um campo de futebol, surgiu do produto de um acidente de perfuração na exploração de petróleo e gás.
Um novo estudo publicado na Revista Nature Climate Change (2017), aponta que o permafrost é mais sensível aos efeitos do aquecimento global do que se pensava anteriormente, pois cerca de 4 milhões km2 de solo congelado poderiam ser perdidos a cada grau de aumento do aquecimento global. Esta área é equivalente à soma das regiões brasileiras Sul (576.774,3 km2), Sudeste (924.620,7 km2), Nordeste (1.554.291,7 km2) e Centro-Oeste (1.606.403,5 km2). As estimativas dizem que há mais carbono contido no permafrost congelado do que aquele concentrado na atmosfera.
Por conta de tudo isto e do efeito “feedback positivo”, o livro Enough is Enough (2010) mostra que uma economia em constante crescimento está destinada ao fracasso, pois aumenta as tendências entrópicas das atividades antrópicas. Os autores consideram que a economia é um subsistema da ecologia e o transumo (throughput) funciona a partir da extração de matérias e energias da natureza e o descarte de lixo, poluição e resíduos sólidos no meio ambiente. Uma vez que vivemos num planeta finito, com espaço e recursos limitados e sobre os efeitos físicos da entropia não é possível que a economia e a população cresçam para sempre. O livro defende uma economia de Estado Estacionário.
A humanidade aumentou tanto a quantidade de intervenções antrópicas no Planeta que houve uma mudança qualitativa do superávit para o déficit ambiental. A partir de certo grau de desenvolvimento econômico houve um ponto de mutação (state shift) e os danos ficaram maiores do que os ganhos. O abuso suplantou o uso no modelo de crescimento ilimitado e de progresso unidimensional.
Desta forma, é preciso um novo ponto de mutação em sentido reverso. Do crescimento demoeconômico para o decrescimento demoeconômico. A humanidade precisa sair do déficit ecológico e voltar ao superávit ambiental, resgatando as reservas naturais, para o bem de todos os seres vivos da Terra, pois o ecocídio significará também um suicídio para a humanidade. A atual escala da presença humana na Terra é insustentável. Aumentar esta escala é irracional e arriscado. Assim, o raciocínio auto evidente indica que é inviável manter o crescimento da população humana com base na redução populacional das demais espécies e no definhamento dos ecossistemas e da biodiversidade. É impossível uma espécie ser feliz sozinha!
Portanto, o mundo está num beco sem saída. Quanto mais avança com o crescimento econômico e o desenvolvimento das atividades antrópicas mais acontece as emissões de GEE. Os benefícios do desenvolvimento são colhidos hoje pela humanidade, mas os prejuízos para a biodiversidade estão aumentando de forma exponencial e os custos humanos serão pagos pelas novas gerações. As crianças e os jovens de hoje vão pagar um alto preço nas próximas décadas se a concentração de CO2 não voltar para o nível de 350 ppm.
Como mostrou Charles St. Pierre (16/11/2016), tratando da armadilha do crescimento, todo sistema econômico e todo sistema auto organizado que não se autolimita dentro das fronteiras estabelecidas pelo seu meio ambiente, cresce até exceder a capacidade do ecossistema para apoiá-lo e sustentá-lo. Em seguida, ele colapsa.
Assim, é urgente dar uma meia volta nas tendências de emissões de GEE e no fenômeno de poluição crescente do solo, das águas e do ar e iniciar um processo de decrescimento demoeconômico para que a humanidade respeite os limites planetários e a capacidade de carga no Planeta. O caminho atual é insustentável e a civilização está avançando rumo ao precipício. Hoje, o mundo já caminha para a 6ª extinção em massa das espécies. As mudanças climáticas, num futuro não muito distante, podem levar ao caos no Planeta.
O colapso ambiental, e consequentemente da economia moderna, será catastrófico para bilhões de pessoas e para a sociedade que, ao longo do tempo, se enriqueceu às custas do empobrecimento do meio ambiente. (ecodebate)

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