segunda-feira, 3 de junho de 2019

As vantagens da fecundidade abaixo do nível de reposição

“All our environmental problems become easier to solve with fewer people, and harder – and ultimately impossible – to solve with ever more people” - David Attenborough.
Assim, em 2000, a fecundidade foi de 2,16 filhos e, em 2002, a taxa era de 1,88 filhos por mulher, valor inferior ao nível de reposição.
As vantagens da fecundidade abaixo do nível de reposição
A taxa de fecundidade total (TFT) mede o número médio de filhos por mulher. Num quadro de baixa mortalidade, quando esta taxa fica acima de 2,1 filhos por mulher (no longo prazo), significa que há crescimento da população. Se a TFT é igual a 2,1 filhos por mulher (número considerado nível de reposição) a população se estabiliza. Em um período de tempo longo, se a TFT fica abaixo do nível de reposição (2,1 filhos) significa que a população vai diminuir, considerando uma população fechada ou com baixo nível de migração.
O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU, mostra que a TFT estava próxima de 5 filhos por mulher entre 1950 e 1970, sendo 4,92 filhos por mulher na década de 1950 e 4,98 filhos na década de 1960. Portanto, a TFT subiu ligeiramente (0,06 filho) no período. Mas a partir daí a transição da fecundidade teve início e, diminuindo 0,81 filhos por mulher. Entre a década de 1980 e 1970 o declínio foi de 0,64 filhos por mulher. O mesmo ocorreu na década seguinte. Entre a década 2001-10 e a década de 1990 o declínio foi de 0,28 filhos. Na atual década, 2011-20 em relação à década anterior o declínio foi de 0,11 filhos. Nas próximas décadas o declínio deve ser ainda menor.
A TFT global ficou em 4,16 filhos por mulher na década de 1970, em 3,52 filhos na década de 1980, em 2,88 filhos na década de 1990, em 2,60 filhos na primeira década do século, em 2,50 na atual década e deve continuar caindo ligeiramente até chegar a 2,26 filhos na década 2041-50. Ou seja, a taxa de fecundidade mundial deve se manter acima de 2,1 filhos, pelo menos, até 2050, pois o ritmo de queda da TFT tem sido bem reduzido.
Considerando a transição da fecundidade nos 10 países mais populosos do mundo, conforme o gráfico abaixo, observa-se uma heterogeneidade muito grande. Entre os 10 países, os EUA (com população de 237 milhões de habitantes em 2018) era o país com a menor TFT no século passado, ficando abaixo do nível de reposição a partir de 1970. Mas a partir da década de 1990 a China (1,42 bilhão de habitantes em 2018) passou a apresentar a menor TFT entre os maiores países. O Brasil (210 milhões de hab em 2018) atingiu a TFT abaixo do nível de reposição em 2005, ficando inclusive abaixo da taxa americana. O outro grande país, a Indonésia (267 milhões de hab em 2018) também apresentou uma rápida queda da fecundidade, mas que se mantém pouco acima do nível de reposição. Bangladesh (166 milhões de hab em 2018) saiu de quase 7 filhos por mulher na década de 1970 para quase o nível de reposição atualmente. A Índia (1,35 bilhão de hab em 2018), que caminha para ser o país mais populoso do mundo na próxima década, ainda mantém uma TFT pouco acima do nível de reposição. Estes 6 países já possuem uma TFT abaixo da média mundial de 2,47 filhos por mulher, no quinquênio 2015-20. Porém, Paquistão (201 milhões), Nigéria (196 milhões), Etiópia (108 milhões) e República Democrática do Congo (84 milhões) apresentam TFT bem acima da taxa de reposição e muito acima da média mundial.
Países como Nigéria, Paquistão, Etiópia e RD do Congo terão grande dificuldade para lidar com o rápido crescimento populacional. Artigo de Nicola Davis (The Guardian, 26/12/2018) mostra que a queda da fecundidade abaixo do nível de reposição é fundamental para o decrescimento futuro da população e contribui para a sustentabilidade ambiental. Ele apresenta o ponto de vista da demógrafa Sarah Harper, da Universidade de Oxford, disse que longe de acionar o alarme e pânico, os países não devem se preocupar com o decrescimento populacional.
A ideia de que uma nação precisa de muita gente para defender seu território e expandir sua economia é realmente um pensamento antigo. Harper apontou que a inteligência artificial, a migração e uma velhice saudável, significavam que os países não precisavam mais de populações em crescimento para se manterem. Em termos ambientais, um filho a menos reduz a pegada de carbono dos pais em 58 toneladas de CO2 por ano.
Quanto a lidar com uma sociedade envelhecida, mais bebês não ajudariam muito, já que as crianças também precisavam ser cuidadas e não entrariam no mercado de trabalho durante anos. Harper considera que o medo do envelhecimento populacional também precisava ser reconsiderado, até porque a tecnologia para apoiar os dependentes está avançando, enquanto as pessoas permanecem em boa saúde por mais tempo. A demógrafa diz: “É muito mais fácil permitir que os idosos permaneçam ativos e saudáveis e no mercado de trabalho, do que dizer às mulheres: ah, você tem que ter filhos”.
De fato, empoderar a população e, especialmente, as mulheres pode fazer mais para mudar a economia de um país do que incentivar o pronatalismo, disse Harper. Por fim, ela afirma que em vez de incentivar o aumento da fecundidade para se contrapor ao decrescimento populacional, o melhor é equilibrar a oferta e demanda da população via imigração.
Ilustração: Reprodução.

O Brasil acompanha uma tendência mundial: a redução no número de filhos. (ecodebate)

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