sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Efeito perverso entre produção de alimentos e mudanças climáticas

Relatório do IPCC e o efeito perverso entre produção de alimentos e mudanças climáticas.
De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra” - Hino da Internacional Socialista.
O relatório “Climate Change and Land”, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, publicado dia 08 de agosto de 2019, trata da conexão entre o uso da terra e seus efeitos sobre a mudança climática. Existe um efeito perverso de retroalimentação, pois a produção de alimentos aumenta o aquecimento global, enquanto as mudanças climáticas decorrentes ameaçam a produção de alimentos.
O relatório mostra, de forma inquestionável, que o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) têm causado taxas sem precedentes de uso de terra e água doce, com a agricultura atualmente respondendo por cerca de 70% do uso global de água doce.
O aumento da produção e consumo de alimentos contribuíram para o aumento das emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE), perda de ecossistemas naturais e diminuição da biodiversidade. O sistema alimentar responde por cerca de 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e 80% do desmatamento global. A humanidade ocupa cada vez mais espaço no mundo, com as áreas ecúmenas deslocando e minguando as áreas anecúmenas, conforme mostra a figura abaixo (FSP, 08/08/2019), com base no relatório do IPCC. A agricultura e a pecuária ocupam cada vez mais espaço no mundo e ao acelerar o aquecimento global afeta as florestas virgens, as áreas de savana e contribui para o aumento do degelo e a elevação do nível dos oceanos.
O relatório do IPCC foi resultado de dois anos de trabalho de 103 cientistas de 52 países, que participaram voluntariamente do estudo. Antes do seu lançamento, o relatório foi discutido com os governos no início de agosto em Genebra, na Suíça, e aprovado por consenso por todos os países que participam do IPCC.
Segundo o site DW (08/08/2019): “O relatório aponta que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2ºC estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost, e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. É um quadro sombrio, mas os autores do IPCC enfatizam que as recomendações do relatório poderiam ajudar os governos a prevenir os piores danos, reduzindo a pressão sobre a terra e tornando os sistemas alimentares mais sustentáveis, enquanto atendem às necessidades de uma população crescente”.
O fato é que o progresso da “revolução verde” e a maior disponibilidade de alimentos – incluindo proteína animal – viabilizaram o crescimento da população mundial, mas, ao mesmo tempo, aceleraram a degradação dos solos e das fontes de água e agravaram o problema do aquecimento global. O mundo consegue alimentar quase 8 bilhões de pessoas, mas o custo ambiental é terrível. Por exemplo, a contribuição da pecuária para a emissão de GEE é cada vez maior. Diminuir o consumo de carne é fundamental para mitigar as emissões e também para a defesa dos direitos dos animais.
O relatório do IPCC adverte que a demanda global por solo e água já acontece de forma insustentável e o acréscimo de mais 3 bilhões de pessoas até o fim do século vai trazer desafios ainda maiores. Ao desmatar e eliminar animais e plantas a um ritmo impressionante, os seres humanos estão acelerando o colapso climático. A seguir, as principais conclusões (segundo o site Página 22) :
Caso as emissões não sejam controladas, uma crise alimentar estará próxima, especialmente nas regiões tropicais e subtropicais”. O aumento das temperaturas também pode afetar o valor nutricional das culturas e reduzir significativamente o rendimento das culturas.
Os impactos climáticos já são severos. Ondas de calor e secas tornaram-se mais frequentes e intensas em algumas regiões, e a segurança alimentar já foi prejudicada por afetar o rendimento das colheitas e a produção animal, entre muitas outras mudanças como resultado da crise climática.
Projeta-se que uma combinação de elevação do nível do mar e ciclones mais intensos ponha em risco vidas e meios de subsistência em áreas propensas a ciclones. O aquecimento já criou risco de incêndios florestais e estes devem se tornar um alto risco a partir de 1,5°C  de aquecimento.
A agricultura, a produção de alimentos e o desmatamento são fatores significativos da mudança climática e produzem cerca de 23% das emissões de gases de efeito estufa induzidas pelo homem.
Diferentemente do setor de combustíveis fósseis, a agricultura sustentável poderia ser parte da solução para o aquecimento global, ao retirar carbono da atmosfera e colocá-lo no solo. Mas a janela de oportunidade está se fechando rapidamente, pois a capacidade dos solos de realizar essa função diminui à medida que a temperatura aumenta.
O progresso inicial em direção a uma ampla transformação da agricultura, silvicultura e uso da terra é necessário para alcançar as metas do Acordo de Paris. Essa transformação precisa estar bem encaminhada até 2040.
Existem muitas soluções em que todos ganham no setor da terra, particularmente na agricultura e silvicultura, mas algumas soluções terrestres para o aquecimento global, como BECCS (bioenergia com captura e sequestro de carbono) podem forçar trade-offs com produção de alimentos se não forem feitas com cautela ou em escalas inadequadas.
A escassez de água em regiões secas será um desafio cada vez mais urgente, além de um aumento global de temperatura de 1,5°C.
“Mudanças climáticas e eventos climáticos extremos relacionados podem intensificar a migração através das fronteiras e dentro dos países”.
Em síntese, o avanço científico e tecnológico aliado ao uso generalizado dos combustíveis fósseis reduziu a fome no mundo, que atingiu o nível mais baixo da história. Porém, a insegurança alimentar e a desnutrição global aumentou nos últimos 3 anos e pode aumentar muito no futuro próximo. A biocapacidade da terra está diminuindo e os meios naturais para o sustento da humanidade estão definhando.
Por isto é preciso levar em conta que o progresso humano está levando o mundo para a beira de um precipício em função de uma catástrofe ambiental cada vez mais provável. Para satisfazer a gula de poucos e matar a fome de muitos, destrói-se a vida no Planeta.
Um mundo de desperdício. Entregamos ao lixo mais de mil milhões de toneladas de alimentos por ano. (ecodebate)

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