O Pantanal, a maior planície alagada
do mundo, corre o risco de, em 2100, ver as suas temperaturas médias anuais
elevadas em até 7°C.
Tamanho aumento de
temperatura implicaria uma redução sensível no regime de chuvas da região,
principalmente no inverno. Tais mudanças climáticas teriam impacto sobre a
evaporação da região e a própria existência do Pantanal como o conhecemos.
Essas projeções foram
estimadas a partir da aplicação ao Pantanal dos modelos climáticos globais do
5º Relatório de Avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC), de 2014.
O trabalho “Climate Change
Scenarios in the Pantanal”, publicado no livro Dynamics of the Pantanal Wetland
in South America, é de autoria da equipe do hidrologista e meteorologista José
Antonio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden), em Cachoeira Paulista, e tem apoio da FAPESP e do
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas –
que, por sua vez, é apoiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O Pantanal tem uma área de
140 mil km², 80% da qual fica no Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e
Mato Grosso. É uma região semiárida. Não fosse o enorme fluxo anual de água
para a região, o bioma seria tão seco quanto a caatinga nordestina. Isso não
ocorre porque o Pantanal é um grande reservatório que armazena as águas que
escoam dos planaltos circundantes.
Esse é o retrato do Pantanal
hoje. Nele caem anualmente entre 1.000 e 1.250 milímetros de chuva. A
temperatura média anual é 24°C – sendo que a temperatura máxima, alguns dias no
ano, atinge os 41°C. O que as projeções climáticas de Marengo indicam para o
futuro?
O 5º Relatório de Avaliação
do IPCC projeta um aumento na temperatura média global em 2100 de 3,7ºC a
4,8°C. Quando seus parâmetros são usados para analisar as variáveis climáticas
específicas do Pantanal, o resultado impressiona. Até 2040, as temperaturas
médias devem subir de 2ºC a 3°C. Em 2070, o aumento poderá ser de 4ºC a 5°C,
atingindo em 2100 uma temperatura média 6°C mais elevada do que a atual.
Embora haja muita incerteza
com relação às projeções pluviométricas, os modelos sugerem que, durante o
inverno no hemisfério Sul, o Pantanal poderá experimentar uma redução na
quantidade de chuva de 30% a 40%.
A associação entre
temperaturas mais elevadas e menos chuva implicará um aumento da evaporação no
Pantanal. Dependendo da temperatura, volumes consideráveis de água represada
poderão desaparecer, o que reduzirá a área total alagada e a quantidade de água
nas porções de terra que permanecerão alagadas. “Um aumento da temperatura
média de 5ºC a 6°C implicaria em deficiência hídrica, o que afetaria a
biodiversidade e a população”, observa Marengo.
As consequências para a fauna
e a flora poderão ser severas. Espécies vegetais pouco adaptáveis a um grau de
umidade inferior ao atual poderão desaparecer ou migrar para outras regiões. Em
seu lugar, germinariam outras espécies, que preferem climas mais secos.
A alteração na vegetação
implicaria diretamente as populações de invertebrados e de vertebrados
herbívoros – capivaras, antas que delas dependem (mas também o gado das
fazendas) –, numa reação em cadeia que afetaria todos os nichos da cadeia alimentar,
até atingir os predadores de topo, como os felinos, os jacarés e as aves de
rapina.
Muito embora Marengo faça
questão de salientar que as incertezas com relação às mudanças climáticas ainda
são elevadas, especialmente no quesito do regime pluviométrico, uma coisa é
certa: as temperaturas globais estão aumentando e o mesmo acontecerá no
Pantanal.
Como aquela planície alagada fica no centro da América do Sul, portanto longe da influência marítima que poderia ajudar a amenizar o clima, o aumento das temperaturas no Pantanal tende a ser mais dramático. “O dia mais quente do ano pode vir a ser até 10 °C mais quente do que hoje”, diz Marengo.
Se atualmente, nos dias mais quentes do verão, a temperatura no Pantanal passa fácil dos 40°C, estamos falando em temperaturas máximas em torno ou superiores aos 50 °C. É temperatura de deserto. A maioria das plantas suporta pontualmente um calorão desses. Pontualmente. (ecodebate)



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