O esgarçamento do tecido
social ocorre de maneira profunda através de três dinâmicas principais:
• Deslocamentos e Migrações
Forçadas: Secas prolongadas e enchentes destroem moradias e fontes de renda,
forçando milhões de pessoas a migrarem. O êxodo destrói redes de vizinhança e
vínculos históricos. Além disso, a chegada de refugiados climáticos a novas
regiões frequentemente gera tensões com as comunidades locais devido à pressão
sobre serviços públicos e empregos.
• Aprofundamento da Desigualdade:
Populações periféricas, favelas e comunidades tradicionais são as que mais
sofrem com desastres, pois ocupam áreas de risco e têm menos acesso a recursos
de adaptação. Essa disparidade gera um sentimento de injustiça, ressentimento
social e descrença nas instituições públicas.
• Competição por Recursos
Básicos: A escassez de água potável e a perda de áreas agrícolas afetam a
segurança alimentar e a economia local. Essa escassez transforma recursos
vitais em alvos de disputa, fomentando conflitos violentos e o individualismo
em detrimento da solidariedade comunitária.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU alerta que bilhões de pessoas estão altamente vulneráveis a esses impactos. Para entender melhor o amparo institucional nessas situações, consulte a página oficial do ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos) ou acompanhe as diretrizes de adaptação e justiça climática propostas pela ONU Meio Ambiente.
Estudo revela que o aquecimento global não destrói apenas o planeta, ele fragmenta as comunidades, aprofunda o isolamento e amplia as desigualdades. E você provavelmente já sentiu isso sem saber nomear.
Eu me lembro do verão de 2024
no Rio. Não da praia, não do calor em si, mas da estranheza das ruas com pouco
movimento no meio da tarde, mas com as UPAs lotadas. Nenhuma roda de conversa
na calçada, nenhuma criança brincando na rua, nenhum vizinho passando para
tomar um café. Era como se, ao longo de vários dias, a cidade estivesse isolada
de si mesma.
Na época, como a maioria das
pessoas, achei que era só o calor extremo. Hoje, depois de ler um estudo
publicado na revista Nature Human Behaviour, por pesquisadores da Universidade
de Sydney, eu entendo que era muito mais do que isso. O que senti naquele verão
foi a erosão dos laços sociais induzida pelas mudanças climáticas. E ela está
acontecendo com muito mais gente do que imaginamos.
O que a ciência descobriu e
que ninguém está falando
A pesquisa, intitulada
Climate Change and Social Health, parte de uma premissa que parece óbvia, mas
que raramente aparece nas discussões sobre clima: seres humanos sobrevivem em
comunidade. Não é metáfora. É fisiologia, é história, é antropologia. Quando
nossos laços sociais se desfazem, adoecemos e morremos mais.
O problema é que as mudanças
climáticas estão corroendo exatamente esses laços, e fazendo isso de forma
silenciosa, gradual e cruel.
A Dra. Marlee Bower, autora
principal do estudo e pesquisadora do Centro Matilda de Pesquisa em Saúde
Mental, resume que as mudanças climáticas não são algo que acontece “lá fora”,
em geleiras distantes ou em florestas remotas. Elas estão moldando como
vivemos, como nos conectamos e, fundamentalmente, quem recebe apoio quando as
coisas dão errado.
Isso dói de ler. Porque implica que o clima não está apenas aquecendo o planeta. Está esfriando as pessoas umas das outras.
Calor, poluição e isolamento social
Pense nos espaços onde a vida
social acontece de verdade, como a praça do bairro, o boteco da esquina, a
calçada em frente à casa do vizinho, o parque onde as crianças brincam, a feira
de sábado de manhã.
Agora imagine ondas de calor
cada vez mais intensas e frequentes. Poluição do ar que aperta o peito e irrita
os olhos. Chuvas tão violentas que interrompem escolas, fecham comércios e
destroem rotinas inteiras. Gradualmente, esses espaços deixam de ser seguros
ou, simplesmente, ficam inabitáveis por longos períodos.
O estudo mostra que isso já
está acontecendo em países como China e Tuvalu, onde as pressões climáticas
diminuem a atividade social, aumentam índices de depressão e, em casos
extremos, levam ao isolamento total da vida comunitária. As pessoas não deixam
de se encontrar porque querem. Elas deixam porque o ambiente não permite mais.
É uma perda que não aparece
em nenhum relatório de danos materiais após uma enchente. Mas é real e ela dói.
Quando o desastre vira exílio
Os efeitos mais dramáticos
surgem nos episódios de desastres imediatos, como enchentes, ciclones, incêndios
florestais. Nesses momentos, comunidades inteiras são deslocadas, rotinas são
destruídas, e as pessoas perdem não apenas suas casas, também perdem seus
vizinhos, suas referências, suas redes de apoio.
O que chama atenção no estudo
são casos como os da República Dominicana e do Japão, onde comunidades
realocadas após desastres passaram a viver em condições físicas mais seguras,
mas socialmente devastadas. A nova casa era melhor. A vida, mais vazia.
Isso ressoa de um jeito
particular para quem acompanhou as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. As
imagens de destruição foram chocantes. Mas o que ficou menos visível nas
coberturas foi a solidão que veio depois, com as famílias alojadas em abrigos,
longe de tudo que conheciam, os idosos separados de seus grupos de convivência,
as crianças em escolas novas, sem amigos.
Quem paga a conta
Estudo toca em algo que nos
incomoda profundamente: os impactos não são iguais para todos.
Pessoas de baixa renda,
moradores de habitações precárias, pessoas com deficiência, comunidades
marginalizadas. Grupos que já estão mais expostos aos riscos climáticos. E ao
mesmo tempo, são exatamente eles que têm menos recursos para manter suas
conexões sociais quando tudo desmorona.
A Dra. Bower chama isso de
“fardo duplo”: são mais vulneráveis ao clima por causa de onde e como vivem e,
ao mesmo tempo, têm menos suporte social e financeiro para recorrer. É uma
armadilha cruel, e ela está se fechando mais rápido do que as políticas
públicas conseguem perceber.
Aqui eu preciso parar e ser
direto, porque essa parte do estudo me impactou de verdade.
Em 2021, durante a chamada
“Cúpula de Calor” na Colúmbia Britânica — um evento climático extremo que matou
mais de 600 pessoas, as pessoas com esquizofrenia, um grupo estatisticamente
mais propenso ao isolamento social, representaram cerca de 8% das mortes
relacionadas ao calor.
8%. Pessoas que morreram não
apenas por causa do calor, mas porque não tinham ninguém por perto para notar
que estavam passando mal. Não tinham rede. Não tinham vínculo.
O isolamento social já é
comparável, em termos de impacto na mortalidade, ao tabagismo e à obesidade.
Isso não é exagero, é dado epidemiológico. E quando colocamos o clima nessa equação,
o número de pessoas vulneráveis cresce de forma assustadora.
Conexão social como
infraestrutura e não como luxo
O que os pesquisadores
propõem é uma mudança de perspectiva radical: tratar a saúde social como
infraestrutura essencial. Assim como estradas, sistemas de energia e redes de
esgoto, as conexões humanas precisam ser planejadas, protegidas e financiadas.
Isso significa repensar o
design das cidades para que as pessoas se encontrem e não fujam umas das
outras. Significa pensar em habitação e transporte não apenas como acesso
físico, mas como condição para a vida social. Significa incluir, nos planos de
resposta a desastres, estratégias para preservar as redes comunitárias que já
existem antes de tudo desmoronar.
Os dados dos incêndios do
“Black Summer” na Austrália são contundentes: pessoas com laços comunitários
fortes apresentaram menor sofrimento psicológico e maior resiliência a longo
prazo, mas apenas quando essas
conexões já existiam antes do desastre. Você não constrói comunidade no meio da
crise. Ela precisa estar lá antes.
Confesso que esses dados me
deixam com um misto de angústia e clareza. Angústia porque a escala do problema
é enorme e a velocidade das mudanças climáticas não espera por políticas
lentas. Clareza porque, ao contrário de muitos aspectos da crise climática,
esse tem uma resposta que começa com escolhas cotidianas.
Não estou dizendo que a saúde
social é responsabilidade individual, longe disso. O estudo é explícito que
precisamos de políticas públicas que incluam a dimensão social. Mas enquanto
esperamos por elas, existem coisas que podemos fazer agora: conhecer os
vizinhos, manter os vínculos com pessoas mais isoladas, defender espaços
públicos de qualidade, participar de redes comunitárias.
Não porque é bonito. Mas porque,
como a ciência está mostrando, isso salva vidas.
A pesquisa “ Climate change
and social health”, da Universidade de Sydney, revela que a crise climática
transcende as ameaças ambientais, atuando como um catalisador de isolamento
social. O estudo demonstra que fenômenos extremos, como ondas de calor e
inundações, destroem os laços comunitários vitais para o suporte mútuo e a saúde
mental. Essa erosão das conexões interpessoais afeta desproporcionalmente as
populações vulneráveis, agravando as taxas de mortalidade e dificultando a
recuperação após desastres. Diante disso, os especialistas defendem que a saúde
social seja integrada às políticas públicas como uma infraestrutura essencial
para a sobrevivência. Fortalecer os vínculos humanos é, portanto, tão crucial
quanto investir em soluções técnicas para enfrentar os desafios do aquecimento
global. (ecodebate)





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