sábado, 27 de junho de 2026

Mata Atlântica concentra 64% de toda a restauração no país

Mata Atlântica registra menor desmatamento em 40 anos e impulsiona nova economia baseada na restauração florestal

Recuperação da vegetação nativa ganha força no Brasil, gera créditos de carbono, movimenta a bioeconomia e cria oportunidades para produtores rurais.

A Mata Atlântica concentra 64% de toda a área em recuperação monitorada no Brasil, representando cerca de 131 mil hectares em regeneração. O bioma é considerado um local ideal para a restauração em larga escala, visto que restam menos de 30% da sua cobertura florestal original.

Os números e contextos atuais destacam o cenário da recuperação:

• Área em Recuperação: O bioma lidera a restauração no país, enquanto a Amazônia registrou crescimento de 173% na área monitorada em 4 anos.

• Reversão de Perdas: Apesar de uma média de 155 mil hectares de florestas jovens se regenerarem anualmente, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica aponta que cerca de 30% dessa regeneração é perdida novamente ao longo dos anos.

• Investimentos e Metas: Os esforços visam ajudar o país a cumprir as metas do Acordo de Paris e do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg).

• Biodiversidade em SP: Projetos como os da Fundação Florestal têm monitorado o retorno de espécies raras a áreas protegidas no estado, como antas e o Muriqui do Sul.

Mata Atlântica.

No ano em que registra o menor desmatamento em quatro décadas, a Mata Atlântica chega ao seu dia nacional, celebrado em 27 de maio, como uma potencial vitrine de uma nova agenda econômica: a restauração produtiva. Antes vista sobretudo como uma ação ambiental, a recuperação da vegetação nativa vem se tornando uma alternativa estratégica para explorar atividades produtivas sustentáveis, com potencial de geração de renda e novas oportunidades para produtores rurais e comunidades.

Em 2025, o desmatamento na Mata Atlântica atingiu o menor nível registrado em toda a série histórica do monitoramento da SOS Mata Atlântica e Inpe, iniciado em 1985. Ao longo desse período, houve redução de 40% na área desmatada, que passou de 14.366 para 8.658 hectares. Esse marco reforça os avanços na conservação e políticas públicas do bioma. Em paralelo, a relevância da Mata Atlântica na agenda global de restauração se destaca, projetando-a como um laboratório de modelos capazes de integrar conservação, produção e desenvolvimento econômico.

O bioma é reconhecido desde 2022 pela ONU e pela FAO como uma das 10 Iniciativas de Referência Mundial da Década da Restauração de Ecossistemas (2021-2030). Para Cézar Borges, membro do Grupo Gestor do Observatório da Restauração, trata-se de um mérito relacionado à governança construída no território, que integra setor público, empresas, academia e sociedade civil: “Todos esses atores comprometeram-se com metas comuns para implementar e escalar a restauração no bioma, o que garante integridade às iniciativas”.

Restauração da Mata Atlântica vira oportunidade econômica

O potencial econômico da Mata Atlântica

Os benefícios econômicos da restauração se materializam em diversas iniciativas. Recentemente, ocorreu no sul da Bahia a primeira comercialização de créditos de carbono provenientes de restauração da vegetação nativa, realizada por uma empresa privada. Borges destaca que essa agenda vem se estruturando nos últimos anos e pode ser uma das alternativas no mercado de Soluções baseadas na Natureza (SbN), mas que ainda está em processo de regulamentação e aprimoramento técnico.

“A governança já estabelecida na Mata Atlântica, aliada ao histórico científico e institucional, oferece condições para que os créditos tenham maior segurança, integridade ecológica e de inclusão social, desde que as iniciativas de carbono atuem de forma integrada e com uma governança de paisagem compartilhada com os atores locais”, afirma o especialista. “Um dos desafios é garantir monitoramento e transparência, e é justamente aí que plataformas como o Observatório da Restauração desempenham papel essencial, assegurando clareza sobre quem realiza a restauração, onde e de que forma, fortalecendo a credibilidade das iniciativas”.

Restauração produtiva também abre caminhos para a bioeconomia. Modelos como os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Silvipastoris, que integram espécies nativas a produção agrícola, a exemplo de consórcios de café e cacau com espécies nativas, são um dos caminhos produtivos sustentáveis em paisagens fragmentadas da Mata Atlântica. Essa prática permite que produtores rurais se beneficiem de serviços ecossistêmicos como polinização e controle natural de pragas, aumentando a qualidade dos produtos e reduzindo custos.
Mata Atlântica atinge menor desmatamento em 40 anos e mira nova economia da restauração

Paralelamente, a silvicultura de espécies nativas ganha destaque com a identificação de 15 espécies de árvores de alto potencial econômico, capazes de gerar renda e emprego enquanto recuperam o ecossistema. “O lançamento do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Silvicultura de Espécies Nativas (PP&D-SEN) mostra como a agenda de silvicultura de nativas tem potencial, condições técnicas e está sendo vista de modo estratégico pelo país, com o BNDES investindo R$ 24,9 milhões para pesquisa e parcerias nessa área nos próximos cinco anos”, explica Borges. “Isso é uma sinalização de como o plantio e comércio de árvores nativas pode ser um ativo de mercado. O desafio, agora, é o ajuste em algumas normas de rastreabilidade e conexão com potenciais compradores no mercado nacional e internacional”.

Apesar dos avanços, a conservação das áreas em regeneração natural ainda é um desafio. Anualmente, a Mata Atlântica ganha, em média, 155 mil hectares de florestas jovens, de acordo com dados do MapBiomas. Nos últimos 10 anos (2011-2021), por exemplo, mais de 2 milhões de hectares foram regenerados — no entanto, 30% desse ganho foram perdidos no mesmo período, segundo a publicação científica “A long road to resilience: Large-scale forest recovery but limited persistence in the Atlantic Forest” (“Um longo caminho para a resiliência: recuperação florestal em larga escala, mas com persistência limitada na Mata Atlântica”, em tradução livre), conduzida pelo Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, em colaboração com a Coalizão Brasil.

“Uma das soluções para a garantia da permanência das florestas secundárias é o incentivo e criação de mecanismos financeiros que valorizem estas áreas, como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e condições diferenciadas de acesso a crédito e financiamentos”, ressalta Borges.

Mata Atlântica é bioma ideal para restauração ganhar escala

Mata Atlântica concentra 64% de toda a restauração no país, segundo plataforma

Os números reforçam o esforço nacional de recuperação: 131,2 mil hectares da Mata Atlântica passam atualmente por esse processo, de acordo com o Observatório da Restauração (OR). Este índice equivale a 64% dos 204,2 mil hectares monitorados pela plataforma em todo o Brasil. Os dados estão disponíveis no site observatoriodarestauracaoorg.br. (ecodebate)

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