Impacto na Temperatura e
Vidas Salvas
• 10% a mais de verde: Reduz
a temperatura em 0,08°C e pode evitar cerca de 860 mil mortes globais em estações
quentes.
• 20% a mais de verde: Baixa
a temperatura em 0,14°C e previne cerca de 1,02 milhão de mortes.
• 30% a mais de verde: Reduz
a temperatura em 0,19°C e evita até 1,16 milhão de mortes (cerca de 37% dos
óbitos ligados ao calor).
Como as Árvores Protegem
• Sombra e reflexão:
Bloqueiam a radiação solar direta no asfalto e no concreto, impedindo o acúmulo
de calor.
• Evapotranspiração: A água
que evapora das folhas resfria o ar de forma natural, agindo como um
ventilador.
• Bem-estar mental e físico: Estimulam a prática de exercícios, reduzem o estresse e diminuem os níveis de poluição do ar.
Um estudo com dados de 20 anos e mais de 11 mil cidades mostra que plantar mais verde nas ruas poderia ter evitado 1,16 milhão de mortes por calor e isso muda a forma como eu olho para a árvore da minha esquina
Pesquisadores da Universidade
Monash cruzaram duas décadas de dados climáticos e de mortalidade em 53 países
e chegaram a um número que ainda me deixa sem fôlego: aumentar a vegetação
urbana em 30% poderia ter reduzido em mais de um terço as mortes relacionadas
ao calor no mundo. Eis o que esse dado significa na prática e por que ele me
fez repensar o valor de uma simples árvore de calçada.
Uma manhã quente demais para
ser normal
Tem dias, no meio do verão,
em que a gente sai de casa e o calor bate diferente. Não é só desconforto, é
como se o ar tivesse peso. Eu senti isso de novo há pouco tempo, andando por
uma rua sem sombra nenhuma, com o sol batendo direto no asfalto. Por que essa
rua é tão mais quente do que a de duas quadras atrás, cheia de árvores?
O estudo que coloca números
onde havia só intuição
Um grupo de pesquisadores
liderado pelo professor Yuming Guo, da Universidade Monash, na Austrália,
decidiu medir algo que muita gente já suspeitava, mas ninguém tinha calculado
em escala global: quanto de vegetação a mais nas cidades seria necessário para
reduzir as mortes causadas pelo calor extremo.
O trabalho, publicado na
revista científica The Lancet Planetary Health, analisou duas décadas de dados,
de 2000 a 2019, em mais de 11 mil áreas urbanas espalhadas por 53 países.
Para chegar a esses
resultados, a equipe cruzou registros diários de mortalidade e de clima de 830
localidades com imagens de satélite da NASA, que permitem medir o nível de
vegetação de uma região com precisão, o chamado Índice de Vegetação Aprimorado,
ou EVI. É esse índice que mostra, quase como uma fotografia do verde, quanto
uma cidade está coberta por folhas, copas e áreas plantadas.
Os pesquisadores testaram
três cenários de aumento de vegetação e observaram efeitos muito concretos:
• 10% a mais de verde
reduziria a temperatura média das estações quentes em 0,08°C e evitaria cerca
de 860 mil mortes (27% do total relacionado ao calor).
• 20% a mais de verde
baixaria a temperatura em 0,14°C e preveniria cerca de 1,02 milhão de mortes
(32% do total).
• 30% a mais de verde, o
cenário mais ambicioso, chegaria a 0,19°C de redução na temperatura média e
evitaria 1,16 milhão de mortes, cerca de 37% de tudo o que o calor tira de nós.
Pode parecer pouco, uma
fração de grau. Mas quando multiplicamos esse número por milhões de pessoas
expostas ao calor todos os dias do verão, em milhares de cidades, ele se
transforma em algo muito maior do que um dado de termômetro: vira tempo de
vida.
Porque uma árvore esfria mais
do que parece
Eu sempre soube que ficar
embaixo de uma árvore é mais fresco do que ficar no sol. Eu sei, você sabe e
todos sabemos. O que eu não sabia é porque isso acontece em tantas camadas ao
mesmo tempo.
A vegetação urbana esfria o
ambiente de, pelo menos, três formas simultâneas:
• faz sombra sobre
superfícies que, sem ela, ficariam expostas e acumulariam calor;
• reflete parte da radiação
solar antes que ela vire calor armazenado no concreto e no asfalto;
• e realiza evapotranspiração
(a água que evapora do solo e das folhas) o que resfria o ar ao redor e ajuda a
circulação, como um ventilador natural e silencioso.
Só isso já explicaria a
diferença de temperatura entre a rua arborizada e a rua pelada que atravessei
naquela manhã. Mas há mais.
Onde o verde salva mais vidas
Um dos pontos que mais me
chamou atenção é que o benefício da vegetação não é igual em todo lugar. As
regiões do sul da Ásia, do leste europeu e do leste asiático são as que mais se
beneficiariam de mais árvores e áreas verdes, segundo as projeções do estudo.
Em números absolutos de vidas
salvas com um aumento de 30% na vegetação, entre 2000 e 2019, a distribuição
por região seria:
Região
1. Ásia
2. Europa
3. América Latina e Caribe
4. América do Norte
5. África
6. Austrália e Nova Zelândia
7. Oceania
Vidas potencialmente salvas em cada região
1. 527.989
2. 396.955
3. 123.085
4. 69.306
5. 35.853
6. 2.759
7. 2.733
Esses números não são iguais porque as cidades nas diversas regiões não são iguais. Clima, nível socioeconômico, densidade populacional e características demográficas moldam o quanto cada lugar sofre com o calor e o quanto pode se beneficiar de mais verde.
Um problema que só vai
crescer
Entre 2000 e 2019, a
exposição ao calor já foi associada a cerca de meio milhão de mortes por ano no
mundo, um número que tende a aumentar com o avanço das mudanças climáticas. As
projeções mais extremas indicam que, entre 2090 e 2099, a fatia de mortes
relacionadas ao calor pode variar de 2,5% no norte da Europa a quase 17% no
sudeste asiático, dependendo de quanto o planeta continuar aquecendo.
É um número que assusta, mas também é, ao mesmo tempo, uma janela: se o calor mata mais quando a cidade tem menos verde, então plantar é, literalmente, uma forma de cuidado coletivo.
Arborização urbana melhora saúde da população
O que eu levo dessa pesquisa?
Não sou urbanista, nem
médico, nem pesquisador. Sou jornalista e, como muita gente, sinto o calor da
cidade na pele todos os dias. Mas depois de ler esse estudo, não consigo mais
olhar para uma árvore de calçada do mesmo jeito. Ela não é só paisagem. Não é
só sombra bonita para tirar foto. Ela é, de acordo com a ciência, parte de uma
engrenagem que decide quem sobrevive ao verão e quem não sobrevive.
O professor Guo resume isso
de um jeito que eu acho bonito e direto: preservar e expandir as áreas verdes
das cidades pode ser uma das estratégias mais potentes para reduzir a
temperatura urbana e proteger a saúde das pessoas diante do calor extremo.
Talvez a próxima vez que
alguém propuser cortar uma árvore para abrir uma vaga de carro, ou que uma
prefeitura anunciar mais um canteiro de concreto no lugar de um jardim, valha a
pena lembrar desse número: 1,16 milhão. É quanto o verde pode valer, em vidas,
quando a gente decide plantar em vez de pavimentar. (ecodebate)





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