quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Aquecimento do ar amplia o degelo na Groenlândia

A camada de gelo da Groenlândia pode ser mais vulnerável às mudanças climáticas do que se pensava anteriormente, sugere uma nova pesquisa.

O aumento da temperatura do ar amplifica os efeitos do derretimento causado pelo aquecimento dos oceanos, levando a uma maior perda de gelo da segunda maior camada de gelo do mundo, revela um estudo.

Embora estudos anteriores tenham mostrado que o aumento da temperatura do ar e do oceano causa o derretimento da camada de gelo da Groenlândia, o novo estudo revela como um intensifica os efeitos do outro.

Derretimento mais rápido

Especialistas comparam o efeito à forma como os cubos de gelo derretem mais rapidamente se estiverem em uma bebida que está sendo mexida – a combinação de líquido mais quente e movimento acelera sua morte.

Na Groenlândia, a amplificação ocorre quando as temperaturas do ar quente derretem a superfície da camada de gelo, gerando água derretida.

A água derretida que flui para o oceano cria turbulência que resulta em mais calor derretendo as bordas da camada de gelo submersa no oceano – o chamado derretimento submarino.

Efeitos de aquecimento

Pesquisadores das Universidades de Edimburgo e Califórnia San Diego avaliaram o derretimento submarino da camada de gelo da Groenlândia – que cobre mais de 650.000 milhas quadradas – durante um período de 40 anos, de 1979 a 2018.

Para determinar o impacto do aquecimento do ar e dos mares na perda da camada de gelo, eles usaram dados observacionais e modelagem computacional para analisar o efeito que cada um teve no derretimento submarino.

Diferenças regionais

A equipe descobriu que a temperatura do ar teve quase tanto impacto quanto a temperatura do oceano no derretimento submarino, com algumas variações regionais.

Por exemplo, a temperatura do oceano é o principal fator que controla o derretimento submarino no sul e no centro-oeste da Groenlândia, enquanto o aquecimento atmosférico é igualmente prejudicial no noroeste da ilha.

As descobertas sugerem que, se a atmosfera não tivesse aquecido desde 1979, o recuo das geleiras da Groenlândia, impulsionado pelo derretimento submarino, poderia ter sido reduzido pela metade na região noroeste e por um terço na Groenlândia como um todo.

O efeito que investigamos é um pouco como cubos de gelo derretendo em uma bebida – cubos de gelo obviamente derreterão mais rápido em uma bebida quente do que em uma bebida fria, portanto, as bordas do manto de gelo da Groenlândia derretem mais rápido se o oceano estiver mais quente. Mas os cubos de gelo em uma bebida também derreterão mais rápido se você mexer a bebida, e o aumento da temperatura do ar na Groenlândia resulta efetivamente em uma agitação do oceano perto da camada de gelo, causando um derretimento mais rápido da camada de gelo pelo oceano. Infelizmente, isso se soma ao esmagador corpo de evidências que mostram a sensibilidade da camada de gelo da Groenlândia às mudanças climáticas, daí a necessidade de ação urgente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Doutor Donald Slater, Escola de Geociências.

O estudo, publicado na revista Nature GeoScience, foi apoiado pelo UK Natural Environment Research Council e pela US National Science Foundation. (ecodebate)

Clima extremo e estresse hídrico ameaçam segurança energética

Clima extremo e estresse hídrico ameaçam nossa segurança energética.
Ondas de calor e secas já estão colocando a geração de energia existente sob estresse, tornando ainda mais importante reduzir as emissões de combustíveis fósseis.

O fornecimento de eletricidade a partir de fontes de energia limpa deve dobrar nos próximos oito anos para limitar o aumento da temperatura global. Caso contrário, existe o risco de que as mudanças climáticas, o clima mais extremo e o estresse hídrico prejudiquem nossa segurança energética e até prejudiquem o fornecimento de energia renovável, de acordo com um novo relatório multiagência da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O relatório anual State of Climate Services da OMM, que inclui contribuições de 26 organizações diferentes, concentra-se na energia este ano porque é a chave para os acordos internacionais sobre desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas e, de fato, para a saúde do planeta.

“O setor de energia é a fonte de cerca de três quartos das emissões globais de gases de efeito estufa. Mudar para formas limpas de geração de energia, como solar, eólica e hidrelétrica – e melhorar a eficiência energética – é vital se quisermos prosperar no século XXI. Zero líquido até 2050 é o objetivo. Mas só chegaremos lá se dobrarmos o fornecimento de eletricidade de baixa emissão nos próximos oito anos”, disse o secretário-geral da OMM, Prof Petteri Taalas.

“O tempo não está do nosso lado e nosso clima está mudando diante de nossos olhos. Precisamos de uma transformação completa do sistema energético global”, diz o Prof. Taalas.

O acesso a informações e serviços confiáveis sobre clima, água e clima será cada vez mais importante para fortalecer a resiliência da infraestrutura energética e atender à crescente demanda (um aumento de 30% nos últimos dez anos).

O relatório State of Climate Services: Energy de 2022 tem muitas boas notícias. Ele destaca as enormes oportunidades para redes de energia verde para ajudar a combater as mudanças climáticas, melhorar a qualidade do ar, conservar os recursos hídricos, proteger o meio ambiente, criar empregos e salvaguardar um futuro melhor para todos nós.

Negociações climáticas ignoram questão da água em um mundo com escassez cada vez maior.

O relatório inclui estudos de casos práticos.

• Alertas climáticos antecipados estão protegendo o fornecimento de energia em Pequim, na China.

• Os testes de estresse climático estão garantindo que a eletricidade seja distribuída adequadamente nas Dolomitas italianas.

• Os sistemas de alerta no Tajiquistão estão fornecendo aviso prévio de condições secas para o planejamento de operações hidrelétricas.

• Informações localizadas sobre recursos eólicos estão auxiliando a tomada de decisões da indústria eólica;

• As medições de radiação solar estão apoiando a colocação de painéis solares em barreiras de ruído na Alemanha.

Até 2050, as necessidades globais de eletricidade – que aumentarão ao longo dos anos, sendo a eletrificação uma alavanca estratégica para atingir as metas do Net Zero – serão atendidas principalmente com energia renovável, sendo a energia solar a maior fonte de fornecimento. Os países africanos têm a oportunidade de aproveitar o potencial inexplorado e ser os principais players do mercado. A África abriga 60% dos melhores recursos solares do mundo, mas com apenas 1% da capacidade fotovoltaica instalada.

“Precisamos urgentemente responder ao crescente impacto das mudanças climáticas nos sistemas de energia se quisermos manter a segurança energética enquanto aceleramos a transição para o zero líquido. Isso requer planejamento de longo prazo e ação política ousada para estimular o investimento, que, por sua vez, precisa ser sustentado por dados meteorológicos e climáticos abrangentes e confiáveis”, diz Fatih Birol, Diretor Executivo da Agência Internacional de Energia.

“Agora é a hora de acelerar a transição para um futuro de energia renovável. Qualquer coisa que não seja uma ação radical e imediata acabará eliminando a chance de permanecer no caminho de 1,5°C. As crises energéticas e climáticas entrelaçadas expuseram dramaticamente as fraquezas e vulnerabilidades de um sistema econômico fortemente dependente de combustíveis fósseis. Avançar na transição para as energias renováveis é uma escolha estratégica para trazer energia acessível, empregos, crescimento econômico e um ambiente resiliente para as pessoas e comunidades locais”, disse Francesco La Camera, Diretor-Geral da IRENA.

Mais pode e deve ser feito. De acordo com o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, uma ação climática ousada pode gerar US$ 26 trilhões em benefícios econômicos até 2030. E, no entanto, o investimento em energia renovável é muito baixo, especialmente nos países em desenvolvimento, e pouca atenção é dada à importância do clima serviços de energia para apoiar tanto a adaptação climática quanto as decisões sobre como reduzir os gases de efeito estufa.

A OMM emitiu relatórios anuais sobre o estado dos serviços climáticos desde 2019 em resposta a um pedido da ONU para obter mais informações sobre as necessidades de adaptação dos países. A edição deste ano inclui contribuições de mais parceiros do que nunca. Eles incluem a Agência Internacional de Energia (AIE), Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), Energia Sustentável para Todos (SE4ALL), Energia da ONU, Fundação ENEL, Fundo de Adaptação, Fundo Verde para o Clima (GCF), Global Environment Facility (GEF), o Copernicus Climate Change Service (C3S) e outros, incluindo o setor privado e organizações da sociedade civil.

“O Adaptation Fund tem o prazer de ser um parceiro fundador e colaborador deste valioso relatório. O setor de energia é crucial para ajudar a reduzir as emissões que causam as mudanças climáticas – ao mesmo tempo, a própria produção de energia precisa se adaptar aos impactos climáticos que já estão ocorrendo e se acelerando. O Fundo de Adaptação financia projetos baseados nas prioridades de adaptação de países em desenvolvimento vulneráveis, e temos o prazer de ver um número crescente de atividades dirigidas por países que abordam as necessidades específicas de adaptação do setor de energia em diferentes escalas”, diz Mikko Ollikainen, Chefe do Fundo de Adaptação. 

Relatório lançado em evento de alto nível em 11/10/22 e também apresentado na cúpula do Conselho Mundial de Energia em 13/10/22 na Escócia. É acompanhado por um mapa de história digital interativo.

As mudanças climáticas são transformações em longo prazo nos padrões de temperatura e clima.

Essas mudanças podem ser naturais, como por meio de variações no ciclo solar. Mas, desde 1800, as atividades humanas têm sido o principal impulsionador das mudanças climáticas, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás.

Mudanças climáticas estão colocando a segurança energética em risco globalmente.

A mudança climática afeta diretamente o fornecimento de combustível, a produção de energia, bem como a resiliência física da infraestrutura energética atual e futura. Ondas de calor e secas já estão colocando a geração de energia existente sob estresse, tornando ainda mais importante reduzir as emissões de combustíveis fósseis.

O impacto de eventos climáticos, hídricos e climáticos extremos mais frequentes e intensos já é claro.

Por exemplo, em janeiro de 2022, quedas maciças de energia causadas por uma onda de calor histórica em Buenos Aires, Argentina, afetaram cerca de 700.000 pessoas. Em novembro de 2020, a chuva gelada revestiu as linhas de energia no Extremo Oriente da Federação Russa, deixando centenas de milhares de casas sem eletricidade por vários dias.

As preocupações com o impacto do aumento da temperatura global na segurança energética são, portanto, primordiais na corrida para emissões líquidas zero (NZE). 

As emissões líquidas zero são alcançadas quando as emissões de CO2 das atividades humanas são equilibradas globalmente pelas remoções de CO2 durante um período especificado. As emissões líquidas zero de CO2 também são chamadas de neutralidade de carbono.

Os recursos hídricos são escassos

Em 2020, 87% da eletricidade global gerada por sistemas térmicos, nucleares e hidrelétricos dependia diretamente da disponibilidade de água. Enquanto isso, 33% das usinas termelétricas que dependem da disponibilidade de água doce para resfriamento estão em áreas de alto estresse hídrico. Este também é o caso de 15% das usinas nucleares existentes, uma parcela que deverá aumentar para 25% nos próximos 20 anos.

Onze por cento da capacidade hidrelétrica também está localizada em áreas com alto estresse hídrico. E aproximadamente 26% das barragens hidrelétricas existentes e 23% das barragens projetadas estão dentro de bacias hidrográficas que atualmente têm um risco médio a muito alto de escassez de água.

As usinas nucleares não dependem apenas da água para resfriamento, mas também estão frequentemente localizadas em áreas costeiras baixas e, portanto, são potencialmente vulneráveis à elevação do nível do mar e inundações relacionadas ao clima. Por exemplo, a usina nuclear de Turkey Point, na Flórida (Estados Unidos da América), que fica ao nível do mar, estará ameaçada nas próximas décadas. Melhorias regulares nas práticas operacionais e obrigações regulatórias em evolução podem reduzir substancialmente as perdas de produção de usinas nucleares devido ao clima severo, de acordo com a Autoridade Internacional de Energia Atômica.

Os planos de ação climática devem priorizar a energia

Apesar desses riscos, apenas 40% dos planos de ação climática apresentados pelos governos à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) priorizam a adaptação no setor de energia, e o investimento é correspondentemente baixo.

A oferta de fontes de baixas emissões precisa dobrar até 2030 se o mundo quiser atingir zero líquido até 2050, de acordo com o relatório.

Uma transição para energia renovável ajudará a aliviar o crescente estresse hídrico global porque a quantidade de água usada para gerar eletricidade por energia solar e eólica é muito menor do que para usinas de energia mais tradicionais, sejam de combustível fóssil ou nuclear.

Mas as promessas atuais dos países ficam muito aquém do que é necessário para cumprir os objetivos estabelecidos pelo Acordo de Paris, deixando uma lacuna de 70% na quantidade de reduções de emissões necessárias até 2030.

As promessas de energia renovável representam menos da metade do que é necessário. O caminho para alcançar a meta global de temperatura de longo prazo do Acordo de Paris exige que 7,1 TW de capacidade de energia limpa sejam instalados até 2030, de acordo com números citados no relatório.

O mundo deve ficar aquém da meta de acesso universal à energia acessível, confiável, sustentável e moderna até 2030, conforme estabelecido no ODS 7, por uma ampla margem.

As políticas e regulamentações necessárias para permitir a descarbonização no setor de energia ainda são particularmente fracas na África, América do Sul e Ásia, segundo o Banco Mundial. E o reconhecimento da necessidade de serviços de apoio às energias renováveis é particularmente baixo nas Contribuições Nacionalmente Determinadas para o Acordo de Paris.

Investimentos em energias renováveis precisam triplicar até 2050

Os investimentos em energia renovável precisam triplicar até 2050 para colocar o mundo em uma trajetória líquida zero até 2050, de acordo com números citados no relatório. Em 2019-2020, a maioria dos investimentos em energia renovável foi feita na região da Ásia Oriental e Pacífico (principalmente China e Japão), seguida pela Europa Ocidental e América do Norte.

Os países em desenvolvimento estão subrepresentados quando se trata de acesso ao financiamento de energia limpa.

Os fluxos financeiros públicos internacionais para países em desenvolvimento em apoio à energia limpa e ao cumprimento do ODS 7 diminuíram em 2019 pelo segundo ano consecutivo, caindo para US$ 10,9 bilhões. Esse nível de apoio foi 23% inferior aos US$ 14,2 bilhões fornecidos em 2018, 25% inferior à média de 2010-2019 e menos da metade do pico de US$ 24,7 bilhões em 2017.

África pode ser um grande player de energias renováveis

A África já está enfrentando graves efeitos das mudanças climáticas, incluindo grandes secas, apesar de ter a menor responsabilidade pelo problema.

O declínio dos custos das tecnologias limpas é uma nova promessa para o futuro da África, e há uma grande oportunidade para a África ajudar a fechar a lacuna na necessidade de energia renovável. Alcançar os objetivos de energia e clima da África significa mais do que dobrar o investimento em energia nesta década, com um enorme aumento na adaptação. Apenas 2% do investimento em energia limpa nas últimas duas décadas foi feito na África. Trazer acesso à energia moderna para todos os africanos exige um investimento anual de US$ 25 bilhões, o que representa cerca de 1% do investimento global em energia hoje.

Os serviços climáticos fornecem informações confiáveis

Os sistemas de energia renovável são dependentes do clima e do clima, portanto, a transição para energia limpa exige informações e serviços climáticos aprimorados para apoiar as decisões sobre a seleção do local e operações, manutenção e gerenciamento.

Os serviços climáticos são definidos como a produção e entrega de informações climáticas relevantes, credíveis e utilizáveis. A indústria de energia tem uma vasta experiência no uso de serviços meteorológicos. Ainda assim, precisa fazer mais para incorporar informações climáticas em sua tomada de decisão para aumentar a resiliência dos sistemas de energia a choques relacionados ao clima e aumentar a eficiência energética.

Há um enorme espaço para melhorias. Menos de 50% dos membros da OMM fornecem produtos sob medida para o setor de energia, o que mostra o potencial inexplorado dos Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais (NMHSs) e os esforços necessários para atender às necessidades emergentes desse setor.

Por que precisamos de serviços climáticos?

O planejamento e as operações do setor de energia são afetados pelo clima e pela variabilidade e mudanças climáticas. À medida que os sistemas de energia se tornam cada vez mais dependentes das variações climáticas, é evidente que o fluxo de informações de dados e previsões meteorológicas e climáticas precisa ser adequadamente incorporado aos sistemas de apoio à decisão.

Embora o setor elétrico utilize rotineiramente as previsões meteorológicas de até 15 dias, há menos experiência no uso de dados climatológicos.

O uso mais eficaz das informações climáticas ajuda a ampliar a infraestrutura de energia renovável, mas também promoverá a eficiência do sistema de energia limpa e a resiliência climática. Investimentos maiores e sustentados nesses serviços, apoiados pelo reconhecimento da necessidade de tais serviços por meio de políticas aprimoradas, são necessários para alcançar isso.

Exemplos de aplicações de serviços climáticos para energia incluem:

• Planejamento de compras de gás e energia elétrica;

• Gerir respostas em situações de emergência;

• Gestão da capacidade e dos recursos (por exemplo, gestão da rede/distribuição, produção/preços de eletricidade);

• Otimização da operação de usinas de energia renovável, especialmente reservatórios e operações hidrelétricas;

No setor de energia, estudos demonstraram o valor econômico de previsões de muito curto prazo, subsazonais e sazonais (por exemplo, para temperatura, velocidade do vento, vazão) para decisões de compra de combustível, previsão de demanda e geração e planejamento do sistema. As previsões de temperatura permitem que os gerentes prevejam cargas de pico com mais precisão e programem usinas de geração de energia de maneira otimizada para atender às demandas a um custo menor. As operações hidrelétricas se beneficiam de previsões diárias, semanais e sazonais de precipitação e vazão, que podem ajudar a otimizar as operações.

Por exemplo, o uso de previsões de vazão aumenta a produção de energia das principais barragens hidrelétricas do Rio Columbia (Estados Unidos) em 5,5 TWh/ano, resultando em um aumento médio na receita anual de aproximadamente US$ 153 milhões por ano.

Da mesma forma, o uso de previsões para gerenciar as operações hidrelétricas na Etiópia produz benefícios cumulativos decenais que variam de US$ 1 a US$ 6,5 bilhões, em comparação com uma abordagem climatológica (sem previsão).

O desenvolvimento e aplicação de produtos e serviços climáticos direcionados por meio da Estrutura Global para Serviços Climáticos podem apoiar tanto a adaptação quanto a mitigação. (ecodebate)

Desmatamento dobra no Cerrado

A região do Matopiba, que compreende os estados Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, segue concentrando o desmatamento do Cerrado.

O desmatamento no Cerrado mais que dobrou em agosto e setembro deste ano em comparação com o mesmos meses do ano passado. Foram 144 mil hectares desmatados no período em 2022, alta de 135% sobre os 65 mil hectares desmatados em 2021. O aumento da atividade ocorreu principalmente em áreas sem informação fundiária, o que chama a atenção de pesquisadores. Essas áreas concentram 45% da área desmatada em nos dois meses, contra 12% no ano anterior. Imóveis rurais privados têm 48% de toda a área derrubada no bioma no período, sendo que no ano passado eram 77%.

Divulgados em 13/10/22 pelo SAD Cerrado, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado, os dados revelam uma tendência de aceleração no desmatamento em áreas sem informação fundiária, que não têm uma determinação de uso público pelos governos federal ou estaduais, tampouco posse privada. O SAD Cerrado é uma iniciativa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a rede MapBiomas e com o Lapig (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás).

“As áreas de vegetação nativa do Cerrado sem informação fundiária ocupam 13,5% do bioma e constatamos, com preocupação, um aumento na velocidade do desmatamento nessas regiões. O desmatamento nessas áreas é um reflexo do desmonte da estrutura de gestão ambiental que acaba favorecendo o avanço da grilagem de terras, que além da Amazônia, afeta também o Cerrado”, explica Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

O ritmo do desmatamento em agosto e setembro, meses em que a seca no Cerrado está no auge, foi de 2.285 hectares derrubados por dia. O tamanho médio das áreas desmatadas em todo o bioma é de 9 hectares por alerta de desmatamento, porém, mais de um terço (34,9%) dos alertas de desmatamento detectados, refinados e validados pelo SAD Cerrado corresponde ao desmate de áreas maiores que 50 hectares.

Áreas de vegetação nativa sem informação fundiária correspondem a 13,5% do Cerrado.

A região do Matopiba, que compreende os estados Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, segue concentrando o desmatamento do Cerrado. Para o período analisado, Maranhão foi o estado que mais desmatou, com 44% de toda a área derrubada no bioma. Pesquisadores do SAD Cerrado observam uma aceleração do desmate no estado, que até então respondia por em torno de 25% da área desmatada no Cerrado em todo o país.

Os municípios em que houve maior desmatamento do Cerrado em agosto e setembro foram Balsas (MA), com 17 mil hectares derrubados, e São Desidério (BA) com 15 mil hectares desmatados. Esses municípios estão justamente na região do Matopiba.

“Os alertas obtidos permitem ver como o desmatamento continua a grassar em regiões já amplamente devastadas, e ao mesmo tempo, se expande em direção ao norte do bioma, em regiões até agora bastante preservadas”, diz Juan Doblas, pesquisador no IPAM responsável pelo SAD Cerrado.

Em 2022, o desmatamento já atingiu 617 mil hectares do Cerrado – uma área maior que a do Distrito Federal. Segundo o SAD Cerrado, 71% das áreas desmatadas no ano estão em imóveis rurais privados com registro no CAR (Cadastro Ambiental Rural). Até agora, o desmatamento em áreas sem informação fundiária corresponde a 21% do total.

As formações savânicas, entre os diferentes tipos de vegetação do Cerrado, foram as mais afetadas pelo desmatamento em 2022: nessa vegetação se concentra 67% da área desmatada. Um fato alarmante é que, apesar de representar 10,6% da área de vegetação natural remanescente no bioma, as formações campestres já somam 23% do total do desmatamento em 2022.

Desmatamento dobra no Cerrado e acelera em áreas sem informação fundiária.

Sobre o SAD Cerrado

Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado lançado em 12/09/22 pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a rede MapBiomas e com o Lapig/Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento, da UFG (Universidade Federal de Goiás), e está disponível para acesso aberto em plataforma virtual. O SAD Cerrado funciona por meio de inteligência artificial e utilizam imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, com resolução de 10 metros.

O objetivo é que o sistema forneça alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado. (ecodebate)

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Cidades aquecem 30% mais rápido que áreas rurais

Cidades mais quentes que nas zonas rurais, claro, mas até certo ponto (Ilhas de calor).

As cidades em todo o mundo estão aquecendo em média 0,5°C por década – 29% mais rápido do que nas áreas rurais – de acordo com um artigo publicado online na Communications Earth & Environment.

As descobertas sugerem que as mudanças climáticas e a expansão urbana estão acelerando o aquecimento da superfície urbana. Plantar árvores e vegetação nas cidades – também conhecido como vegetação urbana – é relatado para compensar cerca de 0,13°C de aquecimento da superfície por década nas cidades europeias.

As pessoas que vivem nas cidades experimentam maior exposição ao calor durante eventos de ondas de calor do que a população em geral devido ao efeito de ilha de calor urbana, em que a terra urbana fica mais quente do que a terra rural circundante.

As mudanças climáticas e o crescimento populacional nas cidades são projetados para aumentar o efeito da ilha de calor urbana da superfície, mas muitas estimativas atuais da exposição humana ao calor futuro assumem taxas iguais de aumento da temperatura da superfície entre as áreas urbanas e rurais.

Sugere-se que a arborização urbana reduza o aquecimento da superfície, mas ainda não está claro se pode retardar o efeito acelerado da ilha de calor urbano da superfície.

Lisboa é uma das cidades europeias mais expostas às ondas de calor e tarda a preparar-se para o futuro.

Wenfeng Zhan e colegas analisaram dados de temperatura da superfície terrestre por satélite para mais de 2.000 centros de cidades em todo o mundo entre 2002 e 2021 e os compararam com as temperaturas da superfície rural. Grandes “megacidades” como Abujia na Nigéria, Phoenix nos EUA, Londres no Reino Unido, São Paulo no Brasil, Pequim na China e Moscou na Rússia foram incluídas nas análises.

Os autores estimam que as cidades estão aquecendo 29% mais rápido do que as áreas rurais e que as megacidades estão aquecendo ainda mais rapidamente. No geral, eles estimaram que a mudança climática é o maior contribuinte para o aquecimento da superfície urbana, aumentando as temperaturas da superfície terrestre em 0,3°C por década, em média.

Na China e na Índia, eles estimaram que a expansão urbana foi responsável por mais de 0,23°C do aquecimento da superfície observado nas cidades por década.

No entanto, os autores também descobriram que a vegetação urbana nas cidades europeias compensa 0,13°C do aquecimento da superfície por década, indicando o potencial da vegetação urbana para diminuir o aquecimento da superfície nas cidades. Por exemplo, o aumento da vegetação urbana em Chicago, EUA, diminuiu a taxa de aquecimento da superfície em cerca de 0,084°C por década.

Tendências de aquecimento da superfície no núcleo urbano em todo o mundo. Mapa de tendência diurna (a), mapa de tendência noturna (c) e tendência média global durante o dia (b) e intensidade de UHI de superfície noturna (d). As duas regiões em a, c são ampliadas como e, f para o dia e g, h para a noite. Observe que as barras de erro representam percentis de 10%~90%. (ecodebate)

Entenda aquecimento global e mudança climática

Nesta matéria, você vai entender melhor a diferença entre o que acontece hoje e outros momentos em que houve alteração no clima e conhecer o debate científico atual sobre o tema.

Quando esta matéria chegar a você, provavelmente isso não será mais notícia nem post nas redes sociais. Mas no exato momento em que esta reportagem estava sendo escrita, mais de 200 pessoas tinham morrido em Petrópolis, município serrano do estado do Rio de Janeiro, em função das chuvas, que geraram deslizamentos e enchentes. O debate midiático sobre o desastre ressaltava dois fatos principais: foi a maior chuva da cidade em 90 anos (quase 250 milímetros em 24 horas) e uma parte da população, mais atingida, morava em encostas ou áreas de risco. Pois na interseção dessas duas justificativas, e na origem dessa e de muitas outras tragédias semelhantes, está um problema que ameaça muito mais do que uma cidade: o aquecimento global, um sintoma contemporâneo das chamadas mudanças climáticas.

Antes de tudo, é preciso alertar que essas expressões não são sinônimas. Enquanto o aquecimento global é um (grande) um problema dos nossos tempos, as mudanças climáticas precisam ser entendidas como um fenômeno esperado da natureza.

“Mudança climática é um termo que se refere a alterações no comportamento médio do tempo meteorológico. Se uma região como o Ártico estivesse esfriando, a gente estaria falando de uma mudança climática regional. O termo ‘mudança climática’ vale para qualquer alteração desses padrões. Já o aquecimento global se refere especificamente ao aumento da temperatura média global”, explica o físico Alexandre Araújo, doutor em Ciências Atmosféricas e professor da Universidade Estadual do Ceará. Andrei Cornetta, doutor em Geografia Humana e autor do verbete sobre esse tema no recém-lançado ‘Dicionário de Agroecologia e Educação’, publicado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com a Expressão Popular, completa: “A mudança está na essência do que é o clima porque os fenômenos atmosféricos são dinâmicos. Então, a questão é discutir os fatores que levam às mudanças climáticas”. E é aí que mora o problema.

Como um processo natural, a Terra absorve calor do Sol e reflete, para o ‘espaço’, radiação infravermelha. Acontece que alguns gases, como o metano, mas principalmente o dióxido de carbono, têm propriedades que impedem a passagem de boa parte dessa radiação, fazendo com que ela fique presa por aqui e aqueça a superfície do planeta. É a isso que se chama de ‘efeito estufa’. De acordo com Alexandre Araújo, parte dessa ‘estufa’ é de fato necessária, mas o excesso, como se vê hoje, gera um aumento da temperatura média da Terra, facilitando a existência ou a ampliação de fenômenos como ondas de calor, chuvas violentas, furacões e ciclones, entre vários outros. Isso sem contar os efeitos sobre as condições de saúde: segundo Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz e um dos organizadores do ‘Dicionário’, não apenas os efeitos do aquecimento global geram “alterações na distribuição de vetores e doenças infectoparasitárias” como a redução da biodiversidade gerada por essas mudanças amplia a “mobilidade e disseminação de vírus selvagens”, aumentando o “risco de saltos zoonóticos, a exemplo da Covid-19”.

Ação humana

A relação entre natureza e ação humana está presente em todo o debate sobre mudanças climáticas. De fato, uma parte do CO2 que existe na atmosfera da Terra é emitida naturalmente, por exemplo, pelos oceanos e florestas. Mas o excesso que gerou os problemas atuais vem da queima dos chamados combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural – exatamente aqueles que estão na base da atividade industrial, além de muitas outras ações que são parte do nosso cotidiano, como o simples ato de andar de carro. E não é só: processos de destruição ambiental, como o desmatamento e as queimadas nas florestas, também contribuem significativamente para a concentração desses gases e o consequente aquecimento global. Para se ter uma ideia, dados do Observatório do Clima divulgados em outubro passado mostraram que, ao longo de 2020, a emissão de gases do efeito estufa aumentou 9,5% no Brasil – na contramão dos números globais, que apontaram uma redução de 7% no mundo. A aparente contradição de um crescimento desse tipo ocorrer num ano marcado pela redução da circulação de pessoas, transporte e atividade industrial, em função da pandemia, se explica com uma informação adicional: 46% dessas emissões se deveram ao desmatamento. “Fala-se muito no processo de ‘savanização’ da Amazônia, mas, mais do que a questão da elevação da temperatura terrestre, é preciso entender que isso tem sido impulsionado em grande medida pelo avanço do desmatamento em função do modelo de agricultura que nós adotamos no país, a partir de monoculturas e ampliação de pastagens”, explica Cornetta.

Araújo lembra que o planeta já passou por vários períodos de aquecimento e resfriamento: nos últimos 2,5 milhões de anos, houve intervalos “relativamente quentes”, chamados interglaciais, e outros “relativamente frios”, conhecidos como glaciais. Isso significa que o clima já mudou muitas vezes. “Mas sempre houve uma razão física para isso”, alerta, explicando que essa é uma das grandes diferenças em relação à manifestação de mudança climática que nós experimentamos hoje, que é prioritariamente antropogênica, ou seja, causada pela ação humana. Ainda assim, Alexandre Pessoa alerta: “A crise ecológica não é gerada pelo homem genérico, mas pelas corporações que lucram com a exploração e degradação ambiental. E a consequência também não será igual para todos”.

A outra diferença em relação às mudanças climáticas do passado é a escala. “Nos últimos 800 mil anos, até o período pré-industrial, a concentração de dióxido de carbono oscilou entre 173 partes por milhão, que é o mínimo a que se chegou em um dos glaciais, até 298 partes por milhão, que foi o máximo que ela havia chegado em algum dos interglaciais. E essa mudança na concentração de CO2 veio acompanhada de uma oscilação de temperatura da ordem de quatro a cinco graus na escala global”, conta Araújo. O “ritmo natural do processo”, portanto, indicava que uma alteração desse porte levava dezenas de milhares de anos para ocorrer. Acontece que essa velocidade mudou: em pouco mais de 200 anos, desde meados do século 18 até agora, essa concentração subiu de 278 partes por milhão para 420. E, segundo Araújo, “o grosso” desse aumento aconteceu na segunda metade do século passado, num período de aproximadamente 70 anos. “São processos muito acelerados. Não há paralelo na história”, diz, ressaltando que a última vez que o planeta experimentou uma atmosfera como a de hoje foi há cerca de 5 milhões de anos, quando os seres mais próximos dos humanos que circulavam por aqui ainda nem eram hominídeos. “A humanidade que a gente conhece, com cultura [de alimentos], pecuária, cidades e assentamentos humanos gigantescos, é toda filha do holoceno. Ou seja, nós aproveitamos muito bem a generosidade de 11.700 anos de uma estabilidade climática associada a um interglacial, que introduziu o clima ameno. Foi isso que permitiu que se domesticassem animais, que se passasse a produzir alimento em escala capaz de sustentar uma quantidade cada vez maior de pessoas”, conta. Mas lamenta: “Nós somos os filhos mais ingratos do holoceno”.

O que diz o debate científico

Apesar disso, uma das narrativas que tem tentado relativizar os alertas sobre o aquecimento global é exatamente a que retira ou reduz o peso das ações humanas sobre esse fenômeno. Segundo Andrei Cornetta, embora muito minoritários, no campo específico da meteorologia física, há “cientistas céticos” produzindo estudos que apontariam outros fenômenos naturais como principais razões do aquecimento, deixando de focar na emissão de gases do efeito estufa. Ele diz que essas pesquisas têm sido apropriadas por grupos políticos conservadores e vinculados a interesses econômicos, mas não deixa de reconhecê-las como parte do debate científico. Alexandre Araújo discorda. Segundo ele, a última controvérsia realmente científica sobre esse tema remete aos anos 1980. “A ideia de que existe qualquer grau de disputa sobre esse tema é fabricada propositalmente há quase três décadas”, diz, defendendo que os autores que promovem essa aparente polêmica não são apropriados por grupos que defendem o negacionismo em função dos seus interesses econômicos, mas sim financiados e produzidos por eles.

Hoje, a fonte que mais alimenta o debate acadêmico e as decisões políticas internacionais sobre o assunto, produzindo previsões e propondo diretrizes científicas, é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Ele foi criado em 1988, como resultado de grande volume de pesquisas que evidenciavam a relação entre a emissão de gases do efeito estufa e o aquecimento global – embora as primeiras e fundamentais descobertas sobre essa cadeia tenham se dado ainda no século 19. Já o “reconhecimento mundial dessas questões”, expresso num conjunto de eventos, como a 2ª Conferência Mundial sobre o Clima e a Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas, promovida no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), se dá, segundo Andrei Cornetta, em fins dos anos 1980. “A partir desse momento a questão climática passa a ser incorporada nas agendas políticas”, diz. Em meados da década seguinte, em 1997, pela primeira vez os países estabeleceram metas de redução dos gases do efeito estufa, compromissos esses firmados a partir do chamado Protocolo de Kyoto.

Uma das estratégias possíveis para essa mudança é adotar o que Cornetta caracteriza como “mecanismos de desenvolvimento limpos”, com a substituição de combustíveis fósseis. “Um exemplo é uma usina de cana de açúcar que passou a produzir energia com o aproveitamento das sobras da sua produção, com o bagaço da cana e com o vinhoto e, a partir disso, passou a gerar energia elétrica, tornando-se autossustentável e, em alguns casos, vendendo o excedente de energia para empresas concessionárias”, ilustra. Araújo completa: “Uma transição energética implica não apenas mudar as fontes de energia, mas também mexer na demanda energética. Quanta energia a gente gasta sem necessidade, com a obsolescência programada, produção de descartáveis, consumo de bens individuais que seriam atendidos de forma muito mais racional e eficiente através de saídas compartilhadas?”. Como exemplo desse questionamento, no caso do Brasil, ele cita a prioridade do uso de automóveis no lugar do investimento em transporte público. “Ninguém está querendo voltar para a caverna. Nós estamos querendo garantir as condições para que o conjunto da humanidade siga em uma situação de dignidade, de proteção de maneira coletiva, o que implica reduzir desigualdades e frear a irracionalidade dos nossos impactos sobre a natureza”, diz.

O problema é que esses não têm sido os principais caminhos adotados. “A economia de baixa emissão de carbono é um modelo econômico que envolve a redução e a gestão de emissão de gases de efeito estufa, baseado em grande medida na substituição de fontes energéticas fósseis. Mas não só isso: envolve um rearranjo produtivo industrial, rearranjos de uso e ocupação do solo. A questão é que isso vem sendo feito muito pelos chamados mecanismos de mercado compensatórios”, explica Cornetta. Na prática, isso significa que grandes empresas e países ricos passaram a comprar o que ele chama de “direito de poluir”.

Cornetta exemplifica com o projeto de Sequestro Florestal de Carbono, que foi implementado no Acre, no Brasil. A ideia, diz, é “gerar receita com a floresta em pé”. Significa garantir que a vegetação de uma determinada área não seja derrubada, fazer uma série de cálculos para descobrir quanto CO2 teria sido emitido se ela tivesse sido desmatada e transformar esse número hipotético num papel com valor que possa ser negociado numa espécie de bolsa de valores. Assim, empresas e governos que não conseguiram (ou nem tentaram) reduzir as próprias emissões de CO2 compram esses créditos de carbono para melhorar seus indicadores em relação às metas assumidas em acordos internacionais. Se tem a vantagem de manter a floresta de pé por aqui, por outro lado a estratégia alivia a ‘culpa’ de empresas e países que não deixaram suas próprias florestas em pé ou, o que é mais comum, que não alteraram suas fontes prioritárias de energia. Segundo Cornetta, esses são “rearranjos produtivos que desencadeiam novos canais de acumulação de capital”, muito valorizados inclusive neste momento de tentativa de retomada da economia dos países em função da pandemia. Não por acaso, desde o ano passado, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei (nº 528/2021) que visa criar o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, que regularia a compra e venda de créditos de carbono.

(ecodebate)

Soluções climáticas baseadas na natureza podem mitigar o aquecimento global

Soluções baseadas na natureza para as mudanças climáticas.

Investir na proteção e restauração da natureza oferece benefícios sociais e ambientais para comunidades locais e indígenas, além de armazenar carbono para mitigar as mudanças climáticas.

Um novo estudo descobriu que a remoção temporária de carbono baseada na natureza pode diminuir os níveis de aquecimento global, mas somente se complementada por ambiciosas reduções de emissões de combustíveis fósseis.

As soluções climáticas baseadas na natureza visam preservar e melhorar o armazenamento de carbono em ecossistemas terrestres ou aquáticos e podem ser um potencial contribuinte para a estratégia de mitigação das mudanças climáticas. “No entanto, o risco é que o carbono armazenado nos ecossistemas possa ser perdido de volta para a atmosfera como resultado de incêndios florestais, surtos de insetos, desmatamento ou outras atividades humanas”, diz Kirsten Zickfeld, professor de ciência climática no Departamento de Ciências da Universidade Simon Fraser.

Os pesquisadores usaram um modelo climático global para simular a mudança de temperatura por meio de dois cenários que variam de reduções de emissões de gases de efeito estufa fraco a ambiciosas. No cenário de redução de emissões relativamente fraco, as emissões de carbono continuam até 2100. No cenário ambicioso, as emissões de carbono atingem zero líquido até 2050.

Para cumprir as metas climáticas do Acordo de Paris, o mundo precisará atingir emissões líquidas zero de CO2 por volta ou antes de meados do século, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas.

Em ambos os cenários, assume-se que o armazenamento de carbono por meio de soluções climáticas baseadas na natureza é temporário, pois as florestas são vulneráveis a distúrbios naturais e humanos. Portanto, espera-se que as soluções climáticas baseadas na natureza retirem carbono da atmosfera nos próximos 30 anos e depois liberem lentamente o carbono durante a segunda metade do século.

Soluções baseadas na natureza é trunfo para recuperação econômica pós-pandemia.

A equipe descobriu que, em um cenário com emissões de carbono diminuindo rapidamente para zero líquido, o armazenamento temporário de carbono baseado na natureza pode diminuir o nível de pico de aquecimento. No entanto, em um cenário com emissões contínuas de carbono, o armazenamento temporário de carbono baseado na natureza serviria apenas para retardar o aumento da temperatura.

“Nosso estudo mostra que o armazenamento de carbono baseado na natureza, mesmo que temporário, pode ter benefícios climáticos tangíveis, mas somente se implementado juntamente com uma rápida transição para zero emissões de combustíveis fósseis”, diz Zickfeld.

Os resultados foram publicados na Communications Earth & Environment.

Zickfeld também é o principal autor da recente contribuição do Grupo de Trabalho I do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas para o Sexto Relatório de Avaliação lançado no verão de 2021 e do relatório especial de 2018 do IPCC sobre o aquecimento global de 1,5°C.

Os pesquisadores também observam que investir na proteção e restauração da natureza oferece benefícios sociais e ambientais para comunidades locais e indígenas, além de armazenar carbono para mitigar as mudanças climáticas.

Eles acrescentam que a biodiversidade, a qualidade da água e do ar são inerentemente valiosas e que os esforços para melhorá-las também podem ajudar a aumentar a resiliência da comunidade às mudanças climáticas.

Padrão espacial da resposta climática ao sequestro de carbono e mudanças no albedo da superfície resultantes de cenários de reflorestamento temporário. In ‘Temporary nature-based carbon removal can lower peak warming in a well-below 2°C scenario’. (ecodebate)

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

O Brasil pode plantar mais soja sem desmatar

Estudo mostra como é possível para o Brasil expandir sua produção agrícola sem converter mais florestas tropicais e savanas em cultivos.

Os países em desenvolvimento em todo o mundo enfrentam um desafio que opõe o crescimento econômico à proteção ambiental. À medida que expandem sua produção agrícola, muitas vezes convertem a floresta em terras agrícolas e pastagens. Mas a remoção em larga escala de árvores enfraquece a capacidade do mundo de evitar mais deterioração do clima e perda de biodiversidade.

O Brasil apresenta um exemplo-chave. O país abriga a maior área de floresta tropical do mundo – cerca de 1,2 milhão de milhas quadradas, uma área mais de 16 vezes o tamanho de Nebraska. A Amazônia contém grandes extensões de florestas tropicais que, quando convertidas em agricultura, liberam uma enorme quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, exacerbando as mudanças climáticas.

Aumentar a produção agrícola é uma prioridade nacional para o Brasil, o maior exportador mundial de soja. Desde a década de 1990, a invasão agrícola erodiu grandes áreas da floresta tropical do país. Durante 2015-19, a bacia amazônica respondeu por ⅓ das terras convertidas para a expansão da soja brasileira.

Um estudo de quatro anos recentemente divulgado pela Universidade de Nebraska-Lincoln e seus parceiros de pesquisa no Brasil identifica um caminho a seguir que permitiria ao Brasil fortalecer seu setor agrícola enquanto protege a floresta tropical. As recomendações dos cientistas têm ampla aplicabilidade a outros países em desenvolvimento que enfrentam um desafio semelhante.

“No contexto atual de altos preços de grãos e interrupções no fornecimento de alimentos, acreditamos que há uma necessidade crítica de os principais países produtores de culturas reavaliarem seu potencial de produzir mais nas terras agrícolas existentes”, escreveram os autores em um artigo publicado em 10 de outubro na revista científica. a revista Nature Sustentabilidade. “Sem ênfase na intensificação da produção agrícola dentro da área agrícola existente, juntamente com instituições e políticas fortes que impeçam o desmatamento em áreas agrícolas de fronteira, seria difícil proteger os últimos redutos de florestas e biodiversidade do planeta, sendo sensível ao impacto econômico aspirações dos países para se desenvolver”.

Desde 2000, moratórias e incentivos têm sido usados para desacelerar o desmatamento no Brasil. No entanto, o aumento acentuado dos preços das commodities e a pressão política para se recuperar rapidamente dos impactos combinados da pandemia de COVID – 19 e da guerra na Ucrânia colocaram a floresta amazônica sob maior ameaça. Se as tendências atuais continuarem, o Brasil converterá cerca de 57 milhões de acres em produção de soja nos próximos 15 anos, com cerca de um quarto da expansão ocorrendo em terras ambientalmente frágeis, como floresta tropical e savana.

No entanto, proibir a expansão de terras agrícolas custaria ao Brasil cerca de US$ 447 bilhões em oportunidades econômicas perdidas até 2035.

O estudo liderado por Patricio Grassini, professor ilustre de Agronomia da Sunkist e professor associado do Departamento de Agronomia e Horticultura de Nebraska, mostra como é possível para o Brasil expandir sua produção agrícola sem converter mais florestas tropicais e savanas em cultivos. Com uma estratégia cuidadosamente gerenciada para intensificar a produção nos hectares existentes, o país poderia aumentar sua produção anual de soja em 36% até 2035, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa em 58% em comparação com as tendências atuais.

Grassini e seus coautores descrevem uma estratégia de “intensificação” em três frentes que exige:

• Aumentar significativamente a produtividade da cultura da soja.

• Cultivar uma segunda safra de milho em campos de soja em determinadas áreas.

• Criação de mais gado em pastagens menores para liberar mais terra para a soja.

Os climas tropicais e subtropicais do Brasil possibilitam o cultivo de duas culturas na mesma terra durante a estação de crescimento na maioria das regiões, disse Grassini. Além disso, “a produção pecuária é enorme no Brasil”, disse ele, “e nosso estudo mostra que há uma grande oportunidade para o Brasil aumentar os sistemas de produção baseados na pecuária e, com isso, liberar parte da área atualmente usada para a produção pecuária e usar essa terra para produzir mais soja”.

A modelagem detalhada do projeto indica que, até 2035, a estratégia poderá aumentar a produção de soja do Brasil em 36%. Ao mesmo tempo, disse Grassini, o Brasil poderia “eliminar completamente o desmatamento e essencialmente reduzir a quantidade de equivalentes de dióxido de carbono liberados na atmosfera, ajudando a mitigar as mudanças climáticas”.

“Esta abordagem fortalece a agricultura enquanto protege os ecossistemas frágeis que são importantes do ponto de vista da mitigação das mudanças climáticas, bem como da conservação da biodiversidade”, disse ele.

Para determinar o quanto os rendimentos poderiam ser melhorados nas terras agrícolas brasileiras existentes, os cientistas examinaram a produção de soja em quatro regiões-chave: as regiões do Pampa e da Mata Atlântica ao longo da costa atlântica, onde o cultivo de soja está em andamento há cerca de 50 anos, e a Amazônia e as regiões do Cerrado no interior do Brasil, onde a produção de soja começou após a virada do século XXI. A análise fez uso extensivo do Global Yield Gap Atlas desenvolvido anteriormente por Grassini e colegas em Nebraska. O atlas é o banco de dados líder mundial em dados agronômicos de alta qualidade, cobrindo mais de 15 grandes culturas alimentares em mais de 75 países.

“Ao mostrar que é possível produzir mais nas terras agrícolas existentes”, escreveram os cientistas, “este estudo de pesquisa está trazendo soluções reais para a mesa e pode ter um impacto enorme para ajudar o Brasil a produzir mais, protegendo o meio ambiente”.

O sucesso no objetivo duplo de intensificação agrícola e proteção da floresta exigirá instituições fortes, políticas adequadas e fiscalização para garantir que esses ganhos de produtividade se traduzam efetivamente em preservação da floresta, advertiu Grassini. Ainda assim, a abordagem de intensificação pode ajudar a alcançar um equilíbrio razoável entre a produção agrícola e a proteção de ecossistemas frágeis.

A equipe de Grassini calculou três cenários nas quatro regiões-chave: “business as usual”, onde as tendências existentes continuariam; “sem expansão de terras agrícolas”, onde a conversão adicional de terras seria proibida; e “intensificação”, onde seriam tomadas medidas para aumentar os rendimentos, incentivar a segunda safra e concentrar a produção de gado.

Eles concluíram que a estratégia de intensificação permitiria ao Brasil realizar 85% da receita bruta projetada da soja e do milho safrinha, em comparação com as tendências atuais, reduzindo o aquecimento global do clima em 58%.

O projeto de quatro anos envolveu a colaboração entre a Universidade de Nebraska-Lincoln e universidades no Brasil, incluindo a Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Santa Maria e Universidade de Goiás, bem como a Embrapa, a principal organização de pesquisa agrícola no Brasil. Os coautores do projeto incluíram Juan Pablo Monzon e José F. Andrade, ex-professores assistentes de pesquisa em agronomia e horticultura em Nebraska. O projeto foi financiado pelo Instituto Internacional de Nutrição de Plantas, Fundação de Pesquisa do Estado de São Paulo, Conselho Brasileiro de Pesquisa, Fundação de Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul e Global Engagement Office no Instituto de Agricultura e Recursos Naturais de Nebraska por meio do Programa FAPESP – UNL SPRINT.

Fabio R. Marin, cientista brasileiro que foi o principal autor do artigo junto com o cientista brasileiro Alencar J. Zanon, recebeu apoio financeiro do programa Fulbright para custear uma estadia de seis meses em Nebraska. (ecodebate)

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