Nesta matéria, você vai entender
melhor a diferença entre o que acontece hoje e outros momentos em que houve
alteração no clima e conhecer o debate científico atual sobre o tema.
Quando esta matéria chegar a
você, provavelmente isso não será mais notícia nem post nas redes sociais. Mas
no exato momento em que esta reportagem estava sendo escrita, mais de 200
pessoas tinham morrido em Petrópolis, município serrano do estado do Rio de
Janeiro, em função das chuvas, que geraram deslizamentos e enchentes. O debate
midiático sobre o desastre ressaltava dois fatos principais: foi a maior chuva
da cidade em 90 anos (quase 250 milímetros em 24 horas) e uma parte da
população, mais atingida, morava em encostas ou áreas de risco. Pois na
interseção dessas duas justificativas, e na origem dessa e de muitas outras
tragédias semelhantes, está um problema que ameaça muito mais do que uma
cidade: o aquecimento global, um sintoma contemporâneo das chamadas mudanças
climáticas.
Antes de tudo, é preciso
alertar que essas expressões não são sinônimas. Enquanto o aquecimento global é
um (grande) um problema dos nossos tempos, as mudanças climáticas precisam ser
entendidas como um fenômeno esperado da natureza.
“Mudança climática é um termo
que se refere a alterações no comportamento médio do tempo meteorológico. Se
uma região como o Ártico estivesse esfriando, a gente estaria falando de uma
mudança climática regional. O termo ‘mudança climática’ vale para qualquer
alteração desses padrões. Já o aquecimento global se refere especificamente ao
aumento da temperatura média global”, explica o físico Alexandre Araújo, doutor
em Ciências Atmosféricas e professor da Universidade Estadual do Ceará. Andrei
Cornetta, doutor em Geografia Humana e autor do verbete sobre esse tema no
recém-lançado ‘Dicionário de Agroecologia e Educação’, publicado pela Escola
Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com a
Expressão Popular, completa: “A mudança está na essência do que é o clima
porque os fenômenos atmosféricos são dinâmicos. Então, a questão é discutir os
fatores que levam às mudanças climáticas”. E é aí que mora o problema.
Como um processo natural, a
Terra absorve calor do Sol e reflete, para o ‘espaço’, radiação infravermelha.
Acontece que alguns gases, como o metano, mas principalmente o dióxido de
carbono, têm propriedades que impedem a passagem de boa parte dessa radiação,
fazendo com que ela fique presa por aqui e aqueça a superfície do planeta. É a
isso que se chama de ‘efeito estufa’. De acordo com Alexandre Araújo, parte
dessa ‘estufa’ é de fato necessária, mas o excesso, como se vê hoje, gera um
aumento da temperatura média da Terra, facilitando a existência ou a ampliação
de fenômenos como ondas de calor, chuvas violentas, furacões e ciclones, entre
vários outros. Isso sem contar os efeitos sobre as condições de saúde: segundo
Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz e um dos organizadores
do ‘Dicionário’, não apenas os efeitos do aquecimento global geram “alterações
na distribuição de vetores e doenças infectoparasitárias” como a redução da
biodiversidade gerada por essas mudanças amplia a “mobilidade e disseminação de
vírus selvagens”, aumentando o “risco de saltos zoonóticos, a exemplo da
Covid-19”.

Ação humana
A relação entre natureza e
ação humana está presente em todo o debate sobre mudanças climáticas. De fato,
uma parte do CO2 que existe na atmosfera da Terra é emitida
naturalmente, por exemplo, pelos oceanos e florestas. Mas o excesso que gerou
os problemas atuais vem da queima dos chamados combustíveis fósseis, como
carvão, petróleo e gás natural – exatamente aqueles que estão na base da
atividade industrial, além de muitas outras ações que são parte do nosso
cotidiano, como o simples ato de andar de carro. E não é só: processos de
destruição ambiental, como o desmatamento e as queimadas nas florestas, também
contribuem significativamente para a concentração desses gases e o consequente
aquecimento global. Para se ter uma ideia, dados do Observatório do Clima
divulgados em outubro passado mostraram que, ao longo de 2020, a emissão de
gases do efeito estufa aumentou 9,5% no Brasil – na contramão dos números
globais, que apontaram uma redução de 7% no mundo. A aparente contradição de um
crescimento desse tipo ocorrer num ano marcado pela redução da circulação de
pessoas, transporte e atividade industrial, em função da pandemia, se explica
com uma informação adicional: 46% dessas emissões se deveram ao desmatamento.
“Fala-se muito no processo de ‘savanização’ da Amazônia, mas, mais do que a
questão da elevação da temperatura terrestre, é preciso entender que isso tem
sido impulsionado em grande medida pelo avanço do desmatamento em função do
modelo de agricultura que nós adotamos no país, a partir de monoculturas e
ampliação de pastagens”, explica Cornetta.
Araújo lembra que o planeta
já passou por vários períodos de aquecimento e resfriamento: nos últimos 2,5
milhões de anos, houve intervalos “relativamente quentes”, chamados
interglaciais, e outros “relativamente frios”, conhecidos como glaciais. Isso
significa que o clima já mudou muitas vezes. “Mas sempre houve uma razão física
para isso”, alerta, explicando que essa é uma das grandes diferenças em relação
à manifestação de mudança climática que nós experimentamos hoje, que é
prioritariamente antropogênica, ou seja, causada pela ação humana. Ainda assim,
Alexandre Pessoa alerta: “A crise ecológica não é gerada pelo homem genérico,
mas pelas corporações que lucram com a exploração e degradação ambiental. E a
consequência também não será igual para todos”.
A outra diferença em relação
às mudanças climáticas do passado é a escala. “Nos últimos 800 mil anos, até o
período pré-industrial, a concentração de dióxido de carbono oscilou entre 173
partes por milhão, que é o mínimo a que se chegou em um dos glaciais, até 298
partes por milhão, que foi o máximo que ela havia chegado em algum dos
interglaciais. E essa mudança na concentração de CO2 veio
acompanhada de uma oscilação de temperatura da ordem de quatro a cinco graus na
escala global”, conta Araújo. O “ritmo natural do processo”, portanto, indicava
que uma alteração desse porte levava dezenas de milhares de anos para ocorrer.
Acontece que essa velocidade mudou: em pouco mais de 200 anos, desde meados do
século 18 até agora, essa concentração subiu de 278 partes por milhão para 420.
E, segundo Araújo, “o grosso” desse aumento aconteceu na segunda metade do
século passado, num período de aproximadamente 70 anos. “São processos muito
acelerados. Não há paralelo na história”, diz, ressaltando que a última vez que
o planeta experimentou uma atmosfera como a de hoje foi há cerca de 5 milhões
de anos, quando os seres mais próximos dos humanos que circulavam por aqui
ainda nem eram hominídeos. “A humanidade que a gente conhece, com cultura [de
alimentos], pecuária, cidades e assentamentos humanos gigantescos, é toda filha
do holoceno. Ou seja, nós aproveitamos muito bem a generosidade de 11.700 anos
de uma estabilidade climática associada a um interglacial, que introduziu o
clima ameno. Foi isso que permitiu que se domesticassem animais, que se
passasse a produzir alimento em escala capaz de sustentar uma quantidade cada
vez maior de pessoas”, conta. Mas lamenta: “Nós somos os filhos mais ingratos
do holoceno”.

O que diz o debate científico
Apesar disso, uma das
narrativas que tem tentado relativizar os alertas sobre o aquecimento global é
exatamente a que retira ou reduz o peso das ações humanas sobre esse fenômeno.
Segundo Andrei Cornetta, embora muito minoritários, no campo específico da
meteorologia física, há “cientistas céticos” produzindo estudos que apontariam
outros fenômenos naturais como principais razões do aquecimento, deixando de
focar na emissão de gases do efeito estufa. Ele diz que essas pesquisas têm
sido apropriadas por grupos políticos conservadores e vinculados a interesses
econômicos, mas não deixa de reconhecê-las como parte do debate científico.
Alexandre Araújo discorda. Segundo ele, a última controvérsia realmente
científica sobre esse tema remete aos anos 1980. “A ideia de que existe qualquer
grau de disputa sobre esse tema é fabricada propositalmente há quase três
décadas”, diz, defendendo que os autores que promovem essa aparente polêmica
não são apropriados por grupos que defendem o negacionismo em função dos seus
interesses econômicos, mas sim financiados e produzidos por eles.
Hoje, a fonte que mais
alimenta o debate acadêmico e as decisões políticas internacionais sobre o
assunto, produzindo previsões e propondo diretrizes científicas, é o Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Ele
foi criado em 1988, como resultado de grande volume de pesquisas que
evidenciavam a relação entre a emissão de gases do efeito estufa e o
aquecimento global – embora as primeiras e fundamentais descobertas sobre essa
cadeia tenham se dado ainda no século 19. Já o “reconhecimento mundial dessas
questões”, expresso num conjunto de eventos, como a 2ª Conferência Mundial
sobre o Clima e a Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas, promovida no
âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), se dá, segundo Andrei Cornetta,
em fins dos anos 1980. “A partir desse momento a questão climática passa a ser
incorporada nas agendas políticas”, diz. Em meados da década seguinte, em 1997,
pela primeira vez os países estabeleceram metas de redução dos gases do efeito
estufa, compromissos esses firmados a partir do chamado Protocolo de Kyoto.

Uma das estratégias possíveis
para essa mudança é adotar o que Cornetta caracteriza como “mecanismos de
desenvolvimento limpos”, com a substituição de combustíveis fósseis. “Um
exemplo é uma usina de cana de açúcar que passou a produzir energia com o
aproveitamento das sobras da sua produção, com o bagaço da cana e com o vinhoto
e, a partir disso, passou a gerar energia elétrica, tornando-se
autossustentável e, em alguns casos, vendendo o excedente de energia para
empresas concessionárias”, ilustra. Araújo completa: “Uma transição energética
implica não apenas mudar as fontes de energia, mas também mexer na demanda
energética. Quanta energia a gente gasta sem necessidade, com a obsolescência
programada, produção de descartáveis, consumo de bens individuais que seriam
atendidos de forma muito mais racional e eficiente através de saídas
compartilhadas?”. Como exemplo desse questionamento, no caso do Brasil, ele
cita a prioridade do uso de automóveis no lugar do investimento em transporte
público. “Ninguém está querendo voltar para a caverna. Nós estamos querendo
garantir as condições para que o conjunto da humanidade siga em uma situação de
dignidade, de proteção de maneira coletiva, o que implica reduzir desigualdades
e frear a irracionalidade dos nossos impactos sobre a natureza”, diz.
O problema é que esses não
têm sido os principais caminhos adotados. “A economia de baixa emissão de carbono
é um modelo econômico que envolve a redução e a gestão de emissão de gases de
efeito estufa, baseado em grande medida na substituição de fontes energéticas
fósseis. Mas não só isso: envolve um rearranjo produtivo industrial, rearranjos
de uso e ocupação do solo. A questão é que isso vem sendo feito muito pelos
chamados mecanismos de mercado compensatórios”, explica Cornetta. Na prática,
isso significa que grandes empresas e países ricos passaram a comprar o que ele
chama de “direito de poluir”.

Cornetta exemplifica com o
projeto de Sequestro Florestal de Carbono, que foi implementado no Acre, no
Brasil. A ideia, diz, é “gerar receita com a floresta em pé”. Significa
garantir que a vegetação de uma determinada área não seja derrubada, fazer uma
série de cálculos para descobrir quanto CO2 teria sido emitido se
ela tivesse sido desmatada e transformar esse número hipotético num papel com
valor que possa ser negociado numa espécie de bolsa de valores. Assim, empresas
e governos que não conseguiram (ou nem tentaram) reduzir as próprias emissões
de CO2 compram esses créditos de carbono para melhorar seus
indicadores em relação às metas assumidas em acordos internacionais. Se tem a
vantagem de manter a floresta de pé por aqui, por outro lado a estratégia
alivia a ‘culpa’ de empresas e países que não deixaram suas próprias florestas
em pé ou, o que é mais comum, que não alteraram suas fontes prioritárias de
energia. Segundo Cornetta, esses são “rearranjos produtivos que desencadeiam
novos canais de acumulação de capital”, muito valorizados inclusive neste
momento de tentativa de retomada da economia dos países em função da pandemia.
Não por acaso, desde o ano passado, tramita no Congresso Nacional um projeto de
lei (nº 528/2021) que visa criar o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões,
que regularia a compra e venda de créditos de carbono.

(ecodebate)