sexta-feira, 3 de março de 2023

Isa conquista certificação de carbono neutro

Empresa revisa e certifica mais 48.000 km de circuitos de transmissão de energia, 7.000 km de fibra óptica e 714 km de rodovias na América Latina.

A Isa, empresa multilatina e acionista controlador da Isa Cteep, obteve a certificação de carbono neutro do Instituto Colombiano de Normas Técnicas e Certificação (ICONTEC), nos escopos 1 e 2 (Operação e Manutenção de Ativos, excluindo perdas técnicas) para suas 11 empresas, incluindo a transmissora no Brasil. Com isso, mais de 48.000 km de circuitos de transmissão de energia, 7.000 km de fibra ótica e 714 km de rodovias na América Latina foram revisados e certificados para a implementação de ações de redução e compensação de emissões de gases de efeito estufa.

Inventário de emissões diretas e indiretas de CO2 (emissões realizadas com transporte, processo produtivo, deslocamento de representantes comerciais e colaboradores, emissão de efluentes, entre outros). Esse montante é compensado por plantio de árvores em crescimento, gerando assim a neutralização de tudo que emitimos.

De acordo com a companhia, essa certificação, com validade de três anos, respalda os esforços da companhia não apenas em reduzir e compensar as emissões derivadas de sua operação, como também em gerar impacto ambiental positivo e voluntário contra os efeitos das mudanças climáticas.

Para enfrentar as mudanças climáticas, a ISA tem uma estratégia de longo prazo, e os primeiros passos desse compromisso foram dados em 2011, quando a empresa começou a medir, reduzir e compensar suas emissões. A partir de 2018, foram estabelecidas metas de redução de emissões em linha com os objetivos da Estratégia ISA 2030, cujo foco é a geração de valor sustentável. Em 2021, a companhia iniciou o caminho rumo à certificação de empresas em diferentes países: Colômbia, Chile, Brasil, Peru e Bolívia. (canalenergia)

Principais pontos de inflexão no sistema climático global

Passar por um ponto de inflexão é menos crítico no lago grande do que no pequeno. O novo modelo revela que será assim em muitos sistemas climáticos grandes e heterogêneos.

Pontos de inflexão climáticos podem nem sempre ser desastrosos.

O que agora nos referimos coletivamente como “pontos de inflexão no sistema climático” foram tratados pela primeira vez no Terceiro Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

• Os principais pontos de inflexão incluem mudanças na Circulação Meridional do Atlântico, o derretimento das camadas de gelo polar, a migração de padrões climáticos e climáticos em larga escala, secagem da floresta amazônica ou interrupções nos principais sistemas climáticos, como as monções

• Os efeitos combinados de temperaturas e umidade mais altas durante os períodos de calor em algumas regiões podem atingir níveis perigosos nas próximas décadas, o que pode levar a pontos de inflexão fisiológicos ou limiares além dos quais o trabalho humano ao ar livre não é mais possível sem assistência técnica

• Mais pesquisas sobre os pontos de inflexão serão cruciais para ajudar a sociedade a entender melhor os custos, benefícios e possíveis limitações da mitigação e adaptação climática no futuro.

“Pontos de inflexão” tornaram-se uma abreviação amplamente usada para muitos aspectos de mudanças não lineares em um sistema complexo.

O que agora nos referimos coletivamente como “pontos de inflexão no sistema climático” foram tratados pela primeira vez no Terceiro Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como “surpresas” (Stocker et al., 2001) e incluídos no “ Motivos de Preocupação” como “eventos singulares de grande escala” ou “descontinuidades no sistema climático” (IPCC, 2001). Esses pontos críticos têm consequências globais e regionais e incluem mudanças na Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), o derretimento das camadas de gelo polar, a migração de padrões climáticos e climáticos em grande escala e a extinção da floresta amazônica.

Pontos críticos com consequências globais

Figura 1. A travessia de pontos de inflexão associados a instabilidades do manto de gelo na Antártica, ou à rápida descarga de correntes de gelo na Groenlândia, pode ter sérios impactos globais.

O AMOC é um importante condutor da distribuição de calor, sal e água no sistema climático, tanto regional quanto globalmente. Com base em dados de proxy paleoclimáticos, foi sugerido que o AMOC pode ser mais fraco no clima atual do que em qualquer outro momento no último milênio (Caesar et al., 2021). Além disso, modelos recentes indicam consistentemente que o AMOC enfraquecerá à medida que o CO2continua a aumentar (Weijer et al., 2020). Embora as medições diretas desde 2004 não mostrem tendências significativas (Worthington et al., 2021), o enfraquecimento contínuo de longo prazo do AMOC, conforme fortemente sugerido pelos modelos (Jackson et al., 2022), pode aumentar sua vulnerabilidade a outras mudanças, como como o fornecimento de água doce a partir do derretimento de mantos de gelo e geleiras. Como resultado, o estudo contínuo, identificação e observação de sinais de alerta precoce de um potencial ponto de inflexão no AMOC é crucial (Boers, 2021).

O derretimento das calotas polares da Groenlândia e da Antártida tem sido considerado elemento de inflexão por muitos anos (Figura 1). Sua inclinação seria particularmente perigosa, pois teria consequências globais devido ao substancial aumento adicional do nível do mar em escalas de tempo de séculos a milênios (Clark et al., 2016). O Quinto Relatório de Avaliação do IPCC comunicou que cruzar um limiar crítico de aquecimento global entre 1°C e 4°C levaria a um derretimento significativo e irreversível da camada de gelo da Groenlândia (Stocker et al., 2013). No entanto, essa faixa foi reavaliada e encontrada em ou ligeiramente acima de 1,5°C a 2°C – ou seja, os limites de aquecimento global do Acordo de Paris (Pattyn et al., 2018). Nesse nível de aquecimento, a camada de gelo da Antártica Ocidental também estaria em risco crescente de perda irreversível de gelo (Garbe et al., 2020).

Pontos de inflexão regionais

Uma migração gradual de padrões meteorológicos ou climáticos em grande escala pode ser registrada regionalmente como uma inclinação para um novo regime. O registro paleoclimático, por exemplo, apontou para fases em que o cinturão de monções mudou ou mudou de intensidade em resposta a mudanças climáticas hemisféricas de grande escala durante os últimos 30.000 anos (Brovkin et al., 2021). Uma análise recente sugere que o aquecimento futuro pode levar a uma intensificação da monção indiana e sua variabilidade, expressa possivelmente como chuvas mais curtas e mais pesadas (Katzenberger et al., 2021).

Em regiões de latitude média, mudanças na umidade do solo podem levar a efeitos de limiar em regimes evaporativos e a uma amplificação não linear associada de extremos de calor (Seneviratne et al., 2010; Miralles et al., 2014; Vogel et al., 2018). Além disso, a frequência de extremos climáticos baseados em limiares geralmente aumenta de forma não linear com o aumento do aquecimento global, com as maiores mudanças relativas para os eventos mais extremos (Kharin et al., 2018). As mudanças no clima médio regional e a intensidade dos extremos climáticos tendem a variar linearmente em função do aquecimento global (Wartenburger et al., 2017). No entanto, eles também podem levar ao cruzamento dos limites do ecossistema regional (Guiot e Cramer 2016; Warren et al., 2018; Ratnayake et al., 2019; Breshears et al., 2020) e às mudanças no regime climático em combinação com mudanças na vegetação e respostas da sociedade. Um exemplo disso é o período do dust bowl nos Estados Unidos (por exemplo, Cowan et al., 2020).

O ambiente marinho também é propenso a tombamento regional. As ondas de calor marinhas, por exemplo, podem ocorrer com mais frequência e intensidade (Frölicher et al., 2018). A acidificação dos oceanos, causada pela absorção do oceano de concentrações crescentes de dióxido de carbono atmosférico em seu papel de sumidouro de carbono, pode ultrapassar os limites com o consequente branqueamento de corais e outros impactos no ecossistema marinho (Hoegh-Guldberg et al., 2019). Os pontos de inflexão regionais dos sistemas marinhos devido ao aquecimento, acidificação dos oceanos e desoxigenação podem, em combinação, causar impactos globais (Heinze et al., 2021).

A floresta amazônica, um ecossistema único de importância e valor global, está sob pressão do desmatamento e das mudanças climáticas antropogênicas. Embora as projeções de sua evolução futura sejam altamente incertas, estudos apontam para a probabilidade de uma maior secagem (Baker et al., 2021). Estações secas mais prolongadas e eventos de seca extrema, e feedbacks auto-reforçados, podem reduzir ainda mais a extensão da floresta (Zemp et al., 2017) com uma abordagem potencial para um ponto de inflexão (Boulton et al., 2022) onde a floresta é insustentável . A perda da floresta amazônica teria consequências potencialmente devastadoras sobre o clima regional, a biodiversidade e os sistemas sociais, bem como impactos potencialmente mais amplos por meio de mudanças nos ciclos hidrológicos e de carbono.

Figura 2. Limiares e pontos críticos podem ser cada vez mais encontrados em padrões climáticos regionais e extremos com consequências para comunidades locais e serviços ecossistêmicos (Seca e tempestade em desenvolvimento no Delta do Ebro, Espanha, 2020).

Consequências dos pontos de inflexão na saúde e bem-estar humanos

O impacto das mudanças climáticas na saúde humana está recebendo maior atenção (Romanello et al., 2021), pois as ameaças potenciais são múltiplas. Os efeitos combinados de temperaturas e umidade mais altas durante os períodos de calor em algumas regiões podem atingir níveis perigosos nas próximas décadas (Pal e Eltahir, 2016), o que pode levar a pontos de inflexão fisiológicos ou limiares além dos quais o trabalho humano ao ar livre não é mais possível sem assistência técnica. Uma fração substancial da mortalidade relacionada ao calor hoje já pode ser atribuída ao aquecimento antropogênico (Vicedo-Cabrera et al., 2021) e essa tendência está aumentando em extensão e magnitude. Portanto, esses eventos podem causar pontos de inflexão e comportamento limiar no sistema da Terra, que inclui a biosfera, o ciclo do carbono e a sociedade,

Juntos, os pontos críticos do sistema climático são um tema científico de grande interesse público. O WCRP, por exemplo, está abordando esta questão em uma de suas Lighthouse Activities por meio de uma plataforma internacional para combinar abordagens teórico-matemáticas, monitoramento observacional e esforços abrangentes de modelagem climática. Processos não lineares no sistema climático estão na origem dos elementos basculantes, portanto, um esforço internacional concertado na modelagem de sistemas terrestres acoplados de alta resolução, desenvolvendo e utilizando infraestrutura de computação em escala exa (Slingo et al., 2022; Hewitt et al., 2022) fornecerá uma representação melhorada dos feedbacks climáticos e das respostas dinâmicas responsáveis pelos elementos de inclinação.

Por fim, um consenso científico formal sobre pontos críticos e mudanças climáticas irreversíveis, que é fundamental para estimar o risco climático, embora repleto de profundas incertezas, é relevante para as políticas. O último relatório do IPCC avaliou pontos críticos e delineou os limites do estado atual do conhecimento. Um relatório especial do IPCC sobre “Pontos de inflexão climáticos e consequências para a habitabilidade e recursos” ajudaria a fortalecer um consenso sobre este tópico e desencadearia os avanços tão necessários na compreensão científica para informar de forma mais abrangente as estratégias de adaptação e mitigação. (ecodebate)

Mudança climática ameaça abastecimento d’água em partes do mundo

Mudança climática ameaça o abastecimento de água em muitas partes do mundo.

Especialmente para a África, Austrália e América do Norte, os novos dados preveem um risco significativamente maior de crises de abastecimento de água até 2050.
Estiagem causa prejuízos à agricultura e ameaça o abastecimento.

Mudanças no clima agravam abastecimento de água e segurança hídrica mundial.

A interferência das mudanças climáticas no ciclo hidrológico do planeta é fato comprovado. Novas análises sugerem que, em muitos lugares, o escoamento responde com mais sensibilidade do que se supunha anteriormente.

A mudança climática altera a circulação atmosférica global, que por sua vez altera a precipitação e a evaporação em grandes partes do mundo e, consequentemente, a quantidade de água dos rios que pode ser utilizada localmente. Até agora, as projeções do impacto do clima no fluxo dos rios têm sido geralmente calculadas com base em modelos físicos, por exemplo, as projeções relatadas pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

No entanto, novas análises de dados conduzidas sob a liderança do Prof. Günter Blöschl (TU Wien, Viena) indicam que os modelos anteriores subestimam sistematicamente a sensibilidade com que a disponibilidade de água reage a certos parâmetros climáticos em mudança. Uma análise dos dados de medição de mais de 9.500 bacias hidrológicas de todo o mundo mostra que a mudança climática pode levar a crises hídricas locais em uma extensão ainda maior do que o esperado anteriormente. Os resultados foram agora publicados na revista científica “Nature Water”.

Abordagem de modelo e abordagem de dados medidos

“Na comunidade da climatologia, os efeitos das mudanças climáticas na atmosfera são muito bem compreendidos. No entanto, suas consequências locais nos rios e na disponibilidade de água caem no campo da hidrologia”, explica o Prof. Günter Blöschl, do Instituto de Engenharia Hidráulica e Gestão de Recursos Hídricos na TU Wien.

Localmente, muitas vezes é possível explicar muito bem como a disponibilidade de água está relacionada a parâmetros externos, como precipitação ou temperatura – isso está sendo estudado em muitas estações de medição em todo o mundo, em particular no laboratório de hidrologia de Blöschl em Petzenkirchen, onde vários sensores foram instalado em uma área de 60 hectares. Mas conclusões globais não podem ser tiradas de tais observações individuais: “Como o equilíbrio da água depende de parâmetros externos varia de lugar para lugar; a vegetação local também desempenha um papel muito importante aqui”, diz Günter Blöschl. É difícil desenvolver um modelo físico simples que possa ser usado para calcular essas inter-relações em todos os lugares do mundo com precisão.

Günter Blöschl, portanto, colaborou com colegas da China, Austrália, EUA e Arábia Saudita para construir e analisar um grande banco de dados de observações de fluxos de todo o mundo. Mais de 9.500 bacias hidrográficas foram incluídas, com séries temporais que se estendem por várias décadas no passado.

O sistema de água reage às mudanças climáticas com mais sensibilidade do que se pensava

“Portanto, não baseamos nossa análise em modelos físicos, mas em medições reais”, enfatiza Günter Blöschl. “Observamos o quanto a quantidade de água disponível mudou no passado quando as condições externas mudaram. Dessa forma, podemos descobrir com que sensibilidade as mudanças nos parâmetros climáticos estão relacionadas a uma mudança na disponibilidade local de água. E isso nos permite fazer previsões para um futuro clima mais quente.”

E descobriu-se que a conexão entre a precipitação e a quantidade de água nos rios é muito mais sensível do que se pensava – e, portanto, muito mais sensível do que se supõe nos modelos atualmente usados para prever as mudanças climáticas.

Os modelos de previsão dos efeitos das mudanças climáticas no abastecimento de água devem, portanto, ser fundamentalmente revisados. “Até agora, as medições de escoamento geralmente não foram incluídas nos modelos, como os atualmente relatados pelo IPCC”, diz Günter Blöschl. “Com a série de medições agora disponíveis, agora deve ser possível ajustar os modelos físicos de previsão de acordo”.

Mais grave do que se supõe

De qualquer forma, os resultados da equipe de pesquisa em torno de Günter Blöschl mostram que o perigo das mudanças climáticas no abastecimento de água em muitas partes do mundo pode ter sido subestimado até agora. Especialmente para a África, Austrália e América do Norte, os novos dados preveem um risco significativamente maior de crises de abastecimento de água até 2050 do que se supunha anteriormente.

Infográfico por Peter D Carter, @PCarterClimate – (ecodebate)

quarta-feira, 1 de março de 2023

Áreas úmidas do Cerrado estão secando

No Cerrado, “Coração” do berço das águas do Brasil e de modos de vida tradicionais, ecossistemas sofrem impactos de proteção insuficiente na legislação.
Do IPAM

As áreas úmidas do Cerrado podem ser entendidas como “coração” deste que é o bioma berço das águas do Brasil. São ecossistemas que ficam entre ambientes aquáticos e terrestres e que alagam durante a estação chuvosa.

O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) destaca veredas e campos úmidos que, singulares, inspiram nomes de livro e poesia, sendo fonte de água e de vida para milhões de seres.

Com alta biodiversidade e papel fundamental na recarga de recursos hídricos, as áreas úmidas ocupam 6 milhões de hectares no Cerrado, área maior que a do Estado da Paraíba. Grande parte desse tipo de vegetação no bioma concentra-se em imóveis rurais privados (59%) e em terras indígenas (27%, especialmente na região do Araguaia), e apenas 5% está dentro de Unidades de Conservação.

De acordo com dados do MapBiomas, o Cerrado perdeu 970 mil hectares de vegetação típica das áreas úmidas entre 1985 e 2021 — principalmente para pastagem — o equivalente a 12% de todas as áreas úmidas do bioma. Por outro lado, o bioma também viu surgir 780 mil hectares de vegetação secundária de áreas úmidas, aquela que nasce depois da perda da vegetação original. Desse total, 25% cresceram em áreas antes cobertas por superfície d’água – indicando que secaram.

Pela característica de sua distribuição, mais presente em áreas privadas, as áreas úmidas dependem do que está definido no Código Florestal Brasileiro para continuar existindo. A lei estabelece regras para imóveis rurais particulares destinarem áreas de Reserva Legal – equivalentes a 20% da propriedade no Cerrado. O Código Florestal também dispõe sobre as APPs (Áreas de Preservação Permanente), de forma a regular o processo de ocupação da terra e garantir a conservação de riquezas naturais em propriedades privadas. À parte do importante papel da legislação para a conservação de florestas, pesquisadores identificam lacunas que resultam na insuficiência de proteção a outros tipos de ecossistemas, como as áreas úmidas encontradas no Cerrado.

“O Código Florestal exclui do regime de proteção as áreas úmidas de várzea e os campos úmidos ao considerar apenas a calha do leito regular do curso d’água na delimitação de APPs – e não sua variação. É um artefato que favorece a degradação da maior parte das áreas úmidas e coloca o Brasil na contramão dos compromissos assumidos na convenção de Ramsar”, avalia Dhemerson Conciani, pesquisador no IPAM. A Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional foi adotada em 1971 na cidade de Ramsar, no Irã, e tem 172 países-membros. O Brasil é signatário desde 1993. “Para manter o funcionamento desses ecossistemas tão importantes para a sociobiodiversidade e para a segurança hídrica, é fundamental o fortalecimento da legislação e a ampliação de investimentos em monitoramento e fiscalização”, completa o pesquisador.

Além de garantir o abastecimento de água no país, esses ecossistemas são lar de povos e comunidades tradicionais que habitam o Cerrado de maneira ancestral há pelo menos 12 mil anos. As áreas úmidas beneficiam a irrigação de suas lavouras de subsistência e levam água para seus territórios, que retribuem cultivando uma relação de harmonia com a natureza.

Dos 9 milhões de hectares ocupados por 211 territórios tradicionais oficialmente reconhecidos no Cerrado, 95% são cobertos por vegetação nativa, indica o MapBiomas. Outros 88 territórios ainda não reconhecidos, mapeados no aplicativo Tô no Mapa, ocupam 472 mil hectares com 90% de cobertura de vegetação nativa.

Os veredeiros

Os veredeiros são pessoas que vivem em comunidades próximas às áreas úmidas e das chapadas do Cerrado, de onde extraem alimentos para sua sobrevivência. Fazem uso das terras úmidas e da flora desses ecossistemas para produções agroextrativistas e criação de animais.

Até o momento, são 11 comunidades veredeiras mapeadas no aplicativo Tô no Mapa, de auto mapeamento de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Há muito mais a consolidar: um levantamento da iniciativa revelou lacunas nos dados oficiais sobre territórios tradicionais ao identificar, em parte do Cerrado, 3,5 vezes mais comunidades do que os registros nos órgãos competentes. No país, o Tô no Mapa já mapeou 207 comunidades de mais de 15 segmentos. O objetivo é construir um mapa que reflita a realidade dos territórios para subsidiar a formulação de políticas públicas de garantia de direitos sociais e territoriais.

Para Jaime Alves dos Santos, morador da vereda Grande de São Joaquim, na comunidade de Capoeirão Barra de Brejinho, no município de Januária (MG), as veredas têm um papel sociocultural importante em sua comunidade e abastecem umas série de práticas tradicionais em seu cotidiano

“A vereda tem um significado muito importante, é trabalho, alimento, água! É vida! Eu me sinto privilegiado, me considero um guardião e de onde tiro meu sustento, também”, diz.

O modo de vida dos veredeiros é um dos mais vulneráveis às perturbações e aos ressecamentos das áreas úmidas. Segundo o veredeiro, a chegada de indústrias tem agravado o ressecamento da vegetação, inclusive da vereda de Buriti Grosso, bem como impactado a segurança alimentar e a cultura das comunidades da região.

“As veredas sofrem muito com a chegada das grandes empresas. Chegaram na vereda mãe, Buriti Grosso, e matou muitas outras, porque plantaram monocultura. Muitos veredeiros tiveram que ir embora”, conta.

Dados do MapBiomas mostram que a superfície de água no município de Januária (MG) encolheu 52% entre 1985 e 2021, passando de 6.334 hectares para menos da metade, 3.304 hectares.

Para preservar as veredas, Jaime defende a investigação dos responsáveis pelo financiamento do desmatamento do bioma e a retomada da fiscalização ambiental. Além disso, o veredeiro acredita que os moradores da comunidade deveriam ser consultados nas decisões que dizem respeito às áreas úmidas que habitam.

“A comunidade deve participar das tomadas de decisões das associações. Podemos contribuir com conhecimentos tradicionais e entender o que as empresas estão fazendo, porque o desmatamento, geralmente, visa o lucro acima do bem estar de quem vive ali”, conclui.

Mapa da região norte do município de Januária (MG) destacando, em tons de rosa, áreas que perderam superfície de água entre 1985 e 2021. A imagem de satélite (Planet – 12/2022) revela extensas áreas úmidas (veredas) severamente degradadas e com exposição de areia. Observa-se também a fronteira de avanço da monocultura (sul) e a formação de estradas e glebas sobre as áreas úmidas secas. (ecodebate)

9 anos mais quentes e o Planeta se aproximando do limite de 1,5ºC

Os 9 anos mais quentes e o Planeta se aproximando do limite de 1,5º Celsius.
“Estamos na autoestrada rumo ao inferno climático e com o pé no acelerador” - António Guterres, 2022.

O aquecimento global é uma realidade inexorável e a população mundial já está pagando um alto preço com as ondas letais de calor, secas, enchentes, aumento da frequência e da força dos furacões, acidificação das águas e dos solos, etc. O período de 2014 a 2022 aglutina os 9 anos mais quentes do Antropoceno.

O gráfico abaixo mostra a temperatura global anual no período 1880 a 2022 em relação à média do século XX, indicando que até aproximadamente 1940 a temperatura média anual estava abaixo da média do século XX, mas especialmente depois de 1960 a temperatura subiu muito rapidamente e no período 2011 a 2022 aumentou em 0,27ºC. Mostra também que os últimos 9 anos foram os mais quentes da série, mesmo com a predominância do fenômeno La Niña em 2021 e 2022.

O gráfico abaixo mostra a variação mensal da temperatura nos últimos 9 anos – que ocorreram entre 2014 e 2022 – registrando as maiores temperaturas da série histórica iniciada em 1880. O ano de 1998 foi o mais quente do século passado e apresentou temperatura 0,65ºC acima da média do século XX. O ano de 2010 registrou 0,73ºC, mas em 2011 a temperatura ficou em 0,58ºC acima da média do século passado, mas abaixo daquela registrada em 1998.

Contudo, o quadro muda de figura e, a partir de 2014, quando todos os anos apresentam variações de temperatura acima do registrado em 1998 e 2010. Em 2014 a temperatura foi 0,74ºC acima da média do século XX. Em 2016 e 2020 ficou quase 1ºC acima da média do século XX. Em 2021 e 2022, com o fenômeno La Niña, a temperatura ficou 0,84º e 0,86ºC, acima da média do século XX. Se consideramos o período pré-industrial a temperatura já ultrapassou 1,2ºC.

O que tem acelerado o aquecimento global é o aumento das emissões de gases de efeito estufa provocado pelo crescimento demoeconômico do mundo. Mais pessoas consumindo mais produtos significa mais extração de recursos naturais e mais poluição. Como não existe população sem consumo e nem consumo sem população o resultado é maior concentração de CO2 na atmosfera.

Alguns países têm alto padrão de consumo e baixas taxas de crescimento demográfico, enquanto outros países possuem alto crescimento da população com baixo padrão de consumo. Evidentemente, uns emitem e desmatam mais do que os outros. Mas uma característica em comum é que todas as pessoas, em maior ou menor proporção, contribuem para a degradação ambiental. O ser humano, ao contrário da abelha, não possui uma relação simbiótica com o meio ambiente.

Com o crescimento demoeconômico a humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra. Nos últimos 50 anos (1972-2022) a população mundial mais que dobrou de tamanho (passando de 3,85 bilhões para 8 bilhões de habitantes) e o PIB mundial aumentou 5 vezes. Assim, enquanto algumas pessoas consideram que o crescimento econômico teve maior impacto sobre as emissões de gases de efeito estufa do que o crescimento populacional, o fato é que a pegada ecológica já ultrapassou a biocapacidade do Planeta.

Segundo o climatologista James Hansen (12/01/2023), a temperatura da superfície global em 2022 foi de +1,16°C em relação à média de 1880-1920 na análise do GISS (Instituto Goddard para Estudos Espaciais). Os nove anos mais quentes ocorreram nos últimos nove anos. A atual fase fria do fenômeno La Niña dominou os últimos dois anos fazendo a temperatura cair em relação à 2020, mas mantendo o desequilíbrio energético planetário sem precedentes (com mais energia entrando do que saindo). Hansen considera improvável a continuidade do efeito La Niña e estima que 2023 vai ser mais quente do que 2022 e é provável que o ano de 2024 registre temperaturas na casa de 1,5ºC, atingindo com muita antecedência o limite mínimo do Acordo de Paris. Por causa da inércia e atrasos de resposta nos sistemas climáticos e energéticos, o limite de 2°C provavelmente também será ultrapassado em meados do século.

O fato é que quanto mais tempo ignoramos os avisos explícitos de que o aumento das emissões de carbono está aquecendo perigosamente a Terra, maior será o preço a pagar. E o que surpreende na tendência ao colapso climático é a velocidade com que a temperatura média global aumenta e se traduz em clima extremo. Porém, por mais sombrio que seja o cenário climático, isto não deve inibir as ações para mitigar o aquecimento global para impedir que um futuro angustiante se torne ainda mais verdadeiramente cataclísmico. Se nada for feito, como mostrou o jornalista David Wallace-Wells, poderemos ter uma “Terra inabitável”. (ecodebate)

2 hs de exposição ao escapamento de diesel já afeta o cérebro

Poluição do ar: duas horas de exposição ao escapamento de diesel já afeta o cérebro.
Somente duas horas de exposição à poluição do ar já altera funções cerebrais.

Pesquisa canadense identificou uma conectividade menor em região do órgão associada ao desempenho cognitivo mesmo após o breve com os poluentes

Os altos níveis de poluição do ar constantes em grandes cidades têm acendido o alerta de especialistas nos últimos anos. No entanto, um novo estudo de pesquisadores canadenses, publicado no periódico Environmental Health, mostra que mesmo taxas mais baixas durante um curto período tempo já são suficientes para prejudicar a função do cérebro.

Segundo os responsáveis pelo trabalho, o estudo é o primeiro a descobrir, a partir de um experimento controlado, que a poluição atmosférica consegue alterar as conectividades do órgão após somente duas horas de exposição. Para isso, 25 adultos saudáveis foram expostos ao escapamento do diesel e ao ar filtrado, em momentos diferentes, e passaram por exames de ressonância magnética cerebral antes e depois.

"Por muitas décadas, os cientistas pensaram que o cérebro podia estar protegido dos efeitos nocivos da poluição do ar. (Porém) este estudo, que é o primeiro desse tipo no mundo, fornece novas evidências que sustentam uma conexão entre a poluição do ar e a cognição”, diz o autor do estudo, chefe de medicina respiratória e presidente de pesquisa em doenças pulmonares ocupacionais e ambientais da Universidade da Colúmbia Britânica, Chris Carlsten, em comunicado.

Os achados mostraram que o tempo de exposição aos poluentes já foi suficiente para alterar uma região do cérebro chamada de default mode network (DMN), uma rede que conecta diferentes partes do órgão que exercem um papel importante na memória e no pensamento. Os exames revelaram uma diminuição na conectividade funcional da DMN, em comparação com a exposição ao ar filtrado.

"Sabemos que a conectividade funcional alterada na DMN foi associada a desempenho cognitivo reduzido e sintomas de depressão, por isso é preocupante ver a poluição do tráfego interrompendo essas mesmas redes", afirma a professora de psicologia da Universidade de Victoria, também autora do estudo, Jodie Gawryluk.

Ela ressalta que, “embora sejam necessárias mais pesquisas para entender completamente os impactos funcionais dessas mudanças, é possível que elas prejudiquem o pensamento ou a capacidade de trabalho das pessoas”.

No estudo, as alterações voltaram ao normal após a exposição. No entanto, Carlsten avalia que os impactos podem ser duradouros quando o contato com a poluição do ar é contínua. Por isso, os resultados devem servir de alerta para a população.

"As pessoas podem querer pensar duas vezes na próxima vez que estiverem presas no trânsito com as janelas abertas. É importante garantir que o filtro de ar do seu carro esteja em boas condições de funcionamento e, se você estiver andando ou andando de bicicleta por uma rua movimentada, considere desviar para uma rota menos movimentada”, orienta o pesquisador.

Ele destaca ainda que os efeitos observados no estudo provavelmente são replicáveis para outros tipos de poluentes. No contexto em que a poluição atmosférica tem se tornado cada vez mais um ponto de preocupação, Carlsten também defende que as evidências sejam consideradas para a formulação de políticas públicas de saúde.

"A poluição do ar é agora reconhecida como a maior ameaça ambiental à saúde humana e cada vez mais veem os impactos em todos os principais sistemas de órgãos. Acho que veríamos impactos semelhantes no cérebro da exposição a outros poluentes atmosféricos, como fumaça de incêndio florestal. Com o aumento da incidência de distúrbios neurocognitivos, é uma consideração importante para autoridades de saúde pública e formuladores de políticas”, diz.

Respirar fumaça de caminhões pode alterar momentaneamente as conexões cerebrais.

Exposição ao gás liberado por veículos a diesel diminuiu a conectividade cerebral dos voluntários de estudo. (biodieselbr)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Eventos climáticos extremos aumentaram 5 vezes nos últimos 50 anos

 Eventos climáticos extremos aumentaram cinco vezes nos últimos 50 anos.

• O número de desastres climáticos e relacionados à água aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos, causando, em média, US$ 202 milhões em perdas diárias.

• Eventos climáticos extremos causam impactos socioeconômicos duradouros, especialmente nas comunidades mais vulneráveis, que geralmente são as menos equipadas para responder, se recuperar e se adaptar.

• Em 2022, as mudanças climáticas causadas pelo homem contribuíram ainda mais para perdas econômicas e humanas significativas associadas a fortes chuvas e eventos de calor extremo em todo o mundo.

Eventos climáticos extremos causam impactos socioeconômicos significativos. A OMM relata que o número de desastres relacionados ao clima aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos, ceifando, em média, a vida de 115 pessoas e causando perdas diárias de US$ 202 milhões (OMM, 2021).

À medida que a ciência da atribuição continua a melhorar, as evidências da ligação entre as mudanças climáticas induzidas pelo homem e os extremos observados, como ondas de calor, fortes precipitações e ciclones tropicais, se fortaleceram (IPCC 2021). E embora os eventos climáticos extremos possam impactar qualquer pessoa, são as populações mais vulneráveis do mundo, principalmente aquelas que vivem na pobreza e em comunidades marginalizadas, que mais sofrem.

Eventos climáticos extremos em 2022

A tempestade tropical Ana e o ciclone tropical Batsirai

Figura 1. Ciclone tropical Batsirai na costa de Madagascar, no sudoeste do Oceano Índico.

A temporada de ciclones tropicais do sudoeste do Oceano Índico de 2021/2022 foi muito ativa, com 12 tempestades nomeadas – cinco das quais atingiram o status de ciclones tropicais intensos. A tempestade tropical Ana foi a primeira tempestade da temporada, trazendo ventos fortes, chuvas fortes e inundações generalizadas para Madagascar, Malawi, Moçambique e Zimbábue no final de janeiro de 2022. Foi seguida por Batsirai, um ciclone tropical ainda mais forte, mostrado na Figura 1 .

As tempestades causaram graves impactos humanitários em toda a região – uma das mais pobres e vulneráveis do mundo. Em Moçambique, por exemplo, cerca de 64% da população vive em extrema pobreza, e em Madagascar, 42% das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição crônica (Banco Mundial, 2021; Programa Alimentar Mundial, 2021). Como resultado dessas tempestades, dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas, a infraestrutura foi destruída e as terras agrícolas inundadas agravaram ainda mais a insegurança alimentar (Otto et al., 2022).

Usando métodos publicados e revisados por pares, a iniciativa World Weather Attribution descobriu que a mudança climática provavelmente aumentou a intensidade das chuvas associadas a essas tempestades (Otto et. al., 2022). À medida que a atmosfera fica mais quente, ela retém mais água, o que, em média, torna as estações chuvosas e os eventos mais úmidos. Com mais emissões e aumento das temperaturas, episódios de chuvas intensas, como os associados a Ana e Batsirai , se tornarão mais comuns.

Populações vulneráveis, como as afetadas por Ana e Batsirai , são as mais atingidas por eventos climáticos extremos porque têm menos recursos para responder, recuperar e se adaptar a um clima em mudança. Quando ocorrem desastres, eles atrasam o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e exacerbam a pobreza e a desigualdade existentes. No entanto, uma adaptação eficaz, como a implementação de sistemas de alerta precoce, pode reduzir os riscos climáticos, minimizar perdas e danos e apoiar o desenvolvimento resiliente ao clima (ver Capítulo: Sistemas de Alerta Precoce: Apoio à Adaptação e Redução do Risco de Desastres) (IPCC, 2022).

Inundações no leste da Austrália

Figura 2. Inundação em Corinda e Oxley, subúrbios de Brisbane, Austrália, em 01/03/2022.

Ao longo de 2022, períodos sucessivos de fortes chuvas no leste da Austrália resultaram em grandes inundações. No final de fevereiro e início de março de 2022, um rio atmosférico transportou grandes quantidades de umidade para a costa australiana, levando a um evento de chuva recorde e a algumas das piores inundações da história do país. Brisbane, a terceira maior cidade da Austrália, experimentou três dias consecutivos com totais de chuva superiores a 200 mm – a primeira ocorrência desse tipo desde o início das observações meteorológicas de rotina. Posteriormente, períodos de chuva forte continuaram a atingir a região encharcada de chuva de março a julho de 2022, levando a inundações severas adicionais (Figura 2).

As enchentes rapidamente crescentes resultantes dessa chuva extrema causaram devastação generalizada e perdas econômicas. As comunidades na Austrália geralmente estão mais bem equipadas para responder, recuperar e se adaptar em comparação com comunidades em países de baixa renda, no entanto, as enchentes ainda destacaram as desigualdades socioeconômicas que exacerbam a vulnerabilidade. Por exemplo, na cidade devastada de Lismore, as comunidades aborígines marginalizadas foram particularmente atingidas, assim como as famílias de baixa renda que têm maior probabilidade de viver em locais propensos a inundações e não podem pagar pelo seguro contra enchentes (Williamson, 2022).

A natureza variada das chuvas extremas, com algumas áreas experimentando chuvas fortes e persistentes por vários dias e outras recebendo chuvas curtas, mas muito intensas, torna desafiador definir como o evento pode estar relacionado às mudanças climáticas causadas pelo homem. A ciência do clima indica um risco crescente de chuvas de curta duração, mas extremas, com aquecimento contínuo induzido pelo homem. Fatores adicionais, como o La Niña subjacente, também aumentaram as chances de condições mais úmidas do que a média em toda a região.

Ondas de calor europeias

Em junho e julho de 2022, a Europa foi afetada por 2 ondas de calor extremo resultantes do ar quente do norte da África que se espalhou para o norte e leste, atingindo a Europa Central e o Reino Unido. Os máximos diários excederam 40°C em partes da Península Ibérica, que foi de 7 a 12°C acima do normal para aquela época do ano. Em Portugal registou-se um pico de temperatura de 47°C, superando o recorde nacional de julho de 46,5°C (1995). Além disso, pela primeira vez na história, as temperaturas no Reino Unido ultrapassaram 40°C, com um recorde provisório de temperatura de 40,3°C registrado em Coningsby em 19 de julho, superando o recorde anterior de 38,7°C estabelecido em 2019. De acordo com o World Weather Iniciativa de atribuição, a mudança climática causada pelo homem tornou a onda de calor no Reino Unido pelo menos 10 vezes mais provável (Zachariah et al., 2022).

As ondas de calor do verão representam um risco significativo para a saúde humana e do ecossistema. Os idosos e as pessoas com condições crônicas de saúde são particularmente vulneráveis, mas outros fatores – como condições socioeconômicas, condições de trabalho, urbanização e níveis de preparação – também podem aumentar a vulnerabilidade.

Em Londres, por exemplo, a ilha de calor urbana tornou a cidade significativamente mais quente do que as áreas circundantes e os altos níveis de desigualdade exacerbaram a vulnerabilidade (Zachariah et al., 2022). Em toda a Europa, os primeiros relatórios indicam que as ondas de calor levaram a vários milhares de mortes, embora seja muito cedo para saber o número total de vítimas humanas desses eventos extremos. Adicionalmente,

Figura 3. Ondas de calor no sudoeste da Europa (Portugal, Espanha, sul da França, leste da Itália) de 1950 a 21 de julho/2022, dependendo de sua duração (eixo x) e intensidade (anomalia média, eixo y). O tamanho das bolhas (raio) mostra a extensão espacial das ondas de calor, as anotações indicam suas datas de início e término. As cores das bolhas destacam o ano de ocorrência: azul: 2022, verde: mais recente antes de 2022, vermelho: século 21, laranja: século 20 (Deutscher Wetterdienst (DWD)).

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