sábado, 23 de junho de 2018

População, desenvolvimento e degradação ambiental no Brasil

“Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta” - Augusto Comte (1798-1857).
O Brasil já nasceu grande em termos de extensão territorial, mas ainda era uma economia pequena no século XIX. Com o fim da escravidão (1888) e a Proclamação da República (1889) o país redirecionou o seu sistema produtivo para a busca do desenvolvimento nacional e, progressivamente, para o fortalecimento do mercado interno.
O lema “Ordem e Progresso” foi inscrito na bandeira nacional por influência dos positivistas. Este binômio foi inspirado no lema do sociólogo francês Auguste Comte (1798-1857), considerado o pai do positivismo: “Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta”. O progresso era uma ideia em moda no século XIX e a Europa era uma referência para o mundo na medida em que conquistava territórios e vendia seus produtos modernos. Inspirados na ideologia europeia, os positivistas brasileiros tiveram papel de destaque na Proclamação da República (Só não se sabe porque eles não colocaram a palavra amor na faixa da bandeira nacional).
Naquela época, o Brasil era um país pouco povoado, rural, agrário e com pouca integração entre suas diversas regiões. Desta forma, não é de se estranhar que o progresso estivesse relacionado ao crescimento populacional, ao desenvolvimento econômico, à dominação da natureza e à grandeza da Pátria. Não havia preocupação com as questões ambientais e a defesa da biodiversidade.
O presidente do Brasil, Afonso Pena (1906-1909), dizia que “Governar é povoar”. Já Washington Luis (1926-1930), ampliando esta concepção, dizia que “Governar é abrir estradas”. A frase completa do último presidente da República Velha, dando ênfase à ocupação do território, é: “Governar é povoar; mas, não se povoa sem se abrir estradas, e de todas as espécies; Governar é, pois, fazer estradas”.
O Presidente Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954) chegou ao poder prometendo redirecionar o desenvolvimento brasileiro para o mercado interno e para o interior. Ele apoiou a família extensa, o crescimento populacional e a migração para o Oeste. Os trabalhadores assalariados da CLT foram premiados com um “salário-família” a título de estimular uma prole numerosa. No governo Vargas foram implantadas políticas sociais que, de forma intencional ou não, tinham objetivos pronatalistas.
Mas além da política positivista voltada para o crescimento populacional, na era Vargas houve uma legislação claramente anti-controlista, por exemplo: a) o Decreto Federal n. 20.291, de 11 de janeiro de 1932 estabelecia “É vedado ao médico dar-se à prática que tenha por fim impedir a concepção ou interromper a gestação”; b) a Constituição de 1937 em seu artigo 124 diz: “A família, constituída pelo casamento indissolúvel, está sob a proteção especial do Estado. As famílias numerosas serão atribuídas compensações na proporção de seus encargos”; c) em 1941, durante o Estado Novo, foi sancionada a Lei das Contravenções Penais que em seu artigo 20 proibia: “anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar o aborto ou evitar a gravidez”.
A maior obra do presidente pós Segunda Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), foi a construção da Via Dutra (BR 116), inaugurada em 19 de janeiro de 1951 ligando as duas maiores cidades do Brasil. Após o segundo governo Vargas, foi eleito o Presidente Juscelino Kubitschek que tinha como lema central a bandeira: “50 anos em 5”. Ele prometia acelerar a modernização do país, construindo hidrelétricas, indústria de base, automóveis, bens de consumo em geral e, principalmente, a construção de Brasília e a conquista do Cerrado. Os governantes brasileiros sempre consideraram a natureza uma fonte inesgotável de riquezas que deveriam ser exploradas sem maiores considerações e seguiram a visão cornucopiana de Pero Vaz de Caminha: “Aqui, nesta terra, em se plantando, tudo dá”.
Os militares, que tomaram o poder em 1964, estavam na linha de frente da exploração desenfreada do meio ambiente e da política populacional expansionista do “Brasil potência”. Mesmo com as precárias condições de vida e a falta de investimentos no bem-estar qualitativo da população, os primeiros governos militares adotaram uma política pronatalista, como mostrou Canesqui: “A doutrina da Segurança Nacional, adotada pelo regime militar no período 1964-1970, assegurou a posição natalista, incluindo expectativas quanto ao crescimento demográfico e o preenchimento dos espaços vazios de regiões a serem colonizadas (Amazonas e Planalto Central). Esta preocupação ficou bastante clara no Programa Estratégico de Desenvolvimento (1968-1970) do governo Costa e Silva. Este mesmo governo reafirmou suas convicções natalistas face ao desenvolvimento e à segurança, em mensagem dirigida ao Papa Paulo VI, por ocasião da publicação da Encíclica Humanae Vitae (1968) de forma a não contrariar a posição oficial da Igreja Católica, diante da política controlista da natalidade”.
Seguindo a linha dos governos autoritários, o general linha dura e Presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) chegou a estabelecer a seguinte orientação para o processo de ocupação territorial: “Levar os homens sem-terra à terra sem homens”. Na Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, o General Costa Cavalcante, Ministro do Interior e representando o governo, proferiu um discurso claramente antiecológico: “Para a maioria da população mundial, a melhoria de condições é muito mais uma questão de mitigar a pobreza, dispor de mais alimentos, melhorar vestimentas, habitação, assistência médica e emprego, do que ver reduzida a poluição atmosférica”.
Após o processo de redemocratização, os governos José Sarney (1985-1989), Fernando Collor (1990-1992), Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) pouco fizeram para reverter a o quadro de degradação ambiental e redirecionar o processo de desenvolvimento do país. Da mesma forma, os governos Luís Ignácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2014) reviveram a linha do neodesenvolvimentista, dando incentivo aos grandes projetos, como o pré-sal, a transposição do rio São Francisco, as hidrelétricas na Amazônia e a venda de commodities do agronegócio e dos agrotóxicos, assim como de produtos minerais altamente poluidores (ferro, bauxita, nióbio, ouro e outros metais). O uso do mercúrio e do cianeto na separação e limpeza da exploração mineral transforma o garimpo em uma das atividades mais poluidoras, tendo como consequência a contaminação de peixes e animais silvestres, afetando inclusive a saúde humana.
O Brasil passa por uma especialização regressiva e a economia está muito dependente de produtos básicos, vindos da “Roça” (agronegócio) e da “Mina” (pré-sal e mineração). A Câmara dos Deputados aprovou, dia 29 de novembro de 2017, o texto-base da Medida Provisória 795/17, que concede isenções tributárias para a indústria do petróleo que podem ultrapassar R$ 1 trilhão em 25 anos. Por conta disto, o Brasil recebeu uma honraria indesejada pelos países durante as negociações climáticas da COP23: o “Fóssil do Dia”. O “prêmio” é dado pela Climate Action Network para os países que ou estão atravancando as conversas na conferência ou não tomando internamente as ações necessárias para o combate às mudanças climáticas. Portanto, a ideologia positivista do desenvolvimentismo a qualquer custo continua viva e virou quase uma religião de Estado.
Evidentemente a ideia de progresso tal como aconteceu no país tem sido questionada por muitas pessoas e diversos movimentos populares. Por exemplo, em entrevista à Revista época (04/06/2012), Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, fez várias críticas sobre a forma como o progresso brasileiro possibilitou o aumento do genocídio dos índios e o ecocídio das espécies vivas do Cerrado e da floresta amazônica. Na verdade dos os ecossistemas brasileiros foram afetados terrivelmente pelo processo de desenvolvimento do Brasil.
O gráfico acima mostra que até os 200 anos da Independência (1822-2022), a população brasileira terá crescido 46 vezes, o PIB terá crescido 834 vezes e a Renda per capita terá aumentado em 18 vezes. A despeito das desigualdades sociais, o progresso humano foi espetacular. Mas todo o progresso humano ocorreu às custas do retrocesso ambiental. Todos os biomas brasileiros foram afetados e continuam sendo degradados. Os rios urbanos viraram esgotos e foram enterrados vivos. Os dois maiores rios da região Sudeste (rio Doce e Paraíba do Sul) estão em estado de miséria.
O rio São Francisco está cada vez mais sem água e o assoreamento e a degradação é quase uma sentença de morte. Os rios Pajeú e Riacho do Navio só existem na imortal música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.
Embora o Brasil seja o país com o maior superávit ambiental do mundo, caminha, se forem mantidas as tendências das últimas décadas, para uma situação de déficit. A Footprint Network apresenta duas medidas úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza.
A pegada ecológica per capita do Brasil, em 1961, era de 2,4 hectares globais (gha) e a biocapacidade per capita era de 22,7 gha. Portanto, a biocapacidade per capita era 10 vezes maior do que a pegada ecológica. Mas em 2013, a pegada ecológica subiu para 3 gha, enquanto a biocapacidade caiu para 8,9 gha. A relação entre as duas medidas caiu para menos de 3 vezes. O Brasil ainda possui um grande superávit ambiental, mas pode jogar fora todo este patrimônio natural nos próximos 50 anos se nada for feito para reverter o padrão insustentável de desenvolvimento.
A análise apresentada nesse artigo é uma pequena parte do capítulo “Population, development and environmental degradation in Brazil” de ALVES e MARTINE (2017), que compõe o livro “Brazil in the Anthropocene: Conflicts Between Predatory Development and Environmental Policies”, editado por ISSBERNER LR; LENA P. (2017). Uma síntese do capítulo pode ser acessada no link abaixo, com base na apresentação feita no dia 27/09/2017, no Rio de Janeiro. Se o rumo da insustentabilidade não for redirecionado, o Brasil não terá nada a comemorar, em 2022, nos 200 anos da Independência. (ecodebate)

11,5 milhões de pessoas não sabem ler e escrever no Brasil

No Brasil, 11,5 milhões de pessoas que ainda não sabem ler e escrever.A taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais de idade no Brasil caiu de 7,2% em 2016 para 7,0% em 2017, mas não alcançou o índice de 6,5% estipulado, ainda para 2015, pelo Plano Nacional de Educação (PNE). As informações estão no módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, divulgado hoje pelo IBGE.
Em números absolutos, a taxa representa 11,5 milhões de pessoas que ainda não sabem ler e escrever. A incidência chega a ser quase três vezes maior na faixa da população de 60 anos ou mais de idade, 19,3%, e mais que o dobro entre pretos e pardos (9,3%) em relação aos brancos (4,0%).
Quatorze das 27 unidades da federação, porém, já conseguiram alcançar a meta do PNE, mas o abismo regional ainda é grande, principalmente no Nordeste, que registrou a maior taxa entre as regiões, 14,5%. As menores foram no Sul e Sudeste, que registraram 3,5% cada. No Centro-Oeste e Norte, os índices ficaram em 5,2% e 8,0%, respectivamente.
Apenas 68,4% dos alunos do ensino médio estavam na série esperada para a idade
A meta de garantir que 85% dos alunos do ensino médio estejam na idade esperada para a etapa também não foi alcançada. Em 2017, apenas 68,4% dos estudantes estavam na etapa esperada para a idade, mostrando pouca variação em relação a 2016, 68%.
No ensino fundamental, a meta, estipulada em 95%, já havia sido cumprida no ano passado, quando foi registrado 96,5%, subindo para 96,9% em 2017. Porém, ao observar o recorte do 6° ao 9° ano, esse número cai para 85,6%.
“É um efeito dominó. Por exemplo, se o aluno repete um ano no ensino fundamental provavelmente ele vai começar o médio já com atraso. Isso ajuda a explicar porque a taxa é mais crítica nessa etapa”, explica a pesquisadora do IBGE Marina Águas.
Cresce proporção de pessoas com ensino superior e cai número de não escolarizados
Por outro lado, houve aumento no percentual de pessoas com 25 anos ou mais idade com ensino superior completo, passando de 15,3% em 2016 para 15,7% em 2017. Entre os brancos, 22,9 % haviam concluído essa etapa, e na população preta e parda, 9,3%. Em 2016, esses números ficaram em, respectivamente, 22,2% e 8,8%.
Na Região Nordeste, 38,6% da população de 60 anos ou mais não sabe escrever um bilhete simples.
Já a taxa de pessoas sem instrução, ou seja, aquelas de 25 anos ou mais que não completaram nenhum ano do ensino fundamental, caiu de 10,7% em 2016 para 8,8% no ano passado. Regionalmente, a maior incidência foi observada no Nordeste, 16,5%, e a menor no Sudeste, 5,5%. (ecodebate)

Cidades abrigarão ⅔ da população mundial até 2050

Cidades vão abrigar dois terços da população mundial até 2050.
Motivado pelo crescimento populacional e pelo abandono de áreas rurais, aumento da população urbana deve ocorrer principalmente na África e na Ásia. Até 2030, número de megacidades deve chegar a 43.
Até 2050, 68% da população mundial, ou seja, 2,5 bilhões de pessoas estarão vivendo em centros urbanos.
Estimativas da ONU divulgadas em 16/05/18 afirmam que, em 2050, pouco mais de dois terços da população mundial (68%) viverão em centros urbanos, o que significa que haverá 2,5 bilhões de pessoas a mais nas cidades. 
O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (Desa) apresentou um relatório com as previsões para a urbanização mundial, destacando o que chamou de "megatendência" para o aumento das áreas urbanas. Esse fenômeno se deve ao crescimento populacional e ao deslocamento de um grande número de pessoas das áreas rurais para as cidades.
"Cerca de metade da população mundial (55%) vive atualmente em centros urbanos e, até 2050, calcula-se que cerca de ⅔ (68%) de todas as pessoas deverão morar em zonas urbanas", afirmou John Wilmoth, diretor do Desa.
Segundo o relatório, 90% do aumento da população urbana mundial estarão concentrados na África e na Ásia, duas regiões que acolhem a maioria dos residentes em áreas rurais.

O maior aumento populacional deverá ocorrer principalmente em três países: Índia, China e Nigéria, que até 2050 deverão ser responsáveis por mais de ⅓ do crescimento projetado para a população urbana global. O relatório aponta que, até 2028, a Índia deverá superar a China como o país com a maior população mundial.
O estudo sobre o crescimento dos centros urbanos poderá ajudar na preparação das cidades para receber novos residentes vindos das áreas rurais, destacou Wilmoth. 

"Quando o crescimento urbano ocorre de modo acelerado, assegurar o acesso de todos a habitação, água, saneamento, eletricidade, transporte público, educação e sistema de saúde é algo especialmente desafiador", observou o diretor. "Administrar o crescimento urbano para assegurar a sustentabilidade se tornou um dos mais importantes desafios do desenvolvimento no século atual."
Wilmoth entende que a urbanização pode ser interpretada como um fator positivo, uma vez que as populações urbanas possuem melhor acesso à saúde e educação. No entanto, ele alerta que a favelização acelerada em muitas cidades torna difícil atingir os níveis ideais de sustentabilidade.
Tóquio, com 37 milhões de habitantes, é atualmente a maior cidade do mundo, mas deverá ser superada por Nova Déli – atualmente com 29 milhões – ao redor de 2028, afirma o relatório.
Tóquio ainda é a cidade mais populosa do mundo, com 38 milhões de habitantes.
As demais cidades com as maiores populações são Xangai, com 26 milhões, seguida de São Paulo e Cidade do México com cerca de 22 milhões cada. As cidades do Cairo, Mumbai, Pequim e Dhaka possuem atualmente cerca de 20 milhões de habitantes cada.
O relatório do Desa destaca que existem atualmente 33 megacidades – aquelas com populações de mais de 10 milhões de pessoas –, enquanto em 1990 eram apenas dez. Até 2030, esse número deverá chegar a 43. (dw)

Somos todos iguais?

Somos todos iguais? IBGE mostra as cores da desigualdade
As estatísticas de cor ou raça produzidas pelo IBGE mostram que o Brasil ainda está muito longe de se tornar uma democracia racial. Em média, os brancos têm os maiores salários, sofrem menos com o desemprego e são maioria entre os que frequentam o ensino superior, por exemplo. Já os indicadores socioeconômicos da população preta e parda, assim como os dos indígenas, costumam ser bem mais desvantajosos.
Para o professor Otair Fernandes, doutor em Ciências Sociais e coordenador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Leafro/UFRRJ), a realidade do Brasil ainda é herança do longo período de colonização europeia e do fato de ter sido o último país a acabar com a escravidão.
O professor ressalta que, mesmo após 130 anos de abolição, ainda é muito difícil para a população negra ascender economicamente no Brasil. “A questão da escravidão é uma marca histórica. Durante esse período, os negros não tinham nem a condição de humanidade. E, pós-abolição, não houve nenhum projeto de inserção do negro na sociedade brasileira. Mesmo depois de libertos, os negros ficaram à própria sorte. Então, o Brasil vai se estruturar sobre aquilo que chamamos de racismo institucional”, lembra.
Fernandes afirma que atitudes individuais não são suficientes para romper essa questão socialmente e historicamente, e ressalta a importância de políticas públicas de ações afirmativas. “É preciso pensar em políticas de afirmação do negro. Políticas de valorização daqueles que foram marginalizados e excluídos”, diz.
Para a promotora de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia, Lívia Santana Vaz, reconhecer que o problema existe é o primeiro passo para tentar resolver essa dívida histórica. Por isso, a consideração de cor ou raça nas pesquisas oficiais produzidas pelo IBGE é fundamental. “Há países – a exemplo de Portugal – que, a pretexto de não violarem o princípio da igualdade, proíbem a coleta de dados com base na raça e na cor das pessoas, o que tem impedido que se conheça o contexto de desigualdades raciais e a criação de políticas públicas”, ressalta a jurista, que atua em grupos de proteção de direitos humanos e combate a discriminações.
O que te define?
A sua cor ou raça é: branca, preta, amarela, parda ou indígena? Nessa ordem, o agente de pesquisa do IBGE oferece as opções, e o entrevistado escolhe como se classifica. O que ele considera para responder depende de cada um, pois o quesito de cor ou raça é baseado na autodeclaração.
Segundo Leonardo Athias, pesquisador da Coordenação de População e Indicadores Sociais do IBGE, responsável pelo tema, este é um preceito de direitos humanos: “a identificação é da pessoa, é ela que sabe como se entende, porque é uma interação social, uma percepção de si mesma e do outro. Eu não vou classificar o outro, até porque muitas vezes isso foi feito para segregar, para perseguir”.
O sistema de classificação adotado pelo Instituto se apoia em cinco categorias, consolidadas em uma longa tradição de pesquisas domiciliares, mas não deixa de ser passível de críticas.
Uma delas lembra que o sistema é utilizado desde 1872, passando por pequenas modificações ao longo do tempo, mas desde sempre utilizando categorias formuladas por uma pequena elite dominante e desconsiderado a realidade das regiões fora dos eixos Sul e Sudeste. Isto criou dificuldades com o termo pardo, por exemplo.
“O termo pardo remete a uma miscigenação de origem preta ou indígena com qualquer outra cor ou raça. Alguns movimentos negros utilizam preto e pardo para substituir o negro e alguns movimentos indígenas usam indígenas e pardos para pensar a descendência indígena. É uma categoria residual, mas que é a maioria”, explica Marta Antunes, da Gerência Técnica do Censo Demográfico.
De qualquer maneira, essas categorias têm conseguido evidenciar a desigualdade racial nos indicadores sociais do país. “Toda classificação é uma simplificação da realidade. Muitas vezes o objetivo de classificar, para [atender] os objetivos estatais de proteger minorias, mostrar desigualdades e balizar políticas, pode não coincidir com o objetivo de identificar, ou seja, mostrar como as pessoas se enxergam em sua diversidade”, avalia Leonardo.
Para Marta, as categorias podem ser repensadas, mas ainda não há entre os estudiosos um consenso para substituí-las: “como trocar essas categorias sem perder a série histórica e sem atrapalhar a política pública que já está calcada em cima desses termos?”, questiona. (ecodebate)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Em clima mais quente riachos emitem mais dióxido de carbono

Aquecimento Global: Riachos podem emitir mais dióxido de carbono em um clima mais quente.
Riachos e rios podem bombear dióxido de carbono para o ar a taxas crescentes se continuarem aquecendo, potencialmente aumentando os efeitos do aquecimento global, mostrou uma nova análise mundial.
Para chegar a essa conclusão, uma equipe de pesquisa internacional conduziu o primeiro estudo em escala continental dos fluxos de carbono para dentro e para fora dos córregos em seis grandes zonas climáticas. Eles coletaram dados em bacias hidrográficas de Porto Rico, Oregon (EUA), Austrália e Alasca. Em cada um deles, os cientistas analisaram o equilíbrio entre a fotossíntese – que usa CO2 atmosférico para gerar material vegetal, como raízes e folhas – e a respiração, que bombeia CO2 de volta para o ar.
Os cientistas publicaram seus resultados esta semana na revista Nature Geoscience.
A questão é importante porque os rios e riachos do mundo trocam carbono com a atmosfera a taxas comparáveis com os ecossistemas terrestres e os oceanos. Se o aquecimento global continuar, um aumento nas emissões de carbono baseadas em fluxo poderia aumentar a concentração de CO2 na atmosfera.
“Este estudo é o primeiro a olhar para os efeitos da mudança climática sobre o ‘metabolismo’ do fluxo na escala continental usando observações de campo”, disse Alba Argerich, coautor. “Essa abordagem leva em consideração a complexidade de um ecossistema, em oposição a experimentos controlados em que você recria versões simplificadas de um ecossistema.”
Argerich e outros cientistas monitoraram os fluxos de temperatura da água, oxigênio dissolvido e luz solar na superfície da água. Os pesquisadores também simularam o equilíbrio entre a produção primária líquida (o produto da fotossíntese por todos os organismos no córrego) e a respiração sob um aumento de 1 grau Celsius na temperatura da correnteza. O resultado líquido das simulações, eles relataram, foi uma mudança de 24% em direção a mais respiração e emissões de CO2. No entanto, nem todos os fluxos respondem da mesma maneira.
A mudança em direção a mais emissões de CO2 parece ser mais pronunciada em fluxos mais quentes, descobriram os cientistas, enquanto correntes mais frias podem realmente ver um aumento na produção primária líquida. A ciclagem de carbono nos riachos também pode ser afetada por outros fatores, como plantas e micróbios no ecossistema do córrego e nutrientes que fluem para a água das terras vizinhas.
Argerich conduziu seu trabalho como pesquisadora no College of Forestry da Oregon State University. Ela é agora professora assistente na Escola de Recursos Naturais da Universidade do Missouri. Em trabalhos anteriores no HJ Andrews Forest, Argerich mostrou que pequenos riachos podem exportar quantidades surpreendentes de carbono tanto a jusante quanto para a atmosfera. “Este documento confirma o papel dos fluxos como uma fonte ativa de CO2 para a atmosfera, que pode ser ainda mais importante à medida que as temperaturas globais aumentam”, disse ela.
Chao Song, autor principal da Universidade da Geórgia, foi acompanhado por 26 co-autores dos Estados Unidos e da Austrália. Outras bacias hidrográficas representadas no estudo incluíram a Floresta Experimental de Luquillo em Porto Rico, o Parque Nacional Litchfield na Austrália, a Konza Prairie em Kansas e a Caribree-Poker Creeks Watershed e a Estação de Campo Toolik Lake no Alasca. (ecodebate)

Cientistas projetam um aquecimento global de 4°C até 2084

Mudanças Climáticas: Em nova análise, cientistas projetam um aquecimento global de quatro graus até 2084.
Uma equipe de pesquisa colaborativa da China publicou uma nova análise que mostra que o clima da Terra aumentaria em 4%, comparado aos níveis pré-industriais, antes do final do século XXI.
Para entender a gravidade disso, considere o Acordo de Paris das Nações Unidas. É um esforço global para evitar um aumento de 2°C. Quase todos os países do planeta – os Estados Unidos são o único país a se retirar – concordaram em trabalhar para evitar os efeitos catastróficos de dois graus de aquecimento. Os pesquisadores publicaram sua análise projetando uma duplicação desse aumento em avanços em Ciências Atmosféricas em 18 de maio de 2018.
“Um grande número de eventos de calor recorde, inundações pesadas e secas extremas ocorreria se o aquecimento global cruzasse o nível de 4°C, em relação ao período pré-industrial”, disse JIANG Dabang, um pesquisador sênior do Instituto de Física Atmosférica de Academia Chinesa de Ciências “O aumento da temperatura causaria graves ameaças aos ecossistemas, sistemas humanos, sociedades e economias associadas”.
Na análise, JIANG e sua equipe usaram os parâmetros do cenário em que não houve mitigação das emissões crescentes de gases de efeito estufa. Eles compararam 39 experimentos do modelo climático coordenado da quinta fase do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que desenvolve e revisa modelos climáticos para garantir as simulações climáticas mais precisas possíveis.
Eles descobriram que a maioria dos modelos projetou um aumento de 4°C entre 2064 e 2095 no século 21, com 2084 aparecendo como o ano mediano.
O estudo foi selecionado como o artigo de capa da edição nº 8 do Advances in Atmospheric Sciences em 2018. Os níveis do aquecimento global futuro em relação ao período pré-industrial foram extensivamente abordados, nos quais 2°C e 1,5°C têm aquecimento que atraiu mais atenção. Um relatório especial “Abaixe o calor: Por que um mundo mais quente de 4°C deve ser evitado” pelo Banco Mundial em 2012 descreveu um mundo mais quente de 4°C, com mudanças significativas em climas extremos e médios com base em modelos climáticos de gerações anteriores cenários de emissões. (Imagem por Advances in Atmospheric Sciences )
Este aumento se traduz em mais aquecimento anual e sazonal sobre a terra do que sobre o oceano, com aquecimento significativo no Ártico. A variabilidade de temperatura ao longo de um ano seria menor nos trópicos e maior nas regiões polares, enquanto a precipitação provavelmente aumentaria no Ártico e no Pacífico. Estes são os mesmos efeitos que ocorreriam sob 1,5°C ou 2°C, mas mais severos.
O declínio do gelo flutuante do Ártico é um dos sinais mais evidentes do aquecimento global, mostra a redução do gelo entre 1979 e 2010.
Pesquisadores acreditam que espécies como o haddock já tiveram seu tamanho reduzido por causa do aquecimento do Mar do Norte, entre o Reino Unido e a Escandinávia.
“Essas comparações entre os três níveis de aquecimento global implicam que o clima global e regional passará por mudanças maiores se níveis mais altos de aquecimento global forem ultrapassados no século 21”, escreveu JIANG.
Os pesquisadores continuam investigando as mudanças associadas a 4°C do aquecimento global em climas extremos.
“Nosso objetivo final é fornecer uma visão abrangente das mudanças climáticas médias e extremas associadas a níveis mais altos de aquecimento global com base em modelos climáticos de última geração, o que é de grande interesse para os tomadores de decisão e para o público” disse JIANG.
Pesquisadores do Chinese Academy of Sciences Center for Excellence in Tibetan Plateau Earth Sciences, do Collaborative Innovation Center on Forecast and Evaluation of Meteorological Disasters at the Nanjing University of Information Science & Technology, do Joint Laboratory for Climate and Environmental Change at Chengdu University of Information Technology, e da University of Chinese Academy of Sciences contribuíram para este estudo. (ecodebate)

Estudo estima vidas salvas com uma meta climática de 1,5°C

Aquecimento Global e Saúde Pública: Estudo estima vidas salvas com uma meta climática de 1,5°C.
Acelerar o progresso na redução das emissões de carbono salvaria milhões de vidas, principalmente nas áreas metropolitanas da África e da Ásia.
“Os benefícios para a saúde pública das políticas de baixíssimo carbono são enormes”, diz Drew Shindell, pesquisador do clima da Duke University, na Carolina do Norte, Estados Unidos, e coautor do artigo
Mas com o financiamento aquém das expectativas, as reduções nas emissões resultantes – e a queda nas mortes causadas pela poluição – podem não acontecer, diz Neill Bird, pesquisador sênior do Overseas Development Institute, com sede no Reino Unido. “A falta de investimento pode resultar em países que se aproximam de um negócio como de costume”, diz ele.
Para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C Celsius, o mundo precisaria cortar a maioria das emissões de carbono relacionadas a combustíveis fósseis neste século – e porque isso também reduziria a poluição do ar localmente, evitaria 150 milhões de mortes prematuras, de acordo com um artigo publicado na Nature Climate Change.
Os pesquisadores descobriram que a redução das emissões esperadas de dióxido de carbono deste século em 180 gigatoneladas – a quantidade necessária para atingir a meta de 1,5°C, ou manter o aquecimento global a 2°C sem emissões negativas – significaria mudar para um sistema de energia amplamente renovável.
Essa mudança, mais cedo ou mais tarde, pouparia cerca de 90 milhões de vidas até 2100, devido à exposição reduzida a partículas finas, segundo o estudo. Outros 60 milhões de mortes poderiam ser evitados por causa da redução dos níveis de ozônio.
No ano passado, houve o primeiro aumento nas emissões globais de CO2 em quatro anos, o que coloca pressão adicional sobre os governos para cumprir suas metas de redução de emissões. Embora os países industrializados continuem sendo, de longe, os maiores emissores, os pesquisadores destacam que os países em desenvolvimento evitam deslizar pelo caminho dos combustíveis fósseis.
“Os países em desenvolvimento estão em grande parte no controle de seu próprio destino quando se trata de poluição do ar”, diz Shindell. “Eles teriam que fazer grandes mudanças para desativar os combustíveis fósseis, mas colheriam enormes benefícios localmente pela qualidade do ar se o fizessem.”
Como os níveis de poluição já estão altos, a Indonésia, a China e a Nigéria provavelmente se beneficiarão mais da aceleração das reduções de emissões. Grandes centros urbanos, como o Cairo, no Egito, também veriam melhorias significativas nas taxas de mortalidade por poluição, segundo os pesquisadores.
A primeira meta para as metas globais de redução de emissões, conforme definido pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, é 2030 – quando muitos países pretendem ter uma capacidade significativa de energia renovável.
Muitos países em desenvolvimento acham difícil financiar projetos de energia renovável. Um estudo separado adverte que os países do Global Green Growth Institute, um clube de nações com metas voluntárias de energia renovável, precisam de pelo menos US $ 260 bilhões em investimentos adicionais para atingir suas metas. (ecodebate)

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já reg...