segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os ‘benefícios’ das plantações de árvores: acabando com os mitos de 11 à 15

Mito nº 11: As plantações de árvores contribuem para a abordagem da mudança climática ao neutralizarem o carbono emitido pelos combustíveis fósseis Fundamentalmente, lidar com a mudança climática envolve promover uma redução drástica e imediata na quantidade de combustíveis fósseis que extraímos e queimamos. A idéia de usar plantações de árvores para neutralizar essas emissões é contraproducente já que de fato providencia uma desculpa falsa para continuar com a combustão de mais carvão, petróleo e gás. Enquanto houver espaço para mais plantações (seja qual for seu impacto sobre comunidades e ecossistemas) o interesse empresarial pretende que acreditemos que nós podemos continuar construindo mais refinarias de petróleo e explorando mais jazidas de carvão. Ao mesmo tempo, é impossível quantificarmos o volume de carbono que uma determinada plantação é capaz de seqüestrar. Isso significa que todas as metodologias para atribuir quantidades exatas de “toneladas de carbono” dos tubos de escapamento absorvidas pelas plantações são uma tolice. A única coisa que pode ser dita, com algum embasamento científico, é que as monoculturas de árvores são bem menos efetivas que as florestas primárias para armazenar carbono. Ironicamente, as comunidades que são habitualmente expulsadas para estabelecer plantações de árvores são com freqüência aquelas que tinham vidas sustentáveis, com baixos níveis de carbono. O uso das plantações de árvores para compensar as emissões de pessoas, empresas ou países do Norte é uma forma de ‘colonialismo do carbono’- uma nova forma da apropriação de terras que caracterizou a história do colonialismo. Mito nº 12: As plantações de árvores como sumidouros de carbono contribuem para a abordagem da mudança climática ao compensarem o carbono emitido pelos combustíveis fósseis De uma perspectiva climática, as plantações de árvores não apenas não é uma solução; também acrescentam ainda mais problemas. É impossível predizer quanto carbono uma plantação pode extrair da atmosfera e por quanto tempo. A diferença do carvão ou petróleo subterrâneos, o carbono armazenado nas árvores é “frágil”: rapidamente e a qualquer momento pode voltar a incorporar-se à atmosfera através de incêndios, tempestades, infestação de insetos, doenças e decomposição. Quando é feita a colheita das plantações de árvores, é muito difícil monitorar o carbono armazenado na madeira. Parte dos produtos de madeira e papel pode ser queimada quase imediatamente; outros podem decompor-se mais lentamente; outros podem ter vidas um pouco mais longas em moradias ou móveis; e alguns podem tornar-se aterros sanitários. Isso tudo pode levar tanto a um seqüestro no longo prazo quanto a liberações perigosas de metano, dependendo das circunstâncias. Esse é apenas o começo. Para poder afirmar de forma crível que uma plantação de árvores “compensa” um determinado volume de CO2 emitido, os propulsores das plantações para carbono deveria incluir como fator uma cifra que representasse o grau em que suas plantações destruíram os reservatórios existentes de carbono, assim adicionando CO2 ao ar. Além do mais, as comunidades deslocadas pelas plantações para carbono deveriam ter suas atividades monitoradas de perto durante (digamos) um século, sem importar para onde eles tinham migrado, a fim de determinar de forma precisa os impactos que tinham sobre as florestas ou pradarias em outros lugares, assim liberando na atmosfera o carbono armazenado nesses ecossistemas. Por essas e mais uma longa lista de outras razões, as plantações “para compensar” em grande escala, em vez de mitigar o aquecimento global, podem até piorá-lo. Ao adiar a retirada gradativa da mineração de combustíveis fósseis, a transição para uma distribuição mais equitativa das emissões e usos mais razoáveis de energia e transporte, tais plantações podem resultar no final das contas em uma quantia maior de emissões de carbono evitáveis tanto da indústria quanto da terra. Mito nº 13: A modificação genética é útil e necessária para melhorar as árvores Há uma particular arrogância associada com esse argumento. Implica que os cientistas e empresas sabem mais sobre o melhoramento das árvores do que tem sido atingido por 3 bilhões de anos de evolução e ignora o fato de que algumas espécies de árvores que estão sendo modificadas geneticamente possuem genomas muitas vezes mais antigos do que o genoma humano. Mas o que realmente estão dizendo é “a modificação genética das árvores é útil e necessária para fazer mais dinheiro.” A primeira suposição que a gente deve fazer para concordar com a afirmação de que “a modificação genética é útil e necessária para melhorar as árvores” é que o consumo de árvores pode e deveria continuar aumentando infinitamente, porque podemos modificar árvores para cultivar “mais madeira em menos terra” (que é o lema da ArborGen). A segunda suposição que a gente deve fazer é que os cientistas podem criar árvores que possam ignorar os limites ecológicos, por exemplo, a disponibilidade de água, nutrientes do solo, etc. e crescer mais e mais rapidamente em áreas de terra cada vez menores. A terceira suposição que a gente deve fazer é que os cientistas podem entender e lidar com o espectro total de impactos potenciais dessas árvores, submetendo elas a provas em testes de campo por mais o menos cinco anos, apesar de que as características que estão modificando nessas árvores nunca tinham existido antes e as árvores podem potencialmente sobreviver no meio ambiente durante muitas décadas. A gente também deve acreditar que a própria engenharia genética é inerentemente segura e que o baralhamento e mistura desses três genomas com genes de organismos não relacionados não terá conseqüências não objetivadas, imprevisíveis ou negativas. A suposição final que a gente deve fazer é que os cientistas podem fabricar árvores que nunca escaparão para as florestas nativas, seja através da poluição do pólen de espécies silvestres relacionadas, ou através do escape de invasivas não nativas como o eucalipto. A gente deve acreditar nisso, apesar de que as árvores podem espalhar seu pólen e sementes por centenas de quilômetros e de que os próprios cientistas de árvores GM informam preocupações importantes sobre a poluição não intencional de espécies não objetivadas. Portanto, se a gente for capaz de desligar o lado racional de seu cérebro, e apenas pensar em um mundo de fantasia, nesse momento e somente nesse momento, será capaz de acreditar que a “modificação genética é útil e necessária para melhorar as Árvores.” Felizmente, a maioria de nós ainda temos um cérebro racional ligado e expomos isso como uma mentira. Mito nº 14: A inclusão das plantações no mecanismo relacionado com o clima REDD (Redução de Emissões decorrentes de Desmatamento e Degradação) ajudará a lidar com a mudança climática Essa mentira tem suas raízes no fato de que a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) não diferença entre florestas e plantações. Uma “floresta”, de acordo com a UNFCCC, é uma área maior de 500 m², da que pelo menos 10% está coberto por árvores que podem crescer mais de dois metros de altura. Para a UNFCCC então, não há diferença entre uma plantação de monoculturas de eucaliptos, uma floresta seriamente degradada e uma antiga floresta nativa intacta. As florestas viram quase indestrutíveis de acordo com a definição das Nações Unidas. Uma floresta, ou uma plantação pode ser cortada rente e continuar sendo uma floresta. Os cortes rentes são “áreas, que normalmente fazem parte da área de floresta, que ficam desprovidas temporalmente em decorrência de intervenção humana.” Com apenas três meses por diante até as negociações das Nações Unidas sobre o clima, a serem realizadas em dezembro em Copenhague, a UNFCCC ainda não têm convencionado uma definição de degradação florestal. Esse não é apenas um assunto teórico. A Asia Pulp and Paper, para escolher um exemplo particularmente egrégio, tem destruído vastas áreas de floresta em Sumatra. No entanto, de acordo com a definição de “florestas” das Nações Unidas, ela não tem causado qualquer desmatamento. A APP poderia até beneficiar-se com os pagamentos de REDD, em vez de ser responsabilizada pelo dano que já tem causado. A resposta a essa mentira é simples: As plantações não são florestas e de nenhum jeito podem ajudar a lidar com a mudança climática. Mito nº 15: A plantação de árvores para produzir biochar pode contribuir para mitigar a mudança climática Uma coalizão de novas empresas, consultores e alguns cientistas do solo está promovendo uma nova “solução” para a mudança climática: a transformação de grandes quantidades de madeira e outros tipos de biomassa em carvão vegetal de grão fino (eufemisticamente chamado biochar) e sua aplicação nos solos agrícolas. É preocupante que os defensores, que estão organizados na Iniciativa Internacional Biochar, afirmem que o carbono no carvão vegetal permanece no solo durante milhares de anos e ‘compense’ a queima de combustíveis fósseis, bem como que o carvão vegetal fará que os solos sejam mais férteis. Eles classificam todos os tipos de biomassa como ‘carbono neutral’, tanto se provém de plantações de árvores quanto da eliminação de vastas áreas de terras agrícolas e de resíduos florestais. Nenhuma das afirmações tem sido provada: • Os impactos climáticos do carvão vegetal não estão integralmente entendidos e podem ser negativos, inclusive em pequena escala. • O carvão vegetal per se não é um fertilizante. Os agricultores indígenas o combinaram exitosamente com resíduos orgânicos para conseguir que alguns solos fossem mais férteis; mas a proposta dos defensores do biochar exigirá vastas áreas de terras que devem ser despojadas de lavouras e resíduos florestais para produzir carvão vegetal, um processo bem diferente. A eliminação em grande escala dos resíduos esgota os solos e faz que sejam mais propensos à erosão bem como faz com que as florestas sejam mais vulneráveis e menos biodiversas. Também consolidaria a dependência de fertilizantes a base de combustíveis fósseis porque os resíduos já não serão devolvidos ao solo. • A possibilidade de poluição do solo e do ar não foi abordada e poderia ser séria. Não há nenhuma quantidade de resíduos que possa produzir as quantidades de carvão vegetal que se argumenta. A madeira produz mais carvão vegetal do que outros tipos de biomassa e seriam necessárias grandes quantidades baratas. As plantações industriais de árvores são a mais provável fonte de biochar em grande escala. As afirmações sobre uma ‘possibilidade’ de bilhões de toneladas de biochar depende da falsa idéia de que há vastas áreas de terras agrícolas ‘abandonadas’ que poderiam ser apropriadas, como se as comunidades, a biodiversidade e o clima não dependessem da terra ainda sem monoculturas. Os mesmos argumentos têm sido usados para justificar a designação e apropriação de grandes áreas de pastagens, terras comunitárias e florestas, com conseqüências desastrosas para as comunidades e também para o clima, já que grandes volumes de carbono são liberados quando as árvores e outra vegetação são extraídas e o solo é lavrado, e quando as outras atividades agrícolas das comunidades são empurradas para dentro das florestas remanescentes. Além disso, as propostas para incluir o biochar no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) da Convenção sobre Mudança Climática não estão limitadas a ‘resíduos’. A primeira metodologia no âmbito do MDL para plantações de árvores para carvão vegetal já tem sido aprovada- para a Plantar em Minas Gerais, Brasil. Aplica-se ao carvão vegetal como combustível, mas se as propostas dos defensores do biochar vingarem, podemos esperar muitas mais monoculturas de eucaliptos e de outras espécies para carvão vegetal, o que significa uma maior apropriação de terras para os povos indígenas e camponeses nos países do Sul.

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