domingo, 9 de abril de 2017

Usar águas residuais é prática de famílias agricultoras do Semiárido

Uso de águas residuais é prática antiga das famílias agricultoras do Semiárido.
As famílias agricultoras do Semiárido brasileiro têm muito a ensinar sobre o tema escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o Dia Mundial da Água deste ano: águas residuais – ou água servida, no jeito de falar das agricultoras e agricultores da Paraíba. Atualmente, 80% das águas utilizadas são descartadas na natureza. Se fossem reaproveitadas, a necessidade pela água potável diminuiria, assim como seria reduzido também o volume de esgoto lançado nos rios, lagos, mares.
Naturais de uma região com um regime de chuva irregular e cada vez mais afetada pelas mudanças climáticas, as famílias agricultoras precisam da água não só para beber e para o uso doméstico. A água é fundamental para cultivarem seu alimento, que também nutre outras tantas famílias suas freguesas nas feiras ou na própria comunidade. Com acesso regrado ao recurso essencial à vida, as famílias agricultoras sabem muito bem usar várias vezes a mesma água, sem desperdiçar nenhuma gota.
“Na região, as pessoas já trazem culturalmente esta prática pela dificuldade de acesso à água. Quando elas passam a ter acesso à água, através das cisternas, elas qualificam ainda mais esta prática devido à autonomia que ganham no uso do recurso”, comenta marcos Jacinto, da coordenação executiva da ASA pelo estado do Ceará.

Da necessidade, surgiram formas criativas e de fácil aplicação para o reaproveitamento de cada gota d´água que chega às propriedades das famílias rurais do Semiárido. Uma delas, conhecida como caminho das águas, é cavar valas no terreno dos quintais das casas para que o líquido que escorre das pias e tanques alcance as raízes das fruteiras.
“Sempre aproveitei a água que a gente usa em casa. Mesmo com a chegada das cisternas, eu tenho cuidado pra não destruir a água. Porque eu já sofri com falta de água e a água era ruim, mas criava as verduras!”, contou a agricultora Eunice Dantas, conhecida como dona Nicinha, no boletim O Candeeiro, um instrumento de sistematização e comunicação popular que a ASA utiliza para contar as histórias de vida dos agricultores e agricultoras.
Com um pouco mais de estrutura, as valas no chão são substituídas por canos e duas caixas filtram a água antes de ser despejada nas plantas. Essa tecnologia, conhecida como bioágua, é muito difundida no Rio Grande e Pernambuco, por exemplo. A primeira caixa tem camadas intercaladas de brita grossa e fina com areia que retiram os resíduos da água. E a segunda, recebe a água filtrada, antes de gotejar nas plantas. É assim na propriedade de seu Antônio e dona Marlene Magalhães, do Sitio Carnaubinha, em Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, há 6 anos.
“Antes, a água do banho e da pia corria para o terreiro. No tempo das chuvas, criava lodo que fazia desgosto. Hoje, essa água está molhando as plantas que tinha que ser aguada por outra água. Se nós vamos escovar os dentes, a água termina nas plantas. Não desperdiçamos nenhum copo de água”, conta seu Antônio. Essa água, na verdade, é que está salvando os pés de fruta que alimentam a família. Mesmo assim, algumas mangueiras e goiabeiras sucumbiram à pior seca do século que, desde 2013, tem secado o açude perto da casa deles. Segundo seu Antônio, essa é a primeira vez que ele vê o açude sem água. (ecodebate)

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