O que preocupa não é apenas o degelo cada vez mais
rápido, sintoma evidente de uma mudança de época, mas também a lentidão dos governos
em adotar medidas adequadas à rápida evolução desse preocupante cenário.
No
último mês de agosto foi novamente Greta Thunberg quem reiterou, em carta
conjunta com duas outras militantes “juniores” como ela, como o mundo está,
apesar de tudo, “em uma fase de negação da crise climática”.
Thunberg
é uma garota, e é também por isso que ela diz uma coisa muito simples: nos
últimos trinta anos, a ciência tem sido “cristalina” sobre nossa
responsabilidade preeminente pelo que está acontecendo. Mas “as soluções de que
precisamos”, gritou com a voz quebrada a jovem, “não estão chegando a lugar
nenhum”.
O
que realmente não entendemos sobre a crise climática? De muitos lugares, não só
daqueles de um dos maiores movimentos de mobilização civil da história, continuam
a chegar avisos e confirmações sobre o que está acontecendo, mas uma possível
solução parece carecer do envolvimento ativo de dois sujeitos fundamentais: em
primeiro lugar, todos os governos, depois os indivíduos, com seus
comportamentos individuais.
Enquanto isso, as iniciativas de divulgação permanente se multiplicam: interessante é aquela lançada pelo The New York Times, que em sua seção Clima oferece uma página com dezessete perguntas sobre essa “verdade incômoda”, como foi chamada: a mudança climática é complexa, descreve o título, e temos respostas muito simples.
Apesar dos esforços anteriores de Al Gore e de muitas iniciativas atuais, como a do Times, os Estados Unidos não participaram da Cúpula da Ação Climática em Nova York em setembro de 2019 e a aparição zombeteira de Donald Trump, que durou apenas dez minutos, só exasperou ainda mais o ânimo já estressado daquela que é provavelmente a cidadã sueca mais famosa do mundo.
Há
poucos dias, os EUA, país responsável por 14% das emissões globais que alteram
o clima, saíram formalmente do frágil acordo de Paris (COP25), decisão tomada
pelo governo Trump em dezembro do ano passado. Joe Biden prometeu voltar, mas
teremos de esperar vários meses.
Como
sugere a página do The New York Times, a coisa mais imediata a fazer é
conversar sobre isso com as outras pessoas. Os especialistas, explica o texto,
dizem que o problema só pode ser resolvido com uma ação em grande escala,
coletiva.
Se
for percebida a urgência de uma solução, deve ser encaminhada envolvendo também
aqueles que nos rodeiam. Quem ficaria em silêncio diante de um incêndio?
Mas
a questão permanece: o que não entendemos sobre a crise climática?
“Acredito
que na base esteja uma falta de consciência sobre nosso ecossistema em geral,
não apenas sobre teorias atmosféricas complexas, mas, precisamente, sobre o
funcionamento de nosso mundo”, disse o meteorologista Federico Grazzini, autor
de Fa un pò caldo (Está um pouco quente, em tradução livre) com o físico Sergio
Rossi.
Concebido
para crianças, mas também útil para adultos, o livro parte da primeira
descoberta desse fenômeno para chegar à desestabilização muito rápida da
atmosfera em que estamos vivendo, oferecendo respostas simples, úteis também
para os adultos.
“É algo que noto também em meus colegas, até mesmo especialistas em outras áreas de pesquisa, mas ainda assim cientistas”, continua Grazzini. “Muitas vezes me perguntam: ‘É realmente tão ruim assim?’ Infelizmente, a resposta é sim. Acredito que, por exemplo, falte na mídia a capacidade de reunir todas as várias peças da crise climática, que certamente é complexa de entender, mais ainda que ameaçadora. Depois, há outro aspecto mais imediato. Uma sociedade como a nossa, em sua maioria urbana, perdeu um importante elemento de contato autêntico com a natureza, o que de alguma forma dificulta a compreensão do que está acontecendo. Para um agricultor é diferente”.
“Todos os indicadores que estamos observando, desde a extensão das geleiras no Ártico até o aumento das ondas de calor, são coerentes em confirmar não apenas o aquecimento global em si, mas a aceleração dramática do fenômeno. Uma vez que todo o gelo ártico tenha desaparecido, estamos falando de algumas décadas, tempos muito curtos, iremos rumo a um cenário que não conhecemos em detalhes; entretanto, sabemos que certamente será algo pouco reconfortante”.
A
pergunta seguinte surge espontaneamente, talvez mais adequada às competências
de um psicólogo do que de um meteorologista: por que algumas pessoas negam os
resultados científicos que demonstram a atual crise climática?
Grazzini
continua:
“A
pandemia oferece muitas sugestões de reflexão sobre a prioridade que a questão
ambiental deveria ter. O Vale do Pó, por exemplo, está muito sujeito à
estagnação de poluentes, devido a condições típicas, normais. Quando há alta
pressão, o ar fica estagnado por muito tempo: deveríamos, portanto, ser mais
cuidadosos do que os outros e emitir menos poluentes, porque vivemos em um
lugar desfavorecido. Além disso, a crise climática tende a prolongar cada vez
mais os períodos de alta pressão. Teremos, portanto, que fazer um esforço ainda
maior para purificar nosso ar no inverno, bem como no verão, onde outros
fenômenos entram em jogo; mas as respostas devem ser dadas imediatamente,
agora. A pandemia mostrou que, quando paramos de nos mover de forma muitas
vezes desnecessária, a poluição diminui substancialmente, no Vale do Pó como em
outros lugares. Todos os elementos que temos parecem dizer: qual a vantagem de
continuar usufruindo do que chamamos de bem-estar, se depois falta saúde?”
conclui Grazzini.





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