Biodiversidade em risco e
perda de serviços ecossistêmicos
Cerrado é considerado um dos
hotspots mundiais de biodiversidade, abrigando milhares de espécies de plantas,
animais e microrganismos, muitas delas endêmicas e ainda pouco conhecidas pela
ciência. No entanto, a rápida transformação do bioma tem levado à extinção de
espécies antes mesmo de serem formalmente descritas, evidenciando a gravidade
do processo de erosão genética e ecológica (Leno, 2025; ISPN, 2025). Essa perda
compromete não apenas a diversidade biológica, mas também a integridade de
processos ecológicos fundamentais.
A formação savânica foi a
mais impactada, com redução de 26,1 milhões de hectares em quarenta anos. A
pressão sobre a água também é expressiva, com retração de superfícies naturais
e aumento de espelhos d’água artificiais. Em 2024, 60,4% da água mapeada no
bioma tinha origem antrópica, como hidrelétricas, reservatórios e aquicultura e
a maior parte das bacias registrou perdas de superfície de água natural
(-27,8%), o que compromete a recarga e a estabilidade hídrica regional.
(Custódio, 2025)
A perda de cobertura vegetal
também tem ampliado a fragmentação dos ecossistemas e a vulnerabilidade a
eventos climáticos extremos. Especialistas alertam que a degradação do Cerrado
interfere na recarga de aquíferos, altera o fluxo de chuvas e aumenta o risco
de secas prolongadas, com impactos diretos sobre a agricultura e o
abastecimento de água no país (Sinimbú, 2025).
Estudos recentes da
Universidade Federal de Goiás revelam que a perda de biodiversidade no Cerrado
é ainda mais grave, do que se imaginava, pois, muitas espécies estão
desaparecendo antes mesmo de serem conhecidas pela ciência (Silveira et al,
2025). Esse processo de extinção silenciosa compromete o patrimônio genético e
ecológico do bioma, eliminando formas de vida que poderiam desempenhar funções
essenciais para o equilíbrio ambiental. A destruição de habitats reduz as
possibilidades de novas descobertas científicas e enfraquece a capacidade do
Cerrado de sustentar processos evolutivos e ecológicos em longo prazo.
O impacto do desmatamento
também se revela na situação de espécies emblemáticas, como o lobo-guará
(Chrysocyon brachyurus). Considerado símbolo do Cerrado, esse canídeo tem
perdido extensas áreas de habitat, o que o obriga a buscar refúgio em regiões
onde não encontra condições adequadas para viver. A devastação do bioma tem
transformado o lobo-guará em uma espécie de “refugiado ambiental”, revelando de
forma dramática como a destruição de ecossistemas empurra a fauna para
situações de vulnerabilidade extrema e aumenta os riscos de conflitos com
atividades humanas (Azevedo, 2025).
Entre os serviços
ecossistêmicos ameaçados, destaca-se o papel do Cerrado como “caixa d’água do
Brasil”. O bioma abriga aquíferos e nascentes que alimentam oito das doze
grandes bacias hidrográficas do país, funcionando como regulador dos ciclos
hídricos em escala continental (AGB, 2024; Albuquerque et al, 2024). O avanço
do desmatamento altera a infiltração de água no solo, reduz a disponibilidade
hídrica e compromete a estabilidade do regime de chuvas, o que afeta tanto a
agricultura quanto o abastecimento urbano. Esse desequilíbrio hídrico amplia a
vulnerabilidade de populações humanas diante de secas prolongadas e eventos
extremos, cada vez mais intensificados pelas mudanças climáticas (Moreno,
2025).
Outro
elemento central é a relação entre a destruição do Cerrado e o agravamento do
aquecimento global. A supressão da vegetação nativa libera grandes quantidades
de carbono armazenado no solo e na biomassa, contribuindo para as emissões
nacionais de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, a degradação das áreas naturais
reduz a capacidade do bioma de atuar como sumidouro de carbono, diminuindo seu
potencial de mitigação climática (Mendes & Batista,2024; Cortinhas, 2025).
Essa combinação de perda de biodiversidade, comprometimento hídrico e emissões
de carbono coloca o Cerrado no centro das discussões sobre a crise
socioambiental contemporânea.
Cerrado supera Amazônia como
bioma mais desmatado no país em 2023; índice nacional cai 11,6% em um ano.
MapBiomas aponta que o Brasil
perdeu 8,5 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 5 anos, o
equivalente a 2 vezes o Estado do Rio de Janeiro.
Comunidades tradicionais e
conflitos socioambientais
A devastação do Cerrado não
afeta apenas a biodiversidade, mas também impacta diretamente os modos de vida
de povos indígenas, comunidades quilombolas e agricultores familiares que
dependem do bioma para sua subsistência. Essas populações enfrentam violações
sistemáticas de direitos humanos, que vão desde a perda de acesso a recursos
naturais até a violência física contra lideranças locais.
A pressão territorial se
intensifica pelo avanço de grandes empreendimentos de monocultura e de
infraestrutura, que frequentemente ignoram consultas às populações locais e
desconsideram a importância cultural e ambiental de seus territórios. Tais
processos acentuam desigualdades históricas e colocam comunidades em situação
de vulnerabilidade socioeconômica, ao mesmo tempo em que destroem práticas
tradicionais de uso sustentável da terra, essenciais para a conservação do
bioma (BRASIL, 2023; Pati & Yamamoto, 2025)).
Exemplos concretos demonstram
a gravidade desses conflitos. No oeste da Bahia, uma missão do Conselho
Nacional de Direitos Humanos identificou graves violações resultantes da
expansão do agronegócio, incluindo ameaças, intimidações e a expulsão de
famílias de seus territórios tradicionais (AATR, 2024). Já no Maranhão,
organizações da sociedade civil denunciaram a destruição socioambiental causada
pelo avanço da soja sobre comunidades camponesas, que têm perdido terras e meios
de subsistência frente ao poder econômico de grandes grupos (Bezerra, 2024).
Esses casos ilustram como a expansão da fronteira agrícola não apenas degrada o
ambiente, mas também aprofunda desigualdades sociais e viola direitos básicos.
Esse cenário de injustiça
socioambiental tem levado à resistência organizada dessas comunidades, muitas
vezes apoiadas por organizações da sociedade civil e redes de solidariedade.
Cartas públicas, denúncias e missões de órgãos nacionais e internacionais têm
exposto a gravidade das violações, chamando atenção para a necessidade de
políticas públicas que conciliem conservação ambiental com proteção dos
direitos humanos (Bezerra, 2024; Bataier, 2025; Oliveira, 2025). No entanto, a
assimetria de poder entre grandes agentes econômicos e populações locais ainda
dificulta a construção de soluções efetivas e justas para o futuro do Cerrado.
Além
das comunidades tradicionais, as terras indígenas desempenham papel essencial
na proteção da vegetação nativa e no controle do desmatamento. Estudos
demonstram que esses territórios funcionam como barreiras eficazes contra a
degradação ambiental e mantêm parcelas significativas de cobertura vegetal
original no Cerrado. Essa evidência reforça a importância de políticas que
reconheçam e fortaleçam a gestão indígena e comunitária do território como
estratégia de conservação e de enfrentamento das mudanças climáticas, aliando
proteção ambiental e justiça social. Dados recentes mostram que os territórios
indígenas preservam em média 97% de sua cobertura nativa no Cerrado, desempenho
semelhante ao de unidades de conservação e áreas militares, enquanto áreas
urbanas mantêm apenas 7% e imóveis rurais 45%. O contraste evidencia o papel
estratégico desses territórios para conter a perda de vegetação e proteger
serviços ecossistêmicos. (Custódio, 2025; Soares, 2025)

Políticas públicas e desafios
da governança
O enfrentamento do
desmatamento no Cerrado tem sido alvo de iniciativas governamentais desde o
início dos anos 2000, com destaque para o Plano de Ação para Prevenção e
Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado (PPCerrado). Atualmente em
sua quarta fase, o plano busca integrar ações de monitoramento, ordenamento
territorial, fomento a atividades produtivas sustentáveis e fortalecimento da
fiscalização (BRASIL, 2023). Apesar de representar um avanço em termos
institucionais, sua implementação enfrenta obstáculos relacionados à escassez
de recursos, à fragmentação das políticas ambientais e à pressão constante do
setor agropecuário (Mendes & Batista, 2024).
Nos últimos anos, indicadores
apontaram uma queda relativa nas taxas de desmatamento — em 2024, houve redução
de aproximadamente 33% em comparação ao ano anterior. No entanto, especialistas
alertam que esses números, embora positivos, não são suficientes para reverter
a tendência histórica de perda acumulada do bioma, que continua alarmante em
termos de área total devastada (Guaraldo, 2025). Esse paradoxo revela um dos
grandes dilemas da governança ambiental: avanços pontuais em determinados
períodos não são capazes de alterar de forma estrutural a lógica de expansão
agropecuária baseada na conversão de vegetação nativa.
Outro desafio reside na
regulação do chamado “desmatamento legal”, especialmente no MATOPIBA, onde
autorizações oficiais de supressão de vegetação têm permitido a destruição em
larga escala. Essa prática, amparada por brechas na legislação, enfraquece os
resultados de políticas de conservação e mina a credibilidade do Brasil em
compromissos internacionais. Além disso, a sobreposição de competências entre
diferentes esferas de governo e a ausência de uma governança integrada agravam
a dificuldade de monitorar e conter a degradação (CPI, 2024).
Apesar
de sinais de melhora, os alertas de desmatamento entre agosto/2024 e julho/2025
caíram 20,8% e ainda assim totalizaram 5.555 km2, o que indica
persistência de pressões elevadas sobre o bioma e a necessidade de reforço nas
ações de governança. (Sinimbú, 2025)
Sociedade civil, ciência e
articulações internacionais
A sociedade civil tem
desempenhado um papel fundamental na defesa do Cerrado. Diversas organizações e
redes, como a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Rede Cerrado, atuam na
denúncia de violações socioambientais, na mobilização de comunidades e na
formulação de propostas de conservação e uso sustentável (Bezerra, 2024;
Oliveira, 2025). Essas iniciativas têm sido importantes para dar visibilidade a
um bioma historicamente marginalizado nas políticas públicas e nos debates
internacionais.
A produção científica também
tem oferecido contribuições relevantes, indicando caminhos para a conservação.
Pesquisas mostram, por exemplo, o potencial das áreas privadas de conservação,
que poderiam preservar até 25% dos habitats naturais do Cerrado se adequadamente
regulamentadas e incentivadas. Programas de uso sustentável, desenvolvidos por
instituições de pesquisa e organizações ambientais, reforçam a viabilidade de
modelos produtivos que conciliem economia e conservação. Essas evidências
demonstram que existem alternativas ao modelo hegemônico de expansão
agropecuária, mas que dependem de apoio político e financeiro para serem
ampliadas (Schmidt, 2023). Essa constatação amplia o horizonte das políticas de
conservação, demonstrando que a proteção do bioma não depende apenas de áreas
públicas, mas também de um engajamento mais amplo de proprietários rurais,
universidades e instituições financeiras em iniciativas sustentáveis e de
restauração ecológica.
Entre as iniciativas mais
promissoras voltadas à recuperação do bioma, destaca-se o Programa Reverte
Cerrado, coordenado pela The Nature Conservancy (TNC) em parceria com
instituições públicas e privadas (TNC,2024). O programa promove a restauração
de áreas degradadas, incentiva boas práticas agropecuárias e busca conciliar
produção e conservação. Seus resultados apontam que é possível reduzir emissões
de carbono, recuperar biodiversidade e aumentar a produtividade agrícola por
meio de práticas integradas de manejo sustentável.
Outra iniciativa de destaque
é o Instituto Cerrados, organização da sociedade civil criada em 2011 que se
tornou referência na proteção e valorização do bioma. Com uma atuação que
integra ciência, tecnologia e participação social, a instituição vem
contribuindo para a criação de áreas protegidas e lidera a formação de Reservas
Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) no país. Também desenvolve projetos
de identificação e mapeamento de comunidades tradicionais, cujos dados
subsidiam políticas públicas conduzidas por órgãos federais. Paralelamente,
realiza ações de prevenção a incêndios e monitoramento do desmatamento,
utilizando sensoriamento remoto e brigadas locais. Ao articular conhecimento
técnico e saberes tradicionais, o Instituto fortalece a resiliência do Cerrado
e reforça sua importância para o equilíbrio ecológico e climático do Brasil
(IC, 2025).
Além
do âmbito nacional, há crescente articulação em arenas internacionais. Povos
indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado têm buscado inserir o bioma em
regulamentações globais, como as normas da União Europeia que tratam da
importação de commodities associadas ao desmatamento (Pati&Yamamoto, 2025).
Internacionalização da luta pelo Cerrado amplia as pressões sobre o Estado
brasileiro, mas também evidencia a necessidade de maior protagonismo do bioma
nas discussões multilaterais sobre clima e biodiversidade.
Cerrado e COP30: Oportunidade
ou invisibilidade?
A realização da COP30 em
Belém, no coração da Amazônia, tem gerado grande expectativa em torno da
projeção internacional do Brasil como ator estratégico nas negociações
climáticas. Entretanto, há o risco de que essa centralidade da Amazônia reforce
a histórica invisibilidade do Cerrado, apesar de sua relevância equivalente
para o equilíbrio ambiental e climático (Cortinhas, 2025). Essa assimetria
preocupa organizações e comunidades locais, que defendem que o bioma precisa
ter papel protagonista nos debates internacionais.
Nos últimos meses, povos
indígenas, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil têm se
mobilizado para inserir as demandas do Cerrado na pauta da COP30. Entre as
reivindicações, destacam-se a inclusão do bioma nos compromissos de redução do
desmatamento, o reconhecimento de seus serviços ecossistêmicos e a defesa de
políticas de financiamento voltadas para práticas produtivas sustentáveis no
território (Oliveira, 2025; Pati & Yamamoto, 2025). Essa mobilização amplia
a dimensão política do Cerrado, transformando-o em símbolo da luta por justiça
ambiental e climática.
O reconhecimento do Cerrado
como peça-chave da agenda climática global também depende do esforço do Estado
brasileiro em integrar o bioma às suas estratégias de governança ambiental.
Relatórios recentes já indicam a importância de valorizar o Cerrado em
negociações multilaterais, não apenas como fornecedor de commodities agrícolas,
mas como patrimônio ambiental que conecta biodiversidade, água, clima e modos
de vida (Moreno, 2025; Cortinhas, 2025). Se a COP30 representar um marco para
essa mudança de perspectiva, poderá contribuir para romper o ciclo de
invisibilidade histórica do Cerrado e consolidar sua centralidade nas
estratégias globais de enfrentamento à crise ambiental.
Apesar
desses esforços, o Cerrado ainda enfrenta o risco de permanecer em segundo
plano nas negociações. Esse contrassenso é evidente: trata-se do bioma mais
desmatado do Brasil, perdendo em apenas quatro décadas uma área duas vezes
maior que o Estado do Paraná (Custódio, 2025), e ao mesmo tempo é o que menos
recebe atenção em termos de financiamento e compromissos internacionais
(Bataier, 2025). O fato de povos e comunidades tradicionais estarem se
organizando para levar suas demandas diretamente à COP30 (Oliveira, 2025)
mostra que a disputa por visibilidade será um dos pontos cruciais da
conferência. Nesse sentido, reconhecer o Cerrado como bioma estratégico em
escala continental, responsável pela regulação de chuvas, pela recarga de
aquíferos e pelo abastecimento das principais bacias hidrográficas da América
do Sul, é condição indispensável para que a COP30 represente um marco de
justiça climática e socioambiental. Mais do que corrigir a histórica
invisibilidade do bioma, trata-se de afirmar sua centralidade para o equilíbrio
climático global e para a sobrevivência de populações humanas e não humanas que
dependem diretamente de seus serviços ecossistêmicos.

Amazônia e Cerrado são os
biomas que mais sofrem com os desvarios destes nossos insanos governantes.
A análise evidencia que o
Cerrado ocupa uma posição paradoxal: é, ao mesmo tempo, um bioma vital para a
manutenção da biodiversidade, da água e do clima em escala continental, e
também o mais pressionado pela expansão agropecuária e pelas falhas na
governança ambiental. A devastação acelerada, que já resultou na perda de
dezenas de milhões de hectares, coloca em risco tanto espécies únicas quanto
comunidades que dependem de seus recursos para sobreviver.
Os esforços de políticas
públicas, embora relevantes em alguns momentos, têm se mostrado insuficientes
diante da magnitude da destruição. As contradições em torno do “desmatamento
legal” e as fragilidades institucionais revelam que avanços pontuais não são
capazes de alterar estruturalmente a lógica de exploração predatória que ameaça
o bioma. Ao mesmo tempo, a resistência das comunidades tradicionais, o trabalho
da sociedade civil e as contribuições da ciência demonstram que existem
alternativas de conservação e uso sustentável que precisam ser fortalecidas.
Nesse
contexto, a COP30 surge como grande oportunidade para romper a histórica
invisibilidade do Cerrado. O desafio não é apenas inserir o bioma na agenda
internacional, mas reposicioná-lo como elemento central das estratégias globais
de enfrentamento da crise ambiental. Reconhecer o Cerrado como patrimônio
estratégico – pela biodiversidade que abriga, pela água que distribui e pelo
papel que desempenha na regulação climática – é passo essencial para construir
um futuro de justiça socioambiental. Sem isso, qualquer avanço obtido em Belém
será parcial e insuficiente diante da urgência imposta pela devastação em
curso.
Cerrado, Amazônia e Pantanal
foram alguns dos biomas afetados
COP30 e o desmatamento na
Amazônia e Cerrado
As consequências apontam para
o ponto de não retorno da floresta, maior hotspot de risco ambiental planetário
na América do Sul. (ecodebate)