sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Derretimento da criosfera acelera e ameaça ecossistemas globais

Ações urgentes e risco de irreversibilidade

Em suma, as mudanças na criosfera têm um impacto profundo e complexo nos ecossistemas globais. Cientistas envolvidos nos estudos alertam que a continuidade das atuais taxas de emissão coloca o planeta em risco de ultrapassar pontos de não retorno.
Gelo polar e geleiras perdem massa em todas as regiões; cientistas alertam que aquecimento de +1,5°C é excessivo e exigem ações climáticas imediatas.

O derretimento acelerado da criosfera — que engloba lençóis de gelo, geleiras e o descongelamento do permafrost — está gerando impactos rápidos, irreversíveis e desastrosos em todo o mundo.

A criosfera é, inclusive, considerada o “canário na mina de carvão” do sistema climático, indicando mudanças significativas que afetam os ecossistemas globais.

Relatórios científicos recentes, como o “Arctic Report Card” da NOAA e o “State of the Cryosphere 2024”, confirmam que o fenômeno se generalizou, com todas as regiões glaciais do planeta registrando redução de massa. Dados alarmantes mostram que o ritmo de derretimento das geleiras dobrou nas últimas duas décadas, contribuindo maciçamente para a elevação dos oceanos.

O aquecimento global, impulsionado pela emissão de gases de efeito estufa, é o principal responsável por essa aceleração.

Os impactos das alterações climáticas na criosfera têm vindo a acelerar

Ameaça irreversível ao nível do mar

A perda de massa das vastas camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida quadruplicou desde a década de 1990, tornando-se o motor principal do aumento do nível médio global do mar. A contribuição dessas calotas polares já supera a das geleiras de montanha.

O aumento do nível do mar é uma das consequências mais significativas, impactando dramaticamente as zonas costeiras. A manutenção do ritmo atual de aquecimento pode comprometer severamente ecossistemas costeiros, infraestruturas urbanas e a segurança de milhões de pessoas em todo o mundo.

Cientistas alertam que a meta internacional de limitar o aquecimento a +1,5 °C acima dos níveis pré-industriais é insuficiente e excessiva. O estudo aponta que, mesmo o aquecimento atual, em torno de +1,2 °C, já configura um risco extremo e tem potencial para desencadear um aumento de vários metros no nível do mar ao longo do tempo. Para mitigar esses impactos, sugere-se que a temperatura média global seja estabilizada em um patamar mais próximo de +1 °C.

Além disso, o derretimento dessas vastas camadas de gelo pode estar desacelerando correntes oceânicas importantes nos dois polos. Essa desaceleração tem consequências potencialmente graves, incluindo um norte da Europa mais frio e um aumento do nível do mar ao longo da costa leste dos EUA. O derretimento acelerado no Ártico, por exemplo, tem o potencial de desencadear o colapso da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), crucial para a distribuição de calor no planeta.

Fim das geleiras

O Ártico em “novo regime” e o risco do permafrost

O Ártico é uma região particularmente sensível, aquecendo três vezes mais rápido do que a média global. Relatórios indicam que a região está entrando em um “novo regime”, com alterações dramáticas em comparação com décadas anteriores. As temperaturas anuais do ar na superfície do Ártico (entre outubro de 2023 e setembro de 2024) foram as segundas mais altas desde 1900.

As previsões são sombrias: modelos climáticos sugerem que o Ártico pode experimentar seu primeiro verão sem gelo marinho já em 2027. A perda de gelo nessa região ameaça ecossistemas e espécies, como os ursos polares, cuja população pode ter um terço extinto nos próximos 50 anos devido à redução do território de caça e reprodução.

Outra preocupação urgente é o permafrost. O permafrost, encontrado em regiões como a tundra ártica, armazena cerca de duas vezes mais carbono do que a atmosfera hoje. O seu aquecimento está levando à liberação desse carbono, agravando as mudanças climáticas. O permafrost das montanhas, que representa 30% da área global, também é extremamente sensível, com taxas de aquecimento a 10 metros de profundidade excedendo 1°C por década em várias montanhas europeias entre 2013 e 2022.

O recorde de degelo da Antártida pode ser o fim das praias do Rio de Janeiro/RJ.

Crise de recursos hídricos

O derretimento acelerado também tem um impacto direto nos recursos hídricos globais. Cerca de 70% da água doce da Terra está armazenada em geleiras e lençóis de gelo. A perda de massa das geleiras atingiu um aumento alarmante, com uma perda coletiva de mais de 600 gigatoneladas de água em 2023, o que equivale a cerca de 13% do consumo anual de água do mundo.

A redução a longo prazo da água armazenada como gelo afetará criticamente os futuros recursos hídricos para ecossistemas e comunidades, especialmente aquelas que dependem do degelo sazonal, como em partes da Ásia e da América do Sul. A urgência dessa situação levou à declaração de 2025 como o Ano Internacional da Preservação das Geleiras.

Ações urgentes e risco de irreversibilidade

Em suma, as mudanças na criosfera têm um impacto profundo e complexo nos ecossistemas globais.

Cientistas envolvidos nos estudos alertam que a continuidade das atuais taxas de emissão coloca o planeta em risco de ultrapassar pontos de não retorno. Se o aumento da temperatura global ultrapassar os 2°C a longo prazo, as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica podem atingir pontos de inflexão, levando a um derretimento irreversível.

Tais conclusões destacam a urgência de reduzir drasticamente as emissões de combustíveis fósseis e adaptar as comunidades a estas novas realidades. A transição para fontes de energia renovável e a implementação de políticas ambientais rigorosas são essenciais. Além disso, os relatórios apontam a importância do conhecimento indígena na adaptação às mudanças climáticas no Ártico.

A janela para evitar danos irreversíveis está se fechando rapidamente, e o futuro depende de uma resposta rápida e decisiva às evidências científicas.
Derretimento precoce do Ártico ameaça os ecossistemas, que podem entrar em colapso

O derretimento dos polos vai alterar a circulação do oceano, ameaçando a biodiversidade e afetando cadeias alimentares e ecossistemas inteiros. (ecodebate)

Novas metas climáticas da China para 2035

Em setembro, o presidente Xi Jinping anunciou a primeira meta absoluta de redução de emissões da história chinesa — entre 7% e 10% até 2035, em relação ao pico projetado. Essa diretriz deverá trazer ao Plano Quinquenal metas mais rigorosas, mecanismos de responsabilização regionais e integração tecnológica.

A China se tornou a nação mais poluidora do mundo. Até 1980, a China emitia muito menos do que os EUA ou a União Europeia. Mas o rápido crescimento demográfico e econômico fez a China superar as emissões da União Europeia por volta do ano 2000 e cinco anos depois superar as emissões dos EUA.

Atualmente, as emissões de carbono da China superam as dos EUA e da União Europeia em conjunto, conforme o gráfico abaixo.
As emissões de carbono da China superam as dos EUA e da União Europeia em conjunto

Porém, o período de crescimento das emissões anuais de carbono da China já ficou para trás. O artigo “Clean energy just put China’s CO2 emissions into reverse for first time” (Lauri Myllyvirta, 15/05/2025), publicado no CarbonBrief, mostra que, pela primeira vez, o crescimento da geração de energia limpa na China fez com que as emissões de dióxido de carbono (CO2) do país caíssem, apesar do rápido crescimento da demanda por energia. A análise dos últimos dados mostra que as emissões da China caíram 1,6% em relação ao ano anterior no primeiro trimestre de 2025 e 1% nos últimos 12 meses.

O crescimento da geração de energia limpa ultrapassou o crescimento médio atual e de longo prazo da demanda por eletricidade, reduzindo o uso de combustíveis fósseis.

As emissões do setor energético caíram 2% em relação ao ano anterior nos 12 meses até março de 2025. Se esse padrão se mantiver, isso anunciará um pico e um declínio sustentado nas emissões do setor energético da China. A tendência de queda nas emissões do setor energético provavelmente continuará em 2025, conforme mostra o gráfico abaixo:

Em 24/09/2025 a China anunciou a nova meta climática do país, conhecida como Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC na sigla em inglês), prometendo reduzir as emissões de CO2 em até 10% e ampliar a energia limpa para 30%. O presidente Xi Jinping apresentou o plano do país na ONU e defendeu uma “sociedade climaticamente adaptável”.

O líder chinês afirmou que a nação se compromete em reduzir as emissões de gases de efeito estufa entre 7% e 10% até 2035, expandir as fontes de energia não fósseis para 30% da matriz (o que representa 6 vezes mais do que em 2020) e ampliar a capacidade instalada de usinas eólicas e solares em 3.000 gigawatts. O volume de reservas florestais ultrapassará 24 bilhões m3. Os veículos de novas energias se tornarão predominantes entre os novos carros vendidos e o mercado nacional de comércio de carbono cobrirá os principais setores de alta emissão.

Evidentemente, o pico das emissões da China, a redução das emissões, a grande ampliação das energias renováveis e a restauração florestal são boas notícias vindas do país que mais contribui para a concentração de gases de efeito estufa e para a aceleração do aquecimento global.

Todavia, as metas climáticas da China deveriam e poderiam ser mais amplas. Vários críticos mostraram que as novas metas são tímidas. O aumento dos gastos militares contribui para a continuidade das emissões de CO2. De fato, o esforço na redução das emissões poderia ser mais efetivo.

Contudo, diante do quadro de aumento do negacionismo climático e diante das políticas antiambientais implementadas pelo presidente Donald Trump, as novas metas climáticas da China vão no sentido correto e o esforço na produção de energia renovável contribui para a descarbonização global.

Como mostrei no artigo “As transições demográfica e energética reduziram as emissões de carbono na China”, publicado aqui no Portal Ecodebate (Alves, 17/09/2025), o gigante asiático está conseguindo reverter as tendências passadas das emissões de gases de efeito estufa e, neste esforço, a transição demográfica e a transição energética são 2 vetores essenciais para que a China reduza suas emissões de carbono e diminua o enorme déficit ambiental.
China planeja reduzir emissões de carbono em até 10% até 2035 em nova meta ambiental, comparado aos níveis atuais, (considerando o pico previsto para 2030). Essa estratégia se insere num contexto mais amplo de compromisso com a sustentabilidade, com um olhar voltado para o futuro. (ecodebate)

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O Cerrado à sombra da Amazônia na COP30

O Cerrado à sombra da Amazônia na COP30: um bioma vital muitas vezes esquecido.
A grande questão permanece: o Cerrado será ignorado mais uma vez?

O mundo enfrenta uma crise ambiental sem precedentes. Secas prolongadas, enchentes severas e eventos extremos cada vez mais frequentes revelam o esgotamento de um modelo de desenvolvimento que ignora os limites ecológicos do planeta.

No Brasil, essa crise encontra uma expressão emblemática no Cerrado, um bioma de relevância continental, essencial para a regulação das chuvas, o abastecimento dos aquíferos e a estabilidade climática da América do Sul.

Nas últimas quatro décadas, o Cerrado perdeu quase um terço de sua vegetação nativa, resultado do avanço acelerado da agropecuária e da expansão desordenada de monoculturas. Essa transformação não apenas ameaça a biodiversidade, mas também compromete o modo de vida de comunidades tradicionais e a segurança hídrica de amplas regiões do país. A continuidade desse processo coloca em risco a capacidade do Brasil de cumprir seus compromissos ambientais e climáticos.

Às vésperas da COP30, torna-se indispensável recolocar o Cerrado no centro da agenda ambiental brasileira e internacional.

Este artigo analisa as principais ameaças que incidem sobre o bioma, os interesses econômicos e sociais em disputa e as perspectivas que se abrem para sua conservação. Mais do que denunciar um quadro de degradação, o texto propõe que o Cerrado seja reconhecido como um pilar estratégico na construção de políticas públicas que unam justiça social, proteção ambiental e mitigação da crise climática.

O Cerrado, reconhecido como o segundo maior bioma do Brasil e um dos mais ricos em biodiversidade do planeta, ocupa cerca de 24% do território nacional e é considerado um hotspot mundial de diversidade biológica. Além de abrigar inúmeras espécies endêmicas, o bioma desempenha um papel estratégico para o equilíbrio climático e a segurança hídrica, sendo berço de grandes bacias hidrográficas que abastecem diferentes regiões do país e da América do Sul (de Medeiros et al 2024). No entanto, sua importância contrasta com a invisibilidade política que frequentemente o acompanha, tanto nas agendas nacionais quanto nas internacionais, o que tem contribuído para sua crescente vulnerabilidade.

Nas últimas décadas, o Cerrado tem sofrido intensas transformações resultantes da expansão da fronteira agrícola, em especial no MATOPIBA — região que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, onde o avanço da soja, da pecuária e de outros cultivos se concentra de forma acelerada (Bataier, 2025). Essa dinâmica coloca em risco não apenas a biodiversidade, mas também a sobrevivência de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares que dependem diretamente do bioma para sua subsistência.

A relevância do Cerrado transcende as fronteiras nacionais. Sua conservação está intrinsecamente ligada à mitigação das mudanças climáticas e à manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação hídrica e a estabilidade do regime de chuvas (AGB,2024; Moreno, 2025). A devastação contínua do bioma compromete a capacidade do Brasil de cumprir suas metas ambientais e climáticas, ampliando os desafios para a governança global. Nesse contexto, a COP30, que será realizada em Belém, representa uma ótima oportunidade para reposicionar o Cerrado no centro das discussões ambientais internacionais, ao lado da Amazônia e de outros ecossistemas estratégicos.
Escalada do desmatamento e suas múltiplas faces

Desmatamento cresce no Cerrado e supera Amazônia

O Cerrado é hoje o bioma mais pressionado pelo desmatamento. Nas últimas quatro décadas, perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, equivalentes a 28% de sua cobertura original. Hoje, 51,2% do bioma mantém vegetação nativa e 47,9% já está sob uso humano. Atualmente, o Cerrado apresenta 24,1% de seu território ocupado por pastagens e 49% da produção de soja nacional. Essa expansão ocorreu de forma concentrada no Matopiba que respondeu por 39% da perda líquida desde 1985 e concentrou 73% da supressão da última década, quando a agricultura cresceu 533% e um quarto dos municípios passou a ter menos de 20% de cobertura nativa (Custódio, 2025). Essa transformação em larga escala decorre, sobretudo, da expansão da agropecuária voltada para commodities, em especial a pecuária bovina, que continuam a avançar de forma significativa sobre áreas de vegetação natural.

A região do MATOPIBA tem se consolidado como epicentro desse processo. Ali se concentram alguns dos maiores índices de supressão de vegetação nativa, muitas vezes amparados por autorizações legais de desmatamento, o que expõe uma das contradições mais graves da política ambiental brasileira: o chamado “desmatamento legal”. Mesmo quando realizado com autorização, esse tipo de supressão compromete ecossistemas frágeis, coloca em risco a biodiversidade e compromete serviços ecossistêmicos vitais (CPI, 2024). A flexibilização da regulação ambiental e a fragilidade da governança territorial agravam o quadro, tornando difícil conter a perda acelerada de habitats.

Outro aspecto preocupante é que o desmatamento não se limita a áreas privadas de expansão agrícola. Monitoramentos recentes mostram que ele também avança em territórios protegidos, como unidades de conservação e terras indígenas, revelando falhas de fiscalização e de efetividade na implementação das políticas de conservação (Leno, 2025; MAPBIOMAS, 2024). Essa realidade aponta para um cenário em que, mesmo com alguns avanços pontuais, como a queda de 33% no desmatamento em 2024, a área total devastada continua significativa e insuficientemente enfrentada pelas medidas oficiais (Guaraldo, 2025; BRASIL, 2023).
Agropecuária no Cerrado e na Amazônia reduz a biodiversidade

Biodiversidade em risco e perda de serviços ecossistêmicos

Cerrado é considerado um dos hotspots mundiais de biodiversidade, abrigando milhares de espécies de plantas, animais e microrganismos, muitas delas endêmicas e ainda pouco conhecidas pela ciência. No entanto, a rápida transformação do bioma tem levado à extinção de espécies antes mesmo de serem formalmente descritas, evidenciando a gravidade do processo de erosão genética e ecológica (Leno, 2025; ISPN, 2025). Essa perda compromete não apenas a diversidade biológica, mas também a integridade de processos ecológicos fundamentais.

A formação savânica foi a mais impactada, com redução de 26,1 milhões de hectares em quarenta anos. A pressão sobre a água também é expressiva, com retração de superfícies naturais e aumento de espelhos d’água artificiais. Em 2024, 60,4% da água mapeada no bioma tinha origem antrópica, como hidrelétricas, reservatórios e aquicultura e a maior parte das bacias registrou perdas de superfície de água natural (-27,8%), o que compromete a recarga e a estabilidade hídrica regional. (Custódio, 2025)

A perda de cobertura vegetal também tem ampliado a fragmentação dos ecossistemas e a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. Especialistas alertam que a degradação do Cerrado interfere na recarga de aquíferos, altera o fluxo de chuvas e aumenta o risco de secas prolongadas, com impactos diretos sobre a agricultura e o abastecimento de água no país (Sinimbú, 2025).

Estudos recentes da Universidade Federal de Goiás revelam que a perda de biodiversidade no Cerrado é ainda mais grave, do que se imaginava, pois, muitas espécies estão desaparecendo antes mesmo de serem conhecidas pela ciência (Silveira et al, 2025). Esse processo de extinção silenciosa compromete o patrimônio genético e ecológico do bioma, eliminando formas de vida que poderiam desempenhar funções essenciais para o equilíbrio ambiental. A destruição de habitats reduz as possibilidades de novas descobertas científicas e enfraquece a capacidade do Cerrado de sustentar processos evolutivos e ecológicos em longo prazo.

O impacto do desmatamento também se revela na situação de espécies emblemáticas, como o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Considerado símbolo do Cerrado, esse canídeo tem perdido extensas áreas de habitat, o que o obriga a buscar refúgio em regiões onde não encontra condições adequadas para viver. A devastação do bioma tem transformado o lobo-guará em uma espécie de “refugiado ambiental”, revelando de forma dramática como a destruição de ecossistemas empurra a fauna para situações de vulnerabilidade extrema e aumenta os riscos de conflitos com atividades humanas (Azevedo, 2025).

Entre os serviços ecossistêmicos ameaçados, destaca-se o papel do Cerrado como “caixa d’água do Brasil”. O bioma abriga aquíferos e nascentes que alimentam oito das doze grandes bacias hidrográficas do país, funcionando como regulador dos ciclos hídricos em escala continental (AGB, 2024; Albuquerque et al, 2024). O avanço do desmatamento altera a infiltração de água no solo, reduz a disponibilidade hídrica e compromete a estabilidade do regime de chuvas, o que afeta tanto a agricultura quanto o abastecimento urbano. Esse desequilíbrio hídrico amplia a vulnerabilidade de populações humanas diante de secas prolongadas e eventos extremos, cada vez mais intensificados pelas mudanças climáticas (Moreno, 2025).

Outro elemento central é a relação entre a destruição do Cerrado e o agravamento do aquecimento global. A supressão da vegetação nativa libera grandes quantidades de carbono armazenado no solo e na biomassa, contribuindo para as emissões nacionais de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, a degradação das áreas naturais reduz a capacidade do bioma de atuar como sumidouro de carbono, diminuindo seu potencial de mitigação climática (Mendes & Batista,2024; Cortinhas, 2025). Essa combinação de perda de biodiversidade, comprometimento hídrico e emissões de carbono coloca o Cerrado no centro das discussões sobre a crise socioambiental contemporânea.
Cerrado supera Amazônia como bioma mais desmatado no país em 2023; índice nacional cai 11,6% em um ano.

MapBiomas aponta que o Brasil perdeu 8,5 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 5 anos, o equivalente a 2 vezes o Estado do Rio de Janeiro.

Comunidades tradicionais e conflitos socioambientais

A devastação do Cerrado não afeta apenas a biodiversidade, mas também impacta diretamente os modos de vida de povos indígenas, comunidades quilombolas e agricultores familiares que dependem do bioma para sua subsistência. Essas populações enfrentam violações sistemáticas de direitos humanos, que vão desde a perda de acesso a recursos naturais até a violência física contra lideranças locais.

A pressão territorial se intensifica pelo avanço de grandes empreendimentos de monocultura e de infraestrutura, que frequentemente ignoram consultas às populações locais e desconsideram a importância cultural e ambiental de seus territórios. Tais processos acentuam desigualdades históricas e colocam comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica, ao mesmo tempo em que destroem práticas tradicionais de uso sustentável da terra, essenciais para a conservação do bioma (BRASIL, 2023; Pati & Yamamoto, 2025)).

Exemplos concretos demonstram a gravidade desses conflitos. No oeste da Bahia, uma missão do Conselho Nacional de Direitos Humanos identificou graves violações resultantes da expansão do agronegócio, incluindo ameaças, intimidações e a expulsão de famílias de seus territórios tradicionais (AATR, 2024). Já no Maranhão, organizações da sociedade civil denunciaram a destruição socioambiental causada pelo avanço da soja sobre comunidades camponesas, que têm perdido terras e meios de subsistência frente ao poder econômico de grandes grupos (Bezerra, 2024). Esses casos ilustram como a expansão da fronteira agrícola não apenas degrada o ambiente, mas também aprofunda desigualdades sociais e viola direitos básicos.

Esse cenário de injustiça socioambiental tem levado à resistência organizada dessas comunidades, muitas vezes apoiadas por organizações da sociedade civil e redes de solidariedade. Cartas públicas, denúncias e missões de órgãos nacionais e internacionais têm exposto a gravidade das violações, chamando atenção para a necessidade de políticas públicas que conciliem conservação ambiental com proteção dos direitos humanos (Bezerra, 2024; Bataier, 2025; Oliveira, 2025). No entanto, a assimetria de poder entre grandes agentes econômicos e populações locais ainda dificulta a construção de soluções efetivas e justas para o futuro do Cerrado.

Além das comunidades tradicionais, as terras indígenas desempenham papel essencial na proteção da vegetação nativa e no controle do desmatamento. Estudos demonstram que esses territórios funcionam como barreiras eficazes contra a degradação ambiental e mantêm parcelas significativas de cobertura vegetal original no Cerrado. Essa evidência reforça a importância de políticas que reconheçam e fortaleçam a gestão indígena e comunitária do território como estratégia de conservação e de enfrentamento das mudanças climáticas, aliando proteção ambiental e justiça social. Dados recentes mostram que os territórios indígenas preservam em média 97% de sua cobertura nativa no Cerrado, desempenho semelhante ao de unidades de conservação e áreas militares, enquanto áreas urbanas mantêm apenas 7% e imóveis rurais 45%. O contraste evidencia o papel estratégico desses territórios para conter a perda de vegetação e proteger serviços ecossistêmicos. (Custódio, 2025; Soares, 2025)
Políticas públicas e desafios da governança

O enfrentamento do desmatamento no Cerrado tem sido alvo de iniciativas governamentais desde o início dos anos 2000, com destaque para o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado (PPCerrado). Atualmente em sua quarta fase, o plano busca integrar ações de monitoramento, ordenamento territorial, fomento a atividades produtivas sustentáveis e fortalecimento da fiscalização (BRASIL, 2023). Apesar de representar um avanço em termos institucionais, sua implementação enfrenta obstáculos relacionados à escassez de recursos, à fragmentação das políticas ambientais e à pressão constante do setor agropecuário (Mendes & Batista, 2024).

Nos últimos anos, indicadores apontaram uma queda relativa nas taxas de desmatamento — em 2024, houve redução de aproximadamente 33% em comparação ao ano anterior. No entanto, especialistas alertam que esses números, embora positivos, não são suficientes para reverter a tendência histórica de perda acumulada do bioma, que continua alarmante em termos de área total devastada (Guaraldo, 2025). Esse paradoxo revela um dos grandes dilemas da governança ambiental: avanços pontuais em determinados períodos não são capazes de alterar de forma estrutural a lógica de expansão agropecuária baseada na conversão de vegetação nativa.

Outro desafio reside na regulação do chamado “desmatamento legal”, especialmente no MATOPIBA, onde autorizações oficiais de supressão de vegetação têm permitido a destruição em larga escala. Essa prática, amparada por brechas na legislação, enfraquece os resultados de políticas de conservação e mina a credibilidade do Brasil em compromissos internacionais. Além disso, a sobreposição de competências entre diferentes esferas de governo e a ausência de uma governança integrada agravam a dificuldade de monitorar e conter a degradação (CPI, 2024).

Apesar de sinais de melhora, os alertas de desmatamento entre agosto/2024 e julho/2025 caíram 20,8% e ainda assim totalizaram 5.555 km2, o que indica persistência de pressões elevadas sobre o bioma e a necessidade de reforço nas ações de governança. (Sinimbú, 2025)
Sociedade civil, ciência e articulações internacionais

A sociedade civil tem desempenhado um papel fundamental na defesa do Cerrado. Diversas organizações e redes, como a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Rede Cerrado, atuam na denúncia de violações socioambientais, na mobilização de comunidades e na formulação de propostas de conservação e uso sustentável (Bezerra, 2024; Oliveira, 2025). Essas iniciativas têm sido importantes para dar visibilidade a um bioma historicamente marginalizado nas políticas públicas e nos debates internacionais.

A produção científica também tem oferecido contribuições relevantes, indicando caminhos para a conservação. Pesquisas mostram, por exemplo, o potencial das áreas privadas de conservação, que poderiam preservar até 25% dos habitats naturais do Cerrado se adequadamente regulamentadas e incentivadas. Programas de uso sustentável, desenvolvidos por instituições de pesquisa e organizações ambientais, reforçam a viabilidade de modelos produtivos que conciliem economia e conservação. Essas evidências demonstram que existem alternativas ao modelo hegemônico de expansão agropecuária, mas que dependem de apoio político e financeiro para serem ampliadas (Schmidt, 2023). Essa constatação amplia o horizonte das políticas de conservação, demonstrando que a proteção do bioma não depende apenas de áreas públicas, mas também de um engajamento mais amplo de proprietários rurais, universidades e instituições financeiras em iniciativas sustentáveis e de restauração ecológica.

Entre as iniciativas mais promissoras voltadas à recuperação do bioma, destaca-se o Programa Reverte Cerrado, coordenado pela The Nature Conservancy (TNC) em parceria com instituições públicas e privadas (TNC,2024). O programa promove a restauração de áreas degradadas, incentiva boas práticas agropecuárias e busca conciliar produção e conservação. Seus resultados apontam que é possível reduzir emissões de carbono, recuperar biodiversidade e aumentar a produtividade agrícola por meio de práticas integradas de manejo sustentável.

Outra iniciativa de destaque é o Instituto Cerrados, organização da sociedade civil criada em 2011 que se tornou referência na proteção e valorização do bioma. Com uma atuação que integra ciência, tecnologia e participação social, a instituição vem contribuindo para a criação de áreas protegidas e lidera a formação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) no país. Também desenvolve projetos de identificação e mapeamento de comunidades tradicionais, cujos dados subsidiam políticas públicas conduzidas por órgãos federais. Paralelamente, realiza ações de prevenção a incêndios e monitoramento do desmatamento, utilizando sensoriamento remoto e brigadas locais. Ao articular conhecimento técnico e saberes tradicionais, o Instituto fortalece a resiliência do Cerrado e reforça sua importância para o equilíbrio ecológico e climático do Brasil (IC, 2025).

Além do âmbito nacional, há crescente articulação em arenas internacionais. Povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado têm buscado inserir o bioma em regulamentações globais, como as normas da União Europeia que tratam da importação de commodities associadas ao desmatamento (Pati&Yamamoto, 2025). Internacionalização da luta pelo Cerrado amplia as pressões sobre o Estado brasileiro, mas também evidencia a necessidade de maior protagonismo do bioma nas discussões multilaterais sobre clima e biodiversidade.
Cerrado e COP30: Oportunidade ou invisibilidade?

A realização da COP30 em Belém, no coração da Amazônia, tem gerado grande expectativa em torno da projeção internacional do Brasil como ator estratégico nas negociações climáticas. Entretanto, há o risco de que essa centralidade da Amazônia reforce a histórica invisibilidade do Cerrado, apesar de sua relevância equivalente para o equilíbrio ambiental e climático (Cortinhas, 2025). Essa assimetria preocupa organizações e comunidades locais, que defendem que o bioma precisa ter papel protagonista nos debates internacionais.

Nos últimos meses, povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil têm se mobilizado para inserir as demandas do Cerrado na pauta da COP30. Entre as reivindicações, destacam-se a inclusão do bioma nos compromissos de redução do desmatamento, o reconhecimento de seus serviços ecossistêmicos e a defesa de políticas de financiamento voltadas para práticas produtivas sustentáveis no território (Oliveira, 2025; Pati & Yamamoto, 2025). Essa mobilização amplia a dimensão política do Cerrado, transformando-o em símbolo da luta por justiça ambiental e climática.

O reconhecimento do Cerrado como peça-chave da agenda climática global também depende do esforço do Estado brasileiro em integrar o bioma às suas estratégias de governança ambiental. Relatórios recentes já indicam a importância de valorizar o Cerrado em negociações multilaterais, não apenas como fornecedor de commodities agrícolas, mas como patrimônio ambiental que conecta biodiversidade, água, clima e modos de vida (Moreno, 2025; Cortinhas, 2025). Se a COP30 representar um marco para essa mudança de perspectiva, poderá contribuir para romper o ciclo de invisibilidade histórica do Cerrado e consolidar sua centralidade nas estratégias globais de enfrentamento à crise ambiental.

Apesar desses esforços, o Cerrado ainda enfrenta o risco de permanecer em segundo plano nas negociações. Esse contrassenso é evidente: trata-se do bioma mais desmatado do Brasil, perdendo em apenas quatro décadas uma área duas vezes maior que o Estado do Paraná (Custódio, 2025), e ao mesmo tempo é o que menos recebe atenção em termos de financiamento e compromissos internacionais (Bataier, 2025). O fato de povos e comunidades tradicionais estarem se organizando para levar suas demandas diretamente à COP30 (Oliveira, 2025) mostra que a disputa por visibilidade será um dos pontos cruciais da conferência. Nesse sentido, reconhecer o Cerrado como bioma estratégico em escala continental, responsável pela regulação de chuvas, pela recarga de aquíferos e pelo abastecimento das principais bacias hidrográficas da América do Sul, é condição indispensável para que a COP30 represente um marco de justiça climática e socioambiental. Mais do que corrigir a histórica invisibilidade do bioma, trata-se de afirmar sua centralidade para o equilíbrio climático global e para a sobrevivência de populações humanas e não humanas que dependem diretamente de seus serviços ecossistêmicos.
Amazônia e Cerrado são os biomas que mais sofrem com os desvarios destes nossos insanos governantes.

A análise evidencia que o Cerrado ocupa uma posição paradoxal: é, ao mesmo tempo, um bioma vital para a manutenção da biodiversidade, da água e do clima em escala continental, e também o mais pressionado pela expansão agropecuária e pelas falhas na governança ambiental. A devastação acelerada, que já resultou na perda de dezenas de milhões de hectares, coloca em risco tanto espécies únicas quanto comunidades que dependem de seus recursos para sobreviver.

Os esforços de políticas públicas, embora relevantes em alguns momentos, têm se mostrado insuficientes diante da magnitude da destruição. As contradições em torno do “desmatamento legal” e as fragilidades institucionais revelam que avanços pontuais não são capazes de alterar estruturalmente a lógica de exploração predatória que ameaça o bioma. Ao mesmo tempo, a resistência das comunidades tradicionais, o trabalho da sociedade civil e as contribuições da ciência demonstram que existem alternativas de conservação e uso sustentável que precisam ser fortalecidas.

Nesse contexto, a COP30 surge como grande oportunidade para romper a histórica invisibilidade do Cerrado. O desafio não é apenas inserir o bioma na agenda internacional, mas reposicioná-lo como elemento central das estratégias globais de enfrentamento da crise ambiental. Reconhecer o Cerrado como patrimônio estratégico – pela biodiversidade que abriga, pela água que distribui e pelo papel que desempenha na regulação climática – é passo essencial para construir um futuro de justiça socioambiental. Sem isso, qualquer avanço obtido em Belém será parcial e insuficiente diante da urgência imposta pela devastação em curso.
Cerrado, Amazônia e Pantanal foram alguns dos biomas afetados

COP30 e o desmatamento na Amazônia e Cerrado

As consequências apontam para o ponto de não retorno da floresta, maior hotspot de risco ambiental planetário na América do Sul. (ecodebate)

O que são pontos de inflexão climática?

Um ponto de inflexão é uma metáfora para uma mudança descontrolada. Pequenas mudanças podem desequilibrar um sistema. Uma vez ultrapassado um limite, as mudanças se reforçam, amplificando-se até que o sistema se transforme em algo novo.
Aquecimento de 1,5°C já levaria 5 regiões a ponto de não retorno climático

Aquecimento global pode ultrapassar limites críticos, causando colapso de ecossistemas e reações em cadeia, alertam cientistas.

Relatório global revela que cinco sistemas essenciais da Terra já estão em risco de mudanças irreversíveis; entenda os impactos.

Como o planeta aquece, muitas partes do sistema terrestre estão passando por mudanças em grande escala. As camadas de gelo estão encolhendo, o nível do mar está subindo e os recifes de coral estão morrendo.

Embora os registros climáticos estejam sendo continuamente quebrados, o impacto cumulativo dessas mudanças também pode fazer com que partes fundamentais do sistema terrestre mudem drasticamente. Esses “pontos de inflexão” das mudanças climáticas são limiares críticos, na forma que, se ultrapassados, podem levar a consequências irreversíveis.

O que são pontos de inflexão no clima?

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os pontos de inflexão são “limiares críticos em um sistema que, quando excedido, pode levar a uma mudança significativa no estado do sistema, muitas vezes com o entendimento de que a mudança é irreversível”.

Em essência, os pontos de inflexão do clima são elementos do sistema da Terra em que pequenas mudanças podem dar início a ciclos de reforço que “dedicam” um sistema de um estado estável para um estado profundamente diferente.

Por exemplo, um aumento nas temperaturas globais por causa da queima de combustíveis fósseis, mais abaixo da linha, desencadeia uma mudança como uma floresta tropical se tornando uma savana seca. Essa mudança é impulsionada por loops de feedback autoperpetuantes, mesmo que o que estava impulsionando a mudança no sistema pare. O sistema – neste caso, a floresta – pode permanecer “derrubada”, mesmo que a temperatura caia abaixo do limite novamente.

Essa mudança de um estado para o outro pode levar décadas ou mesmo séculos para encontrar um estado novo e estável. Mas se os pontos de inflexão estão sendo ultrapassados agora, ou dentro da próxima década, seu impacto total pode não se tornar aparente por centenas ou milhares de anos.

O cruzamento de um ponto de inflexão poderia levar ao desencadeamento de mais elementos de inflexão, desencadeando uma reação em cadeia de efeitos dominó e pode levar a alguns lugares se tornando menos adequados para sustentar sistemas humanos e naturais.
Mudanças climáticas: chegamos ao primeiro “ponto de inflexão” da Terra, diz estudo

Relatório indica que o nosso planeta atingiu o primeiro ponto de inflexão relacionado às mudanças climáticas.

Por exemplo: o Ártico está aquecendo quase quatro vezes mais rápido do que em qualquer outro lugar do mundo, acelerando o derretimento do gelo da camada de gelo da Groenlândia (e o derretimento do gelo marinho do Ártico).

Isso, por sua vez, pode ser o que está desacelerando a circulação do calor do oceano, a Circulação de Reversão Meridional do Atlântico (AMOC), por sua vez, impactando o sistema de monções sobre a América do Sul. As mudanças nas monções podem estar contribuindo para o aumento da frequência de secas sobre a floresta amazônica, diminuindo sua capacidade de armazenamento de carbono e intensificando o aquecimento climático.

Os impactos de tal “cascata inflexiva”, cruzando vários pontos de inflexão climático, podem ser mais severos e generalizados.

Elementos de inflexão do clima

No início dos anos 2000, uma série de elementos de inflexão foram identificados pela primeira vez e pensaram-se que seriam alcançados no caso de um aumento de 4°C nas temperaturas globais. Desde então, a ciência avançou tremendamente e tem havido muitos estudos sobre o comportamento de ponta e interações entre sistemas de elementos de inclinação.

Esses elementos se enquadram amplamente em três categorias – criosfera, atmosfera oceânica e biosfera – e vão desde o derretimento da camada de gelo da Groenlândia até a morte dos recifes de coral.

De acordo com o recém-publicado Global Tipping Points Report, cinco grandes sistemas de inflexão já correm o risco de cruzar pontos de inflexão no atual nível do aquecimento global: as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica Ocidental, regiões do permafrost, as demissões de recifes de coral e o Mar de Labrador e a circulação de giros subpolares.
Pontos de inflexão climáticos no sistema climático da Terra

O que os satélites podem revelar sobre os pontos de inflexão do clima?

Nosso planeta já aqueceu cerca de 1,2°C desde a Revolução Industrial e as promessas atuais sob o Acordo de Paris nos colocam no caminho certo para aumentar isso para 2,5°C à 2,9°C, aumento da temperatura neste século. Avaliações recentes descobriram que mesmo excedendo 1,5°C de aquecimento global corre o risco de cruzar vários desses limiares para pontos de inflexão.

Observação da Terra desempenha um papel crucial no monitoramento e compreensão dos pontos de inflexão do clima, fornecendo uma visão abrangente dos sistemas da Terra. Satélites que orbitam nosso planeta permitem que os cientistas acompanhem mudanças nas camadas de gelo polares, suas geleiras e plataformas de gelo, taxas de desmatamento, temperaturas oceânicas e outros indicadores-chave.

Por exemplo, satélites como o CryoSat e o Copernicus Sentinel-1 da ESA podem medir as alterações no volume e no fluxo de gelo. Os satélites que fornecem informações sobre a gravidade podem descobrir quanto gelo está sendo perdido nas regiões polares, ajudando a identificar possíveis pontos de inflexão na estabilidade da camada de gelo e o ritmo de sua resposta às mudanças climáticas.

Satélites ópticos como o Sentinel-2 contribuem para monitorar mudanças na cobertura da terra ou na vegetação, como a expansão ou o declínio de ecossistemas críticos, como a floresta amazônica.

O satélite Soil Moisture and Ocean Salinity (SMOS) da ESA e a próxima missão do Explorador de Fluorescência (FLEX) contribuem para o monitoramento da hidratação do solo e da saúde da vegetação. Essas missões podem ajudar a entender as mudanças nos ecossistemas terrestres e sua resiliência aos impactos climáticos.

No contexto dos padrões de circulação oceânica, satélites como o Sentinel-3 e o SMOS contribuem para monitorar as temperaturas da superfície do mar, correntes, cor oceânica e salinidade da superfície do mar, fornecendo insights sobre a força e a dinâmica da Circulação Meridional.

Ao capturar um amplo espectro de dados, os satélites fornecem informações essenciais para a detecção precoce de mudanças ambientais, aprimorando nossa compreensão desses fenômenos complexos e ajudando no desenvolvimento de estratégias eficazes para a mitigação e adaptação ao clima.
Os pontos de inflexão climáticos são conjunturas críticas nos sistemas ambientais da Terra, onde mudanças menores, mas cruciais, podem levar a mudanças irreversíveis e dramáticas. Estas mudanças, que vão desde o derretimento das calotas polares até ao desaparecimento dos recifes de coral, são consequências diretas do aquecimento global. A utilização da tecnologia de satélite é crucial na monitorização destes pontos de viragem, fornecendo dados essenciais para a compreensão e resposta a estas mudanças críticas nos sistemas climáticos da Terra.

A ciência por trás da catástrofe climática: uma análise muito mais detalhada dos pontos de inflexão. (ecodebate)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Decrescimento e envelhecimento populacional em Hong Kong

Hong Kong enfrenta o decrescimento e o envelhecimento populacional impulsionados pela baixíssima taxa de natalidade, que já é uma das mais baixas do mundo, e pela alta expectativa de vida. Essa dinâmica está relacionada a fatores culturais e econômicos, como custos elevados e prioridades de carreira, além de uma taxa de fecundidade abaixo da taxa de reposição populacional. Como resultado, espera-se uma população menor e mais envelhecida nas próximas décadas. 

Decrescimento populacional

Baixa taxa de natalidade: A taxa de natalidade em Hong Kong é muito inferior ao nível de reposição populacional de 2,1 filhos por mulher, resultando em um decrescimento populacional acelerado.

Expectativa de vida: Apesar do decrescimento, a expectativa de vida ao nascer é uma das mais altas do mundo, chegando a aproximadamente 85,8 anos em 2025. A projeção para 2100 é de uma expectativa de vida ainda maior, em torno de 94,4 anos.

Emigração: A pandemia de COVID-19 e as medidas de quarentena contribuíram para uma queda populacional, com residentes optando por se mudar para outros lugares. Embora o governo acredite que a população possa se recuperar com o relaxamento das restrições, a emigração de residentes pode ter um impacto econômico no desenvolvimento de Hong Kong.
Envelhecimento populacional

População envelhecida: A combinação de baixa natalidade e alta longevidade está levando a um envelhecimento populacional significativo.

Impacto econômico: As projeções indicam que o envelhecimento da população pode impactar o crescimento econômico, já que a base de jovens e trabalhadores ativos diminui, enquanto a demanda por serviços de saúde e aposentadorias aumenta.

Medidas do governo

Incentivos: Para combater a tendência, as autoridades de Hong Kong têm incentivado a imigração de talentos estrangeiros.

Alívio da imigração: O governo chinês (já que Hong Kong é uma Região Administrativa Especial da China) tem sugerido algumas medidas para liberalizar e incentivar o nascimento, como a redução dos custos de educação e cuidados com os filhos.

Outras considerações

Crise demográfica: O decrescimento e o envelhecimento populacional em Hong Kong são parte de uma tendência demográfica maior na China e em outros países da Ásia, Europa e até mesmo no Brasil.

Mudança de mentalidade: Muitos chineses, incluindo aqueles em Hong Kong, optam por ter menos filhos devido à instabilidade financeira, ao alto custo de vida e à busca por outras prioridades de vida.

Desafios: A rápida mudança demográfica pode ter implicações econômicas e sociais de longo prazo.
A dinâmica demográfica de Hong Kong será marcada pelo decrescimento da população e o envelhecimento populacional durante o restante do século XXI

Hong Kong será a região mais envelhecida do mundo já na próxima década e, em especial, na segunda metade do século XXI. A ilha de Hong Kong tornou-se uma colônia do Império Britânico após a Primeira Guerra do Ópio (1839-1842).

As fronteiras da colônia foram ampliadas em etapas para a Península de Kowloon em 1861 e, em seguida, para os Novos Territórios, em 1899. Tornou-se um entreposto comercial estratégico no Leste Asiático, com um sistema jurídico e administrativo de inspiração britânica e considerado um lugar onde o “Oriente encontra o Ocidente”.

Pelo acordo sino-britânico, Hong Kong voltou à soberania chinesa sob o princípio “um país, dois sistemas”, garantindo autonomia administrativa, liberdade econômica e direitos civis por 50 anos. Desde 2014 (Movimento dos Guarda-Chuvas) e especialmente em 2019 (protestos contra a lei de extradição), aumentaram os conflitos sobre liberdades civis e o grau de controle de Pequim. A Lei de Segurança Nacional de 2020 ampliou o poder do governo central, reduzindo a autonomia política.

No final da Segunda Guerra, Hong Kong tinha menos de 1 milhão de habitantes, mas recebeu muitos migrantes, refugiados e empresários chineses após a Revolução Chinesa de 1949. A economia cresceu impulsionando a industrialização nas áreas têxtil, eletrônicos, brinquedos. Mas, gradualmente, Hong Kong se tornou um dos maiores centros financeiros globais, com foco em serviços, comércio, logística e turismo, apoiado por baixa tributação e ambiente pró-mercado.

Hoje em dia é um hub para investimentos internacionais na China continental, mas enfrenta competição de cidades como Xangai e Shenzhen. Hong Kong apresentou uma renda per capita, em preços constantes, em poder de paridade de compra de US$ 66 mil, uma das mais altas do continente asiático.

O gráfico abaixo mostra que a população de Hong Kong era de 2 milhões de habitantes em 1950, cresceu até atingir o pico populacional de 7,5 milhões de habitantes em 2020 e deve diminuir para 2 milhões de habitantes em 2100. Todo o crescimento populacional ocorrido nos 70 anos entre 1950 e 2020 deverá ser perdido nos 80 anos entre 2020 e 2100.

Concomitantemente ao decrescimento, Hong Kong experimentará um profundo e rápido envelhecimento populacional, com a idade mediana passando de 23 anos em 1950 para 46 anos em 2023 (dobrando em 73 anos), devendo alcançar 50 anos em 2030 e 72 anos em 2100. A partir da próxima década, Hong Kong será o país mais envelhecido do mundo e terá mais da metade da população acima de 72 anos em 2100. Os septuagenários e mais (70+) serão maioria dos hong-konguês.
A dinâmica demográfica de Hong Kong será marcada pelo decrescimento da população e o envelhecimento populacional durante o restante do século XXI. O gráfico abaixo mostra que a taxa de fecundidade total (TFT) era de 5 filhos por mulher no primeiro quinquênio da década de 1960, caiu para 2,06 filhos por mulher em 1980 (abaixo do nível de reposição), chegou a 0,9 filho por mulher em 2003, apresentou uma leve recuperação nos anos seguintes e voltou a cair para um nível muito baixo, de somente 0,73 filho por mulher em 2024.

A Divisão de População da ONU projeta um aumento da TFT no restante do atual século, mas com uma taxa de 1,2 filho por mulher em 2100. Portanto, com uma taxa de fecundidade tão baixa o resultado é um decrescimento populacional acelerado (especialmente na ausência de um grande fluxo imigratório).

O gráfico abaixo também mostra que a expectativa de vida ao nascer estava em 58 anos em 1950 e chegou a 85,8 anos em 2025, valor superior à expectativa de vida do Japão e somente um pouco menor do que Mônaco com 86,6 anos. Para o final do século a estimativa é de uma expectativa de vida ao nascer de 94,4 anos em 2100.

A despeito do decrescimento e do envelhecimento populacional, espera-se que a economia continue apresentando um crescimento moderado nos próximos anos, com aumento da renda per capita e avanço do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Hong Kong deverá continuar sendo um centro financeiro e logístico influente, especialmente especializado em serviços financeiros internacionais.

Em resumo, Hong Kong enfrenta um futuro econômico mais moderado e demograficamente desafiador.

Para se manter relevante e sustentável, precisará acelerar reformas, diversificar sua economia, sobretudo nos setores tecnológico e de serviços — e buscar estratégias para aumentar a participação da força de trabalho idosa e contrabalançar os efeitos do envelhecimento.

Mas o sucesso futuro dependerá da capacidade garantir um envelhecimento saudável e ativo e da agilidade em construir uma economia prateada dinâmica, com o aproveitamento de todo o potencial de sua enorme população madura. (ecodebate)

Oceanos sofrem os efeitos da tripla crise planetária

Impactos em ambientes de mar profundo

Oceanos sofrem os efeitos da tripla crise planetária, que combina aquecimento global, perda de biodiversidade e poluição. Essa crise afeta 100% das regiões oceânicas, com consequências como aquecimento acelerado, acidificação, derretimento de gelo polar, aumento do nível do mar e proliferação de espécies invasoras, que ameaçam ecossistemas, cadeias alimentares e a estabilidade climática do planeta.

Aquecimento global

Absorção de calor: Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor dos gases de efeito estufa, o que causa um aquecimento acelerado. A temperatura da superfície do mar em 2024 atingiu o nível mais alto já registrado.

Derretimento de gelo: O aquecimento leva ao derretimento das massas de gelo nos polos.

Aumento do nível do mar: O degelo contribui para o aumento do nível do mar, que se tornou mais rápido, ameaçando comunidades costeiras.

Impactos em ecossistemas: O aquecimento causa ondas de calor marinhas, prejudica ecossistemas e favorece a proliferação de espécies invasoras, como vermes de fogo e siri, que podem inviabilizar a pesca.

Perda de biodiversidade

Ameaça aos ecossistemas: O aumento da temperatura e a acidificação, que ocorre devido à absorção de CO2, ameaçam a vida marinha, especialmente recifes de coral e espécies como o atum.

Pressão sobre a cadeia alimentar: A perda de biodiversidade afeta toda a cadeia alimentar marinha e a segurança alimentar humana.

Poluição

Poluição plástica: Os oceanos estão globalmente contaminados com plásticos e microplásticos, com origem no descarte inadequado, lavagem de roupas sintéticas, entre outras fontes.

Outros poluentes: Além do plástico, outras formas de poluição também impactam os ecossistemas marinhos.

Consequências interligadas

Causas e efeitos: A tripla crise é um conjunto de problemas interligados. A mudança climática, a perda de biodiversidade e a poluição se intensificam mutuamente, criando uma série de consequências negativas.

Ameaças à estabilidade do planeta: A saúde dos oceanos está diretamente ligada à estabilidade climática global, à produção de alimentos e ao sustento de comunidades costeiras.

Impactos na costa brasileira: O aquecimento do oceano na costa brasileira já está ocorrendo a uma velocidade superior à média global, o que pode levar a eventos climáticos extremos mais frequentes no futuro.

Nenhuma região do oceano escapou dos impactos combinados da mudança climática, da perda de biodiversidade e da poluição.

A constatação é da 9ª edição do Copernicus Ocean State Report (Relatório Copernicus sobre o Estado do Oceano, em português), divulgado pelo Serviço Marinho Copernicus, da União Europeia.

Responsável por absorver 90% do calor excedente gerado pelas emissões de gases de efeito estufa, o oceano está se aquecendo em ritmo acelerado. Os impactos são diretos sobre ecossistemas, pesca, cadeias alimentares, culturas costeiras e a própria estabilidade climática do planeta.

O relatório é considerado uma das principais referências globais para a formulação de políticas oceânicas e climáticas. “Estamos perigosamente próximos de ultrapassar os limites planetários: todas as partes do oceano agora são afetadas pela tripla crise planetária”, afirmou Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International, responsável pela implementação do serviço.

O levantamento — elaborado por cientistas ligados ao programa europeu de monitoramento da Terra — alerta para o desequilíbrio do sistema climático global e reforça o papel do oceano como indicador e regulador das mudanças em curso.

No Brasil, a costa atlântica registra aquecimento acima da média global. O país também lidera o lançamento de plástico no oceano entre as nações das Américas. As ondas de calor marinhas, cada vez mais frequentes, impõem risco crescente à pesca e à aquicultura.

A cientista Karina von Schuckmann, presidente da iniciativa, reforça que a compreensão científica é a chave para orientar decisões públicas. “O oceano está mudando rapidamente. Sabemos o porquê e conhecemos os impactos. Esse conhecimento é um plano de ação para restaurar o equilíbrio entre humanidade e natureza”.

Recordes de calor e colapso nos ecossistemas

Desde a década de 1960, o aquecimento oceânico vem ganhando velocidade, indicando que o sistema da Terra está perigosamente desequilibrado devido às mudanças climáticas. Em 2024, a temperatura média da superfície do mar chegou a 21°C — a mais alta já registrada. Embora variações pareçam pequenas, a elevação térmica tem efeitos devastadores em todo o sistema climático.

Em 2023 e 2024, o oceano passou por ondas de calor que superaram os picos históricos de 2015 e 2016 em 0,25°C. No Atlântico, houve locais que permaneceram mais de 300 dias sob condição de onda de calor marinha. Os efeitos são visíveis: colapso de estoques pesqueiros, perda de espécies e prejuízos crescentes para comunidades costeiras.

No Atlântico Tropical Norte, 2023 registrou a onda de calor marinha mais intensa da história. Ilhas do Caribe enfrentaram mais de 250 dias seguidos de calor extremo. Entre Colômbia e Brasil, foram mais de 180 dias — seis meses — de temperaturas anormalmente elevadas.

Os efeitos são visíveis: colapso de estoques pesqueiros, perda de espécies e prejuízos crescentes para comunidades costeiras. No Mediterrâneo, a onda de calor de 2023 elevou a temperatura da água em até 4,3°C acima da média, favorecendo espécies invasoras e dizimando cultivos tradicionais, como as amêijoas no delta do rio Pó, na Itália.

Biodiversidade ameaçada

O relatório mostra que áreas de alta biodiversidade estão acidificando mais rápido que a média global. O fenômeno, somado ao aumento da temperatura e à poluição por plásticos, compromete a sobrevivência de espécies já vulneráveis.

Os recifes de corais são um exemplo da sobreposição de pressões. O estudo destaca que 75% dos países que mais poluem o oceano com plástico — mais de 10 mil toneladas por ano — têm recifes em situação crítica.

A migração de micronekton (pequenos organismos marinhos que sustentam a cadeia alimentar) em direção aos polos evidencia uma transformação silenciosa, mas profunda, dos ecossistemas oceânicos.

Poluição plástica global

Resíduos plásticos oriundos de todos os continentes já atingem todas as bacias oceânicas. No recorte latino-americano, o Brasil aparece como o maior emissor de plástico para o mar. Corais da costa leste da América do Sul e do Caribe estão entre os mais ameaçados.

No Pacífico da América Central e do Sul, zonas altamente produtivas encolheram mais de 25% desde 1998, afetando algumas das pescarias mais ricas do mundo.

Degelo polar e aumento do nível do mar

As regiões polares seguem batendo recordes negativos de cobertura de gelo. No oceano Ártico, entre dezembro de 2024 e março de 2025, foram registrados quatro recordes de perda. Em março, havia 1,94 milhão de km² a menos de gelo marinho em relação à média histórica — uma área equivalente a seis vezes a Polônia.

Na Antártida, fevereiro/2025 marcou o 3º ano consecutivo de retração da calota, totalizando uma área quase 3 vezes maior que a da França.

Nível médio do mar já subiu 228 mm desde 1901. A aceleração preocupa autoridades globais: apenas na Europa, 200 milhões de pessoas vivem em áreas costeiras. Sítios históricos tombados pela Unesco também estão sob risco crescente de inundações nos próximos séculos.

(ecodebate)

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