Tem
uma frase, que li de uma moradora de Bruxelas, repetida em uma reportagem, que considero assustadora: “E se, no futuro, tivermos que viver
esse tipo de situação dia após dia?” Com 25 anos, ela estava tentando se
refrescar numa fonte pública, junto com outras dezenas de pessoas que fugiam do
calor da forma que conseguiam.
Essa
pergunta resume bem o que está acontecendo na Europa agora. Porque o que
estamos vendo não parece mais um evento isolado, daqueles que a gente lembra
por décadas como “o verão de tal ano”. Parece, cada vez mais, um ensaio do
normal.
Vamos
aos números, porque eles contam a história melhor do que qualquer adjetivo.
Na
madrugada de segunda para terça-feira, a França registrou a noite mais quente
desde que o país começou a medir temperaturas, em 1947. O indicador nacional,
uma média entre as temperaturas diurnas e noturnas de 30 estações
meteorológicas, chegou a 29,8°C segundo dados provisórios da Meteo-France. A
temperatura mínima média do país bateu 21,6°C, superando o recorde anterior, de
julho de 2019.
Pode
parecer só um número, mas noites quentes assim são particularmente perigosas. O
corpo humano precisa de horas de temperatura mais baixa para se recuperar do
calor acumulado durante o dia. Quando essa pausa não existe, o risco para a
saúde aumenta, especialmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com
doenças crônicas.
Boa
parte das reportagens desta semana menciona um termo que talvez você não
conhecesse até agora: bloqueio ômega. É o fenômeno meteorológico que está
sustentando essa onda de calor e, segundo meteorologistas, pode continuar
influenciando o clima europeu por dias ou até semanas.
A
explicação, de forma simples, é a seguinte: uma massa de ar frio posicionada
perto de Portugal funciona como uma espécie de bomba, empurrando para o norte o
ar quente que vem do norte da África. Esse padrão cria uma configuração
parecida com a letra grega ômega, com ar quente concentrado no centro e ar mais
frio nas bordas. O resultado é um efeito de “tampa de panela”: o calor fica
represado, sem conseguir se dissipar e as temperaturas sobem dia após dia.
Escolas
fechadas, ferrovias paralisadas e cidades em alerta máximo
Na
prática, essa configuração atmosférica virou rotina interrompida para milhões
de pessoas.
Na
Inglaterra, dezenas de escolas anunciaram fechamento antecipado nesta
terça-feira, com previsão de continuar fechadas por mais dois dias. O Met
Office, agência meteorológica britânica, emitiu um raro alerta vermelho de
calor para partes do centro e sul do país, apenas a segunda vez que isso
acontece. As temperaturas podem chegar a 40°C, um número sem precedentes para
esta época do ano, segundo o cientista-chefe da agência, Stephen Belcher. A
linha ferroviária que liga o nordeste da Inglaterra a Londres chegou a emitir
um alerta de “não viajar”.
Na
França, onde mais de 90% da população vive sob alerta vermelho ou laranja por
calor extremo, a Torre Eiffel e o Museu do Louvre anunciaram fechamento
antecipado. Em Paris, pais de uma escola primária colaram cobertores térmicos
nas janelas das salas de aula e juntaram dinheiro para comprar toldos para o
pátio porque os ventiladores que receberam, segundo uma das mães envolvidas,
“não diminuem a temperatura nas salas”.
Calor
extremo atinge níveis jamais vistos na França e abala a Europa.
Um
dos detalhes mais inquietantes dessa onda de calor é que ela não está poupando
os lugares que deveriam proteger as pessoas mais vulneráveis.
Na
Espanha, a falta de ar-condicionado em alguns hospitais levou o sindicato de
enfermagem SATSE a denunciar publicamente as condições de trabalho. Segundo o
sindicato, as temperaturas em algumas unidades atingem e superam os 30°C, bem
acima do limite de 27°C estabelecido por lei para ambientes de trabalho. A
orientação recebida pelos profissionais, de acordo com a denúncia, foi fechar
janelas e baixar persianas “o máximo possível”.
Na França, a situação levou a central nuclear de Golfech, no sudoeste do país, a ser desligada: a temperatura da água do rio Garona, usada para refrigerar os reatores, chegou perto dos limites operacionais seguros.
As mortes que o calor não causa diretamente, mas provoca
As
ondas de calor na Europa fazem parte de um novo e perigoso padrão climático.
Um
dos números mais duros desta semana não veio de termômetros, mas de balanços de
busca e resgate.
Em
reunião de crise, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, classificou
como uma “triste calamidade” o fato de que cerca de 40 pessoas, a maioria
jovens, morreram afogadas na França desde 18 de junho, ao buscar rios, lagos e
canais para se refrescar do calor. Na Alemanha, a polícia confirmou cinco
mortes em acidentes de natação apenas durante o último fim de semana.
É
uma das consequências menos óbvias e mais trágicas das ondas de calor extremo:
o desespero por refrescar o corpo leva muita gente a se arriscar em águas que
não conhece, sem supervisão, em busca de um alívio rápido.
Trabalhadores
que não têm a opção de ficar em casa
Enquanto
autoridades de praticamente todos os países afetados recomendam evitar esforço
físico nas horas mais quentes do dia, beber água e redobrar os cuidados com
pessoas vulneráveis, uma parte da população simplesmente não tem essa escolha.
Trabalhadores
de uma fábrica da Stellantis perto de Mulhouse, na França, anunciaram que vão
encerrar seus turnos mais cedo entre terça e domingo, em protesto contra as
condições de trabalho durante o calor extremo. É um gesto pequeno frente ao
tamanho do problema, mas que expõe algo real: para muita gente, “ficar em casa
no calor” é um privilégio, não uma opção.
Áustria, Polônia, Hungria e Croácia também emitiram alertas de calor para parte de seus territórios, e serviços de emergência na Hungria e na Eslovênia já registram pedidos de ajuda de pessoas idosas.
É “só mais um verão quente”?
Mundo
registra ano a ano cada vez mais quente
A
pergunta que fica e que a moradora de Bruxelas fez de forma tão simples é se
episódios como este vão continuar sendo excepcionais ou se vão se tornar parte
do calendário europeu.
A
resposta da ciência climática, de forma consistente, aponta para a segunda
opção. Ondas de calor recorrentes são um dos sinais mais claros do aquecimento
global e cientistas vêm alertando que elas devem se tornar mais frequentes,
mais longas e mais intensas à medida que a humanidade continua queimando
combustíveis fósseis. Não é a primeira onda de calor da Europa neste ano — em
maio, o continente já havia enfrentado um episódio histórico de calor antecipado
— e especialistas apontam que esse padrão, de eventos extremos cada vez mais
próximos uns dos outros, tende a se repetir.
Talvez
o mais difícil de processar nessa história não sejam os números em si, mas a
sensação de que estamos vendo, em tempo real, o momento em que um “recorde
histórico” deixa de ser uma curiosidade de jornal e passa a ser um aviso sobre
o que vem a seguir. (ecodebate)





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