Um estudo global recente
detalha como a produção de alimentos impacta o clima e a natureza, revelando
que grande parte da perda de carbono e biodiversidade do planeta está
concentrada em uma pequena fração das terras agrícolas e impulsionada
fortemente pelo consumo de carne.
O Impacto dos Alimentos
• Alimentos de origem animal:
Causam 59% da perda de carbono ligada à alimentação e 71% da perda de biodiversidade.
• Carne bovina e leite:
Representam 29% das perdas de carbono e 41% da biodiversidade perdida.
• Concentração do dano:
Metade da perda global de carbono na agricultura ocorre em apenas 12% das
terras produtivas.
O Papel do Comércio
• O maior exportador líquido:
O EcoDebate destaca que o Brasil lidera as exportações associadas à perda de
carbono e biodiversidade.
• O maior importador: A China
aparece como a principal compradora desses fluxos ambientais intensos.
Um estudo de Oxford, Leiden e
da Universidade Agrícola da China mapeou onde a agricultura mais destrói
carbono e biodiversidade e descobriu que um punhado de alimentos e regiões
concentra quase todo o estrago. A boa notícia é que isso também significa que
restaurar pouco já pode valer muito.
O jornalismo ambiental é
baseado em ciência e, por isto, é necessário acompanhar os estudos e pesquisas
mais recentes. É a parte importante de conhecer para comunicar.
O estudo “High-resolution
carbon and biodiversity mapping shows correlated losses across space and
agricultural products”, publicado na Nature Food, feito por pesquisadores de
Oxford, da Universidade de Leiden e da Universidade Agrícola da China, é um
exemplo importante e resolvi que precisava escrever sobre ele, não como resumo
técnico, mas como alguém tentando digerir (com perdão do trocadilho) o tamanho
do que está em jogo.
O ponto de partida é brutal ao calcular que a agricultura já provocou a perda de cerca de 300 bilhões de toneladas de carbono, que estavam guardadas em solos, florestas e vegetação nativa. E não para por aí, porque cerca de 14% das espécies do planeta estão hoje em risco de extinção, por causa do uso da terra para produzir alimentos.
Um mapa que mostra onde a comida machuca mais
O que torna esse estudo
diferente de tantos outros é a resolução. Em vez de olhar o mundo em grandes
blocos, os pesquisadores desceram ao nível de ‘células’ de cerca de 5,6 km,
quase um zoom em Google Maps, e cruzaram isso com o rastro de 123 commodities
agrícolas ao redor do globo.
O resultado é um retrato
incomum e dá para ver exatamente onde a produção de determinado alimento, em
determinado pedaço de terra, está corroendo carbono e biodiversidade ao mesmo
tempo.
E o que aparece nesse mapa é
concentrado, quase cirúrgico, que dois terços de toda a perda está espremida em
apenas um terço das terras agrícolas do planeta, principalmente em partes da
América do Sul, da África Subsaariana e do Sudeste Asiático. Mais
impressionante ainda é que metade da perda de carbono do mundo acontece em
apenas 12% das terras agrícolas.
Isso muda a forma como penso em “salvar o planeta”. Enquanto não mudamos tudo o que é necessário, também precisamos mexer no lugar certo.
O que está realmente no prato
Os alimentos de origem animal
respondem por 59% da perda de carbono ligada à comida e por 71% da perda de
biodiversidade, enquanto fornecem menos de 15% das calorias que o mundo consome
(sem contar peixe).
Calorias por calorias, um
alimento de origem animal causa, em média, oito vezes mais perda de carbono e
catorze vezes mais perda de biodiversidade do que um alimento de origem
vegetal.
E dois itens, sozinhos,
carregam boa parte dessa conta: carne bovina e laticínios juntos representam
29% de toda a perda de carbono e 41% de toda a perda de biodiversidade das
terras agrícolas do mundo. O motivo é simples de entender e difícil de digerir:
é a quantidade de terra que essa produção exige para existir.
Não é uma questão de demonizar quem come carne e eu mesmo não larguei totalmente a carne. É perceber que, entre todas as escolhas alimentares que fazemos sem pensar duas vezes, algumas pesam ordens de grandeza mais do que outras no que sobra de floresta, de solo vivo, de espécie que ainda respira.
Quando a comida atravessa o oceano
Tem outra camada nessa
história que eu não esperava: o comércio internacional. Cerca de 18% de todo o
impacto ambiental das terras agrícolas está ligado a alimentos que cruzam
fronteiras e a maior parte desse fluxo é de produtos de origem animal.
O Brasil aparece como o maior
exportador líquido de perda de carbono e biodiversidade do planeta. A China, do
outro lado, é a maior importadora líquida. E um dos maiores corredores de dano
ambiental do mundo tem nome e endereço: as exportações de carne bovina e suína
do Brasil para a China.
Isso me pegou de um jeito diferente, porque moro num país onde essa conversa não é abstrata. É sobre a nossa própria paisagem, o nosso próprio agronegócio, as nossas próprias exportações. O prato de alguém do outro lado do mundo pode estar, literalmente, comendo um pedaço do Cerrado ou da Amazônia.
A parte que me deu esperança
Depois de tanto número
pesado, o estudo termina com algo raro: uma conta que dá para levar para casa
com otimismo.
Os pesquisadores modelaram o
que aconteceria se restaurássemos apenas os 30% das terras agrícolas que
concentram as duas maiores perdas, de carbono e de biodiversidade juntas.
O resultado: seria possível
sequestrar cerca de 170 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a cerca
de 15 anos de todas as emissões globais de combustíveis fósseis, e evitar até
60% do risco de extinção que hoje é causado pela agricultura.
Repito porque vale a pena repetir: restaurar o mundo inteiro é a meta final, mas, até lá, é preciso restaurar o pedaço certo.
E agora, o que fazemos?
Não escrevo isso para dizer
que a solução é simples ou que caiba inteira nas mãos do consumidor, porque não
cabe. Tem política pública, tem cadeia produtiva, tem investimento em
recuperação de pastagem, tem acordo internacional.
Mas também tem, sim, um espaço
pequeno e real na escolha de quem senta à mesa todo dia, como comer um menos de
carne e laticínios, valorizar quem produz de forma regenerativa, prestar
atenção em de onde vem o que a gente compra.
O
estudo tem limitações e os próprios autores avisam que os dados globais
envolvem incertezas e que leituras muito locais pedem cautela. Mas o retrato
geral, concentrado e correlacionado entre carbono e biodiversidade, é sólido o
bastante para mudar prioridades.
Fechei a leitura do estudo pensando que talvez a pergunta certa não seja só “o que estou comendo”, mas, também, “de onde essa comida tirou o que ela é”. É uma pergunta desconfortável. Mas, pelo visto, é também uma pergunta com resposta e com solução ao alcance, se a gente mirar no lugar certo.
O armazenamento de carbono e a biodiversidade são fortemente impactados pelos sistemas alimentares. Aqui mapeamos e traçamos o armazenamento de carbono a longo prazo e a perda de biodiversidade do uso da terra em cadeias de suprimentos agrícolas globais em uma alta resolução espacial e de produtos. Mostramos que, embora o Hemisfério Norte experimente maior perda de carbono e o Hemisfério Sul maior perda de biodiversidade, áreas com altas perdas de carbono e biodiversidade são frequentemente co-localizados, com ⅔ das perdas totais ocorrendo dentro de um terço da área total. O consumo de alimentos gera 83% das perdas, das quais os alimentos de origem animal impulsionam 59% do carbono e 71% das perdas de biodiversidade. A carne bovina e o leite representam 29% do carbono e 41% das perdas de biodiversidade. O Brasil é o maior exportador líquido para ambas as perdas, e a China é o maior importador líquido, com produtos de origem animal como fluxos dominantes em ambos os casos. (ecodebate)







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