quinta-feira, 27 de agosto de 2026

El Niño: cidades não estão preparadas para o que está por vir

O governo do Rio Grande do Sul lançou, no mês de junho, o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), a fim de preparar os municípios para potenciais efeitos associados ao fenômeno El Niño entre 2026 e 2027. A iniciativa e suas ações foram regulamentadas por meio de decreto.

Especialistas avaliam riscos dos efeitos climáticos severos que são aguardados nos próximos meses; estados apontam ações de enfrentamento.

Seca, altas temperaturas e tempestades; o que esperar do El Niño até janeiro

Um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados no século no Brasil está sendo previsto por especialistas para os próximos meses e nenhuma cidade do país está preparada para o que está por vir, sobretudo as grandes cidades. O alerta é da professora do Departamento de Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em planejamento urbano, Rossana Brandão Tavares.

A probabilidade de o fenômeno atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro, colocando o evento entre os mais intensos observados desde 1950, é de 81%, segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Os efeitos climáticos já podem ser sentidos e vão continuar atuando no país até o início de 2027. Os impactos do El Niño são divididos por regiões; enquanto a região Sul concentra o maior risco de desastres climáticos ligados a temporais, vendavais e cheias de rios, devido ao bloqueio de frentes frias, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devem enfrentar a situação hidrológica mais crítica, com seca de severa a extrema. As temperaturas, em geral, deverão ficar até 5°C acima da média.

Convivência com extremos climáticos

A professora Rossana Brandão Tavares aponta que a maioria dos municípios brasileiros, cerca de 90%, já precisou enfrentar casos concretos de desastres socioambientais nos últimos 30 anos, de acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Dessa forma, segundo ela, é possível considerar que a convivência com extremos climáticos já não é eventual ou concentrada em poucas regiões brasileiras. E outro ponto preocupante, na avaliação da professora, são os dados deste ano da Confederação Nacional dos Municípios, revelando que mais de 1.200 municípios não possuem defesa civil organizada.

Queda de árvores: população sofre com transtornos

Rossana defende a urgência de se lidar de forma estrutural com os problemas urbanos das cidades brasileiras. Para ela, cada vez mais, a população está submetida a uma governança urbana empresarial que tem deixado de lado um planejamento que promova investimentos, em especial em saneamento básico, além da articulação do ordenamento e controle do uso do solo com as características socioambientais de cada região, sobretudo em áreas de encostas, às margens de rios, lagoas, mares e oceanos.

O zoneamento e uso do solo não são questões técnicas neutras. A escolha é política e os desastres estão escancarando o que tem sido priorizado no planejamento. Temos que desconstruir a ideia de que nossas cidades não são planejadas, elas são, mas não para a população que cai junto com as tragédias que estão se tornando corriqueiras. Sou contra a ideia de “adaptação” das cidades, isso é enxugar gelo. (ultimosegundo)

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