Construir verde custa mais agora e economiza depois: por que o mercado imobiliário brasileiro ainda não fez essa conta.
Existe uma conta simples que o mercado imobiliário brasileiro ainda não decidiu fazer de forma sistemática. Um edifício com certificação LEED custa entre 5% e 10% a mais para construir. Em contrapartida, consome em média 30% menos energia elétrica e 40% menos água do que uma construção convencional equivalente, segundo dados do GBC Brasil. Os valores de locação de imóveis certificados são entre 15% e 18% mais altos. A velocidade de ocupação é maior. O custo operacional ao longo da vida útil do edifício é significativamente menor.
O sobre custo inicial se amortiza. A questão é em quanto tempo e quem paga essa conta.
O que é a certificação LEED e
por que ela importa
A certificação LEED, sigla
para Leadership in Energy and Environmental Design, é um sistema de avaliação
ambiental de edificações criado pelo U.S. Green Building Council e reconhecido
internacionalmente. No Brasil, o GBC Brasil é o órgão responsável pela
implementação do sistema, que avalia eficiência energética, uso racional da
água, qualidade do ar interno, materiais utilizados na construção e
sustentabilidade do terreno escolhido para o empreendimento.
A certificação tem quatro
níveis: Certified, Silver, Gold e Platinum. O nível Platinum, mais alto da
escala, exige acima de 80 pontos numa avaliação que pode chegar a 110. São Paulo
lidera o ranking nacional com dez empreendimentos certificados LEED Platinum,
todos na categoria corporativa, concentrados nos principais eixos da Avenida
Paulista, Faria Lima e Engenheiro Luís Carlos Berrini.
Em 2025, o GBC lançou o LEED v5, versão que intensifica o foco em descarbonização e neutralidade de carbono. Projetos registrados no Brasil a partir de 2025 podem optar pela nova versão, que adiciona métricas de emissões incorporadas na construção ao conjunto de critérios já existentes.
Os números que justificam o investimento
O Faria Lima 3500, prédio
corporativo adquirido pelo Itaú por R$ 1,49 bilhão e detentor de três
certificações LEED simultâneas, alcançou 31% de redução no consumo de energia
em relação ao padrão convencional. Cem por cento dos resíduos não orgânicos
gerados pelo edifício são encaminhados para reciclagem. O sistema de uso
eficiente de água reduziu o consumo hídrico de forma expressiva.
A Torre Santander, na Vila
Olímpia em São Paulo, recebeu a certificação LEED Platinum por práticas que
incluem reuso de água, sistemas avançados de climatização, iluminação natural
maximizada e utilização de materiais reciclados na construção.
Esses casos corporativos
representam o topo do mercado. O argumento ambiental e financeiro funciona com
clareza quando o comprador ou locatário é uma empresa que contabiliza custo
operacional, relata emissões para investidores e usa o endereço sustentável
como argumento de posicionamento de marca.
O problema é que esse argumento ainda não desceu para o mercado residencial na mesma proporção.
O mercado residencial e o apartamento para alugar em São Paulo
Para quem busca apartamento
para alugar em São Paulo, a certificação LEED raramente aparece como critério
de busca. Não porque o inquilino não se beneficiaria dela, mas porque a oferta
de imóveis residenciais certificados ainda é proporcionalmente pequena em
relação ao estoque total disponível na cidade.
O GBC Brasil reconhece essa
lacuna e tem trabalhado para ampliar a certificação para o segmento
residencial. Mas esbarra numa lógica de mercado que o próprio setor nomeia com
honestidade. Como apontam especialistas do setor, no alto padrão a
sustentabilidade é uma questão conceitual, já que dificilmente a economia de
água e luz muda algo na vida do comprador que paga R$ 40 mil ou R$ 60 mil por
metro quadrado. A sustentabilidade como diferencial de venda funciona melhor
onde o impacto econômico é mais visível: nos programas de habitação popular,
onde a redução da conta de luz e água representa percentual relevante da renda
familiar.
Essa constatação revela uma contradição que o mercado ainda não resolveu. Quem mais se beneficiaria da redução de custos operacionais proporcionada pela construção sustentável é exatamente quem menos acesso tem a ela, porque o sobre custo de 5% a 10% na construção se traduz em preços de venda e locação acima do que o segmento de renda média consegue absorver sem subsídio.
O que muda com o LEED v5
A versão 5 do LEED,
disponível para novos registros no Brasil desde 2025, adiciona ao sistema de
avaliação métricas de carbono incorporado na construção, ou seja, as emissões
geradas pela extração, transporte e processamento dos materiais utilizados
antes mesmo de o edifício entrar em operação. Esse componente, chamado de
carbono incorporado ou embodied carbon, representa entre 10% e 20% das emissões
totais de um edifício ao longo de sua vida útil, segundo estimativas do setor.
A mudança é relevante porque até então a avaliação LEED focava principalmente nas emissões operacionais, aquelas geradas pelo consumo de energia e água durante o uso do edifício. Com o LEED v5, a conta ambiental passa a começar antes da obra terminar, o que pressiona incorporadoras a escolher materiais com menor pegada de carbono desde o projeto.
Por que o mercado ainda não generalizou a construção verde
A resposta que o setor dá
quando pressionado é sempre a mesma: o sobre custo inviabiliza a adoção em
larga escala sem incentivos. Mas essa resposta é parcial. O sobre custo de 5% a
10% na construção se amortiza ao longo da vida útil do edifício por meio da
redução de custos operacionais. O problema não é que a conta não fecha. É que
ela fecha no longo prazo para o proprietário, enquanto o construtor paga o
sobre custo no curto prazo e o repassa integralmente para o preço de venda.
Municípios como São Paulo,
Curitiba e Niterói já concedem desconto no IPTU para edificações com
certificação ambiental reconhecida, o que representa um incentivo concreto. Mas
a escala desse incentivo ainda é insuficiente para mover o mercado de forma
sistêmica.
O resultado é que São Paulo, cidade com dez empreendimentos LEED Platinum e dezenas de projetos registrados em diferentes estágios de certificação, convive com um estoque residencial majoritariamente construído sem qualquer critério de eficiência ambiental. O apartamento verde existe. O apartamento para alugar em São Paulo com certificação LEED que caiba no orçamento do inquilino de renda média ainda é exceção.
Construção verde: obra que não pode mais ignorar essa tendência
A conta que o mercado precisa
fazer
Construir verde custa mais
agora e economiza depois. Essa equação é matematicamente verificável. O que
falta é que o mercado a incorpore como padrão, não como diferencial de luxo ou marketing
de sustentabilidade.
O setor imobiliário é
responsável por 38% das emissões globais de carbono, segundo dados do GBC. No
Brasil, onde o ritmo de construção é acelerado e o estoque de edificações
antigas é enorme, a oportunidade de reduzir essas emissões por meio da
construção mais eficiente é proporcionalmente grande. A certificação LEED é um
instrumento para isso. O LEED v5 chegou com critérios mais rigorosos. Os
incentivos fiscais existem, ainda que insuficientes.
O que falta não é tecnologia
nem metodologia. É a decisão de tratar a eficiência ambiental das edificações
como critério de planejamento urbano, não como atributo opcional de
empreendimento premium. (ecodebate)







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