Uma nova modelagem climática
e econômica sugere que, em algumas décadas, sobreviver vai depender menos do
clima em si e mais da renda e do endereço de cada família.
Pesquisadores do MIT
simularam quase 4.000 futuros possíveis para 2050. Em boa parte deles, um mesmo
padrão se repete: os mais pobres podem chegar a gastar metade do que ganham só
para comer, enquanto os mais ricos, na mesma cidade, gastam uma fração disso.
Tem um exercício simples que
quase todo mundo já fez sem perceber. É aquele momento, no fim do mês, em que a
conta de luz chega junto com a lista de compras do mercado e alguma coisa no orçamento
precisa ceder. Para muitas famílias, essa conta nunca fecha de verdade: só se
reorganiza, mês após mês, entre o que falta e o que pode esperar.
Um grupo de cientistas do MIT
decidiu levar essa sensação cotidiana para dentro de um modelo matemático e
projetá-la até 2050. O resultado, publicado na revista científica Earth’s
Future, não é exatamente uma previsão sobre o clima. É uma radiografia de como
o clima, a economia e a desigualdade vão se misturar na vida real, dentro da
geladeira e no medidor de energia de cada casa.
Quase quatro mil futuros,
testados um a um
Em vez de apostar em um único
cenário, a equipe usou o GCAM, um dos modelos mais completos de simulação
econômica e ambiental do mundo, para rodar 3.735 combinações diferentes de
crescimento econômico, uso da terra, produção de energia e comércio de
alimentos. A ideia não foi adivinhar o futuro, mas mapear todos os caminhos
plausíveis até ele, do mais confortável ao mais duro.
Para que esse mapa tivesse
alguma utilidade prática, o planeta foi fatiado em pedaços bem menores do que
“países” ou “continentes”: 32 grandes regiões, 235 bacias hidrográficas e 384
áreas de uso da terra. É uma escala que se aproxima mais da vida real, porque
ninguém paga a conta de luz de um continente inteiro. Cada família paga a sua,
na sua rua, no seu clima local.
Metade do salário só para
comer
O achado mais duro do estudo
é também o mais simples de entender. Em determinadas regiões e cenários,
famílias de baixa renda podem chegar a comprometer cerca de 50% de tudo o que
ganham apenas com alimentação. No mesmo lugar, na mesma época, os grupos mais
ricos gastariam perto de 5% para se alimentar igualmente bem.
Não é uma diferença de gosto
ou de hábito de consumo. É uma diferença de margem de manobra. Quando metade do
salário vai para o prato, sobra muito pouco para qualquer outra coisa: remédio,
escola, conserto de casa, uma emergência qualquer.
Peso da alimentação na
renda das famílias mais pobres
|
África
Ocidental, 2015 25% |
África
Ocidental, projeção 2050 até 75% |
|
África
Austral, 2015 20% |
África Austral, projeção 2050 até 65% |
Faixas projetadas pelo estudo para os cenários mais severos entre as 3.735 combinações simuladas.
Comprometer metade da renda com uma única necessidade básica pode desorganizar uma vida inteira, porque sobra pouco espaço para lidar com qualquer outro imprevisto.
Ideia central atribuída
a Jennifer Morris, cientista de pesquisa do MIT e uma das autoras do estudo
A média que esconde o
abismo
Um dos pontos mais
interessantes da pesquisa não é sobre o futuro, mas sobre como lemos dados no
presente. É comum um governo comemorar uma média regional estável, como se isso
já garantisse que está tudo bem. O pesquisador Gi Joo Kim, também autor do
estudo, chama atenção justamente para essa armadilha: a média pode estar
tranquila enquanto uma fatia inteira da população já está afundando por baixo
dela.
É por isso que dividir o
planeta em milhares de pedaços menores faz diferença. Na África Ocidental e na
África Oriental, por exemplo, os 10% mais pobres podem enfrentar um peso
alimentar de 48,4% e 42,5% da renda, respectivamente, mesmo em cenários nos
quais a região, olhada de longe, parece estar progredindo. Na Ásia e no Leste
Europeu, o aperto muda de forma: a fragilidade se desloca para a conta de energia,
num contexto de invernos e verões cada vez mais extremos.
Não existe um único
vilão nessa história
É tentador resumir tudo
isso a uma frase de efeito sobre o aquecimento global. Mas o estudo evita esse
atalho. Os pesquisadores analisaram 12 variáveis diferentes, entre elas o
crescimento econômico, a forma como a renda é distribuída dentro de cada país,
a produtividade da agricultura, o uso da terra, a intensidade de carbono da
matriz energética e as regras do comércio internacional de alimentos.
Nenhuma dessas peças
funciona isolada. O jeito como um país cresce economicamente influencia como a
terra é usada, o que muda a disponibilidade de água, o que altera o preço da
comida na prateleira. É uma cadeia longa, e o estudo argumenta que tentar
resolver a crise futura com uma solução genérica, igual para todo mundo, tende
a falhar. A vulnerabilidade é sempre local, quase sempre invisível na média, e
exige respostas desenhadas para o contexto específico de cada bacia
hidrográfica ou cidade.
A conta de luz que
decide entre comer e se aquecer
No setor de energia, o
contraste chega a ser desconfortável de ler. No Oriente Médio, as projeções
indicam que as famílias mais ricas gastariam apenas 1,7% da renda com energia
residencial em 2050, enquanto as famílias mais pobres poderiam comprometer
18,9%. No Leste Europeu, o padrão se repete em menor escala: mais de 11% da
renda para os mais pobres, contra menos de 5% para os mais ricos.
Peso da energia
residencial na renda, projeção 2050
|
Oriente
Médio, renda mais alta 1,7% |
Oriente
Médio, renda mais baixa 18,9% |
|
Leste
Europeu, renda mais alta abaixo de 5% |
Leste
Europeu, renda mais baixa acima de 11% |
Quando quase ⅕ da renda vira conta de luz, o consumo de energia deixa de ser uma escolha de conforto. Vira uma escolha entre esquentar a casa no inverno, ou refrescá-la num verão cada vez mais extremo, e colocar comida na mesa. Esse tipo de aperto, replicado em milhões de famílias, é o tipo de pressão que corrói a paciência das pessoas com as próprias instituições.
Um mapa, não uma sentença
Vale reforçar algo que o
próprio estudo faz questão de deixar claro: essas 3.735 simulações não são uma
previsão fechada sobre 2050. São um mapa de riscos.
O objetivo não é dizer qual
futuro vai acontecer, mas mostrar quais combinações de política econômica, uso
da terra e matriz energética empurram o mundo para os cenários mais duros, e
quais combinações abrem caminho para algo mais justo.
Dito de outro modo: se
sabemos hoje quais decisões levam ao abismo, ainda temos tempo de tomar
decisões diferentes.
A pesquisa não é uma sentença
sobre 2050. É um convite para decidir, agora, que tipo de progresso realmente
queremos construir.
Fica então a pergunta que o
próprio estudo deixa no ar é se faz sentido chamar alguma coisa de “progresso”
se, em 2050, comer e se manter aquecido continuarem sendo privilégio de uns e
fardo insuportável para tantos outros? (ecodebate)



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