O Paraná vem a reboque de outros Estados brasileiros que efetivaram ações de proteção dos mananciais, como o Pagamento de Serviços Ambientais. A opinião é de Henrique Marinho Leite Chaves, professor da Universidade de Brasília (UnB) e consultor da área ambiental, que falou sobre produtores de água durante um seminário sobre o assunto promovido pela ONG MAE, realizado no mês passado. Bacias hidrográficas dos rios Piracicaba, que corta os São Paulo e Minas Gerais, e Paraíba do Sul, que passa por São Paulo, Minas, Gerais, Espírito Santo, por exemplo, já são alvo de ações que envolvem produtores e os usuários de água e que protegem e recuperam os cursos de água.
Pelo conceito do PSA os agricultores são produtores de água, já que suas práticas são determimantes na manutenção das reservas de água. Segundo Chaves, os produtores são incentivados a adotar boas práticas de manejo, como plantio direto, terraceamento, recuperação de pastos e integração lavoura-pecuária. ‘‘A sociedade toda se beneficia. O uso de tecnologias apropriadas possibilitou a redução de 50% da erosão nos últimos 25 anos’’, afirma.
Prejuízos ambientais e econômicos são visíveis e sentidos por toda a sociedade. A erosão e sedimentação do solo, por exemplo, causam impactos no abastecimento de água das cidades e navegação fluvial. ‘‘Os pesticidas são outro grande problema. As estações de tratamento não têm tecnologia para retirar os resíduos e o abastecimento acaba prejudicado ou a população pode ter a saúde afetada’’, diz.
Segundo Chaves, o programa Produtor de Água foi lançado em 2004 pela Agência Nacional das Águas (ANA) com a finalidade de melhorar a qualidade e quantidade da água em áreas rurais. É um programa voluntário, dirigido prioritariamente a bacias hidrográficas de importância estratégica para o País. ‘‘Pelo programa pagamentos são feitos a produtores que comprovadamente, por meio de práticas e manejos conservacionistas, contribuam para a melhoria dos recursos hidrícos’’, descreve o técnico.
De acordo com o programa, os pagamentos são feitos após a implantação de um projeto específico, previamente aprovado pela ANA ou por entidade autorizada. Os produtores recebem de 50% a 100% dos custos médios de referência da prática implantada, dependendo da sua eficiência.
A eficiência é um dos principais critérios, além da prioridade da bacia. Segundo o técnico, os resultados na propiedade serão medidos de acordo com fichas padrão e o produtor terá direito a receber até R$ 100,00 por hectare ao ano da área recuperada. Os valores a receber serão definidos por índices de infiltração de água no solo e pela redução dos processos erosivos – dois dos principais parâmetros da preservação de bacias hidrográficas.
A implantação de projetos, a administração de recursos e o pagamento dos serviços ambientais são definidos por um comitê de bacia, condição imprescindível para a existência do programa. ‘‘Este comitê vai definir como será a remuneração, ao mesmo tempo em que determina a cobrança pelo uso da água e pelas ações que prejudicam a bacia’’, afirma Chaves. ‘‘Aquele que preserva merece ganhar, mas os que lançam efluentes no rio, por exemplo, têm que pagar’’, completa.O comitê de bacias é o organismo que permite a participação de todos os agentes envolvidos no programa produtor de água. A sociedade civil tem representatividade por meio de associações, ONGs, produtores, usuários de água e ocupa 50% dos assentos. A outra metade é do poder público, federal ou estadual, dependendo da localização do rio. ‘‘É o empoderamento da sociedade, que vai decidir os rumos da preservação, de que forma os recursos serão utilizados’’, afirma Chaves.
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Degelo ameaça reservas de água na Bolívia
Reservatório de Milluni com baixo nível de água com a menor alimentação que vem das geleiras.
Na Bolívia, água e gelo contam uma história de mudança climática. Quando a água secou na torneira em frente à sua casa de paredes de barro, em setembro último, Celia Cruz deixou de fazer sopas e reduziu a lavagem da roupa da sua família de cinco pessoas. Ela passou a fazer peregrinações diárias aos bairros mais ricos, em busca de água.
Embora more aqui há uma década e o seu marido, que é trabalhador da construção civil, ganhe um salário decente, Celia não consegue comprar água.
“Estou cogitando voltar para o interior, o que mais posso fazer?”, diz Celia, 33, que usa tranças tradicionais e uma longa saia, enquanto examina um pátio no qual podem-se ver leitões, sacos de batatas e um automóvel velho Datsun de cor vermelha. “Dois anos atrás isso não era um problema. Mas se não houver água, não dá para viver”.
As geleiras que há muito fornecem água e eletricidade para esta parte da Bolívia estão derretendo e desaparecendo, vítimas do aquecimento global, segundo a opinião da maioria dos cientistas. Reportagem de Elisabeth Rosenthal, em El Alto (Bolívia), The New York Times.
Se o problema da água não for resolvido, El Alto, uma cidade pobre vizinha a La Paz, poderá talvez transformar-se na primeira grande baixa urbana causada pelo aquecimento global. Um relatório do Banco Mundial concluiu no ano passado que a mudança climática acabaria com várias geleiras nos Andes dentro de 20 anos, ameaçando a existência de quase 100 milhões de pessoas.
Para quase 200 nações que procuram chegar a um acordo climático internacional em Copenhague, o problema de atender às necessidades de dezenas de países como a Bolívia é um dos focos centrais das negociações e um grande obstáculo para que se firme um tratado.
Os líderes mundiais há muito concordam que os países ricos precisam fornecer dinheiro e tecnologia para ajudar as nações em desenvolvimento a adaptarem-se a problemas que, em grande parte, foram criados por chaminés de fábricas e canos de descargas de veículos em lugares muito distantes. Mas os detalhes dessa transferência – que países arcarão com as despesas, quanto será pago e para que tipos de projetos – ainda continuam sendo fonte de polêmica.
Na semana passada, os integrantes de um grupo dos menores países pobres do mundo discutiram a possibilidade de se retirarem das negociações em Copenhague caso as nações ricas não fornecessem de fato dinheiro. Embora reiterasse que o seu país ajudaria a pagar a conta,Todd Stern, o principal negociador dos Estados Unidos, resistiu à ideia de que esse dinheiro seja uma “dívida climática”. E, na última sexta-feira, a União Europeia fez uma promessa inicial de pagar US$ 3,5 bilhões (R$ 6,2 bilhões) anuais durante três anos para ajudar os países pobres a fazer frente à situação – embora os economistas acreditem que o custo total de tal ajuda será de pelo menos US$ 100 bilhões (R$ 174,5 bilhões).
Uma voz furiosa
Devido às recentes catástrofes que enfrenta provocadas pela mudança climática, a Bolívia está se transformando em uma voz furiosa entre as nações pobres, exigindo que todo financiamento seja pago de forma integral e rápida.
“Temos um grande problema, e nem mesmo dinheiro resolverá isso completamente”, afirma Pablo Solon, o embaixador da Bolívia na Organização das Nações Unidas (ONU). “O que pode fazer um país se as suas geleiras desaparecerem ou, no caso de nações insulares, se ele ficar debaixo d’água?”.
Cientistas dizem que dinheiro e projetos de engenharia poderiam resolver os problemas de falta d’água de La Paz e El Alto, com projetos que incluiriam um reservatório bem planejado. As geleiras em torno das cidades proporcionaram basicamente reservas naturais de baixa manutenção, coletando água na curta estação chuvosa e liberando-a durante a estação seca para o uso da população e a geração de energia elétrica. Mas, com a elevação das temperaturas e as alterações dos regimes pluviométricos, essas geleiras não suprem mais estas necessidades.
“Os efeitos estão aparecendo muito mais rapidamente do que nós podemos responder a eles, e são necessários de cinco a sete anos para a construção de um reservatório. Não sei se temos tanto tempo”, adverte Edson Ramirez, um glaciologista que há duas décadas documenta e faz previsões sobre a redução do tamanho das geleiras. Ultimamente, essa redução tem superado as suas previsões mais pessimistas. Por exemplo, ele previu que uma da geleiras, a Chacaltaya, duraria até 2020, mas ela desapareceu completamente neste ano. Em 2006, ele afirmou que a demanda por água em El Alto superaria a oferta até 2009. Isso de fato aconteceu.
Mas o aquecimento global não é o único culpado pelos problemas crônicos deste país sem litoral, exótico, mas extremamente pobre, cuja renda per capita é de cerca de US$ 1.000 (R$ 1.745). As reservas de água são também ameaçadas pelo crescimento populacional e pelo mau gerenciamento desses suprimentos, em parte porque há pouco dinheiro para que se gerencie qualquer coisa, mas também porque o governo nacionalizou a companhia de fornecimento de água há alguns anos, declarando que a água é um direito humano. El Alto ainda não possui nenhum técnico em tratamento e distribuição de água contratado pelo governo.
Populações no limite
“Estas populações já se encontravam no limite da sobrevivência, e agora existem as dificuldades extras provocadas pela mudança climática, bem como os grandes problemas sociais”, afirma Dirk Hoffmann, diretor do programa sobre mudança climática da Universidad Mayor de San Andres, em La Paz. “Estamos falando de conflito – não nos referimos exatamente a uma guerra civil. Mas haverá convulsão social”.
Na verdade, quando as torneiras secaram no bairro de Celia Cruz, no distrito Solidariedade de El Alto, os moradores ricos de La Paz ainda tinham água. Em um país que abraçou a retórica socialista e os direitos indígenas, houve reclamações. “A sensação de injustiça é palpável”, diz Edwin Chuquimia Velez, um funcionário de El Alto que já foi responsável pelo fornecimento de água.
Embora admita que há preocupações quanto ao fornecimento, Victor Hugo Rico, diretor da companhia estatal de água, a Epsas, negou que tivesse havido racionamento intencional e afirmou que três poços estão sendo perfurados para aumentar a quantidade de água disponível para El Alto, e que há projetos para a perfuração de outros poços.
As geleiras são o cenário mais majestoso daqui, sendo visíveis de quase todos o locais das cidades vizinhas de La Paz e El Alto, cada uma com um milhão de habitantes. O desaparecimento dessas geleiras das paisagens é tão chocante para os bolivianos quanto foi para os novaiorquinos ver Lower Manhattan sem as Torres Gêmeas.
“Ver esta mudança me enche de tristeza e dor”, afirma Gonzalo Jaimes, um guia de escaladas de La Paz.
No Chacaltaya, com 5.300 metros de altitude, ficava o maior centro de esquiação do mundo de 1939 a 2005, quando a geleira encolheu para além das escarpas. A estação de esqui, ainda dotada de equipamento para aluguel, e decorada com pôsteres de esquiadores, está praticamente abandonada.
Embora todas as geleiras aumentem e encolham no decorrer do tempo, pesquisas recentes revelaram que geleiras pequenas e localizadas em altitudes relativamente baixas, como as da Bolívia, são particularmente vulneráveis ao aumento de temperatura, um fenômeno que os glaciologistas comparam àquilo que ocorre com pequenos cubos de gelo imersos na água.
Para os moradores do local, a falta de água é o maior problema. Embora a eletricidade da região seja gerada por usinas hidroelétricas, estas dependem bastante das chuvas e da água da Amazônia, de forma que até o momento não houve problema de falta de energia.
Em Khapi, uma vila a duas horas de carro de La Paz, as pessoas chamam a geleira Illimani de “Nosso Deus, Nosso Grande Protetor”, diz Mario Ariquipa Laso, 55, um agricultor de aparência envelhecida que planta batatas e milho nas terras inclinadas à sombra da geleira. Dez anos atrás, a geleira fornecia durantes os meses secos uma torrente de água contínua e calma que possibilitava a irrigação das lavoras. Mas, atualmente, com a retração da Illimani, a água mal brota da geleira, em uma mistura amarelada.
“Esta água é completamente inútil”, reclama Hector Hugo Chura Chuque, vice-prefeito desta vila que não conta com água encanada e que só recebe eletricidade de forma intermitente.
“Muitos de nós estão pensando em não ter mais filhos”, diz Margarita Limachi Alvarez, 46, que usa uma boina andina azul com proteção para as orelhas. “Sem água ou comida, como nós sobreviveremos? Por que trazer filhos ao mundo para sofrerem?”.
As torneiras estão secando
A 150 quilômetros dali, em um bairro de classe média de El Alto, a água também tornou-se objeto de preocupação crescente. De setembro a novembro, as torneiras só contam com água durante no máximo oito horas diárias. E esta água frequentemente sai em um filete sem pressão.
“Às vezes não temos água de manhã. E às vezes falta água à noite – nunca se sabe”, diz Julia Torrez, de 31 anos e grávida de oito meses, em uma sala bem arrumada com sofás coloridos e decorada com quadros. Julia recorda-se que, quando as torneiras começaram a secar, ela correu a encher baldes, em uma rotina incomum para esta família de profissionais que usam calças jeans e têm diplomas universitários.
Em outubro último, as autoridades de La Paz passaram a fechar as empresas de lavagem de automóveis na Avenida Kollasuyo, e só cederam quando a chuva chegou ao final de novembro. “Esta foi a primeira vez que nos disseram que não havia água suficiente para que funcionássemos”, conta Omar Mamaru, 25, dono do lavajato Auto-Stop, usando luvas e um macacão laranja, enquanto esfrega um veículo utilitário esportivo azul.
Nos últimos anos, a vida dos bolivianos tem sido castigada por uma série quase bíblica de fenômenos climáticos rigorosos, muitos dos quais, segundo os cientistas, estariam vinculados à alteração climática – embora atualmente seja difícil provar isso, já que países pobres como a Bolívia contam com poucos dados científicos de longo prazo. Neste ano o sol foi tão intenso e as temperaturas foram tão elevadas que as mães indígenas viram os filhos de pele escura sofrer queimaduras solares. Uma seca matou 7.000 animais e deixou quase 100 mil doentes.
Tempestades severas
Tempestades severas normalmente associadas aos períodos do El Niño, a cada sete anos, agora ocorrem regularmente. Temperaturas mais altas significam novas pragas das lavouras – como grilos e lagartas – bem como a disseminação de doenças como a malária e a dengue.
Em uma manhã recente em Huaricana, uma vila a uma hora de La Paz, a população usou pedras e pedaços de madeira para consertar uma estrada que foi cortada por um rio de lama de 12 metros de largura criado por um forte temporal. Um vendedor vendia sorvetes às crianças que observavam esta cena, que atualmente é familiar.
“Isto só tem acontecido nos últimos três anos”, diz Oswaldo Vargas, 55, enquanto reboca pela lama um ônibus com o seu trator Fiat.
Os países desenvolvidos concordam que têm a obrigação de ajudar a aliviar esses problemas, mas muitos deles hesitam em fornecer verbas, em parte porque os países pobres têm poucos planos concretos para enfrentar os problemas climáticos. Por exemplo, os efeitos das alterações climáticas ainda não foram analisados nem quantificados pela Epsas, a companhia de água.
Mas com pouco dinheiro e conhecimento técnico, é difícil projetar um novo reservatório gigante ou um sistema para a transferência de água para diferentes partes do país.
“Os pobres da Bolívia não são responsáveis por aquilo que está ocorrendo com a geleira, mas são eles os que sofrem mais, e infelizmente o governo não tem um plano concreto”, opina Edwin Torrez Soria, um engenheiro da Aqua Sustentable, que trabalha nas vilas próximas à geleira Illimani.
Neste ano, os últimos dias de novembro proporcionaram um pouco de alívio e a estação chuvosa começou, embora com um atraso de um mês. A torneira em frente à casa de Celia Cruz voltou a fornecer água.
Mas a chuva que costumava suprir as geleiras de gelo, agora, com frequência, só faz com que aumentem as enxurradas, já que a temperatura está muito elevada para que a água congele.“Neste momento estamos vivendo com uma quantidade de água adicional, proveniente do derretimento da geleira, que daqui a alguns anos não estará mais disponível”, diz Hoffmann, do programa de mudança climática. “Isto não é irônico?”.
Alagamentos urbanos
Chuvas na região da capital e Grande SP causaram 18 pontos de alagamento e interromperam tráfego de trens em uma linha da CPTM. Na Av. Aricanduva, morador utiliza barco para tentar chegar em casa.
Enquanto continuamos concentrados no aquecimento global, na preservação da floresta amazônica, na reformulação do Código Florestal, na polêmica da reserva legal nas áreas rurais, tudo importante para o futuro, é claro, vivemos as agruras do presente em cidades assoberbadas pelos desastres provocados por fenômenos naturais. E chuvas que já aconteceram muitas vezes, ao longo do tempo, e não provocavam nenhum dano, hoje são catastróficas. A resposta é bem simples e conhecida de todos nós urbanos: está na ocupação dos leitos maiores dos cursos d’água, no avanço das construções pelas encostas íngremes, na impermeabilização do solo por ruas e avenidas asfaltadas, nos terreiros cimentados e na drenagem dos telhados por calhas que são canalizadas diretamente para as ruas. Tudo isso nós sabemos e as autoridades, também.. O que fazer, então? O que vou sugerir é muito simples, sendo muito mais uma questão de logística do que de tecnologias de conservação.
Em primeiro lugar, há de se fazer um trabalho permanente de conscientização da população quanto ao comportamento ambiental dos núcleos urbanos. Não falo de programas aleatórios que surgem durante e logo após desastres como os vivido recentemente por Belo Horizonte e outros núcleos urbanos pelo país a fora. Falo de trabalho cotidiano junto às comunidades, com cartilhas, mensagens, reuniões com pais e mães nas escolas, com trabalhadores nas empresas, com vendedores ambulantes e tantos outros. Falo da inclusão de alunos nas discussões, mas sem viés emotivo, muito a gosto dos ambientalistas. Falo em mostrar as realidades cruas e nuas, mas com indicação de causas e demonstrações dos efeitos interativos homem/natureza. Falo, em resumo, de trabalho sistemático de instituições públicas e da sociedade organizada, feito durante todo o ano e ao longo dos anos, pois haverá sempre um novo ângulo a ser atacado, pela própria dinâmica das cidades.
Em segundo lugar, há de se buscar a participação de especialistas em áreas como geologia, hidrologia, saneamento, urbanismo e arquitetura, engenharia civil, sociologia e comunicação, desvinculados de interesses corporativos ou empresariais, para, em conjunto, indicarem alternativas apropriadas para as diversas situações. Posso citar, com relação aos alagamentos em Belo Horizonte, por exemplo, uma ampla discussão sobre a eficiência de pequenos reservatórios domésticos para captação de águas de chuvas, de reservatórios maiores em prédios e condomínios, de valas de infiltração, de tubulações de drenagem com fundos porosos etc. Muitos poderão dizer que as prefeituras já contam com tais grupos de especialistas, mas eu digo que não, pois nelas ainda predominam os projetos encomendados de empresas que tendem a puxar as brasas para suas sardinhas e acabam sugerindo grandes obras de engenharia, nem sempre eficientes, mas certamente lucrativas. As decisões precisam ser avalizadas por comunidades científicas independentes e tomadas após discussão com as sociedades envolvidas, através de suas entidades representativas. Não devemos nos esquecer, nunca, que os dirigentes municipais não passam de empregados das respectivas sociedades.
Em terceiro lugar, os espaços urbanos precisam ser zoneados, ter as áreas de risco delimitadas, ter programas de adequação construção/ambiente e outros de realocação populacional. Depois disso, as autoridades municipais precisam exercer seus poderes de polícias administrativas para garantirem a execução e a manutenção do planejado. Compete também às populações, bem esclarecidas pelas campanhas já mencionadas, descartarem os dirigentes inoperantes e buscarem novos, não deixando que as paixões partidárias prevaleçam sobre as necessidades de se ter cidades civilizadas.Se estas aparentes utopias de hoje não caminharem para realidades próximas, os nossos núcleos urbanos, principalmente os representados por metrópoles como Belo horizonte, vão se tornar cada vez piores. São procedimentos simples, até óbvios e elementares, mas que inexplicavelmente não são adotados no dia a dia. Por que será? Faça você uma reflexão e decida mudar de atitude para colaborar na criação de novas concepções e novos procedimentos gerenciais urbanos.
Enchentes: o conhecimento das causas deve orientar as soluções
Chuvas na região da capital e Grande SP causaram 18 pontos de alagamento e interromperam tráfego de trens em uma linha da CPTM. Na Av. Aricanduva, o rio transbordou e alagou a via e as casas.
Para se combater exitosamente um problema, conhecer e eliminar suas causas. No caso das enchentes metropolitanas os sucessivos governos, estado e municípios, têm desconsiderado totalmente esse preceito metodológico básico e concentrado suas ações e atenções na busca de uma solução hidráulica simplista que, como panacéia tecnológica, lhes aliviasse do pesado ônus político de responder pelas calamidades públicas associadas ao problema.
Desde décadas têm sido assim priorizados, quase com exclusividade, os dispendiosos serviços de ampliação e manutenção das calhas dos principais rios metropolitanos e, mais recentemente, a instalação dos deletérios piscinões, verdadeiros atentados urbanísticos, sanitários e ambientais. A realidade tem sido madrasta dessa lógica limitada e mostrado claramente que as obras hidráulicas estruturais por si só, ainda que indispensáveis, são insuficientes frente a um propósito de se reduzir drasticamente a quantidade e a intensidade das enchentes na região.
As causas principais de nossas enchentes estão associadas a alguns fatores perfeitamente identificáveis. Primeiramente há que se considerar as características geológicas e hidrológicas naturais da região da Bacia do Alto Tietê, hoje ocupada pela metrópole paulistana. Nessas condições naturais os rios Tietê, Pinheiros, Tamanduateí e outros apresentavam-se originalmente totalmente meandrantes e sinuosos, com baixíssima declividade, revelando que a região, antes do homem branco por aqui chegar, já naturalmente demonstrava uma grande dificuldade em escoar suas águas superficiais.
Não reconhecendo e não levando em conta essas características naturais a metrópole desenvolveu-se sob a cultura da impermeabilização e da canalização e retificação de seus cursos d’água, reduzindo enormemente a capacidade original da região em infiltrar e reter as águas de chuva. Como decorrência, volumes crescentemente maiores de água, em tempos sucessivamente menores, são escoados para drenagens naturais e construídas progressivamente incapazes de lhes dar vazão.
Agravando esse quadro vêm sendo progressivamente ocupados os terrenos mais periféricos, de relevo mais acidentado e com solos extremamente mais vulneráveis à erosão. Opta-se, nessas condições topográficas, por produzir artificialmente, através de operações de terraplenagem, pontuais ou generalizadas, áreas planas e suaves para assentar as novas edificações, implicando em exposições cada vez maiores e mais prolongadas dos solos aos processos erosivos. Como resultado direto são produzidos anualmente por erosão na RMSP cerca 3.500.000 metros cúbicos de sedimentos silto-arenosos, cujo destino inexorável é o assoreamento fantástico de toda a rede metropolitana de drenagem, reduzindo, juntamente com o entulho de construção civil e o lixo urbano lançados irregularmente, ainda mais sua já sobrecarregada capacidade de vazão.
Uma observação preocupante, e que revela a pouca abrangência da atual estratégia de combate às enchentes, a metrópole continua a crescer cometendo os mesmos trágicos e elementares erros que estão na origem de todos esses problemas.Se levar corretamente em conta esse diagnóstico, condição indispensável para o êxito no combate às enchentes, a administração pública deverá necessariamente complementar seu programa com um audacioso grupo de ações que incidam diretamente sobre as causas maiores das enchentes. Planejar e colocar regras claras e rígidas para o crescimento urbano.
Aumentar a capacidade de retenção de águas de chuva por infiltração e reservação com expedientes técnicos de desimpermeabilização da área urbanizada – pavimentos, calçadas, valetas, pátios e tubulações drenantes, poços e trincheiras de infiltração, intenso plantio de médios e pequenos bosques florestados – e instalação de reservatórios empresariais e domiciliares. Concomitantemente, reduzir drasticamente os intensos processos erosivos que incidem sobre todas as frentes de expansão urbana da metrópole, hoje palco de um verdadeiro desastre geológico, assim como o lançamento irregular do entulho de construção civil e do lixo urbano.Algumas ações pontuais da PMSP, como a conservação das várzeas do Tietê a montante da Barragem da Penha e a implantação de parques lineares são auspiciosas, mas ainda extremamente limitadas frente à dimensão da Bacia do Alto Tietê, 6 mil Km², com mais de 30 municípios integrantes. O que exige, por decorrência, que o combate às enchentes, diferentemente do que vem sendo feito hoje, tenha articulação e comando de caráter metropolitano.
Copenhague ou Copenhágua?
A estratégia de mobilização através do clima teve sucesso. O carbono se tornou um elemento químico mágico. Mas há o risco de reducionismo absurdo. Será que poderemos resolver nossos problemas ambientais, profundamente vinculados às relações econômico-sociais e internacionais, através do sequestro de carbono com matas homogêneas de eucalipto e cana? São algumas das contradições que hoje nos embalam hoje e de outras que surgiram em Kyoto, como a que manda pagar pela monocultura florestal plantada pelo carbono que absorve da atmosfera, mas não paga pela preservação da floresta biodiversa nativa de pé.
Será que Al Gore e equipe não encontraram uma estratégia que permite ao capital financeiro internacional e as indústrias pagarem seus pecados sem se arrependerem e sem mudarem nenhum dos ingredientes de seu modo de produção e consumo? O carbono parece repetir o milagre da salvação pelas indulgências medievais, agora unindo judeus, católicos e protestantes.
Esta discussão entre os interesses dos países pobres e ricos, parecendo o renascimento de um certo terceiromundismo, é café requentado, de péssimo gosto. Entra na agenda de Copenhague para permitir a fuga das questões essenciais: a biodiversidade dos ecossistemas, a questão dos cuidados com o solo, a questão das matrizes energéticas, o modelo de produção e consumo, as questões demográficas e das águas, sobretudo continentais, geridas diretamente por nós.
Uma mesma área de floresta biodiversa nativa tem valor muito superior a uma floresta homogênea plantada, do ponto de vista ambiental. Uma armadilha que está no modelo em consagração em Copenhague é desconhecer a biodiversidade e os ecossistemas remanescentes na Terra e tentar resolver questões complexas a partir de sequestro de carbono.
As áreas já desmatadas, as áreas abandonadas por culturas em decadência, ou as áreas possíveis de serem redirecionadas como oferta agro-florestal no planeta poderia ser utilizada como áreas de plantio de florestas homogêneas energéticas, capturando carbono e também riqueza para seus proprietários, com grande impacto ambiental e sócio-econômico mundial, fazendo retroceder a sanha de desmatamento de biomas nativos com as últimas reservas de biodiversidade e criando condições favoráveis para recuperação e sobrevivência de biomas em extinção.As águas doces continentais disponíveis às populações têm muito a ver com o sistema de cobertura vegetal, sobretudo das florestas nativas. As águas como eixo de mobilização e transformação das políticas urbanas e rurais em todo o globo terrestre são mais profícuas, abrangentes, mobilizadoras e compreensíveis pelas grandes massas humanas que este foco no carbono. O carbono e outras variáveis indicadores sistêmicos ambientais devem compor um sistema de monitoramento em que a vida e biodiversidade dos ecossistemas sejam centrais. E com este objetivo a gestão da água é central, no território desta grande bacia que é a Terra. A águas mostram a nossa cara, os espelhos d’água refletem a nossa mentalidade. E podemos monitorar todas as políticas públicas pelo foco do biomonitoramento.
Estudo estima que nível do mar vai subir 8 m com aumento de 3ºC na temperatura da Terra
Na última era interglacial, há 125 mil anos, o nível dos mares era de 8 m a 9,4 m mais elevado que atualmente, com temperaturas nos polos de 3ºC a 5ºC mais quentes, segundo um novo estudo [Global change: Interglacial and future sea level] divulgado pela revista “Nature”.
Estes resultados de pesquisadores das universidades de Harvard e Princeton, publicados durante a Conferência sobre o Clima de Copenhague, revisou em alta as estimativas do último relatório do IPCC (Painel Intergovenamental das Mudanças Climáticas, na sigla em inglês) sobre a matéria, que calculava a alta do nível dos mares entre 4 m e 6 m acima do nível atual naquele mesmo período.
Robert Kopp e seus colegas construíram um modelo estatístico com base em inúmeras medidas efetuadas em diferentes locais do globo, com uma alta não homogênea do nível dos mares há 125 mil anos.
“Encontramos uma probabilidade de 95% de que o nível dos mares tenha chegado a um nível pelo menos superior a 6,6 metros ao nível atual”, segundo o estudo.
“É possível [67%] que este nível tenha sido superior a mais de 8 metros ao nível atual, e improvável [probabilidade de 33%] que ele tenha ultrapassado 9,4 metros’, acrescentaram os cientistas.
“Estes resultados colocam em evidência a vulnerabilidade a longo prazo das calotas polares a um aquecimento duradouro, mesmo a níveis relativamente fracos”, destacaram.
Os autores calcularam que durante a última era interglacial, o nível médio dos mares subiu de 6 mm a 9 mm por ano, contra quase 2 mm por ano durante o século 20 e provavelmente em torno de 3 mm por ano entre 1993 e 2003.“Se as estimativas de Kopp e de seus colegas forem corretas, a mensagem problemática é a de que o nível de equilíbrio do nível dos mares em resposta a um aquecimento global de 1,5ºC a 2ºC seria uma elevação de 7 a 9 m em relação ao nível atual”, escreveram dois especialistas americanos em geociências, Peter Clark e Peter Huybers, em um comentário publicado pela “Nature”.
Para salvar o planeta, salvem os oceanos
Apesar das muitas decepções nas recentes conversações sobre o clima em Copenhague, houve pelo menos um resultado positivo claro, e esse foi o progresso alcançado na área de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). Por esse mecanismo, que teve elementos-chave acertados em Copenhague, países em desenvolvimento serão compensados por preservar florestas, solos de turfa, pântanos e campos que são eficientes na absorção de dióxido de carbono (CO2), o principal gás associado ao aquecimento global.
Essa abordagem, que explora o poder da própria natureza, é uma maneira econômica de armazenar grandes quantidades de carbono. Mas o programa é limitado porque inclui somente esses sumidouros de carbono encontrados em terra. Precisamos agora olhar para oportunidades parecidas nos oceanos para atenuar as mudanças.
Talvez poucos saibam, mas além de produzir a maior parte do oxigênio que respiramos, o oceano absorve em torno de 25% das emissões anuais de CO2. Metade dos estoques de carbono do mundo é retido em plâncton, manguezais, pântanos salgados e outros ecossistemas de vida marinha. Assim, é pelo menos tão importante para o clima preservar essa vida oceânica como preservar florestas.
Os campos de plantas marinhas, por exemplo, que florescem em águas costeiras rasas, respondem por em torno de 15% do armazenamento oceânico total de carbono, e florestas submarinas de algas armazenam quantidades enormes de carbono, como as florestas terrestres. O sumidouro de carbono natural mais eficiente de todos não está em terra, mas no oceano, na forma da Posidonia oceanica, uma espécie de grama marinha que forma vastos campos submarinos que ondulam às correntes marítimas como os campos de gramíneas em terra ondulam ao vento.
Em todo o mundo, hábitats costeiros como esses estão sendo perdidos por causa da atividade humana. Áreas extensas foram alteradas por aterros e fazendas de criação de peixes, enquanto a poluição costeira e a pesca em excesso têm danificado ainda mais os hábitats e reduzido a variedade de espécies. Já está claro que essa degradação não só afetou o ganha-pão e o bem-estar de mais de 2 bilhões de pessoas dependentes de ecossistemas costeiros para se alimentar, como reduziu a capacidade de armazenar carbono desses ecossistemas.
Existe uma dupla razão para se administrar melhor regiões costeiras e oceanos. Esses hábitats vegetais saudáveis ajudam a atender às necessidades das pessoas que estão se adaptando às mudanças climáticas e reduzem o acúmulo de gases do efeito estufa ao armazenarem CO2. Os países deveriam ser estimulados a criar áreas marinhas protegidas, isto é, reservar partes da costa e do mar onde a natureza possa prosperar sem uma interferência humana indevida e fazer tudo ao seu alcance para recuperar pântanos marinhos, florestas de algas e campos de grama marinha.
Administrar esses hábitats é bem menos dispendioso do que tentar sustentar linhas costeiras depois que os danos foram feitos. Manter faixas de manguezais saudáveis na Ásia com uma gestão cuidadosa, por exemplo, revelou-se custar apenas um sétimo do que teria custado erguer defesas costeiras artificiais contra tempestades, ondas e forças de maré.
As discussões em Copenhague aplainaram o caminho para todos os países melhorarem a administração de oceanos e costas para explorar seu imenso potencial para mitigar as mudanças climáticas - especialmente na nova década, enquanto políticos, cientistas e engenheiros no mundo desenvolvem estratégias de longo prazo para estabilizar a concentração atmosférica de gases do efeito estufa.
Nas negociações contínuas sobre clima, as nações deviam agora tornar prioritária a produção de um único mapa do mundo que documente todos os tipos de sumidouros de carbono costeiros, e identifique os que necessitam de uma preservação mais imediata. Novos estudos devem ser realizados para melhor compreender como administrar de maneira efetiva essas áreas para aumentar o sequestro de carbono. Depois, seguindo o exemplo de Redd, será possível estabelecer fórmulas para compensar países que preservem sumidouros de carbono fundamentais nos oceanos. Precisamos trazer urgentemente o oceano para a agenda junto com as florestas para podermos ajudar, o quanto antes, os oceanos a nos ajudarem.
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