A água tem se tornado um elemento de disputa entre nações. Um relatório do Banco Mundial, datado de 1995, alerta para o fato de que "as guerras do próximo século serão por causa de água, não por causa do petróleo ou política".
Hoje, cerca de 250 milhões de pessoas, distribuídos em 26 países, já enfrentam escassez crônica de água.
Em 30 anos, o número de pessoas saltará para 3 bilhões em 52 países. Nesse período, a quantidade de água disponível por pessoa em países do Oriente Médio e do norte da África estará reduzida em 80 por cento. A projeção que se faz é que, nesse período, 8 bilhões de pessoas habitarão a terra, em sua maioria concentradas nas grandes cidades. Daí será necessário produzir mais comida e mais energia, aumentando o consumo doméstico e industrial de água. Essas perspectivas fazem crescer o risco de guerras, porque a questão das águas torna-se internacional.
Em 1967, um dos motivos da guerra entre Israel e seus vizinhos foi justamente a ameaça, por parte dos árabes, de desviar o fluxo do rio Jordão, cuja nascente fica nas montanhas no sul do Líbano. O rio Jordão e seus afluentes fornecem 60 por cento da água necessária à Jordânia. A Síria também depende desse rio.
A populosa China também sofre com o problema. O grande crescimento populacional e a demanda agroindustrial estão esgotando o suprimento de água. Das 500 cidades que existem no país, 300 sofrem com a escassez de água. Mais de 80 milhões de chineses andam mais de um quilômetro e meio por dia para conseguir água, e assim acontece com inúmeras nações.
Um levantamento da ONU aponta duas sugestões básicas para diminuir a escassez de água: aumentar a sua disponibilidade e utilizá-la mais eficazmente. Para aumentar a disponibilidade, uma das alternativas seria o aproveitamento das geleiras; a outra seria a dessalinização da água do mar.
Esses processos são muito caros e tornam-se inviáveis para a maioria dos países que sofrem com a escassez. É possível, ainda, intensificar o uso dos estoques subterrâneos profundos, o que implica utilizar tecnologias de alto custo e o rebaixamento do lençol freático.
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O Ciclo da Água
A água desenvolve um ciclo. O chamado ciclo da água é o caminho que ela percorre. A chuva, basicamente, é o resultado da água que evapora dos lagos, rios e oceanos, formando as nuvens. Quando as nuvens estão carregadas, soltam a água na terra. Ela penetra o solo e vai alimentar as nascentes dos rios e os reservatórios subterrâneos. Se cai nos oceanos, mistura-se às águas salgadas e volta a evaporar, chove e cai na terra.
Evaporação da Água Precipitação da Água
A quantidade de água existente no planeta não aumenta nem diminui. A abundância de água é relativa. É preciso levar em conta os volumes estimados de água acumulados e o tempo médio que ela permanece nos ambientes terrestres. Por exemplo: nos rios o volume estimado de água é de 1700 quilômetros cúbicos e o tempo de permanência no leito é de duas semanas. As geleiras e a neve têm 30 milhões de quilômetros cúbicos e a água deve ficar congelada por milhares de anos. A água atmosférica tem o volume de 113 mil quilômetros cúbicos e permanece por 8 a 10 dias no ar.
Acredita-se que a quantidade atual de água seja praticamente a mesma de há 3 bilhões de anos. Isto porque o ciclo da água se sucede infinitamente. Não seria engraçado se o alimento que comemos ontem tivesse sido preparado com as águas que, tempos atrás, foram utilizadas pelos romanos em seus famosos banhos coletivos?
Qualidade da Água
A água pode ser saudável ou nociva. Na natureza não existe água pura, devido à sua capacidade de dissolver quase todos os elementos e compostos químicos. A água que encontramos nos rios ou em poços profundos contém várias substâncias dissolvidas, como o zinco, o magnésio, o cálcio e elementos radioativos.
Dependendo do grau de concentração desses elementos, a água pode ou não ser nociva.
Para ser saudável, a água não pode conter substâncias tóxicas, vírus, bactérias, parasitos.
Quando não tratada, a água é um importante veículo de transmissão de doenças, principalmente as do aparelho intestinal, como a cólera, a amebíase e a disenteria bacilar, além da esquistossomose.
Essas são as mais comuns. Mas existem outras, como a febre tifóide, as cáries dentárias, a hepatite infecciosa.
O consumo de uma água saudável é fundamental à manutenção de um bom estado de saúde. Existem estimativas da Organização Mundial de Saúde de que cerca de 5 milhões de crianças morrem todos os anos por diarréia, e estas crianças habitam de modo geral os países do Terceiro Mundo. Existem alguns cuidados que são fundamentais. O acesso à água tratada nem sempre existe na nossa população - principalmente na população de periferia. Deve-se tomar muito cuidado porque a contaminação dessa água nem sempre é visível. A água de poço e a água de bica devem ser usadas com um cuidado muito especial, porque muitas vezes estão contaminadas por microrganismos que não são visíveis a olho nu. Mesmo com a água tratada deve-se ter alguma cautela, porque muitas vezes há contaminação na sua utilização: recipientes que são utilizados com falta de higiene, mãos que não são suficientemente bem lavadas. Todos esses fatores podem estar interferindo num caso de diarréia. Muitas outras doenças importantes também podem ser causadas pela água contaminada.
A água também se encontra ameaçada pela poluição, pela contaminação e pelas alterações climáticas que o ser humano vem provocando. Além do perigo que representa para a saúde e bem-estar do homem, a degradação ambiental é apontada pela Organização Mundial de Saúde como uma importante ameaça ao desenvolvimento econômico. Em geral, uma pessoa só toma consciência da importância da água quando ela lhe falta.
Enchentes
Enchente não é, necessariamente, sinônimo de catástrofe. É apenas um fenômeno natural dos regimes dos rios. Não existe rio sem enchente. Por outro lado, todo e qualquer rio tem sua área natural de inundação. As inundações passam a ser um problema para o homem quando ele deixa de respeitar esses limites naturais dos rios. Por exemplo, quando remove as várzeas e quando se instala junto às margens. Ou então quando altera o ambiente de modo a modificar a magnitude e o regime das enchentes, quando desmata, remove a vegetação e impermeabiliza o solo.
As alterações que o homem provoca na bacia hidrográfica, alterando suas características físicas, também aumentam o prejuízo dessas enchentes. Como o homem altera as características da bacia?
De diversas formas. A primeira, ou a mais importante, é quando ele suprime a cobertura vegetal e introduz obras com características de impermeabilização do solo, como construção de casas, telhados, pavimentação de ruas, quintais.
Perdemos a capacidade de retenção da água através da vegetação e perdemos também a capacidade de infiltração dessa água no solo. Por conseguinte, os volumes de água que chegarão aos rios serão sempre maiores. E, portanto, os prejuízos das inundações também serão maiores.
A pergunta que fica é: como podemos enfrentar o problema dos prejuízos decorrentes das inundações? Existem basicamente três formas: a primeira é não ocupar as áreas de inundação; a segunda é não alterar - ou alterar o menos possível - as características físicas da bacia hidrográfica. E, por último, através da implantação de obras de contenção de cheias, como a construção de barragens, reservatórios, construção de diques para proteção de áreas de riscos altos de inundação, enfim, outras obras de engenharia, do tipo desassoreamento de rios e ampliação de seus leitos. Todas essas obras têm uma característica comum: são extremamente caras e onerosas para a sociedade. Conquanto tenha certo grau de eficiência, nós podemos dizer que elas não são absolutamente eficazes porque, mesmo contando com essas obras, sempre haverá um evento de chuva, um evento de cheia que provocará uma inundação maior do que aquelas para as quais essas obras foram projetadas.
Água – O desafio do século 21
Essencial à Vida
As mais bonitas imagens da Terra, aquelas que são agradáveis aos olhos, à imaginação, as que são um convite ao relaxamento, sempre têm a água em sua composição: as ondas do mar, as cachoeiras, um riacho cristalino, a neve sobre as montanhas, os lagos espelhados, a chuva caindo sobre as plantas, o orvalho...
A ciência tem demonstrado que a vida se originou na água e que ela constitui a matéria predominante nos organismos vivos. É impossível imaginar um tipo de vida em sociedade que dispense o uso da água: água para beber e cozinhar; para a higiene pessoal e do lugar onde vivemos; para uso industrial; para irrigação das plantações; para geração de energia; e para navegação.
A água é um elemento essencial à vida. Mas, a água potável não estará disponível infinitamente. Ela é um recurso limitado. Parece inacreditável, já que existe tanta água no planeta!
Quantidade e Composição
A água ocupa 70% da superfície da Terra. A maior parte, 97%, é salgada. Apenas 3% do total é água doce e, desses, 0,01% vai para os rios, ficando disponível para uso. O restante está em geleiras, icebergs e em subsolos muito profundos. Ou seja, o que pode ser potencialmente consumido é uma pequena fração.
Há muita coisa, a saber, a respeito da água. Ela está presente nos menores movimentos do nosso corpo, como no piscar de olhos. Afinal, somos compostos basicamente de água.
Esse líquido precioso está nas células, nos vasos sangüíneos e nos tecidos de sustentação. Nossas funções orgânicas necessitam da água para o seu bom funcionamento. Em média, um homem tem aproximadamente 47 litros de água em seu corpo. Diariamente, ele deve repor cerca de 2 litros e meio. Todo o nosso corpo depende da água, por isso, é preciso haver equilíbrio entre a água que perdemos e a água que repomos.
Quando o corpo perde líquido, aumenta a concentração de sódio que se encontra dissolvido na água. Ao perceber esse aumento, o cérebro coordena a produção de hormônios que provocam a sede. Se não beber água, o ser humano entra em processo de desidratação e pode morrer de sede em cerca de dois dias.
A água é composta por dois elementos químicos: Hidrogênio e Oxigênio, representados pela fórmula H2O. Como substância, a água pura é incolor, não tem sabor nem cheiro.
Quimicamente, nada se compara à água. É um composto de grande estabilidade, um solvente universal e uma fonte poderosa de energia química. A água é capaz de absorver e liberar mais calor que todas as demais substâncias comuns.Quando congelada, ao invés de se retrair, como acontece com a maioria das substâncias, a água se expande e, assim, flutua sobre a parte líquida, por ter se tornado "mais leve". De acordo com leis da física, isso não deveria acontecer. Por causa dessa propriedade incomum da água é que os rios, lagos e oceanos, ao congelarem, formam uma camada de gelo na superfície enquanto o fundo permanece líquido. No que diz respeito a uma série de propriedades físicas e químicas, a água é uma verdadeira exceção à regra. A Terra está a uma distância do sol que permite a existência dos três estados da água: sólido, líquido e gasoso.
A Grande São Paulo rumo à escassez de água
A busca pela água, o Brasil deverá investir R$ 41,1 bilhões nos sistemas de produção de água, coleta de esgoto e proteção dos mananciais se quiser assegurar o abastecimento à população até 2025. Um estudo realizado pela Agência Nacional de Águas (ANA) em 2.965 municípios mostra que 64% deles (1.896) precisam desses investimentos até 2015 ou sofrerão escassez de água. O levantamento foi publicado em três atlas, revelando as condições de saneamento das regiões metropolitanas do País, além dos principais municípios das Regiões Nordeste e Sul. Para os governos federal, estaduais e municipais, o documento deveria servir de guia para investimentos nas áreas mais críticas. A Grande São Paulo por exemplo, conforme a análise, precisa receber R$ 4,036 bilhões nos próximos seis anos para que seu abastecimento seja garantido.
Na região mais rica e densamente povoada do País, a disponibilidade de água é de pouco mais de 200 m³ por habitante por ano. O volume representa menos de 10% do índice de referência adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 50% da água consumida por 18,5 milhões de moradores da capital de São Paulo e dos municípios vizinhos já vem de bacias distantes, a custos cada vez mais altos.
Nos últimos dez anos, o número de imóveis cadastrados na região aumentou 55%, passando de 3,3 milhões para 5,1 milhões. Embora a Sabesp tenha mantido um plano de investimento que, entre 2007 e 2010, somou R$ 6 bilhões, seus serviços não acompanham a demanda.
Dos 70 mil litros de água por segundo produzidos pela Sabesp, 80% terminam na rede de esgoto. Além disso, apesar da ampliação dos sistemas de tratamento de esgoto, mais de 40 mil litros por segundo de água não tratada são lançados nos rios e córregos ? o que reduz a disponibilidade de água potável ou para uso industrial.
O atlas da ANA analisa a macrometrópole paulista, as regiões metropolitanas de São Paulo, de Campinas, da Baixada Santista e do Vale do Paraíba, além das cidades vizinhas de Sorocaba e as do eixo Piracicaba-Limeira. São, ao todo, 180 municípios, onde moram 30 milhões de habitantes (75% da população do Estado), que respondem por 83% do PIB estadual e por 28% do nacional. Segundo o levantamento da ANA, as redes de produção, tratamento e distribuição de água formam um sistema complexo e interdependente, havendo, portanto, a necessidade de adoção de estratégias e políticas integradas de saneamento. Todas as cidades da região dependem das mesmas fontes hídricas, que são poucas. Enquanto o Brasil detém 13% da água do mundo, o Estado de São Paulo dispõe de apenas 2% desses mananciais.
As projeções apontam para um forte crescimento demográfico nesses 180 municípios. Até 2035, espera-se que a população salte dos atuais 30 milhões de habitantes para 36 milhões, o que exigirá um aumento de 65% do volume de água captada.
Além de investimentos para a produção de água, será preciso fortalecer iniciativas destinadas à sua conservação. O reaproveitamento da água é uma delas. Recente pesquisa do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água, vinculado à Escola Politécnica da USP, com 2.311 indústrias paulistas de médio e grande portes mostrou que juntas elas gastam R$ 1 milhão por dia com água. Se houvesse a reciclagem, o custo baixaria para R$ 400 mil diários.
No País, se as indústrias usassem água reciclada para resfriar caldeiras, abastecer sistemas de ar-condicionado, realizar a manutenção de máquinas e equipamentos e os serviços de limpeza, seria economizado 1,65 bilhão de litros por dia, o suficiente para o consumo de 8,2 milhões de pessoas.Empresas de saneamento e os três níveis de governo terão de investir em grandes obras hídricas, mas também deverão promover campanhas educativas para que os consumidores reduzam o consumo, preservem o meio ambiente e diminuam os custos de seus processos produtivos. Somente assim, a macrometrópole terá água disponível para continuar crescendo.
Método detecta agrotóxicos na água e no solo de áreas do Aquífero Guarani
Métodos simples e econômicos para determinar a presença de agrotóxicos na água e no solo das áreas de recarga do Sistema Aquífero Guarani (SAG) acabam de ser desenvolvidos e validados pelo Instituto de Química (IQ) da Unicamp, em parceria com a Embrapa Meio Ambiente de Jaguariúna (SP). O SAG é o maior reservatório de águas subterrâneas da América do Sul e o terceiro do planeta, localizando-se em sua quase totalidade no território brasileiro e se estendendo até a Argentina, Uruguai e Paraguai. As áreas de recarga são aquelas de afloramento das águas que, próximas à superfície, estão mais sujeitas à contaminação.
Lais Sayuri Ribeiro de Morais, autora da tese de doutorado orientada pela professora Isabel Cristina Sales Fontes Jardim, concentrou suas pesquisas na região das nascentes do rio Araguaia, na divisa de Goiás e Mato Grosso. “A escolha se deve à expansão dos cultivos de soja e de milho na região e ao uso também crescente de agrotóxicos, o que pode comprometer o aquífero. Estima-se que apenas 0,1% do agrotóxico aplicado em cultivos atinja seu alvo; o restante penetra no ambiente contaminando solo, água e ar”.
A pesquisadora explica que agrotóxicos depositados no solo podem ser transportados até as águas subterrâneas principalmente por meio de degradação, adsorção e lixiviação. A avaliação dos níveis desses produtos ganha relevância devido à existência de outras regiões de recarga do Aquífero Guarani sob risco de contaminação, como nos estados de São Paulo (cultura de cana-de-açúcar), Paraná (milho), Santa Catarina (maçã) e Rio Grande do Sul (arroz).
Segundo a professora Isabel Jardim, a parceria com a Embrapa foi motivada pela ausência de métodos atualizados e confiáveis para determinação de agrotóxicos em água e solo, mesmo depois que a Anvisa criou o Programa de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), em 2001. “Nosso laboratório já desenvolveu métodos para frutos que precisam passar por análises rigorosas quando exportados, evitando-se o risco de devolução pelos países importadores. Agora surge a preocupação com o aquífero, devido a possível contaminação ambiental e danos à saúde humana”.
A propósito, Lais de Morais recorda que a Anvisa começou a baixar portarias visando à certificação de laboratórios para análise de alimentos justamente por causa de um episódio envolvendo a soja. “Foi quando a China embargou um carregamento do produto devido à presença de agrotóxicos acima do limite máximo de resíduos (LMR) permitido. E é bom frisar que em 2008, segundo a própria Anvisa, o Brasil se tornou o maior consumidor mundial desses insumos”.
Entrevistas com produtores da região das nascentes do Araguaia permitiram que a autora da pesquisa levantasse os agrotóxicos mais utilizados nas culturas de soja e milho e, destes, os que apresentam maior probabilidade de se infiltrarem no solo e atingirem o Aquífero Guarani. Foram selecionados o imazetapir, nicossulfurom, imazaquim, carbofuram, atrazina, linurom, clorimurom-etil e diflubenzurom.
Micro-ondas
O desenvolvimento dos métodos de separação, identificação e quantificação de agrotóxicos envolveu desde um micro-ondas caseiro até equipamentos de última geração, como o espectrômetro de massas. Inicialmente, prepararam-se amostras de água e de solo misturadas aos agrotóxicos selecionados, que depois de um tempo de interação foram extraídos por técnicas variadas.
A professora Isabel Jardim considera que dois métodos estudados por sua orientada representam uma grande contribuição para o monitoramento de agrotóxicos. “Em relação à água, o método com melhor resultado foi a extração em fase sólida, com a separação e quantificação dos agrotóxicos através da cromatografia liquida de alta eficiência empregando o detector para arranjo de diodos e espectrômetro de massas. O detector por arranjo de diodos não é o recomendado por órgãos oficiais, mas se trata de alternativa viável para este objetivo e é bem mais disponível e econômico do que o espectrômetro de massas”. Picture aqüífero I
De acordo com Lais de Morais, o trabalho consiste, basicamente, em percolar a amostra de água em cartuchos contendo um solvente denominado C18, que interage com os agrotóxicos, deixando-os retidos. Com outro solvente, recolhe-se dos cartuchos o extrato de agrotóxicos, que é então evaporado e injetado no cromatógrafo para identificação e quantificação. “Usei tanto o arranjo de diodos como o espectrômetro de massas para medir a porcentagem de agrotóxicos que consegui recuperar”.
Nas amostras de solo, a pesquisadora recorreu a três técnicas de extração: por agitação mecânica, com ultrassom e utilizando micro-ondas industrial e caseiro. “Os procedimentos com agitação mecânica e ultrassom demoram cerca de duas horas. No micro-ondas obtive as mesmas porcentagens de recuperação de agrotóxicos em apenas dois minutos. O equipamento caseiro, devido ao baixo custo, é uma ótima alternativa em relação às outras técnicas, com a ressalva de que necessitam de dispositivos de segurança para controle de pressão e temperatura”.
Monitoramento
Desenvolvidos e validados os métodos, a etapa seguinte da pesquisa foi a análise de amostras de água e de solo coletadas na região das nascentes do Araguaia – somente as de água chegaram a 100. Isabel Jardim esclarece que todos os agrotóxicos estudados estavam abaixo do limite máximo de resíduos que pode ser ingerido sem prejuízo à saúde humana. “Entretanto, é preciso advertir que as culturas de soja e de milho estão apenas começando na região e que o uso de agrotóxicos pode atingir níveis críticos”.
Em sua tese, Lais de Morais sugere um monitoramento constante, juntamente com o trabalho de conscientização dos produtores sobre como proteger as áreas de recarga do Aquífero Guarani, trabalho que também fez parte do projeto. “Acredito que a Embrapa Meio Ambiente, que possui um laboratório de referência em Jaguariúna, agora conta com os métodos para realizar um monitoramento eficiente”. Picture aqüífero II
Área tem 1,2 milhões de km2
Informações reunidas por Lais de Morais para sua tese de doutorado dão conta de que nosso planeta possui 97,5% de água salgada e somente 2,5% de água doce. A maior parcela de água doce (68,9%) está na forma de gelo nas calotas polares e em regiões montanhosas; as águas subterrâneas representam 29,9%; lagos e rios comportam apenas 0,3%. Entretanto, em se tratando da água potável, aproximadamente 98% se encontram no subsolo.
Um aquífero ou sistema aquífero, explica a autora do estudo, é definido como uma formação geológica capaz de armazenar e transmitir quantidade significativa de água subterrânea entre os seus poros ou fissuras. No Brasil, as águas subterrâneas abastecem 61 % da população para fins domésticos. No estado de São Paulo, 80 % das cidades dependem integral ou parcialmente destas águas, percentual que é o mesmo no Piauí e de 70% no Maranhão.
O Sistema Aquífero Guarani (SAG), que faz parte da Bacia Geológica Sedimentar do Paraná, cobre uma superfície de 1,2 milhões de km2: 839.800 km2 no Brasil, 225.500 km2 na Argentina, 71.700 km2 no Paraguai e 58.500 km2 no Uruguai. Com uma reserva de água estimada em 46 mil km2, a população atual em sua área de ocorrência está em quase 30 milhões de habitantes. A água do SAG é de excelente qualidade em diversos locais, principalmente nas áreas de afloramento e próximo a elas, onde é remota a possibilidade de enriquecimento da água em sais e em outros compostos químicos. Nestas áreas (indicadas no mapa) a população é de cerca de 3,7 milhões de pessoas.
Uma UTI para nossas águas
É comum vermos, até no mesmo veículo informativo, notícias sobre excessos e faltas de água. Também constatações de que a água está acabando em muitos lugares, com as referências, já antigas, sobre possíveis guerras futuras por esse recurso essencial à vida. Mas, na verdade, não há alteração no volume total de água em nosso planeta, apenas distribuição irregular e demandas crescentes por sociedades que se avolumam em regiões com reconhecidos históricos de escassez ou que ocupam cada vez mais as superfícies e as áreas de escapes dos cursos d’água nas épocas de cheias.
As águas interiores estão inseridas nos ciclos hidrológicos, compostos essencialmente por fenômenos como precipitações, evaporações, escoamentos superficiais (enxurradas e cursos d’água) e infiltrações. Estas últimas, as responsáveis primeiras pelo abastecimento dos reservatórios subterrâneos, os aquíferos, que alimentam as nascentes e perenizam os cursos d’água (córregos, ribeirões e rios). Mas os ciclos hidrológicos estão doentes, maltratados pela ação do homem que vem interferindo em seus metabolismos e usando paliativos nas tentativas de cura. As canalizações, as dragagens, os piscinões, os reservatórios artificiais, as recomposições das áreas de preservação permanentes etc., não passam de analgésicos. As causas permanecem e as dores acabam voltando, mesmo que a médio e longo prazo.
A UTI sugerida no título é, portanto, o reconhecimento da complexidade dos males que afetam as nossas fontes de água e, lembrando que Unidade de Terapia Intensiva, hospitalar, é um ambiente apropriado ao tratamento de doentes graves, a dos ciclos hidrológicos permitirá que eles sejam mantidos vivos por intensivistas (hidrologistas) e possam, assim, ser analisados com mais profundidade, evitando os tratamentos superficiais que seguem receituários únicos para quaisquer situações. Ou, então, os conselhos de charlatões, curiosos que gostam de palpitar sobre assuntos técnicos, de quaisquer naturezas.
Salvados os doentes, vamos aos diagnósticos. Comecemos pelas precipitações e vamos admitir que os ciclos hidrológicos internados na UTI sejam os mantenedores dos rios Tietê, em São Paulo, do Arrudas, em Belo Horizonte, e do Itajaí, em Santa Catarina, que representam bem os demais doentes brasileiros. Mas será que as precipitações aí têm sofrido alterações além das normais de um ano para outro? Está havendo frequência maior de precipitações intensas? Os eventos, mesmo que extraordinários, são realmente inéditos ou já ocorreram no passado? No caso do rio Itajaí, é realmente clara e consistente a afirmação, muito ouvida, de que os fenômenos meteorológicos estão em crescente descontrole? E as enchentes do passado? Se uma análise apenas científica dos dados meteorológicos (deixando de lado os palpites e as emoções ambientalistas) mostrarem que não há nada de extraordinário, vamos buscar outras razões para os males, concentrando-nos, por exemplo, no comportamento da superfície da bacia hidrográfica quanto às infiltrações e enxurradas. E aí fica óbvio o fato de as áreas urbanas estarem cada vez mais impermeabilizadas e as áreas rurais também, pela exploração intensiva, resultando no aumento dos volumes de enxurradas e na diminuição do abastecimento dos aquíferos. Daí as cheias e os alagamentos, nos períodos chuvosos, e as diminuições de vazões, nos períodos de estiagens.
O diagnóstico foi fácil, pelo neste caso. Mas e agora, quais os tratamentos eficazes para a cura? Recompor áreas de preservação permanente, promover algumas arborizações urbanas esparsas, construir reservatórios para armazenar temporariamente os excessos de enxurradas (piscinões) ou coisas semelhantes? Meros analgésicos para alívios provisórios. Até as florestas naturais em topos de morros (preservação permanente) não são efetivas, muitas vezes, pois infiltrações concentradas em solos rasos podem provocar deslizamentos, arrastando grandes massas arbóreas (aconteceu em Santa Catarina). Com quaisquer das soluções, a dor vai acabar voltando, como já foi dito anteriormente. Precisamos, em primeiro lugar, de um estudo geológico da área para identificação dos aquíferos e dos pontos importantes para suas recargas. Depois, como a área já está com muitas alterações e sem retornos economicamente viáveis, programar sistemas artificiais, complementares, de captação de enxurradas, tais como: construção de caixas e valas no solo, com bases porosas para percolação das águas em direção dos aquíferos (em condomínios, em praças, em propriedades rurais etc., bem distribuídas por toda a superfície da bacia), transformação das tubulações de água pluviais (meros drenos atualmente) em galerias de bases também porosas, armazenamentos de águas de chuvas para usos domésticos em casas, condomínios verticais e em propriedades rurais, para atividades de irrigação, por exemplo. Mas quaisquer que sejam as tecnologias escolhidas, elas têm de estar de acordo com as necessidades específicas de cada caso. Não existe a tecnologia previamente salvadora da pátria.
Os tratamentos, entretanto, não podem ser preconizados por administradores ou pelos fornecedores de remédios e serviços. Têm que ser receitados por uma junta de especialistas, integrada, no caso das águas, por hidrologistas (com conhecimentos de relações solo/água/planta/clima), geólogos, urbanistas, sanitaristas e profissionais de ciências agrárias. Geradas as alternativas de tratamentos, os especialistas irão discuti-las com as sociedades e seus representantes. Depois de selecionadas, serão detalhadas, pelos mesmos especialistas e, só então, repassadas para os aplicadores.
É difícil o procedimento indicado, mesmo sendo tão simples? Não há como colocá-lo em prática? Isso tudo não passa de um sonho? Se a resposta for sim para todas as perguntas, vamos desistir e deixar que fique “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. E voltarmos aos analgésicos.domingo, 3 de janeiro de 2010
Governo quer tirar dos Estados o controle das reservas de água
No centro da disputa estão a cobrança pelo uso da água e o domínio sobre o aquífero Guarani, uma das maiores reservas do mundo.
O governo federal quer mudar o domínio sobre as águas subterrâneas, hoje nas mãos dos Estados, para a União. No centro da discussão estão a cobrança pelo uso da água, que começa a engatinhar no país, e o controle do aquífero Guarani.
Considerado por especialistas uma das maiores reservas subterrâneas do mundo em volume de água, o aquífero Guarani tem uma área de 1,2 milhões de quilômetros quadrados e capacidade para abastecer de forma sustentável 400 milhões de habitantes por 2.500 anos.
Pela legislação atual, toda cobrança pelo uso de águas subterrâneas cabe aos Estados, sem nenhum centavo para a União. Mas a PEC (proposta de emenda constitucional) nº 43, se aprovada, transfere a titularidade para a União.
Com a ampliação da cobrança, o consumidor desembolsará mais pelo direito à água potável, já que no país paga-se hoje pelo serviço de fornecimento da água, não pela água em si.
A PEC é do ano 2000 e esteve esquecida no Congresso Nacional nos últimos oito anos. Em junho/09, no entanto, ela foi redistribuída na Comissão de Constituição e Justiça do Senado para a relatoria do senador Renato Casagrande (PSB-ES), que já foi vice-líder do governo naquela Casa.
Segundo ele, para subsidiar o relatório, estão sendo feitas reuniões com a sociedade civil, os usuários das águas e o poder público, em especial os governos estaduais, que não querem abrir mão do seu poder de concessão e outorga sobre o bem. O relatório final, diz ele, será apresentado no início de 2010.
O presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), José Machado, defende a gestão compartilhada dos aquíferos que abrangem mais de um Estado. Isso seria possível, diz ele, por meio de um pacto federativo no qual os Estados e a União gerenciariam em conjunto o uso dessas enormes reservas.
"O ideal seria que a União tivesse o domínio do aquífero Guarani, mas entendo também a preocupação dos Estados que não querem abrir mão desse bem. Do mesmo modo, entendemos que, para a ANA, seria muito difícil centralizar todas essas outorgas", disse o presidente da agência reguladora.
São Francisco
A cobrança pelo uso das águas no Brasil, sejam elas superficiais (como rios e lagos), sejam abaixo do solo, ainda é incipiente, mas já produz receita considerável. A União arrecada hoje R$ 27 milhões ao ano com a cobrança pela utilização de apenas duas bacias: a do Paraíba do Sul, nos Estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio, e a dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (SP e MG).
No segundo semestre de 2010, começará a ser feita a cobrança pelo uso das águas da bacia do São Francisco, o que incrementará a receita em outros R$ 20 milhões anuais. A gestão desses recursos é feita pela ANA já que são bacias cujo domínio é do governo federal.
Mas os Estados também já cobram pelo uso de águas subterrâneas, e o preço do metro cúbico de aquíferos é de 10% a 15% maior que o dos rios. Isso porque as águas subterrâneas são mais difíceis de despoluir e são vistas pelo governo como reservas estratégicas e valiosas.
Patrick Thomas, gerente de cobrança pelo uso de recursos hídricos da ANA, diz que o pagamento é fixado por um comitê gestor formado pelo poder público, pelos usuários (companhias de saneamento e indústrias) e pela sociedade civil.
Atualmente, apenas os Estados de São Paulo e do Rio cobram pelo uso das águas subterrâneas, justamente nas regiões adjacentes às das bacias do rio Paraíba do Sul e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, onde a União também cobra pela utilização das águas superficiais. Com a aprovação da PEC nº 43, a União abocanharia as receitas das águas acima e abaixo da superfície do solo.
Receita potencial
A Folha apurou que o potencial de receita com o uso das águas subterrâneas é cinco a dez vezes maior que o das águas de rios. Algumas grandes cidades já são abastecidas por aquíferos abaixo do solo, em vez de rios. É o caso de Ribeirão Preto (SP), que é 100% dependente da reserva subterrânea Guarani. Lá, o consumo por habitante é de 400 litros por dia, o dobro da média nacional.
O aquífero Guarani é a "joia do tesouro", diz especialista na área e representante do governo que prefere não ser identificado. Ele abastece total ou parcialmente mais de 500 cidades. No interior paulista, a exploração desse aquífero já é essencial para o abastecimento de água de 65% das suas zonas urbanas, de acordo com a Sabesp.Oficialmente estão registrados 7.000 poços no aquífero, mas pode haver mais, pois muitos são desconhecidos. Cerca de 71% do Guarani fica em território brasileiro; 19%, em solo argentino; o Paraguai detém 6% da reserva, e o Uruguai, 4%.
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