segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Chuvas ficarão entre 80% e 90% da média no Sudeste em fevereiro

Chuvas devem ficar entre 80% e 90% da média no Sudeste em fevereiro, segundo Climatempo
Nível dos reservatórios, que já está bem abaixo da época do racionamento em 2001, deve subir de forma lenta neste período úmido.
As chuvas dos meses de janeiro e fevereiro são muito importantes para a geração de energia hidrelétrica. Patrícia Madeira, meteorologista do Climatempo, calcula que essas chuvas representam, normalmente, cerca de 28% do total da geração de energia anual do Sudeste. No período úmido como um todo, ou seja, de dezembro a abril, a representatividade chega a 61%. Por isso é importante que elas ocorram em abundância durante esses meses, sob a pena de comprometer o abastecimento de energia. Mas não foi isso que aconteceu em 2014 e que fatalmente não acontecerá em 2015. Em janeiro, um bloqueio atmosférico entre os dias 6 e 21 impediu que as chuvas caíssem nos reservatórios do Sudeste, e em fevereiro a previsão do Climatempo é que as chuvas fiquem entre 80% e 90% da média.
"Como os reservatórios estão muito vazios, uma boa parte dessa chuva será absorvida pelo solo, o que faz com que o replecionamento seja lento", apontou Patrícia em entrevista à Agência Canal Energia. Segundo ela, o mesmo acontece no Nordeste, principalmente na região do Alto São Francisco, que deve ter chuvas abaixo da média. Na região fica a usina de Três Marias, da Cemig, que segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, está apenas com 10,56% da sua capacidade de armazenamento. Já no médio e baixo São Francisco, as chuvas em fevereiro podem vir um pouco acima da média, assim como nas regiões Sul e Norte.
O que está impedindo as chuvas de chegarem com mais intensidade em fevereiro, principalmente no Sudeste, explica Patricia, é que não está prevista a formação de um fenômeno importante que é a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). "Sem as ZCAS dificilmente as chuvas são acima da média. Como esse ano não tem, ficaremos abaixo da média, mas não será um mês de fevereiro tão severo como ano passado", disse. Mesmo assim, as chuvas previstas para o período úmido não serão suficientes para recuperar os reservatórios e dar tranquilidade para atravessar o período seco. "Teria que chover muito mais. A média já não seria suficiente. Já choveu menos que a média em janeiro e a expectativa para janeiro e março é de ficar um pouco abaixo da média, o que é pouco para passar com tranquilidade nesse período seco", explicou.
O cenário de chuvas desenhado para os próximos meses deixa ainda mais crítica a situação de abastecimento no país. O nível dos reservatórios estão muito menores do que na época do racionamento em 2001. No dia 31 de janeiro de 2015, de acordo com o ONS, o nível de armazenamento no SE/CO estava em 16,8%, e no NE, em 16,3%, contra pouco mais de 30% no SE/CO e de quase 40% no NE no mesmo período de 2001. Naquele ano de racionamento, os reservatórios do SE/CO, principais do país, atingiram seu menor valor em setembro, quando estavam com cerca de 20%, nível mais elevado que os atuais.
"Ano passado estávamos preocupados e os reservatórios estavam em torno de 40%. Esse ano está ainda pior. Tem que ter um dilúvio de arca de Noé para reverter a situação. O pior é que tem que sair de uma situação de baixa hidrologia para uma reversão completa, o que no histórico aconteceu pouquíssimas vezes", declarou João Mello, presidente da Thymos Energia.
O executivo acredita que será difícil escapar de um racionamento em 2015 com a hidrologia que vem se apresentando. Ele também aponta que os meses de janeiro, fevereiro e março são os mais importantes em termos de chuva e afluências para o setor elétrico. Segundo ele, os três meses representam basicamente 50% da hidrologia. "Em três meses a hidrologia tem o mesmo peso do restante do ano inteiro", comenta. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, já avisou que está sendo preparado um conjunto de medidas para incentivar o uso eficiente de energia, que deve ser divulgado em 60 dias.
Na última sexta-feira, 30 de janeiro, o ONS também divulgou previsões nada animadoras de afluências para o mês de fevereiro. No Sudeste/Centro-Oeste, dados preliminares apontam para uma vazão de 52% da Média de Longo Termo. No Nordeste, a situação é ainda mais crítica, 18% da MLT. No Sul e no Norte, a expectativa de vazão chega a 126% da MLT e 76% da MLT, respectivamente. (canalenergia)

Rodízio de água é ‘próxima opção’

Rodízio de água é ‘próxima opção’, diz secretário. E conta deve ficar mais cara.
Chuvas devem ficar entre 80% e 90% da média no Sudeste em fevereiro, segundo Climatempo.
Nível dos reservatórios, que já está bem abaixo da época do racionamento em 2001, deve subir de forma lenta neste período úmido.
As chuvas dos meses de janeiro e fevereiro são muito importantes para a geração de energia hidrelétrica. Patrícia Madeira, meteorologista do Climatempo, calcula que essas chuvas representam, normalmente, cerca de 28% do total da geração de energia anual do Sudeste. No período úmido como um todo, ou seja, de dezembro a abril, a representatividade chega a 61%. Por isso é importante que elas ocorram em abundância durante esses meses, sob a pena de comprometer o abastecimento de energia. Mas não foi isso que aconteceu em 2014 e que fatalmente não acontecerá em 2015. Em janeiro, um bloqueio atmosférico entre os dias 6 e 21 impediu que as chuvas caíssem nos reservatórios do Sudeste, e em fevereiro a previsão do Climatempo é que as chuvas fiquem entre 80% e 90% da média.
"Como os reservatórios estão muito vazios, uma boa parte dessa chuva será absorvida pelo solo, o que faz com que o replecionamento seja lento", apontou Patrícia em entrevista à Agência Canal Energia. Segundo ela, o mesmo acontece no Nordeste, principalmente na região do Alto São Francisco, que deve ter chuvas abaixo da média. Na região fica a usina de Três Marias, da Cemig, que segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, está apenas com 10,56% da sua capacidade de armazenamento. Já no médio e baixo São Francisco, as chuvas em fevereiro podem vir um pouco acima da média, assim como nas regiões Sul e Norte.
O que está impedindo as chuvas de chegarem com mais intensidade em fevereiro, principalmente no Sudeste, explica Patricia, é que não está prevista a formação de um fenômeno importante que é a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). "Sem as ZCAS dificilmente as chuvas são acima da média. Como esse ano não tem, ficaremos abaixo da média, mas não será um mês de fevereiro tão severo como ano passado", disse. Mesmo assim, as chuvas previstas para o período úmido não serão suficientes para recuperar os reservatórios e dar tranquilidade para atravessar o período seco. "Teria que chover muito mais. A média já não seria suficiente. Já choveu menos que a média em janeiro e a expectativa para janeiro e março é de ficar um pouco abaixo da média, o que é pouco para passar com tranquilidade nesse período seco", explicou.
O cenário de chuvas desenhado para os próximos meses deixa ainda mais crítica a situação de abastecimento no país. O nível dos reservatórios estão muito menores do que na época do racionamento em 2001. No dia 31 de janeiro de 2015, de acordo com o ONS, o nível de armazenamento no SE/CO estava em 16,8%, e no NE, em 16,3%, contra pouco mais de 30% no SE/CO e de quase 40% no NE no mesmo período de 2001. Naquele ano de racionamento, os reservatórios do SE/CO, principais do país, atingiram seu menor valor em setembro, quando estavam com cerca de 20%, nível mais elevado que os atuais.
"Ano passado estávamos preocupados e os reservatórios estavam em torno de 40%. Esse ano está ainda pior. Tem que ter um dilúvio de arca de Noé para reverter a situação. O pior é que tem que sair de uma situação de baixa hidrologia para uma reversão completa, o que no histórico aconteceu pouquíssimas vezes", declarou João Mello, presidente da Thymos Energia.
O executivo acredita que será difícil escapar de um racionamento em 2015 com a hidrologia que vem se apresentando. Ele também aponta que os meses de janeiro, fevereiro e março são os mais importantes em termos de chuva e afluências para o setor elétrico. Segundo ele, os três meses representam basicamente 50% da hidrologia. "Em três meses a hidrologia tem o mesmo peso do restante do ano inteiro", comenta. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, já avisou que está sendo preparado um conjunto de medidas para incentivar o uso eficiente de energia, que deve ser divulgado em 60 dias.
Na última sexta-feira, 30 de janeiro, o ONS também divulgou previsões nada animadoras de afluências para o mês de fevereiro. No Sudeste/Centro-Oeste, dados preliminares apontam para uma vazão de 52% da Média de Longo Termo. No Nordeste, a situação é ainda mais crítica, 18% da MLT. No Sul e no Norte, a expectativa de vazão chega a 126% da MLT e 76% da MLT, respectivamente. (canalenergia)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Ensaio sobre a cegueira hídrica

A falta d’água afeta a dignidade humana, tem implicações de saúde pública, desespera, paralisa a atividade econômica. Pois prepare-se: 2015 começou sob a sombra da crise hídrica. O cenário que se está montando é gravíssimo.
Já quase terminado janeiro, contata-se que choveu muito menos do que era esperado. No Sistema Cantareira, choveu 35% da média histórica. No Sistema Alto Tietê, meros 26% da média histórica. E o quadro não encontra alívio nos demais mananciais, também deficitários.
A própria Sabesp admite que o que existe de água em todos os sistemas, considerando o padrão de consumo atual, vai dar pra 50 dias, ou seja, março. E daí? Aí, acabou. Não é que vai faltar um pouco de água. É que não tem água; não tem para onde correr.
Para entender melhor as dimensões humanas, sociais, econômicas e ambientais dessa crise, o projeto Conta D’Água procurou uma das maiores especialistas do tema, a ambientalista Marussia Whately, dirigente do projeto Água São Paulo, do Instituto Socioambiental (ISA), e uma das principais protagonistas da Aliança pela Água, uma iniciativa reunindo 30 ONGs, visando propor soluções e cobrar providências do poder público.
A crise na vida real
MARUSSIA WHATELY: Tornou-se séria a perspectiva de o Sistema Alto Tietê, que abastece a zona leste de São Paulo, entrar em colapso. Isso quer dizer que quatro milhões de pessoas deixarão de ter água pra beber. Hoje, o nível do reservatório está em 10,4%, o que é extremamente crítico porque se trata de um reservatório com apenas metade da capacidade do sistema Cantareira. E está baixando.
Como você vai fazer pra manejar essa região? Onde as pessoas vão pegar água? Uma das possibilidades é levar água potável com caminhões-pipa provenientes de Ubatuba, São José. Quantos litros serão necessários para abastecer a zona leste todos os dias? Qual a qualidade da água que chegará aos consumidores?
Nessa região, você tem reservatórios de distribuição, as caixas d’água da Sabesp, como a que existe na avenida Consolação, ou no Paraíso. Esses reservatórios, logicamente, estarão vazios. Mas eles têm de ser o lugar para onde os caminhões-pipas serão levados.
Não se pode deixar caminhão-pipa no mercado. A partir de agora, será preciso que se mapeiem todos os poços que estão autorizados a captar água mineral. Num plano de contingência, todos esses 50 mil poços têm de ter sua outorga suspensa e a exploração será de uso exclusivo do Estado.
Agora, a Sabesp vai fazer isso? Não. Esta é uma responsabilidade do governo do Estado, com as prefeituras. É uma agenda que temos que trabalhar para que se torne realidade.
Vamos um pouco mais em frente com esse cenário.
“Os caminhões-pipas foram captar a água. E como essa frota chegará à zona leste? Será necessário organizar uma grande operação de logística durante as madrugadas, com menos trânsito, para transportar toda essa água. Porque serão centenas de caminhões-pipas.”
Os caminhões encherão o reservatório e amanhã, das 10h às 12h, a população de Ferraz de Vasconcelos, com seu comprovante de residência em mãos, vai poder retirar uma quantidade de água por pessoa. Das 12h a tal hora, vai ser a população da zona leste.
Coleta de água em postos improvisados na cidade de Itu, interior de SP. 
Isso é um plano de contingência numa situação de estresse grave. Água pra escovar os dentes, tomar banho e cozinhar. Para outros fins, como dar descarga, lavar roupa, limpar a casa, a saída será a água da chuva. Para isso, postos de saúde, escolas, creches, unidades de serviço público, precisarão se equipar com caixas para captar água da chuva, com filtro, tudo direitinho.
É preciso que a cidade se prepare. É preciso que o poder público se organize. A possibilidade de implantação de um racionamento de cinco dias sem água é bem concreta. Mas uma coisa é viver cinco dias sem água em uma situação organizada. Outra coisa, bem diferente, é ter o racionamento em uma área como a zona leste da Capital, com uma rede toda remendada, com áreas inteiras de ocupação irregular. O resultado torna-se muito mais imprevisível.
Para dar um exemplo. Ontem, a partir das 16h30, não tinha mais água da rua em minha casa. Mas se trata de uma casa com apenas dois moradores. Manejando o consumo, conseguimos ficar até cinco dias sem água da rua. Vamos ter restrição? Claro, mas dá para garantir as necessidades básicas. Essa situação é totalmente diferente da que é vivida em uma comunidade com poucas caixas d’água, com casas habitadas por um número muito maior de moradores.
Mas fica pior quando se considera que essas pessoas funcionam em horários difíceis –gente chegando muito tarde em casa, por causa do transporte deficiente (quando a água já foi fechada), e que sai muito cedo de casa, também por causa do transporte deficiente (e a água ainda não voltou).
“Uma creche que não abre porque não tem água gera um efeito cascata. Se as crianças não podem ir para a creche, a mãe tem de faltar no emprego.”
Tomemos o caso de uma diarista. Quantos dias ela poderá faltar no emprego? Será que ela vai poder levar os filhos ao emprego? E isso impacta a vida da patroa dela também. Assim, começa um efeito de instabilidade grande na sociedade. Esse é um dos efeitos que ainda não estão devidamente dimensionados. Os governantes estão desatentos a essa questão.
E há a situação crítica das populações mais sensíveis, que precisam ser levadas em consideração. Sabe-se que a população da terceira idade, mais de 60 anos, e as crianças até 7 anos têm uma vulnerabilidade maior à desidratação. E há ainda os acamados, com deficiência de mobilidade e idosos, aos quais é preciso garantir o suprimento básico de água no próprio domicílio. Em suma, há uma série de desdobramentos éticos envolvida na gestão da crise.
Já se esperam protestos. Em Itu, vizinho de São Paulo, até donas de casa colocaram fogo nas ruas. Aqui em São Paulo, vai haver um escalonamento de manifestações e de violência porque a água mexe com a questão da dignidade. Quantos dias nós aguentamos sem poder dar descarga?
Dona Rute e sua família vivem em cinco pessoas em uma casa que recebe água apenas seis horas por dia no Capão Redondo, periferia de São Paulo. 
É preciso instalar um Comitê de Crise. Temos de falar e explicar que se trata de uma crise sem precedentes. O mais natural seria o governador do Estado de São Paulo [Geraldo Alckmin] puxar isso, mas se ele não puxar, a sociedade civil tem de fazê-lo.
O Comitê é fundamental no sentido de começar a desenhar as linhas de ação de um Plano de Contingência. A população precisará de referências públicas em relação à água. Também é importante o acesso à informação.
Nós lançaremos em fevereiro um copilado de propostas de especialistas para a gestão dessa crise. Um dos itens importantes, por exemplo, é a questão da qualidade da água oferecida pelos caminhões-pipa. Teria haver em cada subprefeitura uma lista de caminhões-pipas autorizados a operar. E informações claras do tipo: “Aqui, na área desta Subprefeitura, faltará água nos próximos cinco dias; água potável poderá ser encontrada nesses endereços, de tal hora a tal hora”. Isso tem que ser feito e não é responsabilidade da Sabesp.
Em última instância, quem vai ter de decretar os estados de emergência são as prefeituras, mas elas estão receosas de assumir o protagonismo da crise. Pela lei de saneamento, as prefeituras são os titulares do saneamento. Teoricamente, seriam as prefeituras que deveriam mandar nessa confusão. O contrato de prestação de serviços da Sabesp é assinado com a prefeitura, que delega a regulação para a Arsesp, Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo.
Eu acredito que tem um canal, que vai ser começado pelo município de SP, que está revendo o contrato com a Sabesp, e está percebendo que os moradores do município vão ficar sem água, enquanto a empresa recebe uma grana incrível em cima e não reinveste.
Um acionista da Sabesp que eu acho que está sendo pouco questionado é o próprio governo do Estado, que detém 51% da empresa. Quando são pagos os dividendos, 51% voltam para o governo do Estado, e não necessariamente o governo tem reinvestido na Sabesp.
(Grande parte do investimento em infraestrutura que a Sabesp fez nos últimos anos foi com financiamento da Caixa, financiamento do Banco Mundial, várias fontes).
Plano de contingência
MARUSSIA WHATELY: O plano de contingência é a principal reivindicação da Aliança pela Água. Em final de outubro do ano passado, fizemos um processo rápido de escuta de mais ou menos 280 especialistas de diferentes áreas. E o plano de contingência apareceu como uma das principais reivindicações desses especialistas.
Volume morto na represa Jaguari-Jacareí, no Sistema Cantareira. 
Naquela ocasião, a ideia predominante era que se adotasse um plano de contingência que permitisse que chegássemos a abril deste ano com um nível de reservação de água nas represas, que desse para aguentar o período da estiagem. Infelizmente, esse plano não foi elaborado e muito menos realizado.
O que aconteceu na prática foi uma negação da crise hídrica por parte do governo do Estado até dezembro de 2014 —uma negação que vai levar para outras instâncias de responsabilização.
O governador terminou o ano dizendo que não teríamos racionamento e que não haveria falta d’água. E começou 2015 dizendo que existe o racionamento e que pode ser que falte água.
Se fosse um novo governador, a gente até poderia aceitar, mas se trata do mesmo cara. Então tem uma questão aí: a forma como a crise foi conduzida nos fez perder muito tempo em termos de ações para chegar a um nível seguro em abril.
Realmente, existe um componente de clima na crise que não dá para negar. Já está confirmado que 2014 foi o ano mais quente da história. O que já seria um quadro de extrema gravidade, entretanto, tem sido agravado porque desde 2011 a Sabesp está super explorando as represas. Ou seja, tirando delas mais água do que entra.
O governo do Estado deveria ter assumido a liderança em relação à crise da água em São Paulo. No caso do sistema Cantareira, essa liderança deveria ser dividida com o governo federal, por intermédio da Agência Nacional de Águas e do Ministério do Meio Ambiente, a quem compete organizar a Política Nacional de Recursos Hídricos. O problema é que muitos dos nossos instrumentos de gestão vem sendo desmantelados em escala federal, estadual e municipal.
“O Ministério do Meio Ambiente está omisso em relação aos recursos hídricos. A Agência Nacional de Águas transformou-se num mero órgão que faz a outorga, já que ficou enfraquecido nesse processo de construção de Belo Monte.”
A síntese é a seguinte: “Já basta a licença ambiental, não me venham inventar mais uma licença de recursos hídricos, pra empacar a hidrelétrica”.
É preciso recuperar as represas. O Sistema Cantareira está com o nível em torno dos 5%. Não dá mais! Não vai encher. Vai ter que ter racionamento.
A perspectiva com a qual a Aliança da Água trabalha é a de união entre diferentes setores (especialistas na pauta do meio ambiente e sociedade) para a elaboração de um Plano de Contingência mais sólido. Ficar refém, à espera de um plano elaborado pela Sabesp, além de não ser propositivo também não é eficaz. É fundamental que os movimentos sociais e as universidades debatam esse tema com profundidade e urgência.
Quem é o responsável?
MARUSSIA WHATELY: O padrão de chuvas, repito, foi aquém da média histórica, mas houve o acúmulo de infelicidades. Uma que é certamente muito grave foi a ausência de visão estratégica mínima do responsável, que é o governo estadual paulista. Ele deveria ter liderado a gestão da água, mas perdeu um ano negando a existência da crise, afirmando para a população que não faltaria água, criando uma medida que foi o bônus, apresentado como uma alternativa ao racionamento. Só que o bônus ele é muito questionável porque descapitaliza a empresa. Diminui a capacidade de investimento da Sabesp. Do ponto de vista econômico, no momento de escassez de um produto, você baixar o preço dele, é um contrassenso.
Durante os nove meses de campanha, não se conseguiu mudar o padrão de consumo. Metade dos consumidores aderiu e reduziu 20% o gasto de água. Um em cada quatro reduziu, mas não atingiu a meta. E um em quatro aumentou o consumo. A verdade é que junto com o bônus teria de ter a sobretaxa para o excesso de consumo e uma série de ações.
“O bônus foi apenas uma ação paliativa, tentando substituir uma ação mais radical que seria o racionamento.”
Ao mesmo tempo, de um ponto de vista mais técnico e operacional, só isso não gerou a redução do consumo de água que seria necessário.
Desde o início do ano passado, falava-se em reduzir pela metade a retirada de água do sistema Cantareira. Ou seja, sair de 31 metros cúbicos por segundo para 16. Mas isso só está sendo atingido agora. Eles foram baixando de 31 para 27, para 24…
No total do abastecimento de água de São Paulo, conseguiu-se reduzir o consumo de 69 metros cúbicos por segundo para 55. Ou seja, todas as medidas adotadas, bônus, redução da pressão, ampliação de captação, melhoria no índice de vazamentos, lograram uma economia de 20%. É pouco em termos de redução da retirada de água dos mananciais. Precisaria ser no mínimo 50%.
Em janeiro de 2014 houve um primeiro plano de contingência, que previa um plano de racionamento no sistema Cantareira. Esse primeiro plano simplesmente sumiu. Ele não está mais disponível. A proposta era que o Cantareira, que em janeiro de 2014 estava com 24% de reservação, sem contar o volume morto, já começasse a fazer um racionamento brando. Veja que esses 24% de reservação (sem contar o volume morto) equivaliam a 46% da capacidade total do sistema –e mesmo assim, já soou o alarme e se propôs o racionamento.
Hoje, o Cantareira está com um nível de reservação em 5,6%, já considerando o uso do segundo volume morto.
Corremos o risco de ter de decretar agora um racionamento de cinco dias sem água.
Quem deve ser o responsável pela gestão da crise?
MARUSSIA WHATELY: A questão das responsabilidades é essencial para estabelecer um plano de contingência. Qual é a grade de responsabilidades e atribuições? Quem tem de fazer o quê?
A Sabesp é uma companhia prestadora de serviço. E, como prestadora de serviço tem de ter constância, indicador, desempenho, eficiência, meta… A Sabesp não é a gestora da política. Não é ela quem deve decidir onde é melhor investir, quem vai ficar sem água. Quem tem que decidir isso é a Arsesp, a agência reguladora. A gente tem feito cobranças equivocadas em cima da Sabesp, quando a cobrança tem de ser em cima da regulação.
É muito fácil colocar a Sabesp na linha de tiro. E ninguém fala nada sobre as responsabilidades da Secretaria de Recursos Hídricos, da Arsesp, da Secretaria de Meio Ambiente, que dá licenças, como a de uso do volume morto. Alguém viu o licenciamento ambiental desse uso extremo do Cantareira? Quais foram as condicionantes, os compromissos de mitigação? Foi uma licença emergencial?
Bacia do Cantareira durante a seca. 
Não é só que a água não está mais atingindo suas margens normais. É que, por centenas de quilômetros, o solo ficará ressecado, com impactos substanciais sobre todo o meio ambiente em torno.
Construir soluções para a crise vai depender de um plano de contingência que não é um plano da Sabesp, é um plano do governo federal, estadual, prefeituras e com a sociedade. Vai ter que entrar defesa civil, vigilância sanitária, secretaria de segurança…
Como resolver a crise
MARUSSIA WHATELY: O governo do Estado apostou alto que ia chover. E, na outra mão, ele veio com um conjunto de obras que conseguirão criar, daqui a cinco anos, mais 20 mil litros. A gente não precisa de mais 20 mil litros. A gente precisa consumir melhor a água que tem.
Daqui a cinco anos, eu terei feito a transposição de águas do rio Paraíba do Sul para cá, o Paraíba do Sul, aliás, que agora está com apenas 5% de água. Então, veja, eu faço uma mega obra para trazer água e, de repente, pode não haver água pra ser trazida para cá.
E se, em vez disso, houvesse a recuperação da represa Billings, que está aqui ao lado? Nela, cabe a mesma quantidade de água do que a Cantareira é capaz de produzir. Ela não produz a mesma quantidade, mas ela pode guardar. Ou seja, eu posso trazer de outros lugares a água para a Billings em quantidades menores; posso interligar algumas represas do Alto Tietê; ou mesmo pensar em pequenos reservatórios no topo da serra do Mar, que seria uma água de altíssima qualidade, e trazer para Billings.
São várias ideias que nem chegaram a serem discutidas, a respeito de uma represa que está aqui, mais perto do que as alternativas de abastecimento colocadas na mesa. A Billings, como se sabe, é o destino do esgoto que a Sabesp não consegue tratar, que é jogado no Tamanduateí, no Anhangabaú, no Pinheiros, no Tietê, em todos os rios que a gente colocou avenidas em cima.
Depois, tem a drenagem urbana que é esquizofrênica porque uma parte quem cuida e o Estado, outra são as prefeituras. Só aí haveria uma capacidade de geração de água de chuva que seria mais ou menos o equivalente à vazão do rio São Lourenço, 4 metros cúbicos por segundo. O novo sistema São Lourenço, que deve ficar pronto em 2017, custará R$ 2 bi só em obras, terá custo operacional de mais R$ 6 bi em cima. Trata-se de uma mega obra para trazer água lá de longe do rio Ribeira, sem pagar devidamente os encargos ambientais que serão gerados naquela região, sem que aquilo gere prosperidade naquela região.
Os ensinamentos da crise
MARUSSIA WHATELY: Com a água acontece uma coisa curiosa: como cai do céu, é difícil acreditar que vá faltar. Acaba a água da torneira, mas está tudo alagado lá fora. Isso, imagino, gera uma confusão pra muita gente… Mas ao mesmo tempo gera um aumento de consciência. Essa água que está alagando as ruas, será que ela não poderia ser usada?
Estoque de água doméstico em Itu, no interior paulista. 
Essa água é própria para o consumo?, alguém poderia perguntar. Há controvérsias. Há pessoas filtrando e fazendo testes, dizendo que é melhor do que a água da Sabesp. Cada vez mais, eu acredito que, quanto mais a gente tornar as pessoas autônomas em relação a garantir o seu básico, mais a gente estará caminhando para um mundo sustentável. Ensinar a garantir o mínimo da sua água, o mínimo da sua comida, pode ser um caminho.
A gente está tendo falta de água, apagão de energia, enchentes. Todos esses eles problemas estão ligados à gestão da água. Todo esse processo é muito didático e deve induzir mudanças de atitude. Como continuar aceitando como normal descarregar a privada com água potável? O baixo nível dos reservatórios está mostrando o baixo nível das nossas políticas em relação a isso. Se não for didático, então a única saída é o êxodo. (ecodebate)

Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de má gestão da água

Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP
Desde o final de 2013, a população paulistana tomou ciência da restrição hídrica que se aproximava, decorrente da falta de chuvas e dos baixos níveis de água nos reservatórios empregados no abastecimento público. Já em 2014, assistimos atônitos aos recordes e mais recordes de baixos níveis de água nos reservatórios. Agora, no início de 2015, essa situação segue pior ainda, com perspectivas sombrias para o restante do ano. Mas são inúmeras as cidades do interior de São Paulo atingidas pela falta de água, inclusive em outros estados. No presente, a falta de água não é mais gritante, pois na cidade de São Paulo os cidadãos dão sua cota de colaboração, reduzindo o consumo como podem. Do contrário, o poço já teria secado.
Esta grave crise serviu para mostrar que a lição de casa não foi feita e, seja para o município, para o estado ou mesmo para a União, muita coisa tem que mudar a partir deste triste cenário. Ficou claríssimo para quem quer ver que nossas leis e a gestão das águas não são satisfatórias e a condução política não preserva o cidadão e o meio ambiente, ao menos na oferta do serviço público, como da água tratada de qualidade e na quantidade adequadas.
Nestes últimos 20 anos, o Estado não planejou e se preparou adequadamente e o cidadão será penalizado por não ter água necessária aos seus usos históricos e culturais. É novamente penalizado por ter que pagar a conta, através de multas e/ou elevação de tarifas e, eventualmente, será mais penalizado ainda por ter seu consumo medido pela média de 2014 (medida em estudo pelo governo estadual). Uma média, sem dúvida, fora do padrão histórico de consumo de cada família, já que foi em 2014 que o cidadão ativo reduziu o consumo. E, por fim, o cidadão é o maior penalizado, pois caberá a ele a maior parcela de contribuição, seja financeira ou de restrição hídrica.
Entre outros prejuízos, soma-se a menor quantidade de água para a indústria e agricultura, que sem dúvida impactará o emprego, renda e os preços, principalmente dos produtos originados do setor agrícola. Na questão da gestão das águas, chegamos ao fundo do poço. Se ficou alguma coisa de bom, é que a população sabe fazer a sua parte.
Um país com cerca de 12% da água doce superficial do mundo, apesar de não tão bem distribuída pelo território nacional, não pode desconsiderar planejamento no curto, médio e longo prazos. Ainda mais tendo nosso país sólida tradição de pesquisas nas áreas de hidrologia, hidráulica, recursos hídricos (aspectos qualitativo e quantitativo), ecologia, limnologia, saneamento, legislação ambiental, por exemplo, com excelentes universidades, centros e grupos de pesquisas, além de recurso financeiro suficiente, como uma das maiores economias do mundo.
Portanto, não necessitamos importar especialistas para nos dizer como fazer, mas trocar experiências é sempre importante. Nossos técnicos são bem formados e sabem fazer, quando a eles é passada a tarefa. Daí concluir que o modo de gerir a questão das águas no Brasil não está baseado primeiramente em premissas científicas, na pesquisa estruturada, na consulta ao corpo técnico, ou mesmo em questões de sustentabilidade e meio ambiente, mas, sim, deixa transparecer que são decisões meramente políticas.
Mas não transparecem ser decisões políticas como parte de um claro plano de governo, aberto, transparente, escrito e em diálogo com a sociedade. Neste momento de crise, o que compreendemos das declarações de muitos técnicos do setor, especialistas, gestores e políticos ligados ao tema, divulgadas pelos diversos meios de comunicações, deixa claro que são sempre decisões tomadas de última hora, pontuais e emergenciais, torcendo para Deus ser brasileiro, esperando por São Pedro fazer o seu serviço ou culpando a natureza, mesmo quando “trabalhamos sem parar”. São apresentadas soluções imediatistas tal como puxadinhos, remendos, colcha de retalhos ou tapa buracos, como a retirada de um primeiro volume morto, depois de um segundo, seguindo para um terceiro e derradeiro volume morto (se necessário), seja de um reservatório e depois de outro e mais outro, torcendo pelas chuvas, que chegaram, mas de pequena intensidade.
Se não der certo, e não chover, o reservatório da vez será a Billings. Há também de se manter o rio Pinheiros com águas altas e as comportas fechadas, no Cebolão, junto ao rio Tietê, para reverter suas águas ao reservatório Billings, mas também para gerar hidroeletricidade em Henry Boarden, na Baixada Santista, quem sabe contribuindo para evitar outro apaguinho/blecaute. De outro rio retira-se mais 0,5 m3/s. Outra ideia é interligar os mananciais, para retirar água de dado reservatório na medida da necessidade, enquanto se reduz em outro. E como recentemente declarou o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o Prof. Dr. Benedito Braga, em seis meses não é possível fazer obras da envergadura adequada ao problema.
Durante 2014, nosso governador, pessoalmente, sempre reforçou que não teríamos problemas, pois as chuvas logo estariam aí e tudo se resolveria. As chuvas ainda não chegaram, ao menos onde deveriam. Há planos de retirar águas do rio Ribeira de Iguape e autorização para captar água do Paraíba do Sul. Outra opção, na gestão da crise do abastecimento público, é reduzir a pressão na rede de abastecimento, ou mesmo cortar de vez o abastecimento, com rodízio entre setores da cidade, que podem ter água em certos dias e horários da semana, como forma de reduzir o volume de água ofertada e refletir na redução do consumo.
Correm no meio da cidade importantes rios como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, por exemplo, esgotos a céu aberto, não sendo possível empregar suas águas nem mesmo para a rega de parques e jardins, quanto mais para o consumo humano. Não há efetiva e substancial captação de água de chuva para emprego no abastecimento púbico. Há praticamente 30% de fuga da água limpa que percorre as tubulações até chegar em nossas casas. Isso sem falar da descaracterização total do ecossistema reservatório, com as comunidades biológicas constituintes mortas ou substituídas, decorrente da quase seca total do reservatório, como se de fato o reservatório fosse unicamente uma caixa de água, não mais um estabelecido ecossistema, com estrutura, função e dinâmica próprias, e prestando inúmeros e importantes serviços ecossistêmicos.
E nem mesmo há reconhecimento oficial formal de que estamos em período de forte restrição hídrica e de racionamento. Isso tudo é a política de Estado para a gestão dos recursos hídricos para abastecimento público em São Paulo? Esse é o plano de governo para a gestão das águas no estado? Vale lembrar que somente a Região Metropolitana de São Paulo é composta de quase 20 milhões de habitantes e qualquer coisa para atender a demanda desse universo de pessoas não pode ser realizada sem planejamento adequado.
Segundo Brasil (2003), os sistemas de abastecimento de água devem ser dimensionados para atender às necessidades de água da região beneficiada. Ainda, segundo esse mesmo documento, é importante que as projeções das necessidades e as disponibilidades dos recursos hídricos, em função do aquecimento da economia e do crescimento demográfico, sejam calculadas com antecipação.
Os sistemas devem ser planejados, arquitetados e construídos, para funcionarem durante muito tempo sem riscos de deterioração. Apesar disso, as atividades de monitoramento do sistema, buscando detectar, no mais curto espaço de tempo, possíveis problemas ou defeitos, são de importância capital, para garantir a retroalimentação sistêmica, relacionada com as atividades de manutenção. Estas são as premissas do plano de governo que vivenciamos em São Paulo?
Sendo urgente despender esforços para equacionar questões relativas à manutenção da qualidade e quantidade da água nos mananciais e visando minimizar os problemas relacionados ao abastecimento público e esgotamento sanitário nos grandes centros urbanos e garantir mananciais mais saudáveis para gerações futuras, são propostas:
a) nenhuma entidade federal, estadual, municipal ou privada poderá captar qualquer quantidade de água bruta sem a aprovação prévia dos órgãos competentes;
b) toda entidade federal, estadual, municipal ou privada terá o prazo máximo de cinco anos para regularizar e cadastrar seu sistema de captação de água bruta em operação, atendendo normas estabelecidas pelas diferentes esferas de governo; no caso de descumprimento, ficará definida multa diária;
c) definir em lei a quantidade máxima de água bruta que poderá ser captada, com base na quantidade – vazão e carga retiradas, levando em consideração a vazão e carga do manancial (rio) e a recarga de lagos e reservatórios, discriminando responsabilidades e sanções quando do seu descumprimento;
d) o não cumprimento das normativas apresentadas nos itens anteriores implicará em não ter analisadas novas solicitações de captação, até a regularização da atual situação;
e) a obrigatoriedade definida em lei que, para cada metro cúbico de água potável ofertada à população, seja definido em projeto a respectiva coleta e tratamento da água servida. A oferta de água potável e coleta e tratamento do esgoto gerado devem ser entendidos como um sistema único, integrados e indissociáveis, implicando que sejam considerados conjuntamente no planejamento, implantação e solicitação de recursos, com pena de não ter aprovada a proposta de captação de água bruta;
f) definir em lei o limite máximo de 10% para a fuga de água, implicando em multas e sanções quando do seu não cumprimento; para tanto será obrigatória a implantação de sólido programa de monitoramento de perdas e controle da água ofertada;
g) a obrigatoriedade definida em lei para que, no prazo máximo de dez anos, todo esgoto gerado seja efetivamente coletado e tratado (descarte zero), definindo severas sanções às diferentes esferas de governo e seus dirigentes quando da não observância da lei;
h) empreendimentos já instalados têm o prazo de dez anos para se integrarem à rede coletora de esgotos; após esse prazo, serão integrados compulsoriamente, arcando com os custos de instalação, somados às despesas de multas e custos processuais;
i) definir em lei que novos empreendimentos somente serão aprovados para uso após serem definitivamente integrados à rede coletora de esgoto;
j) definir em lei prazos para a instalação de sistemas de tratamento e descarte de lodo, proveniente das estações de tratamento de água para o abastecimento público (ETAs) e das estações de tratamento de esgotos (ETEs), com definições de responsabilidades, sanções e multas quando do seu não cumprimento;
k) definir em lei que novos empreendimentos (condomínios, museus, clubes, estádios, escolas, shopping centers, parques temáticos, indústrias, hospitais, hotéis, motéis, restaurantes, casas de espetáculos e de exposições e outros estabelecimentos comerciais e empreendimentos de grande porte público e privado, com base na área física instalada e no número de pessoas atendidas) implantem sistema de reuso de água, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;
l) definir que estes mesmos empreendimentos também implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;
m) definir em lei o prazo de dez anos para que empreendimentos já instalados (ver item k) implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;
n) cobrar de modo diferenciado e escalonado, segundo o consumo de água: quanto mais consome, mais paga, garantindo uma tarifa social mínima de ao menos 110 litros/habitante/dia;
o) instalar medidores de consumo de água individuais – uma casa, um medidor de consumo;
p) empreender esforços visando ampliar o controle e a vigilância da qualidade da água pelos órgãos responsáveis pelo abastecimento e por órgãos de saúde pública, da água bruta à torneira para o consumidor final;
q) empreender esforços em todos os níveis, com campanhas educacionais sobre a importância da água, seu uso racional, a preservação de sua qualidade e quantidade;
r) empreender esforços em campanhas educacionais relacionadas à saúde pública, reforçando a importância de hábitos simples, como lavar as mãos com sabão após usar o banheiro e antes das refeições;
s) estabelecer que estado e prefeitura obrigatoriamente implantem secretaria de meio ambiente e de saneamento;
t) definir que toda a secretaria de estado (federal, estaduais e municipais), de meio ambiente e de saneamento, deva manter site atualizado, com as ações empreendidas e metas para o sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
A intervenção divina não nos trará a água desejada e necessária. Caberá ao homem planejar e vislumbrar cenários futuros, corrigindo distorções no curso dos acontecimentos. (ecodebate)

Observatório do Clima alerta para agravamento da situação hídrica do país

Observatório do Clima alerta para agravamento da situação hídrica do país
Para Carlos Rittl a negligência dos governos aos alertas feitos pelos cientistas está colocando em risco a vida da população.
A crise hídrica do estado de São Paulo atinge níveis até então inimagináveis. O governo do estado já acena com a possibilidade de fornecimento de água para a população da grande São Paulo apenas dois dias por semana. Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais autoridades locais revelam que reservatórios estão chegando a níveis críticos. No Distrito Federal ambientalistas já percebem uma queda no volume de água dos reservatórios e até do Lago Paranoá.
Paralelamente, já que muitos rios e reservatórios são responsáveis pelo funcionamento de hidrelétricas, a situação hídrica provoca problemas também nessa área, fazendo com que o governo tenha que acionar as termelétricas que operam usando carvão vegetal. As termelétricas têm um custo de produção maior, e são extremamente poluentes, atingindo diretamente a camada de ozônio, além, claro, de encarecer o valor das tarifas.
Para o secretário-geral do Observatório do Clima, Carlos Rittl, ainda não se compreendeu perfeitamente a necessidade de implementar políticas de desenvolvimento sustentável: um desenvolvimento que leva em conta além do aspecto econômico, o aspecto ambiental e social. Assim, grandes obras causam destruição ambiental, tem forte impacto social, e atendem, muitas vezes, apenas interesses econômicos de uma minoria, mantendo um círculo vicioso que cada vez mais sacrifica a esmagadora maioria da população, que acaba por não se beneficiar diretamente desses empreendimentos, pagam a conta, e ainda são submetidas a situações como a que vive hoje a população de São Paulo.
No Amazônia Brasileira, o secretário fala sobre a necessidade da implementação urgente de novas formas de energia, sobretudo a solar, como uma política pública, pois esta pode atender a grandes e pequenos consumidores, podendo ser implementada tanto em grande quanto em pequena escala, sem impactos ambientais ou sociais.
Como os eventos extremos climáticos estão acontecendo em todo o planeta, ele ressalta a grande preocupação que devemos ter com a Amazônia e revela que como cidadão, que mora na cidade de São Paulo, não consegue imaginar como será a vida caso seja realmente necessário o racionamento de água no nível que está sendo cogitado, no qual a água chegaria aos lares da população apenas dois dias por semana. Carlos Rittl convida a sociedade, não só a evitar o desperdício em seus lares, mas a ter uma atuação política e social mais intensa com relação aos gastos e a poluição gerada pelas grandes empresas, bem como a vazamentos e desperdícios que podem levar mais de 30% da água tratada e potável direto para o ralo, sem que haja uma gota na torneira. (ecodebate)

‘Não será fácil exigir que seja entregue água’

‘Não será fácil exigir que seja entregue água que não existe’.
Crise da água: "a atuação do Judiciário vai ser muito mais na perspectiva macro de fiscalização da atuação ou da omissão dos administradores públicos", diz especialista.
Em meio à crise hídrica enfrentada por vários Estados brasileiros, o especialista em direito ambiental e ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Herman Benjamin, afirma que o Brasil está "muito bem na fotografia legislativa", mas "pessimamente na fotografia da implementação" das leis. Ele afirma que a Justiça pode ajudar a controlar a crise hídrica enfrentada no País, mas dificilmente conseguirá exigir que os governos forneçam água aos consumidores, se ela não existir.
Como o consumidor pode garantir acesso à água na Justiça? Pode haver responsabilização dos entes públicos?
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) não foi pensado - e eu sou um dos redatores da lei - para situações de crises existenciais. O CDC vai resolver casos pontuais: o hospital que está sem água, por exemplo. Mas não será fácil ao Poder Judiciário determinar à administração pública que entregue água que não existe. O Judiciário não pode atribuir efeitos a situações impossíveis. A atuação do Judiciário vai ser muito mais na perspectiva macro de fiscalização da atuação ou da omissão dos administradores públicos. É bom lembrar que a Sabesp, em São Paulo, na década de 1990, resistiu muito e brigou muito contra as ações civis públicas dos promotores ambientais que buscavam assegurar judicialmente o tratamento do esgoto in natura que era despejado nos cursos d'água paulistas. Uma absoluta falta de visão. Isso não é só São Paulo.
Falta de visão ou sensibilidade para a questão hídrica é um fenômeno nacional. Se as empresas não tivessem resistido judicialmente, até o STJ, nós hoje certamente teríamos um pouco mais de água e não, como ainda continuamos, com rios que são verdadeiros esgoto a céu aberto. Aqui no STJ temos julgado várias ações.
Como o STJ entendeu isso?
A forma de resolver o problema - se vai ser estação de tratamento e as tecnologias adotadas -, a administração decide.
Agora, o que a Constituição e a lei não permitem é que esgoto in natura seja jogado nos cursos d'água.
Qual a avaliação da legislação de proteção a recursos hídricos?
O Brasil está muito bem na fotografia legislativa. Somos um dos poucos países do mundo a ter uma legislação rigorosa, protegendo a vegetação e a ligando à água. Além disso, temos uma legislação de recursos hídricos e somos um dos poucos países a ter uma política de mudanças climáticas, que poucos conhecem.
E por que estamos enfrentando os problemas atuais?
Estamos muito bem na fotografia legislativa e péssimos na da implementação. A implementação da legislação de recursos hídricos exige dois valores que estão um pouco em falta: primeiro, coragem política; segundo, orçamento mesmo. Basta ver o orçamento dos órgãos ambientais e mesmo das agências de recursos hídricos.
Acredita que podemos dar um salto neste momento?
Não tanto na perspectiva legislativa, mas no plano da implementação. Mesmo no âmbito das leis que nós temos há ajustes que precisam ser feitos.
Quais são as tarefas do Congresso Nacional no momento?
Primeiro, aperfeiçoar a legislação existente nas falhas que apresenta ao proteger os recursos naturais. Segundo, aperfeiçoar a lei no que tange aos mecanismos de implementação. Por exemplo: prevendo formas mais rápidas de responsabilização do mau administrador público no campo dos recursos hídricos. Isso se aplica também à legislação penal, porque as sanções para poluição de águas no Brasil são risíveis, das mais baixas do mundo. Em terceiro lugar, o parlamento pode provocar a articulação horizontal e vertical da administração. Vertical com União, Estados e municípios; e horizontal, entre os vários órgãos.
O que pode ser feito na área legislativa contra desperdício?
O Congresso pode modernizar a legislação no que tange ao uso doméstico quanto ao uso agrícola e industrial. No agronegócio, podem ser feitos estudos para dizer se o consumo de determinada propriedade está proporcional à média daquela região. E, para quem consumir mais, o crédito não será tão fácil. Você cria mecanismos premiais, uma vez que a agricultura é completamente subsidiada, para aqueles produtores que se preocupam em economizar. O grosso da água consumida é agrícola. (em)

Rodízio restrito pode criar ‘refugiados hídricos’

Também pode esgotar outros cinco mananciais que abastecem a Grande São Paulo, dizem especialistas e funcionários da Sabesp.
Um rodízio oficial de água restrito aos bairros abastecidos pelo Sistema Cantareira levaria ao surgimento de “refugiados hídricos” e ao esgotamento dos outros cinco mananciais que abastecem a Grande São Paulo. Esta é a opinião dos especialistas e funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) ouvidos pelo Estado. 
A reportagem apurou que o governo Geraldo Alckmin (PSDB) dá como certa a adoção de um racionamento oficial, mas ainda discute três cenários possíveis:
1) só no Cantareira, que abrange, principalmente, a zona norte e a região central da capital;
2) no Cantareira e no Alto Tietê, que inclui a zona leste;
3) em toda Grande São Paulo, onde 20 milhões de pessoas são atendidas pela Sabesp.
Represa Jaguari-Jacareí faz parte do Sistema Cantareira.
A abrangência do rodízio é que vai determinar a quantidade de dias que a população ficará sem água. A própria Sabesp cogitou um esquema de 5 por 2 (cinco dias sem água e dois com). Segundo o Estado apurou, a opção mais provável estudada é 4 por 2. A medida deve ser decretada até abril, início do período de estiagem, mas pode ser implementada em março, se a seca neste mês no Cantareira, que é o maior sistema, repetir o cenário de janeiro.
Crise hídrica pode gerar rodízio de abastecimento de água.
“A crise chegou a tal ponto que, se você adotar o rodízio só em um ou dois sistemas, você leva os demais ao esgotamento rapidamente, porque estaremos no período seco e eles são muito menores do que o Cantareira”, explica o engenheiro e professor José Roberto Kachel, ex-funcionário da Sabesp. 
“Qualquer medida dessa que não seja tomada em toda região vai criar uma segregação de território. As pessoas vão querer fugir para onde tem água. Teremos refugiados hídricos”, afirma Francisca Adalgisa, presidente da Associação dos Profissionais Universitários (APU) da Sabesp.
Em janeiro de 2014, a Sabesp planejou um rodízio oficial restrito ao Cantareira, conforme o Estado revelou. O plano, contudo, foi vetado pelo governo Alckmin, que apostou na redução da pressão, no bônus, na transferência de água de outros sistemas e nas chuvas. Oficialmente, a Sabesp afirma que não há definição sobre rodízio. (OESP)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...