domingo, 1 de março de 2015

Crise da água muda hábito de moradores

Crise da água muda hábito de moradores em São Paulo.
Armazenar água da chuva, lavar menos louça, limpar a piscina de outro jeito: paulistanos contam qual será o legado da seca histórica.
A maior crise hídrica da história de São Paulo impôs novos hábitos à população em relação ao uso da água. Parte das 20 milhões de pessoas da região metropolitana abastecidas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) está buscando formas alternativas de captação do recurso para driblar a redução da pressão e o fechamento da rede e se prepara para um eventual rodízio oficial. O objetivo é depender cada vez menos da empresa e mais da chuva.
A mudança de hábitos é semelhante à que aconteceu durante o apagão energético de 2001, quando a população também teve de se adaptar. Naquela época, ganharam força as lâmpadas de baixo consumo e os equipamentos mais econômicos.
Cada vez mais a captação de água da chuva vem se tornando uma alternativa. O engenheiro de tráfego Weliton Bastos, de 42 anos, montou um esquema no quintal de sua casa, no Ipiranga, zona sul de São Paulo, para captar a água da chuva que se acumula na calha. Para isso, comprou duas caixas de 500 litros. "Aqui em casa, mesmo se encher o Cantareira, não vamos mudar mais nossos hábitos."
A água é usada para lavar o quintal e dar descarga. Na chuva de 25/02 ele conseguiu armazenar 760 litros. "Para mim é uma mudança de comportamento que vai durar para sempre."
O sobrado da arquiteta Juliana Llussa, de 44 anos, tem uma piscina de 36 mil litros na cobertura. Para evitar o desperdício, ela parou de usar água da rua para encher a área de lazer e não usa mais o aspirador para fazer a limpeza, prática que consome água. "Agora espero chover para encher a piscina. Em vez de usar o aspirador, faço o tratamento com cloro e a água fica limpa do mesmo jeito", disse.
Segundo ela, caso a crise se agrave, a água da piscina será usada para a limpeza da casa. Ela também diz estar lavando menos louça. "Não coloco mais os pires das xícaras na mesa do café. É uma louça que suja pouco, não é essencial."
As dez famílias que dividem um terreno no Sumarezinho, zona oeste, reduziram em 39,3% o consumo de água da Sabesp. Em dezembro de 2013, os moradores consumiram 28 mil litros de água. Um ano depois, o gasto era de 17 mil litros. "Aqui, quando chove, é até engraçado. Sai todo mundo correndo com os baldes para pegar chuva. Como a rua é alta, a água não chega na torneira", explicou a musicista Fernanda Barbosa, de 21 anos, que mora em uma das casas.
Em 25/02 a reportagem contabilizou 600 litros de água em baldes. "Vai ser para sempre. A gente consome menos água, paga um valor menor e vive bem."
As mudanças atingem os comerciantes. O empresário Francisco Severiano Alves, de 49 anos, investiu R$ 4000,00, no fim de 2014, para adaptar as calhas e o reservatório de água de 20.000 litros que tem dentro de sua oficina mecânica, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. “A gente perdia muita água da chuva, então fizemos as mudanças para conseguir aproveitá-la. É água de graça para lavar peças, a garagem e usar no vaso sanitário.”
Paradigma
Para Antonio Eduardo Giansante, mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento e professor da Universidade Mackenzie, as adaptações para conseguir a “independência hídrica” são positivas. “É uma mudança de paradigma. As pessoas estão tomando consciência de que a água é limitada.” Ele diz, porém, que o poder público deveria dar mais informações e instruções sobre como armazenar a água da chuva para evitar contaminação e dengue.
Segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das águas da SOS Mata Atlântica, a mudança de comportamento foi o único aspecto positivo da crise hídrica. “Para ser permanente, esse tipo de mudança tem de fazer parte do nosso cotidiano, não apenas em tempo de crise.”
No São Paulo Futebol Clube, a limpeza de arquibancadas e de outras áreas comuns está sendo feita com jatos de ar. “Buscamos cada vez mais eficiência dentro do clube”, explica Eduardo San Martim, diretor do Meio Ambiente do SPFC.
O consumo caiu de 5,9 milhões de litros, em outubro/14, para 2,4 milhões, em janeiro/15. A medida de maior impacto foi no gramado do Morumbi. Como há minas no subsolo, o clube adaptou os veios, canalizou para um reservatório e usa a água para irrigação. “O gramado é nosso local de trabalho e precisa estar perfeito.” (OESP)

Comércio usa água despejada por prédio

Comércio usa água despejada por prédio em São Paulo.
Líquido vem do lençol freático; construtora fala em contaminação e governo não vê problemas.
A cada 15 minutos, um espigão recém-inaugurado na esquina das Ruas Augusta e Dona Antônia de Queirós, na região central de São Paulo, jorra centenas de litros de água na sarjeta. “Nem que eu tivesse uma caixa d’água de 50 mil litros dariam para segurar o tanto de água que brota do lençol (freático) que está embaixo da nossa garagem”, diz o gestor do condomínio Capital Augusta, José França, de 52 anos.
O edifício de fachada moderna e com pé-direito alto tem 16 andares, 160 apartamentos e um enorme subsolo usado como garagem. A água límpida e gelada é jogada na rua por meio de um cano branco que passa por baixo dessa garagem. O líquido é parecido com o de uma mina e corre como uma nascente por mais de 300 metros ao longo da Augusta, até entrar em um bueiro, na esquina com a Praça Roosevelt.
Água límpida
DAEE informa que para o reuso seria necessária uma autorização especial.
Pela manhã, alguns comerciantes usam baldes para pegar a água e lavar seus bares. Outros enchem suas caixas d’água esvaziadas à noite. “A água é limpinha, dá para lavar minha calçada e alguns carros”, afirma o manobrista Leandro Cardoso, de 29 anos, que trabalha em um estacionamento na esquina das Ruas Augusta e Caio Prado.
‘Vontade de chorar’
Moradores indignados com o desperdício procuraram a reportagem, após serem informados pelo governo estadual de que não havia ilegalidade no procedimento adotado pelo prédio. “Não dá nem para acreditar nisso. É dia e noite essa água jogada fora, dá vontade de chorar até”, lamenta a aposentada Cleunice de Souza Antunes, de 69 anos, moradora da Rua Caio Prado.
O problema no edifício da Rua Augusta ocorre em outros da capital construídos sobre cursos d’água ou lençóis freáticos. Ao erguer a garagem subterrânea, a construção do Condomínio Capital Augusta atingiu o lençol. Para evitar o alagamento da garagem, o prédios joga a água em excesso na rua, causando um desperdício não calculado de água.
“A água é contaminada, o pessoal da construtora (Esser) falou que não dá para usar nem para regar as plantas”, acrescentou o gestor do condomínio. Já o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) informou que o prédio, se quisesse fazer o reuso da água para lavar suas dependências, por exemplo, teria de pedir autorização ao órgão.
O DAEE diz ainda que não existe desperdício, uma vez que a água drenada para as sarjetas “por vários prédios na cidade de São Paulo” acaba sendo lançada em bueiros. Aí essa água é lançada em uma rede de microdrenagem e chega a um córrego, completando seu “ciclo hidrológico”, segundo o governo.
Mas essa mesma água que sai limpa do prédio entra em um córrego poluído, ou seja, ela precisa ser tratada várias vezes, o que resulta em um custo aos cofres da Sabesp, responsável pelo tratamento de efluentes na capital paulista.
Responsável pelo Capital Augusta, a Esser informou que “a água proveniente do sistema de drenagem é imprópria para o consumo e o contato humano e poderá ser reutilizada apenas caso haja interesse do condomínio e seus condôminos, que são responsáveis pelas obras necessárias para sua reutilização e tratamento”. A empresa diz que o descarte de água é feito “conforme determinação da legislação”.
“É um absurdo esse desperdício. Nunca vi coisa igual”, afirma o jornalista Carlos Alfredo Paiva, de 26 anos, morador ao lado. Outros vizinhos já foram cobrar do gestor do prédio uma providência contra o desperdício.
Outro exemplo
Alvo de protestos de vizinhos por adotar a mesma drenagem de água na sarjeta da Rua Frei Caneca, o Condomínio Paulista Home Resort obteve autorização para fazer o reuso da água do lençol freático na lavagem semanal das dependências do prédio.
Vizinhos não se conformam com o desperdício da água.
Para lembrar
A água de reuso é apontada por especialistas como a solução mais barata e viável para a crise hídrica paulista. Um relatório que foi entregue à Sabesp, em dezembro/14, aponta que, em dez anos, seria possível criar um sistema que reutilizasse cerca de 10 m3 por segundo, capaz de abastecer 3,5 milhões de habitantes. (OESP)

Cantareira tem melhor mês em 2 anos

Vazão no manancial chegou a 36,4 mil litros por segundo, três vezes maior do que em 2014; chuvas ficaram quase 50% acima da média.
Pesca na Represa Atibainha do Cantareira. Após 21 dias de altas consecutivas, manancial ficou estável em 11,1%.
Desde março de 2013, o manancial que abastece 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo não registrava volume tão favorável, com 36,4 mil litros por segundo, vazão três vezes maior do que em janeiro passado e fevereiro de 2014, que foi de 8,5 mil litros por segundo. O governo ainda vai esperar o fim do próximo mês para definir a necessidade de um rodízio oficial.
O aumento da vazão foi provocado pela volta das chuvas na região dos rios e represas que formam o sistema. A pluviometria em fevereiro ficou 47,5% acima do esperado. Até 27/02 a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) registrava um saldo de 293,7 milímetros, ante uma média de 199,1 milímetros para o mês. Para autoridades estaduais e federais, os números indicam uma “quebra de tendência” de seca extrema no principal manancial paulista.
Hidrólogos e meteorologistas, contudo, alertam que ainda é cedo para cravar uma mudança permanente no padrão climático. Previsão divulgada pelo Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação aponta uma tendência de diminuição de chuva na Região Sudeste nos próximos três meses. A redução já ocorreu nos últimos dias de fevereiro. Em 27/02 o nível do Cantareira ficou estável pela primeira vez após 21 dias de altas consecutivas. O sistema está com 11,1%, considerando duas cotas do volume morto. Cantareira tem melhor mês em 2 anos.
Pescadores já conseguem tirar peixes da Represa Atibainha - o que alegavam ser difícil anteriormente.
Pescadores já conseguem tirar peixes da Represa Atibainha - o que alegavam ser difícil anteriormente 
A pluviometria em fevereiro ficou em 47,5% acima do esperado.
Pescadores já conseguem tirar peixes da Represa Atibainha, o que alegavam ser difícil anteriormente.
A pluviometria em fevereiro f
Desde março/13, o manancial que abastece 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo não registrava volume tão favorável.
Desde março de 2013, o manancial que abastece 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo não registrava volume tão favorável
O aumento da vazão foi provocado pela volta das chuvas na região dos rios e represas que formam o sistema.
O aumento da vazão foi provocado pela volta das chuvas na região dos rios e represas que formam o sistema 
O governo ainda vai esperar o fim de março/15 para definir a necessidade de um rodízio oficial.
O governo ainda vai esperar o fim de março para definir a necessidade de um rodízio oficial
Hidrólogos e meteorologistas, contudo, que ainda é cedo para cravar uma mudança permanentemente no padrão climático.
Hidrólogos e meteorologistas, contudo, alertam que ainda é cedo para cravar uma mudança permanente no padrão climático
Para autoridades estaduais e federais, os números indicam uma ‘queda de tendência’ de seca extrema no principal manancial paulista.
Para autoridades estaduais e federais, os números indicam uma 'quebra de tendência' de seca extrema no principal manancial paulistaAvanço
Em um mês, o nível do Sistema Cantareira subiu 6,1 pontos porcentuais. Pela primeira vez desde abril de 2013 o sistema fecha o mês no azul, com saldo de 61,1 bilhões de litros, o que ajudou a recuperar a segunda cota do volume morto. Em 27/02 pescadores já conseguiam tirar peixes da Represa Atibainha - o que alegavam ser difícil anteriormente.
O resultado, porém, só pôde ser alcançado por causa da redução significativa no volume de água retirado do sistema para atender a Grande São Paulo e mais 5 milhões de pessoas nas regiões de Campinas e Piracicaba. Só de janeiro para fevereiro, a queda na captação de água do Cantareira foi de 6 mil litros por segundo, volume equivalente ao que a Sabesp pretende produzir com o Sistema São Lourenço, em construção no Vale do Ribeira e com conclusão prevista para 2017. Em fevereiro, a retirada total do sistema chegou a 10,9 mil litros por segundo. Antes da crise declarada, no início de 2014, a retirada chegava a 33 mil litros por segundo. Entre os motivos que ajudaram na redução estão as chuvas na bacia de Piracicaba, que elevaram o nível dos rios que abastecem a região e diminuíram a dependência de Campinas do sistema.
Pressão
Na Grande São Paulo, a Sabesp intensificou a redução da pressão e fez o fechamento manual de até 40% da rede, conforme o Estado revelou no início do mês, o que resultou em economia de 8,5 mil litros por segundo, mais do que o dobro dos 3,5 mil litros por segundo economizados pela população, segundo a empresa.
Em depoimento na CPI da Sabesp na Câmara Municipal, o presidente da empresa, Jerson Kelman, admitiu que as manobras feitas na rede reduziram a pressão da água nas tubulações para apenas 1 metro de coluna d’água, bem abaixo do mínimo de 10 metros estabelecido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Segundo um dirigente da Sabesp, as práticas chegam a despressurizar completamente a rede em pontos altos, deixando famílias sem água e com risco de contaminação da água por infiltração do lençol freático. (OESP)

Cantareira interrompe sequência de 3 semanas de alta

Cantareira interrompe sequência de 3 semanas de alta
Manancial está com 11,1% da capacidade, mesmo índice de 26/02/15.
Nível do sistema subiu por 21 dias consecutivos.
Cantareira interrompe sequência de três semanas de alta.
O volume de água armazenado no Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento da Grande São Paulo, interrompeu sequência de 21 dias de alta em 27/02. Segundo relatório da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o manancial está com 11,1% da capacidade, mesmo índice de 26/02. Além dele, o Alto Tietê também se manteve estável.
Sobre a região das represas que formam o Cantareira, choveu apenas 0,7 milímetro nas últimas 24 horas. Desde 6 de fevereiro, quando iniciou a sequência de três semanas de elevação, o Cantareira recuperou 4,9%, beneficiado pelo mês de fevereiro mais chuvoso dos últimos nove anos. A um dia do fim do mês, o volume de precipitação já totaliza 293,7 mm, 47% superior ao esperado para o período (199,1 mm).
Além das chuvas, há redução do volume de água retirado do sistema pela Sabesp. No ano passado, o manancial chegou a passar oito meses sem registrar nenhum aumento. A última vez que o nível dos reservatórios desceu foi justamente no primeiro dia de fevereiro, quando caiu de 5,1% para 5%. O cálculo já considera duas cotas de volume morto, de 182,5 bilhões de litros e 105 bilhões, adicionadas no ano passado.
Outros mananciais
O nível de três reservatórios subiu em 27/02. Proporcionalmente, o maior aumento, de 0,9%, ocorreu no Alto Cotia, onde choveu 20,6 milímetros. O volume de água armazenado é de 38,6%, contra 37,7% do dia anterior.
Já o Guarapiranga, mesmo sem registro de chuvas entre 27 e 26/02, aumentou 0,3% e opera com 60,1% da capacidade, contra 59,8% do dia anterior. Por sua vez, o Rio Claro variou de 35,7% para 35,8% após somente 0,2 mm de precipitação.
Estável pelo quarto dia seguido, o Alto Tietê opera com 18,3% da capacidade. Sobre as represas do manancial, choveu 7,3 mm nas últimas 24 horas.
O único sistema que caiu em 27/02 foi o Rio Grande, onde choveu apenas 0,2 mm. Com queda de 0,2 %, o manancial está com 83,1% da capacidade, contra 83,3% do dia anterior. (yahoo)

Governo lança programas para minimizar efeitos da seca

Iniciativas ajudam, mas não atingem todos os produtores rurais.
Agricultores estão procurando auxílio em programas estaduais e federais. Há desde projetos que ensinam formas produtivas mais sustentáveis – como irrigação eficiente e reflorestamento de margens de rios – até planos de socorro ao campo para financiar perfuração de poços. O objetivo é proporcionar o maior aproveitamento possível da água disponível, por menor que seja a quantidade. “As ações ajudam, mas ainda são incipientes”, diz Nelson Ananias Filho, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Alguns programas são emergenciais. No Rio, por exemplo, onde morreram 2 mil cabeças de gado nos últimos quatro meses, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) lançou no início do mês o programa Rio Rural Emergencial, que vai disponibilizar R$ 23 milhões e ainda contará com R$ 30 milhões do Banco Mundial. As medidas de socorro previstas incluem a implantação de sistema de nutrição para os rebanhos, que sofrem com a falta de pasto; recuperação de açudes e barragens; e a perfuração de poços artesianos. Serão beneficiados 13 mil pequenos produtores. Os municípios das regiões Norte e Noroeste do Rio também receberão auxílio.
Para conter as perdas da lavoura do café no Espírito Santo, que deve chegar a 30%, o Ministério Público definiu Termos de Ajustes de Conduta (TAC). “A palavra de ordem dada pelo governador Paulo Hartung é acompanhar a situação de cada município e dar apoio incondicional às prefeituras”, disse o secretário estadual de Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Octaciano Neto.
Desenvolvido pela Agência Nacional de Águas (ANA), o Produtor de Água é mais abrangente. Apoia e orienta projetos de redução das erosões e assoreamento de mananciais rurais em qualquer Estado. Trata-se de um estímulo à política de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), que prevê a remuneração aos donos da terra com base nos benefícios gerados nas propriedades. Na mesma linha, o programa Conservador das Águas, implantado em Extrema (MG) – e premiado pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU/Habitat) –, já deu resultados: reflorestou 700 afluentes do Rio Jaguari. Isso possibilitou que continuassem a drenar água para o manancial que alimenta o Sistema Cantareira, principal reservatório que abastece a região metropolitana da capital paulista.
Em São Paulo, o Pacto pela Água visa aumentar a conscientização e a tomada de providências para atenuar a crise hídrica. “Foram adotados mecanismos eficientes de irrigação, como o gotejamento, que economiza e direciona a água para a raiz da planta”, diz Fábio Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP). O sistema aumenta em 95% o aproveitamento da água. O desperdício é mínimo.
“Faltam políticas públicas efetivas. Não há incentivo para medidas como coleta de água da chuva.” (OESP)

Balanço hídrico no Cerrado afetará economia brasileira

Alterações do balanço hídrico no Cerrado podem afetar importantes setores da economia brasileira
“É evidente que as alterações de uso e cobertura do solo promovida pela expansão agrícola na região de Cerrado têm potencial para afetar os serviços ecossistêmicos e vários importantes setores da economia do Brasil, tais como agricultura, produção de energia e disponibilidade hídrica”, alerta o pesquisador em hidrologia.
A substituição da vegetação nativa do Cerrado por áreas destinadas às atividades agrícolas “tem causado intensas mudanças nos processos hidrológicos” e acelerado a erosão do solo do segundo maior bioma da América do Sul, afirma Paulo Tarso Sanches Oliveira, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento e autor da tese Water balance and soil erosion in the Brazilian Cerrado. Nos últimos anos o pesquisador tem estudado as mudanças ocasionadas no solo e no ciclo hidrológico do bioma, que abrange 10 das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras, e contribui para a formação de importantes bacias hidrográficas, como a dos Rios Tocantins/Araguaia, São Francisco, Paraguai, Paraná e Parnaíba. “Essas mudanças no balanço hídrico e erosão do solo são ainda pouco entendidas, apesar de fundamentais na tomada de decisão de uso e manejo do solo nesta região. Portanto, torna-se necessário compreender a magnitude das mudanças nos processos hidrológicos e de erosão do solo, em escalas locais, regionais e continentais, e as consequências dessas mudanças”, pontua.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Oliveira informa que o desflorestamento do Cerrado está ocorrendo mais rapidamente do que na área de floresta amazônica e “considerando a taxa atual de desflorestamento, estima-se que o ecossistema pode desaparecer nos próximos anos”. Segundo ele, “o uso do solo é considerado um dos principais fatores que controlam o processo de erosão hídrica. Nossos resultados sugerem que mudanças no uso do solo (como, por exemplo, a substituição do Cerrado para cultivo agrícola) têm o potencial de intensificar a erosão do solo de 10 a 100 vezes”. Entre as consequências previstas caso a atual situação se mantenha, o pesquisador menciona a possibilidade de haver alterações no balanço hídrico, intensificação dos processos erosivos, perda de biodiversidade, desequilíbrios no ciclo do carbono, poluição hídrica, mudanças no regime de queimadas e alteração do clima regional.
Oliveira lembra ainda que “além de ser uma importante região ecológica e agrícola para o Brasil, a região de Cerrado é crucial para a dinâmica de recursos hídricos, pois (…) as maiores usinas hidrelétricas do país (~80% da energia produzida no Brasil) possuem rios que se iniciam em regiões de Cerrado”.
Paulo Tarso Sanches Oliveira é doutor em Ciências – Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo (EESC-USP). Trabalhou como pesquisador visitante na United States Department of Agriculture (USDA-ARS), é mestre em Tecnologias Ambientais – Recursos Hídricos e é graduado em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em que contexto foi realizada a sua pesquisa sobre a dinâmica de balanço hídrico e dos processos erosivos decorrentes da substituição da cobertura do solo por áreas agrícolas no Cerrado? 
Paulo Tarso Sanches Oliveira - O desmatamento nas regiões de Cerrado tem causado intensas mudanças nos processos hidrológicos. Essas mudanças no balanço hídrico e erosão do solo são ainda pouco entendidas, apesar de fundamentais na tomada de decisão de uso e manejo do solo nesta região. Portanto, torna-se necessário compreender a magnitude das mudanças nos processos hidrológicos e de erosão do solo, em escalas locais, regionais e continentais, e as consequências dessas mudanças.
O principal objetivo do estudo apresentado nesta tese de doutorado foi de melhor entender os mecanismos dos processos hidrológicos e de erosão do solo no Cerrado Brasileiro. Assim, foi estudado cada componente do balanço hídrico, tais como: a precipitação; precipitação interna (parte da precipitação que passa pela vegetação e atinge o solo); escoamento pelo tronco das árvores; interceptação da chuva; evapotranspiração (parcela da água que evapora mais o uso da água pela vegetação denominado de transpiração); infiltração; água armazenada no solo; água que recarrega o aquífero subterrâneo; e o escoamento superficial. A figura abaixo ilustra cada um desses componentes.
No desenvolvimento da pesquisa foram utilizadas diferentes escalas de trabalho (vertentes, bacias hidrográficas e continentais) e usando dados experimentais in situ, de laboratório e a partir de sensoriamento remoto. Deste modo, a tese de doutorado foi dividida em cinco artigos científicos (três publicados e dois em revisão, todos em periódicos conceito A1 da CAPES) que contemplam estudos sobre o balanço hídrico e erosão do solo no Cerrado em diferentes escalas espaciais e temporais. Além disso, os resultados provenientes deste projeto foram apresentados e discutidos nas duas principais reuniões científicas em que o projeto se enquadra  AGU Fall Meeting, 2013 (San Francisco, The U.S.) e EGU General Assembly, 2014 (Vienna, Áustria).
Além disso, é importante ressaltar que os artigos desenvolvidos na tese de doutorado envolveram a parceria com diversos pesquisadores em diferentes universidades além do Departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da EESC-USP, tais como: USDA-ARS, Southwest Watershed Research Center, Tucson, Arizona, USA; Department of Hydrology and Water Resources, University of Arizona, Tucson, Arizona, USA; Queens School of Engineering, University of Bristol, Bristol, UK; Departamento de Ciências Atmosféricas, IAG, University of São Paulo, São Paulo, Brasil; e o Departamento de Agronomia, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Aquidauana, Brasil.
IHU On-Line – Quais foram as áreas estudadas e quais suas constatações acerca da atual situação delas?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – Duas áreas foram estudadas, as quais apresento abaixo.
Área 1: área do Cerrado Brasileiro
O bioma Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul, ocupa uma área de aproximadamente 2 milhões de km2 (correspondente a ~22% do território nacional) e está localizado na porção central do Brasil. O Cerrado abrange 10 das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras, contribuindo para formação de importantes bacias hidrográficas, tais como as dos Rios Tocantins/Araguaia, São Francisco, Paraguai, Paraná e Parnaíba. Segue o percentual de área ocupada pelo Bioma Cerrado em cada uma das 10 regiões hidrográficas brasileiras: Tocantins (65%), São Francisco (57%), Paraguai (50%), Paraná (49%), Parnaíba (46%), Occidental Atlantic Northeast (46%), Atlantic East (8%), Amazon (4%), Southeast Atlantic (1%) and Oriental Atlantic Northeast (<1 1a="" igura="" o:p="" regions="">
A água proveniente dessas bacias hidrográficas é crucial para o abastecimento humano e dessedentação animal, manutenção de funções eco hidrológicas de sistemas no Cerrado e outros biomas como o Pantanal e a Caatinga, e para o fornecimento de água para a indústria, agricultura, navegação e turismo. Além disso, é importante ressaltar que várias usinas hidrelétricas do Brasil usam águas provenientes da região de Cerrado, tais como: Itaipu, Tucuruí, Iha Solteira, Xingó e Paulo Afonso. Os aquíferos de água subterrânea do Bambuí, Urucuia e Guarani também se encontram em áreas de Cerrado, destacando que boa parte das áreas de aforamento do Aquífero Guarani encontra-se nesta região. Isso ressalta a importância estratégica do Cerrado em diversos setores do Brasil.
Em contrapartida, nas últimas décadas houve intensa substituição da vegetação natural do Cerrado por áreas destinadas às atividades agrícolas. Deste modo, verifica-se que o desflorestamento do Cerrado ocorre mais rapidamente do que na área de floresta amazônica e, considerando a taxa atual de desflorestamento, estima-se que o ecossistema pode desaparecer nos próximos anos. Neste sentido, existe um grande desafio, pois a transformação de ecossistemas ocasiona alterações no balanço hídrico e intensificam os processos erosiva, além de provocar a perda de biodiversidade, desequilíbrios no ciclo do carbono, poluição hídricas, mudanças no regime de queimadas e alteração do clima regional.
Figura da área do Bioma Cerrado, bacias hidrográficas estudadas (Tocantins/Araguaia, Tocantins, São Francisco e Paraná) e os estados brasileiros localizados na área de Cerrado.
Figura 1a. Mapa das bacias hidrográficas e estações fluviométricas representadas por círculos. Bacias: 1. Amazônica; 2. Tocantins; 3. Oc. A. Northeast; 4. Parnaíba; 5. Ori. A. Northeast; 6. São Francisco; 7. East Atlantic; 8. Southeast Atlantic; 9. Paraná; 10. Paraguai; 11. Uruguai; 12. South Atlantic. b. Bioma Cerrado e as fronteiras com outros Biomas Brasileiros. The Cerrado biome and its borders with other Brazilian biomes. Estados: Bahia – BA; Maranhão – MA; Tocantins – TO; Piaui – PI; Mato Grosso do Sul – MS; Mato Grosso – MT; Goiás – GO; Distrito Federal -DF; Minas Gerais – MG; São Paulo – SP and Paraná – PR. Fonte: doi: 10.1002/2013WR015202
Neste estudo publicado na revista Water Resources Research, nós avaliamos o uso de dados de sensoriamento remoto na estimativa dos principais componentes do balanço hídrico, além de realizar uma análise de incerteza e de tendência dos dados.
Área 2: Fragmento de Cerrado no município de Itirapina
Outro estudo foi conduzido em um fragmento de Cerrado, na Fazenda São José, pertencente ao Instituto Arruda Botelho, situada à Rodovia Municipal Ayrton Senna Km 08, município de Itirapina-SP (latitude 22°10′ S, longitude 47°52′ W e altitude média de 760 m). Na área de Cerrado foi instalada uma estação meteorológica automática, em uma torre de 11 m de altura, que realiza medidas automáticas de variáveis climáticas e do solo. Além disso, foram instaladas seis parcelas (áreas delimitadas por chapas galvanizadas no total de 100 m2 cada parcela) com o intuito de coletar o escoamento superficial e a erosão do solo; 15 pluviômetros para coletar a parte da chuva que atinge o solo; e 12 coletores de escoamento da água que escoa pelo tronco das árvores.
As coletas foram realizadas após cada chuva erosiva, ou seja, a cada chuva que tem o potencial para promover escoamento superficial e erosão do solo. A estação meteorológica instalada na área experimental envia informações 24 horas de todas as variáveis meteorológicas monitoradas. Assim, é possível saber quando é necessário realizar o monitoramento.
IHU On-Line – Com que magnitude tem ocorrido mudanças nos processos hidrológicos e de erosão do solo no Cerrado e quais são as causas dessa alteração?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – Na área 1, o balanço hídrico foi avaliado primeiramente para toda a região do Cerrado (~ 2 milhões de km2) a partir de dados de sensoriamento remoto no período de 2003 a 2010. Foram utilizados dados da Tropical Rainfall Measuring Mission TRMM para precipitação, Moderate Resolution Imaging Spectroradiameter – MOD16 para obtenção da evapotranspiração e Gravity Recovery and Climate Experiment – GRACE para análise da variação do estoque de água na superfície terrestre (Figura abaixo). Cada um dos dados de entrada foi avaliado com dados medidos a campo e o fechamento do balanço hídrico foi avaliado a partir de dados de vazão para as três maiores bacias hidrográficas localizadas no Cerrado, Paraná, São Francisco e Tocantins. Além disso, foi avaliado se existem tendências significativas em cada componente do balanço hídrico a partir do Mann-Kendall test para α = 95%.
Verificamos que a principal fonte de incerteza na estimativa do escoamento superficial ocorre nos dados de precipitação do TRMM. A variação de água na superfície terrestre calculada como o residual da equação do balanço hídrico usando dados de sensoriamento remoto (TRMM e MOD16) e valores observados de vazão mostram uma correlação significativa com os valores de variação de água na superfície terrestre provenientes dos dados do GRACE. Além disso, concluímos que os dados do GRACE podem representar satisfatoriamente a variação de água na superfície terrestre para extensas regiões do Cerrado. A validação desses dados obtida em nosso estudo na região do Cerrado é fundamental para avaliações futuras de períodos de enchentes e de seca na região. A partir desses dados é possível quantificar o aumento e a diminuição de água na superfície terrestre e visualizar espacialmente as regiões mais afetadas. Por exemplo, no período de estudo (2003-2010) verificou-se, em geral, uma tendência de aumento na média anual de evapotranspiração no Cerrado e a diminuição do escoamento superficial em alguns pontos da região.
Na área 2, os valores médios de evapotranspiração estimada para o Cerrado variou 1,91 a 2,60 mm d-1 para a estação seca e chuvosa, respectivamente. Os valores de interceptação da chuva variam de 4 a 20% e o escoamento pelo tronco das árvores foi de aproximadamente 1% da precipitação total no cerrado. O coeficiente de escoamento superficial (total escoado superficialmente dividido pelo total precipitado) foi menor que 1% nas parcelas de cerrado e o desmatamento tem o potencial de aumentar em até 20 vezes esse valor.
Neste estudo também foi desenvolvido um modelo regional para estimativa da evapotranspiração a partir de dados de sensoriamento remoto. Assim é possível estimar a evapotranspiração de forma satisfatória a cada 16 dias e com uma resolução espacial de 250 m. Esse modelo regional permite a estimativa da evapotranspiração para áreas de cerrado da região com melhor qualidade que outros modelos globais.
IHU On-Line – Como essas mudanças no solo, por conta da agricultura, têm interferido no processo de erosão? As alterações têm acelerado a erosão? Quais as consequências desse processo para o balanço hídrico do bioma?
“Solos descobertos aumentam a perda de solo em até 100 vezes o valor observado do cerrado nativo”
Paulo Tarso Sanches Oliveira – A média anual de perda de solo nas parcelas mantidas com solo exposto e cerrado nativo foi de 12.2 t ha-1yr-1 e 0.1 t ha-1 yr-1, respectivamente. Ou seja, solos descobertos aumentam a perda de solo em até 100 vezes o valor observado do cerrado nativo. Nós também calculamos o fator uso e manejo do solo (fator C) da Equação Universal de perda do Solo (USLE) para o Cerrado igual a 0.013. Esse fator é usado para estimativa de perda de solo em diversos modelos hidrológicos e de erosão do solo e vem sendo usado no programa de serviços ambientais do Brasil, chamado de Programa Produtor de Águas.
Verificamos ainda que o escoamento superficial, erosão do solo e o fator C na área de Cerradovariam de acordo com as estações do ano. Os maiores valores do fator C foram encontrados no verão e no outono.
Os principais fatores que controlam o processo de erosão do solo são: chuva; características do solo; características topográficas como comprimento da vertente e declividade; uso e manejo do solo; e as práticas de conservacionistas. O uso do solo é considerado um dos principais fatores que controlam o processo de erosão hídrica. Nossos resultados sugerem que mudanças no uso do solo (como, por exemplo, a substituição do Cerrado para cultivo agrícola) têm o potencial de intensificar a erosão do solo de 10 a 100 vezes.
IHU On-Line – Desde quando estão ocorrendo mudanças preocupantes no ciclo hidrológico e no solo do Cerrado? Já se chegou ao ápice do desflorestamento e de alterações hidrológicas na região?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – O Cerrado brasileiro é considerado uma das mais ricas ecorregiões do mundo em termos de biodiversidade, cobrindo uma área de 2 milhões de km² (~22% do território nacional); no entanto, áreas remanescentes de vegetação nativa representam apenas 51% deste total (IBAMA/MMA/UNDP, 2011). Além de ser uma importante região ecológica e agrícola para o Brasil, a região de Cerrado é crucial para a dinâmica de recursos hídricos do país, pois engloba parte de 10 das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras. Essas regiões contribuem para formação de importantes bacias hidrográficas, tais como as dos Rios São Francisco, Paraguai, Tocantins/Araguaia, Parnaíba e Paraná. Além disso, as maiores usinas hidrelétricas do país (~80% da energia produzida no Brasil) possuem rios que se iniciam em regiões de Cerrado.
Como áreas de savanas e florestas têm sido associadas com mudanças de localização, intensidade e duração dos eventos de chuva, aumento e prolongamento das estações de seca e mudanças na vazão dos rios, fica evidente que as alterações de uso e cobertura do solo promovidas pela expansão agrícola na região de Cerrado têm potencial para afetar os serviços ecossistêmicos e vários importantes setores da economia do Brasil, tais como agricultura, produção de energia e disponibilidade hídrica. Apesar da tendência de que a expansão agrícola irá continuar no Cerrado e que as alterações de uso e cobertura do solo promovem mudanças na dinâmica do balanço hídrico, poucos estudos têm sido desenvolvidos visando investigar os processos hidrológicos em escala de campo (parcelas ou vertentes).
IHU On-Line – Que percentual das águas do Cerrado é utilizado pelas usinas hidrelétricas? O uso da água por hidrelétricas também altera o ciclo hídrico do Cerrado?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – Não tenho essa informação sobre o volume total de água proveniente de bacias hidrográficas do Cerrado que são usados para geração de energia. Com relação à alteração do ciclo hidrológico, a construção de reservatórios para geração de energia hidrelétrica provoca a retenção de determinado volume de água a montante da barragem, o que reduz o volume escoado no curso d’água a jusante, bem como o aumento da evaporação de água exposta no espelho d’água do reservatório. Apesar destes e outros aspectos negativos, a construção de reservatórios é benéfica tanto para a regulação do fluxo e inundações a jusante quanto para o aumento do suprimento de água para usos consuntivos e não consuntivos, como abastecimento público, irrigação, navegação, geração de energia, e outros.
IHU On-Line – Alguns ambientalistas estão associando a crise hídrica do país, especialmente a do estado de São Paulo, com a situação das bacias hidrográficas do Cerrado. Concorda com essa análise? Quais bacias estão mais prejudicadas?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – Não tenho dúvidas de que as práticas de conservação das bacias hidrográficas, incluindo a preservação da vegetação nativa, aplicação de técnicas adequadas de manejo do solo e gestão da demanda hídrica, são fundamentais para manutenção da disponibilidade de água superficial e subterrânea em termos de quantidade e qualidade. No entanto, o que está ocorrendo na região sudeste do Brasil é a ocorrência de eventos meteorológicos extremos, valores mínimos de precipitação.
“Esse período de eventos extremos que estamos vivenciando está servindo para nos mostrar o quão frágil é o sistema de gestão e gerenciamento de recursos hídricos no Brasil”
Esse período de eventos extremos que estamos vivenciando está servindo para nos mostrar o quão frágil é o sistema de gestão e gerenciamento de recursos hídricos no Brasil. É preciso avançar muito neste sentido para que possamos garantir água em quantidade e qualidade para os múltiplos usos a todo cidadão brasileiro mesmo em condições de extremos hidrológicos. Em outras palavras, é preciso planejar, executar obras e medidas que garantam isso a curto, médio e longo prazo e considerando cenários de extremos hidrológicos.
IHU On-Line – Quais são as perspectivas para o Cerrado se o cultivo agrícola continuar aumentando nos próximos anos? A partir dos resultados de sua pesquisa, que medidas ambientais devem ser aplicadas no Cerrado para modificar tanto a alteração hidrológica quanto o processo de erosão do solo?
Paulo Tarso Sanches Oliveira – O desmatamento no Cerrado tende a continuar, principalmente porque existe uma demanda global crescente por produção de alimentos e combustíveis; as áreas de Cerrado possuem características adequadas de topografia e solos já conhecidos para mecanização agrícola; e recebe menor pressão contra o desmatamento quando comparado à floresta Amazônica. Assim, após o conhecimento de vários componentes do balanço hídrico e de erosão do solo estudados nesta pesquisa, acredito que seja fundamental o desenvolvimento de um zoneamento desta área. Ou seja, devemos verificar espacialmente quais são as áreas prioritárias de preservação; áreas com melhor/pior potencial agrícola ou de pecuária; principais práticas conservacionistas a serem adotadas por região; áreas degradadas que precisam de recuperação; e as áreas mais vulneráveis à escassez hídrica e de risco à erosão hídrica, por exemplo. Desta forma, é possível uma gestão adequada do solo e da água. Esse seria um processo ideal que pode levar alguns anos, mas acreditamos que a pesquisa realizada pode fornecer alguns subsídios para auxiliar neste processo. (ecodebate)

Destinação incorreta de pneu e óleo pode contaminar água

Saiba o que fazer contra estes possíveis ‘vilões’ ambientais.
Os pneus inservíveis, isto é aqueles que estão “carecas” ou sofreram algum tipo de dano que inviabiliza o uso com segurança, transformaram-se nos últimos anos em um grande passivo ambiental devido à irresponsabilidade de diversos agentes desta cadeia, que deixaram pneus em margens de rios, lagos, estradas, entre outros locais.
De acordo com Bruno Zanatta, especialista em engenharia ambiental da DPaschoal, o pneu é um grande vilão em questões ambientais. Sua queima, quando não controlada, libera diversos poluentes e componentes químicos pesados na atmosfera, sendo que alguns são classificados como os mais tóxicos já produzidos pelo homem. “No local onde foram queimados além das cinzas, vai permanecer uma parte líquida, que pode contaminar águas subterrâneas. Outro ponto que merece destaque na destinação incorreta é o abandono de pneus em lugares públicos, como beira de estradas e terrenos baldios, onde estará sujeito a criação de vetores de doenças, como a dengue”, afirma ele.
Mas além dos pneus, devemos nos preocupar com o descarte incorreto de óleos lubrificantes. Você sabe qual o destino do óleo retirado do seu veículo? Sabe qual o impacto para o meio ambiente? O óleo ao cair no solo pode impactar negativamente ao inutilizar totalmente uma agricultura, pode ainda atingir lençóis freáticos e aquíferos. Apenas uma gota de óleo pode chegar a contaminar até 1.000 litros de água.
O engenheiro ambiental, Bruno Zanatta, dá dicas sobre como o consumidor pode contribuir pelo meio ambiente.
– Tanto para a troca de óleo quanto para os pneus de seus veículos, os consumidores, devem buscar empresas que tenham uma preocupação não só com a venda do produto, mas também com todo o ciclo da logística reversa dos resíduos gerados no processo. A logística reversa é o conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação. O prestador de serviço deve ter como parceiras empresas devidamente homologadas pelos órgãos competentes para a destinação final destes.
-Para a troca de óleo, recomenda-se que os consumidores observem o manual do veículo, onde consta a periodicidade da troca e o lubrificante específico do carro. O acompanhamento do nível do óleo pode ser feito a “olho nu”, com a vareta de óleo, onde a marcação do produto deve estar acima da indicação mínima.
-Em relação aos pneus, a principal recomendação é observar o índice de desgaste do pneu, o TWI. O TWI é como um pequeno degrau entre as ‘faixas de borracha’ e que informa se o pneu está precisando de troca ou não. Se a medição marcar 1,6 mm, é sinal que está na hora de substituí-lo. Outros pontos que podem ser observados para a troca é se as regiões dos ombros dos pneus (regiões laterais) estão desgastadas, provavelmente indicando que o pneu rodou com uma baixa pressão, e também se um lado do pneu está mais desgastado que o outro, apontando um desalinhamento do veículo.
Com o advento de legislações ambientais, a questão tornou-se um pouco mais complexa e controlada. A principal é a CONAMA 416/2009, na qual é exigida a comprovação da destinação ambientalmente correta de 70% dos pneus produzidos ou importados (30% é considerado como um fator de desgaste do pneu), ou seja, se um fabricante produzir ou um importador (adquirir ou comprar) importar 1000 quilos de pneus, ele será obrigado, em um prazo máximo de 3 meses, comprovar a destinação de 700 quilos de pneus.
No Relatório de Pneumáticos 2014, disponibilizado pelo IBAMA e que contempla dados consolidados de 2013, esperava-se a destinação nacional de 535.267.800 quilos, mas os fabricantes e importadores comprovaram a destinação de 491.653.020 quilos, não atingindo a meta. A DPaschoal, maior empresa de varejo e distribuição de produtos automotivos do país, tem um compromisso com a sociedade, mesmo antes da obrigatoriedade da comprovação de destinação há 24 anos, já tendo destinado mais de 3.000.000 de pneus. No ano de 2013, cumpriu 100% de sua meta perante o IBAMA, destinando 2.164.199 quilos.
“O último relatório de pneumáticos disponibilizado pelo IBAMA nos mostra que desde que criado (em 2010), os fabricantes vem cumprindo sua meta, enquanto que os importadores não chegaram a 100% em nenhum destes anos. Ainda podemos observar uma grande queda na destinação nos últimos dois anos dos importadores (de 79,58% para 62,70%), o que provavelmente acarretará em uma fiscalização intensa nestes por parte do IBAMA neste ano de 2015”, completa Bruno.
No Brasil são mais de 40 empresas homologadas pelo IBAMA para realizar diversos tipos de destinação dos pneus. Como tecnologias de destinação ambientalmente adequadas, o IBAMA considera a utilização da borracha como combustível em fornos de cimenteiras (54,40%), granulação da borracha para ser comercializada como matéria-prima (33,68%), laminação dos pneus para utilização com cintas de sofá e outras utilizações (8,92%) e outras como industrialização do xisto, pirólise, regeneração da borracha (3%).
A fiscalização da destinação do óleo também é legalizada pelo CONAMA, artigo 11º nº 363, que obriga o Ministério do Meio Ambiente a manter e coordenar um grupo de monitoramento permanente. Além disso, há o Programa de Monitoramento da Qualidade dos Lubrificantes (PMQL).
O pneu e a Dengue
Segundo dados da Revista Exame, os casos de dengue triplicaram no mês de janeiro em São Paulo. É fundamental que toda a população tome alguns cuidados com relação ao pneu descartado:
* Verifique se no jardim ou quintal de sua casa ou na área comum do prédio há pneus descobertos;
* Procure descobrir se há algum terreno baldio no entorno de sua residência, com pneus abandonados
Em caso positivo é necessário agir
* Fure os pneus para que não acumule água dentro
* Descarte os pneus em locais adequados que se preocupem em dar uma destinação correta ao produto
São medidas simples que vão colaborar para a preservação do meio-ambiente. (ecodebate)

Microplásticos no ar de casas e carros

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