quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Mudança climática ameaçará saúde dos brasileiros

OMS adverte que mudança climática poderá ameaçar saúde dos brasileiros
A mudança climática está ameaçando aumentar os problemas de saúde no mundo, adverte a Organização Mundial da Saúde (OMS) no Perfil de País Climático e de Saúde 2015. Espera-se que o aumento nas temperaturas, as ondas de calor intensas, a precipitação mais extrema, as inundações e os deslizamentos de terra intensifiquem os desafios existentes das doenças transmissíveis, a insegurança alimentar e a pobreza caso medidas não sejam tomadas.
Há agora um vasto conjunto de evidências de que as ações humanas, principalmente a queima de combustíveis fósseis, causaram mudanças significativas no sistema climático. “Nosso planeta está perdendo sua capacidade de sustentar a vida humana com boa saúde”, disse a Diretora Geral da OMS, Margaret Chan. “A melhor defesa é a mesma que nos protegerá de surtos de doenças infecciosas e da crescente carga de doenças não transmissíveis: sistemas de saúde fortes, flexíveis e resilientes.”
As emissões globais dos poluentes climáticos, inclusive o dióxido de carbono e o carbono negro, estão levando a mudanças climáticas. Se as taxas atuais de emissões continuarem, projeta-se que a temperatura anual média subirá aproximadamente 5.8°C, de 1990 a 2100. No entanto, se puderem ser reduzidas por meio de ações como a troca para combustíveis mais limpos para a geração de eletricidade e energia doméstica, e menos sistemas de transporte poluentes, a ascensão da temperatura poderia ser limitada a aproximadamente 1.2°C.
Implicações-chave da mudança climática para a saúde no Brasil
Está projetada que a mudança climática aumentará as ondas de calor, as secas, as inundações e o nível do mar em todo o mundo, e também causará riscos importantes para a saúde no Brasil. A OMS relata que, a menos que consideráveis medidas protetoras sejam tomadas, projeta-se que mais de 618 mil brasileiros sejam afetados pela inundação causada pelo aumento do nível do mar em todos os anos de 2070 a 2100. Estima-se que mortes associadas ao aumento da temperatura em idosos (acima de 65 anos) crescerão para quase 72 mortes por 100.000 em 2080, comparado com 1 por 100.000 ao ano, de 1961 a 1990.
A OMS, em parceria com a Secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) e vários parceiros, trabalhou com o Ministério da Saúde do Brasil para elaborar o perfil do país, que apresenta evidências na correlação entre mudança climática e saúde, assim como as oportunidades que o Brasil poderia aproveitar para melhorar a saúde enquanto reduz as emissões de gás de efeito estufa.
“O perfil é importante para ajudar o país a proteger a saúde de suas populações frente às mudanças climáticas, pois apresenta orientações para conter as ameaças e seus potenciais riscos à saúde”, afirmou o Representante da Organização Pan-Americana da Saúde / Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, Joaquín Molina.
Ações-chave para o Brasil
Enquanto o governo do Brasil já está tomando iniciativas substanciais para implementar programas de adaptação à saúde e desenvolver capacidade técnica para atuar em mudanças climáticas e saúde, o perfil do país identifica oportunidades adicionais para ações.
A OMS recomenda que o país amplie atividades para aumentar a resiliência climática da infraestrutura de saúde e desenvolva uma estratégia nacional para a mitigação das mudanças climáticas que considere suas implicações para a saúde.
Isto deve orientar as medidas protetoras. Por exemplo, se o país fortalecesse as medidas contra o aumento do nível do mar e a inundação costeira, o número de pessoas afetadas poderia se limitar a 3.200 pessoas por ano. A melhoria da vigilância e resposta a doenças poderia fornecer proteção eficaz contra o risco de doenças, como malária, mesmo com o aquecimento climático.
No Brasil, 5% das 336.000 mortes por doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica (em pessoas de 18 anos ou mais) e baixas infecções respiratórias agudas (em menores de 5 anos) são atribuíveis à poluição do ar doméstico.
Esses riscos podem ser evitados por domicílios que usam combustíveis mais limpos ou tecnologias mais eficazes para cozinhar, aquecer e iluminar – o que também reduz suas contribuições para as mudanças climáticas. Outros benefícios são a redução de custos para os sistemas de saúde e a melhoria da produtividade econômica com uma força de trabalho mais saudável e produtiva.
Entre as medidas-chave que o Brasil já tomou estão: assinatura da UNFCCC em 1992 e ratificação do Protocolo de Kyoto em 2002, além da instituição da Política Nacional sobre Mudança do Clima em 2009 e do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima em 2010.
Nota aos redatores:
Os Perfis Climáticos e de Saúde são coordenados pela OMS com a Secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, financiados e apoiados pelo Wellcome Trust, e produzidos com especialistas de liderança da Universidade de East Anglia, o CPD, a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, a Universidade de Wisconsin-Madison, a Organização Meteorológica Mundial e o Banco Mundial.
O perfil de país do Brasil é um dos 15 primeiros que a OMS está revelando para ministros da saúde e outros tomadores de decisões ao redor do mundo, a fim de apoiar um tratado eficaz e de promoção da saúde nas negociações da UNFCCC, em Paris, em dezembro de 2015. (paho)

Impacto da mudança climática na saúde dos brasileiros

OMS revela tamanho do impacto que a mudança climática poderá provocar na saúde dos brasileiros
Em parceria com o Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) e vários parceiros, a agência da ONU trabalhou com o Ministério da Saúde do Brasil para elaborar o perfil do país, que apresenta evidências na correlação entre aquecimento global e saúde.
Brasileiros se protegem do sol forte e altas temperaturas em Brasília.
Há agora um vasto conjunto de evidências de que as ações humanas, principalmente a queima de combustíveis fósseis, causaram mudanças significativas no sistema climático. “Nosso planeta está perdendo sua capacidade de sustentar a vida humana com boa saúde”, disse a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan. “A melhor defesa é a mesma que nos protegerá de surtos de doenças infecciosas e da crescente carga de doenças não transmissíveis: sistemas de saúde fortes, flexíveis e resilientes.”
Segundo o Perfil de País Climático e de Saúde 2015 da OMS, divulgado nesta segunda-feira (30) a menos que consideráveis medidas protetoras sejam tomadas, inundações causadas pelo aumento do nível do mar poderão afetar mais de 618 mil brasileiros todos os anos durante o período de 2070 a 2100. Estima-se que mortes associadas ao aumento da temperatura em idosos (acima de 65 anos) crescerão para quase 72 mortes por 100 mil habitantes em 2080, comparado com 1 por 100 mil ao ano, de 1961 a 1990.
A OMS, em parceria com o Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) e vários parceiros, trabalhou com o Ministério da Saúde do Brasil para elaborar o perfil do país, que apresenta evidências na correlação entre mudança climática e saúde, assim como as oportunidades que o Brasil poderia aproveitar para melhorar a saúde enquanto reduz as emissões de gás de efeito estufa.
“O perfil é importante para ajudar o país a proteger a saúde de suas populações frente às mudanças climáticas, pois apresenta orientações para conter as ameaças e seus potenciais riscos à saúde”, afirmou o representante da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, Joaquín Molina.
Ações-chave para o Brasil
Enquanto o governo do Brasil já está tomando iniciativas substanciais para implementar programas de adaptação à saúde e desenvolver capacidade técnica para atuar em mudanças climáticas e saúde, o perfil do país identifica oportunidades adicionais para ações.
A OMS recomenda que o país amplie atividades para aumentar a resiliência climática da infraestrutura de saúde e desenvolva uma estratégia nacional para a mitigação das mudanças climáticas que considere suas implicações para a saúde.
Isto deve orientar as medidas protetoras. Por exemplo, se o país fortalecesse as medidas contra o aumento do nível do mar e a inundação costeira, o número de pessoas afetadas poderia se limitar a 3.200 pessoas por ano. A melhoria da vigilância e resposta a doenças poderia fornecer proteção eficaz contra o risco de doenças, como malária, mesmo com o aquecimento climático.
No Brasil, 5% das 336 mil mortes por doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica (em pessoas de 18 anos ou mais) e baixas infecções respiratórias agudas (em menores de 5 anos) são atribuíveis à poluição do ar doméstico.
Esses riscos podem ser evitados por domicílios que usam combustíveis mais limpos ou tecnologias mais eficazes para cozinhar, aquecer e iluminar – o que também reduz suas contribuições para as mudanças climáticas. Outros benefícios são a redução de custos para os sistemas de saúde e a melhoria da produtividade econômica com uma força de trabalho mais saudável e produtiva.
Entre as medidas-chave que o Brasil já tomou estão: assinatura da UNFCCC em 1992 e ratificação do Protocolo de Kyoto em 2002, além da instituição da Política Nacional sobre Mudança do Clima em 2009 e do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima em 2010. (ecodebate)

Proposta do Brasil para COP21 poderia ser melhor

Proposta do Brasil para COP21 poderia ser melhor, diz Observatório do Clima
O Brasil apresentou a meta de diminuir as emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e em 43% até 2030, tendo 2005 como ano-base. Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, no entanto, o país tem capacidade para fazer muito mais e o governo brasileiro terá oportunidade de melhorar sua contribuição contra o aquecimento global na 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21), que começou em 30/11 e segue até 11/12/15 em Paris.
A contribuição brasileira levada à COP, chamada Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida (INDC, na sigla em inglês), contém ainda ações como o fim do desmatamento ilegal na Amazônia, a restauração e reflorestamento de 12 milhões de hectares, a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e o alcance de 45% na participação de energias renováveis na composição da matriz energética.
As contribuições apresentadas pelo Brasil e pelos países da convenção das Nações Unidas para a COP21 tem o objetivo de limitar o aumento da temperatura média da Terra a 2ºC até 2100, em relação aos níveis pré-Revolução Industrial. Ultrapassar esse limite provocaria mudanças climáticas severas.
Segundo Rittl, é possível limitar as emissões brasileiras em 1 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa até 2030, com ganhos econômicos. “O Brasil apresentou um meta de redução de emissões com uma direção interessante, uma natureza interessante, porque trata-se de uma meta que inclui redução absoluta de redução de gases de efeito estufa, mas o nível de redução de emissão insuficiente”, disse, contando que hoje o país emite em torno de 1,5 bilhão de toneladas de gases.
Em entrevista à Agência Brasil, ele diz que, com a atual meta brasileira “estamos em uma trajetória de aumento superior a 2ºC”. “Então, temos certeza que o governo brasileiro tem uma margem de manobra interessante para aumentar seu nível de ambição”, disse.
O Observatório é uma rede brasileira de articulação sobre mudanças climáticas globais e conta com 38 instituições, entre membros e observadores.
Agência Brasil: Qual sua avaliação sobre as contribuições dos principais atores na negociação climática?
Carlos Rittl: A análise da própria Nações Unidas indica que, mesmo com esses esforços, com essa mobilização, com esse engajamento dos países, nós ainda estaríamos, em 2030, em uma trajetória de aumento de emissões globais, em uma taxa menor do que ocorre hoje, mas em ascensão, o que é muito preocupante. Outro relatório produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostra que ainda existe uma grande lacuna entre aquilo que os países estão se comprometendo a fazer e aquela que seria uma trajetória de segurança climática, aquela que nos daria maiores chances de limitar o aquecimento global no limite de 2ºC. Outras análises mostram que, entre os grandes emissores, que inclui Estados Unidos, União Europeia, China, Índia, Brasil, África do Sul, México, Japão, Rússia, Canadá, nenhum deles está fazendo o suficiente, todos estão fazendo menos que o proporcional à sua responsabilidade e sua capacidade de redução de emissões. Então é necessário fazer muito mais e isso inclui o Brasil.
Agência Brasil: Durante a COP21 poderemos alcançar um consenso mais positivo?
Carlos Rittl: A COP é uma oportunidade para que os países apresentem um maior nível de ambição, isso pode acontecer. Acreditamos que todos colocaram na mesa seus níveis de ambição inicial e estão preparados para assumir compromissos maiores, em Paris e no pós-Paris. Com uma meta indicativa conseguimos, sistematicamente, fazer a análise do impacto agregado das reduções de emissões de todos os países para identificar qual a lacuna dessas metas, em relação ao que a ciência recomenda. Então, a negociação de Paris não é só importante para o nível de ambição que sai de lá, mas para elevar esse nível ao longo do tempo.
Agência Brasil: O que pode melhorar na meta brasileira?
Carlos Rittl: Temos capacidade de fazer muito mais. A própria lista de ações que estão informadas na proposta de compromissos do Brasil demonstra isso. Estamos discutindo a eliminação do desmatamento ilegal só na Amazônia e só em 2030. Mas sabemos que, desde 2008 temos um Plano Nacional de Mudanças Climáticas que estabelece a meta de chegarmos em 2015 com um desmatamento líquido zero em todas as regiões do país. Então não é possível que em 2030 estejamos almejando algo inferior ao que estabelecemos como compromisso sete anos atrás.
Sobre o aumento da participação de fontes renováveis de energia, podemos ter um impulso muito maior com energia solar, eólica e biomassa. Depois do anúncio de compromissos do país para a COP, foi colocado em consulta pública um plano para expansão da geração de energia no Brasil que inclui o aumento dos investimentos em combustíveis fósseis. Setenta e um por cento dos investimentos projetados para os próximos dez anos vão para petróleo, gás natural e carvão mineral. Isso está em descompasso como essa urgência de reduzir emissões. O Brasil é um país muito vulnerável. Neste ano, mais de 25% dos municípios brasileiros decretaram situação de emergência ou calamidade pública em função de desastres naturais ligados ao clima extremo e sabemos que isso está se agravando, então deve ser do nosso interesse não só reduzir as emissões para diminuir a nossa vulnerabilidade, mas para aproveitar o potencial que nós temos.
Agência Brasil: Sobre o financiamento, qual seria o modelo ideal para o Fundo Verde do Clima?
Carlos Rittl: Financiamento é de fato um tema-chave para o sucesso da negociação. Os países desenvolvidos assumiram, em 2009, o compromisso de chegar até 2020 com US$ 100 bilhões em recursos para apoiar ações de redução de emissões e de adaptação de mudanças climáticas em países em desenvolvimento, especialmente países mais pobres. Foi estabelecido o Fundo Verde do Clima, mas é um grande fundo ainda sem muitos recursos. Ele precisa ser alimentado com o aumento do compromisso de apoio por parte de países desenvolvidos, através da criação de mecanismos inovadores. Por exemplo, está na mesa de negociação uma proposta de taxação de emissões de transporte aéreo e marítimo internacional. As emissões de um avião que sai do Brasil para Paris não são atribuídas a nenhum desses países. As emissões do transporte de carga, de exportação de soja ou carne do Brasil para China, também não são atribuídas nem ao Brasil nem à China. A taxação das emissões desse transporte, por um lado, ajudaria a regular as emissões e promover a eficiência desses sistemas de transporte e, por outro lado, ajudaria a arrecadar fundos que poderiam alimentar o fundo e aumentar o aporte internacional de recursos.
Agência Brasil: Qual deverá ser a contribuição internacional do Brasil?
Carlos Rittl: O Brasil tem um papel muito importante na cooperação sul-sul, já que o Brasil é uma grande economia em desenvolvimento e tem um arcabouço de políticas de ações e um arcabouço institucional que é mais forte do que muitos países, por exemplo, o continente africano. Nós podemos intensificar nossa cooperação sul-sul compartilhando o conhecimento que nós temos, seja em monitoramento de floresta, seja em uma produção mais limpa. Ao longo do tempo, vencendo os desafios de crescimento e desenvolvimento do país, podemos considerar aportar recursos ao longo das próximas décadas para manter o Fundo Verde do Clima e manter o apoio a esses países menos desenvolvidos, que são aqueles que não têm nenhuma responsabilidade sobre o problema e que pagam um preço muito alto porque não conseguem lidar com os eventos extremos que já os assolam, como secas e tempestades e o risco de elevação do nível do mar.
Agência Brasil: O que representa essa elevação de 2ºC?
Carlos Rittl: Dois graus é o limite considerado seguro, que ainda permite gerenciar os impactos sem consequências muito graves. Dados da Universidade Federal de Santa Catarina, do período de 1991 a 2012, mostram que 127 milhões de brasileiros estiveram em regiões que foram atingidas por eventos climáticos extremos ou situação de emergência ou calamidade pública, nesse período de 22 anos. De 2001 a 2012, a intensidade média de eventos foi 40% superior do que da primeira metade do período. Ou seja, já estamos sujeitos ao aumento da frequência de desastres e risco maiores.
Com 2ºC, teríamos consequências severas não só para a biodiversidade mas para a população que depende de um ambiente natural bem conservado para sua subsistência, seja pela questão da água, seja pela questão dos alimentos obtidos da natureza.
Com 2ºC, se vivemos hoje uma situação de estresse e de crise hídrica no Brasil, no Sudeste e no Nordeste, a tendência é que as consequências sejam piores. Estamos falando de risco crescente para vida, para qualidade de vida, para a economia e para o ambiente como um todo. Temos que cobrar de todos que estão em Paris que façam aquilo que é necessário e eles sabem o que é preciso fazer. (ecodebate)

Ações que ‘mudarão’ as mudanças climáticas globais

Três ações que podem ‘mudar’ as mudanças climáticas globais
Família em Chimaltenango, Guatemala
Caso não se adotem medidas, milhões de latino-americanos poderão cair na pobreza extrema em 2030.
Para o mundo, pôr fim à pobreza extrema tem data de validade, e é o ano de 2030. Essa meta, porém, parece inatingível quando se analisam os efeitos das mudanças climáticas sobre as pessoas: desde doenças transmitidas pela água, que se intensificam durante as ondas de calor, ao fracasso das colheitas por causa de secas ou inundações e seu impacto nos preços dos alimentos ou os desastres naturais que obrigam muitos a se deslocarem para outras áreas.
De acordo com o relatório “Grandes Catástrofes: Como enfrentar os efeitos das mudanças climáticas na pobreza”, do Banco Mundial, uma maior consciência sobre o clima poderia afastar da pobreza mais de 100 milhões de pessoas por volta do ano 2030. Mas, se não se agir logo, haverá quase três milhões de pobres a mais na América Latina e no Caribe na mesma data.
“O futuro não está escrito na pedra”, diz Stephane Hallegate, economista sênior do Banco Mundial, que dirigiu a equipe encarregada do relatório. “Temos uma janela de oportunidade para conseguir nossos objetivos de pobreza em face das mudanças climáticas, desde que tomemos decisões políticas sábias agora.”
O certo é que, em dezembro, 196 nações signatárias participarão em Paris da COP21, a esperada conferência sobre mudanças climáticas. Os países inscritos já estão apresentando suas propostas sobre quanto se comprometem a reduzir nas emissões de carbono.
Em conformidade com isso, o estudo afirma ser “necessário estabilizar as temperaturas mundiais em um nível seguro, o que significa que as emissões líquidas mundiais de carbono precisam ser reduzidas a zero antes de 2100”.
De concreto, o que os países podem fazer para evitar que as consequências das mudanças recaiam sobre os mais pobres? “Grandes catástrofes” aponta várias soluções. Aqui, as principais:
Agricultura inteligente
Os vaivéns do clima podem deixar sem trabalho muitos moradores de povoados. O setor da agricultura dá emprego a quase 20% da população da América Latina e do Caribe, e representa mais da quinta parte do PIB regional.
Sem poder produzir, muitas famílias rurais ficam sem alimentos para comer e, além disso, têm de sair para comprar comida a preços mais elevados. Sem precisar ir muito longe, há pouco mais de um ano a América Central enfrentou uma das secas mais duras da história: 40 dias sem chuva deixaram mais de dois milhões de pessoas com fome.
Diante desse cenário, o relatório destaca a importância de desenvolver práticas de cultivo e de pecuária com maior resistência ao clima. Embora não sejam muitos, na região há vários exemplos dessas iniciativas.
No Uruguai, um país de apenas três milhões de habitantes, que na atualidade produz alimentos para 28 milhões de pessoas, uma das chaves para chegar a esse marco tem a ver com as diversas formas de fomentar a adaptação ás mudanças climáticas entre os produtores rurais.
Existe, por exemplo, um sistema totalmente informatizado que obriga os camponeses a apresentar um plano de rotação de culturas para manter a qualidade dos nutrientes e evitar a erosão. Mediante imagens de satélite, os especialistas do governo podem detectar os lugares com maior risco de erosão e contatar o produtor responsável para que ele explique por que não cumpriu seu plano de rotação de culturas.
No Brasil, por sua vez, agricultores de Italva, a 311 quilômetros do Rio de Janeiro, aplicam técnicas para reduzir (ou eliminar) a necessidade de pesticidas e fertilizantes artificiais, constroem caixas de contenção nas colinas para armazenas a água da chuva e instalam fossas sépticas para recolher as águas residuais provenientes das residências da região. Chamam a si mesmos de “fabricantes de água”.
Punição a poluidores
De acordo com o relatório, na maioria dos países os recursos que poderiam ser obtidos de um imposto sobre o carbono (ou da reforma dos subsídios para a energia) permitiria melhorar a assistência social ou outros investimentos que beneficiem os pobres.
Na Costa Rica, por exemplo, o mercado doméstico de carbono serve para que as empresas compensem as emissões de CO2 que não possam reduzir de suas operações, transferindo esse excedente para atividades de eficiência energética, reflorestamento e proteção de matas. Para os costa-riquenhos é também “uma maneira de transferir recursos para as regiões mais pobres do país”.
A proteção social também pode ser uma aliada para defender os pobres das inclemências do clima.
No México, por exemplo, os beneficiários do Prospera, o programa nacional de transferências de recursos, são menos propensos a retirar os filhos da escola quando enfrentam desastres climáticos. No Peru, a emissão de títulos de propriedade para mais de 1,2 milhão de habitantes do meio urbano estimulou mais investimento na infraestrutura de suas residências, o que reduz a vulnerabilidade delas no caso de ameaças naturais.
Proteção ‘concreta’
Se a temperatura média mundial continuar aumentando, a região será uma das mais afetadas pelos desastres naturais no mundo e, em poucos anos, como o que ocorreu com as grandes guerras do século 20, poderá haver migrações maciças de pessoas em todas as partes do mundo, expulsas de suas casas e comunidades em razão das mudanças climáticas.
Não se trata somente disso: os mais desprotegidos diante dos desastres naturais são os pobres. Quando o furacão Mitch golpeou Honduras em 1998, as pessoas em condições de pobreza perderam proporcionalmente três vezes mais ativos e receita que as demais.
Por isso, o relatório recomenda financiar infraestrutura mais robusta que beneficie, justamente, as pessoas mais pobres. (ecodebate)

10 asneiras que se ouve sobre mudança climática

Dez asneiras que a gente ainda ouve por aí sobre mudança climática
O planeta está esquentando, o Sudeste está sem água, as geleiras estão derretendo, as florestas estão pegando fogo, as concentrações de gás carbônico não param de bater recordes e 14 dos 15 anos mais quentes da história aconteceram neste século. As evidências da mudança climática – e da ação do homem como sua causa primordial – são tantas e tão variadas que seria preciso ter chegado ontem de Marte para negá-las.
Bom, muita gente parece que chegou ontem de Marte e não tem a menor ideia do que está acontecendo pelas bandas de cá do Sistema Solar. Se você é dessas pessoas, seus problemas acabaram! Listamos abaixo a refutação a dez dos argumentos mais comuns dessa patota, para você poder evitá-los e nunca mais passar vergonha ao discutir com amigos que moram aqui na Terra há mais tempo.
1 – “O clima da Terra sempre mudou e sempre mudará. É muita arrogância achar que nós somos capazes de intervir nele”.
Esse argumento é muito utilizado por alguns geólogos, acostumados a olhar longas escalas de tempo no passado. A primeira parte dele é verdade. Se há uma coisa que a história da Terra nos mostra é que o clima sempre foi muito instável e sempre variou – por razões inteiramente naturais. Há 125 mil anos, tínhamos temperaturas 2oC mais altas do que na era pré-industrial. Há 3,5 milhões de anos, o planeta era 3oC mais quente. E, na era dos dinossauros, não havia gelo em lugar nenhum da Terra. De fato, a estabilidade climática do atual período quente, o Holoceno, não tem precedentes nos últimos 400 mil anos de história do planeta.
O que isso informa sobre a mudança climática em curso hoje? Nada. As mudanças climáticas do passado eram todas causadas por variações na atividade solar ou nos ciclos orbitais da Terra. E, claro, quando elas eram bruscas demais, ocorriam extinções em massa (#ficaadica). Muitos cientistas atribuem o próprio florescimento da agricultura, que deu origem à civilização, ao clima estável do Holoceno. Hoje não há nenhum desses fatores naturais atuando no clima, e nenhum sinal de variações astronômicas relevantes pelos próximos muitos milhares de anos. O sinal inequívoco de mudança climática visto hoje se deve à intervenção do homem. Na escala que interessa à civilização, a das décadas e séculos, é essa a mudança climática que importa, não a de dezenas ou centenas de milhares de anos.
2 _ “Os meteorologistas não conseguem nem prever se vai chover amanhã, que dirá se vai fazer calor em 2100”.
Esse argumento deriva de uma confusão comum entre tempo e clima. O tempo são as condições da atmosfera num determinado dia, enquanto o clima pode ser entendido como a média do tempo no longo prazo. O tempo é caótico e dominado por variabilidades de curto prazo (não é à toa que a teoria do caos foi criada por um meteorologista). O clima é algo mais previsível. Não dá para saber se em um determinado dia de janeiro choverá em São Paulo (isso é tempo); mas todo mundo sabe que janeiro é um mês de chuvas em São Paulo (isso é clima).
Antes de tudo, justiça seja feita aos meteorologistas: as previsões do tempo estão cada vez mais precisas, então dá para saber se amanhã vai chover, sim.
Ocorre que, conhecendo o clima de uma determinada região e conhecendo os elementos capazes de alterar o balanço de energia do planeta (em especial os gases de efeito estufa), é possível estimar como ele se comportará, em média, no futuro: se será mais quente, mais frio, mais seco, mais úmido ou mais variável. De fato, uma forma padrão de testar um modelo climático é saber se ele consegue reproduzir a média das condições observadas no passado. Falaremos mais sobre isso adiante.
3 – “Mas a Antártida está ganhando gelo. Foi a NASA que disse. Logo, não há aquecimento global”.
Esse argumento ganhou tração nos últimos dias, devido a um estudo publicado pelo glaciologista Jay Zwally, da NASA, segundo o qual o continente antártico na verdade estaria contribuindo para reduzir o nível do mar. O estudo foi avidamente reportado pela imprensa como um questionamento ao IPCC, o painel do clima da ONU, que diz que a Antártida tem contribuído nos últimos anos para elevar o nível do mar e o fará ainda mais intensamente nas próximas décadas.
Vamos por partes: é preciso saber de que tipo de gelo e de que Antártida se está falando. A Antártida está ganhando gelo, sim, de pelo menos uma maneira: o cinturão de mar congelado que se forma todo ano ao redor do continente está crescendo cerca de 100.000 km2 por ano. As causas disso ainda são incertas, mas muitos cientistas acreditam que o buraco na camada de ozônio esteja deixando o interior do continente mais frio, e a diferença de temperatura entre o centro antártico e a periferia está deixando os ventos mais fortes em volta do continente. Isso empurra a camada de mar congelado para longe da costa, abrindo uma faixa de mar aberto que rapidamente congela. Na Península Antártica, região mais afastada do polo Sul, o oposto acontece: o gelo marinho está diminuindo a cada ano.
O que Zwally e colegas argumentaram em seu estudo é que existe outro ganho de gelo: o manto de gelo que recobre o continente estaria “engordando” de 1 cm a 3 cm por ano, devido a uma resposta lenta a mudanças ocorridas no fim da última glaciação, 12 mil anos atrás. Essa engorda estaria acontecendo, sobretudo no leste antártico, que concentra mais de 85% do gelo do sexto continente. Tal ganho seria capaz de compensar as perdas que o próprio Zwally e vários outros colegas já comprovaram, usando vários instrumentos diferentes, estar acontecendo em duas outras regiões: a Península Antártica e o oeste antártico.
Que não haja dúvida aqui: existe perda de gelo no continente antártico, muito bem documentada por satélites da NASA e da Agência Espacial Europeia. Foi a NASA quem mostrou o rompimento em tempo real de plataformas de gelo na Península Antártica. E foi a NASA quem revelou, em 1998, que as geleiras do oeste antártico estavam em franco derretimento. No período de 2002 a 2011, a perda de gelo foi de 147 bilhões de toneladas por ano, segundo o IPCC, o que teria elevado o nível do mar em 0,27 milímetros por ano. Quase todo esse gelo vem do oeste antártico. Um estudo recente sugere que o colapso das geleiras do oeste antártico é irreversível e fará o mar subir 3,3 metros na escala de séculos.
O leste é um mistério que os cientistas ainda não conseguiram decifrar. Nenhuma das medições com satélite feitas até aqui conseguiram responder se há ganho ou perda de gelo naquela região. Os cientistas costumam dizer que ela está em equilíbrio.
O estudo de Zwally muda algumas premissas sobre os dados e argumenta não apenas que há ganho, mas que esse ganho mais do que compensa as perdas. Mas, como as medições naquela região são muito difíceis de fazer, alguns glaciologistas acham que ele está errado – embora “haja uma chance pequena de que esteja certo”, como disse ao OC o glaciologista Ian Joughin, da Universidade de Washington. A figura abaixo, produzida por um pesquisador da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, nos EUA, mostra onde está o consenso em relação à dieta da Antártida: as perdas ou ganhos de gelo são representadas pelos tetângulos. De 13 estudos, o de Zwally (retângulos marrons no alto da imagem) é o único a apontar ganho líquido. A maioria aponta perdas, aceleradas a partir de 2005 (aqui Zwally tem outro problema, já que a série de dados usada por ele só vai até 2008).
Portanto, a Antártida continental está provavelmente perdendo mais gelo do que ganhando, e elevando o nível do mar. E só vai ficar pior no futuro.
4 – “O AGA (Aquecimento Global Antropogênico) é uma teoria anticapitalista da esquerda para regular livre-iniciativa e dar todo o poder ao Estado” (diz a extrema direita) ou sua variante espetacular: “O AGA (Aquecimento Global Antropogênico) é a cabeça de ponte do imperialismo” (diz a extrema esquerda).
Parece incrível que alguém ainda use esse tipo de argumentação 25 anos depois da queda do Muro de Berlim. O bom dessas duas falácias é que uma delas já está descartada de cara pela aceitação da outra: afinal, o aquecimento global não pode ser ao mesmo tempo uma conspiração da esquerda (caso em que fica difícil explicar a ação de políticos como Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e Miguel Arias Cañete, todos de partidos conservadores) e da direita (caso em que fica difícil explicar como a verdadeira cabeça de ponte do imperialismo, o Partido Republicano dos EUA, se opõe maciçamente a combatê-lo).  Conforme-se, Aldo Rebelo.
5 – “Nos anos 70 previram uma era do gelo”
Nos anos 1970, medições de temperatura mostravam uma tendência de 30 anos de resfriamento em relação ao período pré-2a Guerra. Isso fez alguns cientistas teorizarem que o Holoceno pudesse estar chegando ao fim e que a Terra pudesse estar entrando numa nova era glacial. A imprensa comprou a história pelo valor de face, embora essa não fosse a opinião majoritária entre os cientistas: um levantamento de 68 artigos científicos sobre o tema naquela época mostra que 10% previam resfriamento global, 62% previam aquecimento e 28% não davam veredicto.
Hoje sabemos, graças aos estudos do clima do passado gravado no gelo antártico, que a longa duração do Holoceno não é sem precedentes na história da Terra: há 400 mil anos, um período interglacial durou 28 mil anos. O nosso tem cerca de 10 mil. Ou seja, a próxima era do gelo causada por fatores naturais ainda deve demorar um tempinho.
6 – “Não há consenso entre os cientistas de que a Terra está esquentando, nem evidência de que isso seja culpa dos seres humanos”.
É preciso saber antes o que é consenso e quem são esses cientistas. “Cientistas” é uma categoria ampla demais: a teoria da relatividade geral pode não ser “consenso” entre os zoólogos, assim como a evolução pode não ser “consenso” entre os físicos. A opinião de uns sobre o domínio dos outros vale tanto quanto a de qualquer outro leigo. Como João Gilberto costuma dizer, vaia de bêbado não vale.
Então a pergunta que precisa ser feita é: há consenso entre os climatologistas – que fazem pesquisa na área e publicam suas pesquisas em periódicos com revisão por pares, sujeitos ao julgamento da comunidade científica e ao falseamento – de que o aquecimento global é real e causado por humanos?
O pesquisador australiano John Cook e a turma do site Skeptical Science se fizeram essa pergunta em 2013. Eles vasculharam 12 mil artigos científicos na literatura que mencionavam “aquecimento global” e “mudança climática”, e constataram que 97% deles afirmavam que o fenômeno é real e causado por humanos. Questionários enviados aos autores dos artigos produziram a mesma cifra: 97%. Portanto, sim, há consenso entre os cientistas. Um estudo de 2007 da americana Naomi Oreskes e outro de 2012 de James Powell chegaram às mesmas conclusões. Powell ilustrou seus resultados desta forma:
Agora vamos à segunda parte: há evidências de que isso seja causado por seres humanos? Em outras palavras, existe uma impressão digital humana no clima? Quem responde a essa pergunta são os satélites, esses diabólicos instrumentos da “ideologia aquecimentista”.
Caso a Terra estivesse esquentando por uma mudança na quantidade de radiação que chega do Sol, único fator natural capaz de mudar o balanço de energia do planeta, um satélite que medisse a temperatura ao longo das camadas da atmosfera veria um aquecimento por igual da estratosfera, a camada superior, e da troposfera, a camada mais baixa. Os satélites têm feito essas medidas. E o que eles detectaram? A troposfera está esquentando, OK. Mas a estratosfera está mais fria. Por quê? Porque a radiação solar reemitida pelo planeta na forma de infravermelho (calor) está ficando presa na troposfera. Por quê? Porque há uma mistura de gases na troposfera que são opacos ao infravermelho, ou seja, bloqueiam esse tipo de radiação. Essas medições são coerentes com um agravamento do efeito estufa, ou seja, um aumento na quantidade de CO2, metano, óxido nitroso e vapor d’água (sim, vapor d’água!) na atmosfera. Existe alguma fonte de gases de efeito estufa capaz de fazer isso? Sim: nós.
7 – “Os Estados Unidos tiveram um recorde de nevascas no último inverno. Cadê o seu aquecimento global”?
Aquecimento global é a média da temperatura planetária, associada ao aumento da quantidade de energia armazenada na atmosfera, que leva a mais extremos climáticos, sejam de calor ou de frio (sim, frio), de seca ou chuva, às vezes nas mesmas regiões. O aquecimento aumenta a evaporação dos oceanos e a quantidade de energia na atmosfera. Isso favorece tempestades mais fortes. Onde chove, chove mais, num período mais concentrado (paradoxalmente, isso também aumenta as estações secas). Onde neva, neva mais. É simples assim.
8 – “O aquecimento global parou em 1998”.
Esse argumento está errado de tantas maneiras que valeria um post inteiro só para ele. Muita gente de boa fé, incluindo cientistas e jornalistas de ciência veteranos, já foi seduzida por essa tese. Ela afirma que, após 1998, a curva de aumento de temperatura da Terra parece ter “estacionado”, ou seja, o aquecimento aparentemente parou de acelerar. Eu disse aparentemente.
O que aconteceu foi que, primeiro, 1998 foi um ano incomum: teve o El Niño mais forte já registrado antes deste de 2015. O El Niño joga o termômetro para cima no mundo todo. Se você olha a série de dados a partir de 1998, vai ter a impressão de que o aquecimento estacionou, porque começou a olhar de um ponto fora do padrão. O gráfico abaixo mostra como ao olhar a série inteira do século esse efeito desaparece, e vemos claramente uma progressão de aquecimento, com alguns períodos sem aceleração. Mesmo com 15 anos de aparente estase, todos os 15 anos mais quentes da história aconteceram no século 21, à exceção de 1998. É um recorde atrás do outro. Os anos de 2005 e 2010 foram os mais quentes, depois superados por 2014, que será superado por 2015.
A outra explicação para a desaceleração do aquecimento global foi dada pelos pesquisadores americanos Kevin Trenberth e Magdalena Balmaseda: em vez de ir esquentar a atmosfera, a energia em excesso dos gases-estufa estava esquentando as camadas mais profundas do oceano.
Por fim, há quem diga que a tal “pausa” no aquecimento nunca existiu: trata-se apenas uma ilusão estatística.
9 – “É tudo modelo. Se você torturar o modelo, ele te diz qualquer coisa”.
Modelos são grandes conquistas da humanidade. Mais até do que a mandioca. Eles permitem fazer perguntas e testar ideias sobre a natureza em situações de outra forma impossíveis. Os remédios que você toma foram testados em modelos celulares e, eventualmente, em animais. O avião no qual você viaja foi testado antes num modelo computacional. Se não houvesse modelos, os aviões teriam de ser testados pela primeira vez na prática, depois de construídos – quem sabe, com uma tripulação de “céticos” da modelagem a bordo.
Como dito acima, modelos de clima (representações matemáticas da Terra, com atmosfera, polos, superfície e mares) precisam ser testados para “prever o passado” antes de colocados para rodar e simular o futuro – ou seja, simular as condições das últimas décadas para ver se a modelagem bate com o que foi medido. Modelos que falham no teste são simplesmente deletados.
Dito isso, os vários modelos climáticos globais têm personalidades matemáticas distintas, que lhes introduz vieses. O modelo do Centro Hadley, do Reino Unido, mostra um mundo em média mais seco no futuro. O modelo japonês Miroc mostra um mundo em média mais úmido. Para diluir o viés e reduzir a chance de erro, o IPCC usa mais de duas dezenas de modelos globais. E eles dão resultados incrivelmente parecidos.
10 – “O professor fulaninho diz que é tudo mentira”.
Voltamos à história de quem são os cientistas e qual é o consenso. Até pouco tempo atrás, havia em alguns veículos de imprensa o vício de entrevistar um ou outro negacionista mais midiático como forma de garantir “equilíbrio de visões” nas reportagens, como se em ciência todas as opiniões valessem a mesma coisa (volto à caricatura dos zoólogos debatendo relatividade geral), e como se a academia estivesse dividida 50% a 50% sobre o assunto. Este vídeo hilário do comediante inglês John Oliver mostra como seria se a imprensa resolvesse representar de fato o equilíbrio de visões da academia sobre a mudança do clima.
No Brasil houve dois negacionistas ilustres da mudança climática. Ambos são meteorologistas (ou seja, têm o costume de olhar o tempo, não o clima), a segunda categoria de cientista com mais propensão ao negacionismo climático (a primeira são os geólogos). Os currículos de ambos revelam uma escassez de publicações sobre mudança climática em periódicos indexados em bases de publicações nacionais ou internacionais (a indexação é uma medida, ainda que imperfeita, da seriedade e da relevância de uma publicação acadêmica). No caso de um deles, todos os sete artigos “científicos” que publicou sobre o tema saíram numa obscura revista eletrônica que tinha ele próprio no conselho editorial. Repetindo João Gilberto, vaia de bêbado não vale. (ecodebate)

Não reconhecer a relação entre alimento e clima é falha grave

Slow Food: ‘Não reconhecer a importância da relação entre alimento e clima é uma falha grave’
Dentro de poucos dias, os governos do mundo inteiro se reunirão em Paris para falar sobre mudanças climáticas. Depois de mais de 20 anos de debates, negociações e fóruns fracassados, a conferência de Paris (COP 21) tentará concluir, pela primeira vez, um acordo vinculante e universal.
Nas 54 páginas do texto das negociações (http://unfccc.int/resource/docs/2015/adp2/eng/11infnot.pdf), porém, o termo “agricultura” está totalmente ausente, embora o tema da segurança alimentar seja mencionado muitas vezes. Uma lacuna gravíssima, segundo o Slow Food.
A ausência dessa palavra significa relegar às margens do debate uma questão que, ao contrário, é fundamental: a relação entre alimentos e clima. Dependendo do sistema de referência, a agricultura, a pecuária e a produção de alimentos podem representar várias coisas: de um lado, uma das principais causas das mudanças climáticas; de outro, uma das vítimas; de outro ainda, uma das soluções possíveis. O fato da atenção estar voltada para os segmentos de energia, indústria pesada e transportes significa não reconhecer o papel-chave da agricultura. 
Por isso, o Slow Food lança aos representantes dos países e das instituições internacionais reunidos em Paris, o apelo “Deixemos de carcomer o clima”, para que a agricultura seja posta no centro do debate.
Este apelo nasceu da necessidade de ressaltar o fato de que somente através de uma mudança radical de paradigma no atual sistema de produção, processamento, distribuição, consumo e eliminação dos alimentos, será possível mitigar as mudanças climáticas. 
Ao mesmo tempo, à luz dos ataques terroristas em Paris e com a decisão das autoridades de segurança pública para cancelar a Marcha pelas Mudanças Climáticas prevista para 29/11/15, o Slow Food, com o respaldo do Presidente Internacional Carlo Petrini, apoia o pedido da sociedade civil para não ceder ao medo e expressar com a mobilização de pessoas nas ruas a necessidade de lutar contra a injustiça, a pobreza, a desigualdade e o desastre ecológico causados também pelas consequências das alterações climáticas objeto de discussão na COP21.
É cada vez mais urgente restituir o valor do alimento, reduzindo o desperdício, promovendo práticas agroecológicas, favorecendo as cadeias curtas de produção.
Se, ao contrário, continuar prevalecendo o modelo agroalimentar industrial moderno – baseado no uso crescente de derivados do petróleo, produção de grande escala e exploração indiscriminada de recursos naturais – não só não será possível inverter a tendência, mas a influência sobre a temperatura média, que segundo o Quinto Relatório do IPCC já registrou um aumento de 0,85°C nos últimos cem anos, será cada vez mais negativa.
O modelo agroalimentar industrial moderno fundamenta-se na ideia de crescimento infinito, mas os recursos do nosso planeta são finitos. Harmonizar essa consciência com os números da população mundial, que devem chegar a 9 bilhões até 2050, é um dos desafios mais importantes que temos pela frente. Por isso, através do apelo que o Slow Food convida todos a assinar, pedimos que os países e as instituições reunidas em Paris promovam políticas internacionais eficazes, visando mudar radicalmente o atual sistema alimentar. (ecodebate)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Como alimentar população em tempos de mudança climática?

Como alimentar uma população crescente em tempos de mudança climática?
Agir no nível local e consumir de maneira consciente estão entre as principais formas de reduzir o impacto climático da indústria alimentar, responsável por cerca de 50% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Atualmente, 800 milhões de pessoas no mundo sofrem com a fome, o que representa 11% da população vivendo em situação de insegurança alimentar, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Conforme indica o Relatório Mundial de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, esse número pode aumentar para 1,4 bilhão de pessoas como consequência dos efeitos da mudança climática.
“Até 2050, teremos que produzir comida para mais 2 bilhões de pessoas, o que supõe mais pressão sobre a terra e sobre a água. Precisamos de sistemas alimentares que produzam mais com menos e que sejam resilientes às mudanças climáticas”, disse o brasileiro José Graziano da Silva, diretor geral da FAO.
O setor agropecuário emite 12% do total de emissões de gases de efeito estufa, mas, se contabilizarmos as emissões indiretas de todos os processos relacionados com a indústria alimentar, essa porcentagem atinge entre 44% e 57% do total das emissões globais, segundo a ONG Grain. No Brasil, essa porcentagem é ainda maior: 60%.
Entre os processos indiretos responsáveis pelas emissões figuram: o desmatamento e a queima da matéria orgânica – que em 90% das ocasiões são produzidos como resultado da expansão da fronteira agrícola; o transporte dos alimentos e das matérias primas; a embalagem e a refrigeração dos produtos; e o desperdício de alimentos, cuja decomposição emite 4% do total de emissões.
“Desperdício e fome são os dois lados de uma mesma moeda”, afirmou Carlo Petrini, sociólogo e gastrônomo italiano fundador do movimento Slow Food, no evento “Nós alimentamos o planeta”, realizado em Milão, em outubro, pela organização SlowFood. Petrini também lembrou que nosso sistema de produção de alimentos é capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, embora população do planeta seja hoje de 7,3 bilhões – e mais de 10% sofre com fome e mal nutrição. “Este sistema esquizofrênico desperdiça 40% da comida produzida”, informou Petrini.
Embora exista uma grande preocupação global com o problema da fome, o Banco Mundial adverte que só 1% dos recursos financeiros solicitados à comunidade internacional para ajudar aos países mais afetados pelo problema são disponibilizados atualmente. Muitos países perdem entre 2% e 3% do seu PIB devido a problemas alimentares.
Para alguns a resposta contra a fome no mundo tem sido a produção intensiva de alimentos. Porém, o projeto de consultoria da Trucost para a FAO demonstra que os custos ambientais da produção industrial de alimentos atingem US$ 3,33 trilhões por ano (quase o PIB da Alemanha).
Como reduzir as emissões no setor alimentar?
“Na minha região, muita gente perdeu as safras por conta das chuvas e muita gente sofre com a desnutrição. Temos de mudar a forma de produzir e consumir, mas com a mudança climática fica complicado”, disse o jovem produtor senegalês Hady Diop, no encontro, em Milão.
A relação entre o clima e a produção de alimentos depende diretamente do manejo dos solos. Quase a metade do CO2 da atmosfera provém da destruição de matéria orgânica dos solos. Por meio do manejo sustentável e da recuperação dos solos poderíamos conseguir estocar o carbono e aumentar a produção de alimentos em 58%, segundo a FAO.
Metas específicas para controlar as emissões do setor agropecuário mal são consideradas no texto que deverá ser negociado na Conferência do Clima de Paris, que acontece em dezembro. Tampouco existem propostas alternativas ao sistema atual de produção de alimentos.
Agir do local ao global
Movimentos sociais e organizações como a Via Campesina, Grain ou Slow Food defendem que é preciso agir desde o nível local até o global para enfrentar esse desafio. Em outubro, o evento “Nós alimentamos o planeta” reuniu 2,5 mil jovens produtores do mundo inteiro, entre os quais também figuravam cozinheiros, acadêmicos e integrantes de movimentos sociais pela alimentação de mais de 120 países. “[O objetivo foi] juntar todos aqueles que produzem nosso alimento para discutir de que forma teria que ser nutrido o planeta”, disse Valentina Bianco, responsável pela região da América Latina na Slow Food Internacional, em entrevista ao ISA.
“Precisamos tentar produzir e consumir localmente para reduzir o transporte, o desperdício de comida e as emissões resultantes desses processos”, disse Bianco. De acordo com ela, existem três caminhos para alimentar o planeta e limitar o impacto da alimentação no meio ambiente: “produzir e ser agricultor, ter uma pequena horta (que pode ser urbana) e ser um consumidor consciente, o que chamamos de coprodutor”.
“O pessoal no campo está envelhecido, precisamos incentivar os jovens a ficarem na terra. Eu sou jovem e vivo as dificuldades de ser agricultor. Nós defendemos o campo com gente feliz que possa produzir alimentos de qualidade com um preço justo, a gente só fica no meio rural se tiver uma garantia econômica mensal”, disse Alexandre Leal dos Santos, jovem produtor do Paraná que participou encontro em Milão.
“Num país periférico como o Brasil, cuja vocação sempre foi exportar coisas, hoje falamos de agricultura familiar, e isso é uma evolução, mesmo que ainda não seja uma agricultura ecológica, pois utiliza muito fertilizante. Mas é preciso entender que o Brasil é um lugar bastante complexo”, expôs Ranieri Portilho Rodrigues, representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil.
“Na Slow Food acreditamos que a agricultura familiar possa ser uma resposta aos problemas de alimentação que temos atualmente, mas precisamos que o setor político e institucional acredite e apoie realmente esse sistema”, afirmou Valentina Bianco. Ela acrescentou que esse movimento não só se preocupa com garantir a segurança alimentar, como também defende a luta pela soberania alimentar, pela qual “cada pessoa tenha direito a se alimentar com produtos próprios da sua tradição e do seu território e conservar o patrimônio agrícola de sua cultura”.
“Se nós quisermos salvar o planeta, nós teremos que começar por nossa alimentação. Mas nós estamos deixando as nossas comidas tradicionais por alimentos industrializados”, afirmou, em entrevista ao ISA, Sergio Wara, indígena Sateré Mawé e liderança do projeto Guayapí, rede de comércio justo internacional de guaraná. Wara também anunciou que sua comunidade apresentará, em julho de 2016, o primeiro grupo de Slow Food indígena, que será chamado de “Miuakua”.
Entre os representantes brasileiros também estavam Marcelo Martins do Programa Xingu, do ISA, e o indígena Miaraip Kaiabi, que apresentaram para mais de 2 mil pessoas o óleo de pequi e a pimenta do Xingu, entre outros produtos da Associação da Terra Indígena do Xingu (ATIX). Eles defenderam a necessidade de fortalecer a agrobiodiversidade. “Protegendo nossa alimentação também protegemos nossa cultura”, disse Miaraip. (ecodebate)

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