quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

BRICS ultrapassam a OCDE em emissões de CO2

No ano de 2078 eu farei 75 anos. Se eu tiver filhos, talvez eles passem o dia comigo. Talvez eles me perguntem sobre vocês. Talvez me perguntem por que vocês não fizeram nada enquanto ainda havia tempo para agir”. - Greta Thunberg
O mundo vive uma emergência climática devido ao aumento imemorial da temperatura do Planeta. A temperatura média da Terra, se nada for feito urgentemente, caminha rumo ao maior valor em mais de 5 milhões de anos (Alves, 19/09/2016). Os últimos 6 anos foram os mais quentes já registrados e 2019 deve bater o recorde do recorde ocorrido em 2016.
A concentração de CO2 que permaneceu abaixo de 280 partes por milhão (ppm) durante o florescimento da civilização incrementada pela Revolução agrícola e a expansão dos assentamentos humanos (houve grande estabilidade climáticas nos últimos 12 mil anos antes da Revolução Industrial e Energética), iniciou uma trajetória de aumento que tem se intensificado nos últimos anos. A concentração de CO2 na atmosfera chegou a 300 ppm em 1920, atingiu 310 ppm em 1950, 350 ppm em 1987, 400 ppm em 2015 e deve ultrapassar 410 ppm em 2019. Na primeira década do século XXI, a concentração de CO2 aumentava 2 ppm ao ano e na segunda década passou a aumentar 2,5 ppm ao ano. O mundo caminha para uma situação inusitada e dramática.
O vetor principal do aumento do efeito estufa é a emissão de CO2 decorrente da queima de combustíveis fósseis e de outras atividades antrópicas que liberam gases de efeito estufa (GEE). As emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 36 bilhões de toneladas em 2017.
Durante o século XX, foram os países ricos que mais poluíram o bem comum da vida humana e não humana que é o espaço da atmosfera. Mas no século XXI, são os países pobres e, principalmente, os de renda média, que lideram os níveis de poluição (Alves, 23/10/2019). O gráfico acima mostra que os 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE (quase todos eles de renda alta) emitiam 3 vezes mais do que os 5 países do grupo BRICS, mas houve empate em 2010 e, em 2017, o BRICS já emitiram cerca de 20% a mais do que a OCDE.
As emissões do conjunto da OCDE estavam em 5,8 bilhões de toneladas de CO2 em 1959, subiram até o pico de 14 bilhões de toneladas em 2007 e começaram a cair depois da crise econômica de 2008/09, até atingir 12,7 bilhões de toneladas em 2017 (um crescimento de 2,2 vezes entre 1959 e 2017). Já as emissões do conjunto do BRICS que estavam em 1,8 bilhões de toneladas de CO2 em 1959 subiram continuamente até 13,8 bilhões de toneladas em 2011 (quando ultrapassaram a OCDE) e atingiram 14,9 bilhões de toneladas em 2017 (um crescimento de 8,2 vezes entre 1959 e 2017).
Evidentemente, os países ricos da OCDE possuem um nível de emissão per capita superior ao nível das emissões dos países de renda média do BRICS, conforme mostra o gráfico abaixo. Cada habitante da OCDE emitia em média 7,4 toneladas de CO2 em 1959, subiu até o máximo de 11,6 toneladas em 2007 e caiu ligeiramente para 9,8 toneladas em 2017 (um aumento de 1,3 vezes entre 1959 e 2017). Entre os países do BRICS, a emissão per capita estava em 1,4 toneladas em 1959, subiu para 3,7 toneladas em 2007 e chegou a 4,7 toneladas em 2017 (um aumento de 3,4 vezes entre 1959 e 2017).
Portanto, os países da OCDE possuem uma emissão per capita maior do que a emissão média dos habitantes do BRICS, mas no total o BRICS emite mais do que a OCDE desde 2011. A diferença decorre dos níveis desiguais do volume populacional. A população total da OCDE era de 787 milhões de habitantes em 1959 e passou para 1,3 bilhão em 2017 (um crescimento de 1,6 vezes). No mesmo período, a população total do BRICS passou de 1,3 bilhão de habitantes para 3,2 bilhões (um crescimento de 2,4 vezes).
Nos países da OCDE, a emissão per capita é 2 vezes maior do que nos países do BRICS. Mas, em termos demográficos, a relação se inverte, pois o BRICS tem uma população 2,5 vezes maior do que a população da OCDE. Assim, levando em consideração as emissões per capita e o volume da população, o BRICS passou a liderar a poluição climática a partir de 2011 e deve continuar poluindo cada vez mais, já que possui taxas de crescimento populacional e econômico superior àquelas da OCDE.
Esta situação é preocupante, pois a emissões globais de CO2 já estão em 37,1 bilhões de toneladas em 2018 e, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2018) elas precisam cair para algo em torno de 18 bilhões de toneladas até 2030 e para zero até 2050, para evitar que a temperatura global ultrapasse 1,5oC da meta do Acordo de Paris. Porém, mesmo que, num passe de mágica, as emissões da OCDE fossem zeradas imediatamente, a emissão dos demais países que estavam em 23,5 bilhões de toneladas de CO2 em 2017 precisariam cair em mais de 5 bilhões de toneladas até 2030 e para zero até meados do século. Ou seja, o desafio é gigantesco, pois, atualmente, em uma Terra com “Sobrecarga ambiental” (Alves, 26/07/2019), não só os países ricos precisam reduzir as emissões, mas também os países de renda média como o BRICS (e mesmo os pobres precisam dar suas contribuições voluntárias).
Nos países ricos da OCDE a dinâmica demográfica aponta, proximamente, para uma estabilização e um posterior decrescimento ao longo do século. As emissões já estão caindo e a redução do consumo conspícuo e a mudança nos padrões de produção poderiam zerar as emissões nas próximas décadas. Assim, mesmo com todas as dificuldades, a erradicação das emissões líquidas da OCDE (embora com toda a resistência das grandes corporações fósseis) traria mais ganhos ambientais no longo prazo do que prejuízos significativos no padrão de vida aceitável de seus habitantes.
Já nos países em desenvolvimento (renda baixa e renda média) o desafio é ainda mais complexo, pois as projeções indicam crescimento demoeconômico ao longo do século e o crescimento econômico, em geral, é considerado uma necessidade para erradicar a pobreza, como apontado na meta # 8.1, dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU: “Sustentar o crescimento econômico per capita, de acordo com as circunstâncias nacionais e, em particular, pelo menos um crescimento anual de 7% do PIB nos países menos desenvolvidos” (Ver Alves, 2019).
Porém, é inegável que o crescimento da população e da economia contribui para o aumento das emissões de CO2. Mesmo com todas as inovações tecnológicas das últimas décadas, a correlação entre o crescimento demoeconômico e o aumento das emissões não desapareceu, embora tenha dinâmicas um pouco diferenciadas entre os países considerados desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento.
Os gráficos abaixo mostram a correlação entre o aumento das emissões e o aumento do número dos habitantes nos dois grupos de países. Para o caso da OCDE, nota-se (no painel da esquerda) que as emissões cresciam mais rápido do que a população na maior parte do período até a crise financeira de 2008/09 e começou a cair a partir desta data. A correlação entre população e emissões na OCDE (painel da direita) foi de 84,1% no período, evidenciando que o aumento do número de habitantes esteve associado com o aumento das emissões, especialmente na segunda metade do século XX.
Para o caso do grupo BRICS, nota-se (no painel da esquerda) que as emissões seguiam, aproximadamente, o mesmo ritmo de crescimento demográfico no século passado, mas aceleraram vertiginosamente no século XXI, especialmente, durante o período conhecido como “super ciclo das commodities”. A correlação entre população e emissões no BRICS (painel da direita) foi de 84,96% no período. Assim como na OCDE, há uma forte associação entre o aumento do número de habitantes e o aumento das emissões, embora a dinâmica temporal entre as duas variáveis sejam distintas no interior dos dois blocos econômicos.
Mas se a correlação entre população e emissões de CO2 é grande, algo semelhante deve ocorrer com a correlação entre a economia e as emissões, pois uma população mais rica, em geral, consome mais e polui mais, enquanto uma população mais pobre tem um comportamento oposto, quando se considera o nível de renda. Todavia, as dinâmicas demográficas e econômicas não seguem, necessariamente, o mesmo padrão em todos os lugares.
Nos gráficos abaixo apresentamos os dados sobre a variação do Produto Interno Bruto (PIB), dos dois grupos de países em questão, e suas emissões de CO2. Nota-se que a reta de tendência linear entre as variáveis PIB e emissões, na OCDE (painel da esquerda) indica que 80,53% da variabilidade das emissões de CO2 está associada diretamente ao crescimento do PIB, ao longo dos anos de 1959 e 2016.
No caso dos BRICS, a associação é mais intensa, pois a reta de tendência linear entre as variáveis PIB e emissões (painel da direita), indica que 98,39% da variabilidade das emissões de CO2 está associada diretamente ao crescimento do PIB, ao longo dos anos de 1959 e 2016.
O gráfico abaixo sintetiza o comportamento da população, do Produto Interno Bruto (PIB) e das emissões de CO2 em dois períodos selecionados: os últimos 40 anos do século XX (1959-99) e os primeiros 16 anos do século XXI (2000-16). Na OCDE, tanto a população, quanto o PIB, reduziram o ritmo de crescimento entre os dois períodos, mas houve decrescimento das emissões de CO2 entre os anos 2000 e 2016, em função de mudanças na população (envelhecimento, urbanização, etc.) e mudanças tecnológicas no padrão de produção e consumo e na matriz energética. Já no grupo BRICS, houve redução do ritmo de crescimento da população, mas aceleração no crescimento do PIB entre os dois períodos, resultando num aumento das taxas anuais de emissão de CO2 entre os dois períodos, o que mostra que não basta reduzir a população para reduzir as emissões. Para evitar a continuidade da emissão de gases de efeito estufa é preciso haver redução do crescimento demoeconômico e mudanças na composição da população e da economia, desacoplando as emissões do aumento das atividades antrópicas.
Mas as emissões crescem muito não apenas nos 5 países do grupo BRICS, mas naqueles países que fazem parte da Iniciativa chinesa “Um Cinturão Uma Rota”. Artigo de Lachlan Carey (05/11/2019) mostra que uma grande parte dos investimentos do grande projeto de investimento chinês são em fontes de energia fóssil, sendo que a China sozinha era responsável por 28% das emissões globais em 2017 e os seus parceiros por mais 19%. Ou seja, os países envolvidos na iniciativa “Um Cinturão Uma Rota” respondiam por quase 50% das emissões globais.
Todos estes gráficos mostram que existe uma correlação muito forte entre o crescimento da população, da economia e das emissões de CO2. Embora pouco difundido, este tipo de discussão já foi aprofundado por vários autores, como no trabalho “Global demographic trends and future carbon emissions” (O’Neill et. al., 2010), que mostrou que a redução do crescimento da população mundial poderia diminuir as emissões globais de CO2 entre 16 e 29% até 2050 e que existe uma alta correlação entre aumento da população, da economia e da poluição atmosférica.
Inegavelmente, este resultado já era esperado, pois o uso de energia para as residências, as fábricas, o transporte e demais atividades, a produção de cimento para a infraestrutura, os domicílios, a estrutura produtiva e demais obras econômicas ou sociais e a grande produção de alimentos vegetais e animais – tudo isto – tem como externalidades negativas a liberação de gases de efeito estufa (GEE) que aumentam a concentração de CO2 na atmosfera e aceleram o aquecimento global. Quanto maior a população e quanto maior o consumo das pessoas, maior tende a ser a poluição dos solos, da água e do ar.
Todavia, esta verdade elementar e auto evidente, não constitui uma narrativa predominante no cenário internacional. Existem vários fatores de confundimento que embaralham a compreensão dos vetores da crise climática e ambiental.
A primeira confusão, que põe em dúvida todas as evidências empíricas apresentadas acima, vem dos “céticos do clima” ou “negacionistas da crise climática”. Algumas pessoas ingênuas e outras financiadas pela indústria química e dos combustíveis fósseis propagam duas narrativas para semear a dúvida e desviar a atenção das verdadeiras causas do caos climático: 1) negam a tendência de aquecimento global (dizendo que os termômetros e os instrumentos de medida estão errados ou manipulados); ou 2) reconhecem que há aquecimento global, mas atribuem este fenômeno às instabilidades naturais (mudanças na órbita ou radiações inesperadas do sol, erupções vulcânicas, etc.) e tentam desqualificar os cientistas e o IPCC dizendo que o aquecimento global não é antropogênico ou, simplesmente, que a influência humana é muito pequena. Os negacionistas do clima jamais vão aceitar que o crescimento da população e da economia está por trás dos problemas climáticos e ambientais. O escritor sueco Bjørn Lomborg é um dos principais representantes desta corrente de pensamento e do lobby das grandes corporações com interesses antiambientais.
A segunda confusão advém do pensamento desenvolvimentista e dos chamados “tecnófilos cornucopianos” que, mesmo reconhecendo os graves problemas climáticos e ambientais da atualidade, consideram que a inteligência e a engenhosidade humana são capazes de resolver os contratempos criados, sem comprometer a marcha para o progresso e o futuro brilhante da civilização. Utilizando a abordagem da “Curva ambiental de Kuznets”, dizem que o impacto negativo do crescimento econômico é uma tendência natural dos primeiros ciclos do desenvolvimento, mas que tende a se reverter com o passar do tempo, pois as próprias forças de mercado que geraram efeitos perversos no passado, se encarregariam de reduzir os danos a partir do momento em que cada nação ultrapasse certo limiar de renda per capita. Ou seja, para estes autores, as dificuldades geradas pelo processo de crescimento econômico se resolve com mais crescimento. Para este tipo de narrativa, o tamanho da economia (do PIB) não é um problema, mas a solução, especialmente se houver liberdade de iniciativa para deslanchar o aperfeiçoamento científico e tecnológico (Alves, 19/12/2012).
Existem autores que se dizem de esquerda e que defendem a solução tecnológica para salvar o meio ambiente e a sociedade, como Alex Williams e Nick Srnicek, que lançaram o “manifesto aceleracionista”, onde, entre outras pérolas, dizem: “Aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo não precisa ser destruída. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente não é um estágio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lançar o pós-capitalismo”.
A terceira confusão é antiga e vem daqueles que colocam toda a culpa da pobreza social e ambiental apenas sobre o crescimento populacional desregrado. O autor mais famoso na culpabilidade dos pobres foi Thomas Malthus (1766-1834) – que era um defensor dos interesses econômicos e políticos dos proprietários de terra e da monarquia britânica. No ensaio sobre população, cuja primeira edição, de 1798, foi publicada de forma apócrifa, ele dizia que a pobreza era um resultado inevitável de uma suposta “lei de população” que, de maneira inexorável, na ausência de “freios positivos”, impunha um crescimento demográfico sempre superior ao crescimento econômico. E para Malthus, que era um pastor da igreja Anglicana e era contra os meios contraceptivos para reduzir a fecundidade, os “freios positivos” para limitar a população eram a tríade: fome, miséria e guerras.
Outro autor que colocava toda a culpa dos problemas ambientais e sociais no descontrole do crescimento populacional é Paul Ehrlich, que, em 1968, lançou o livro “A bomba populacional” traçando um quadro catastrófico em decorrência do aumento da população mundial. Mas Ehrlich não era demógrafo e sim um lepidopterologista (especialista em borboletas), que propunha a receita neomalthusiana de crescimento populacional zero (ZPG, na sigla em inglês), ou seja, dois filhos por casal. Na mesma época e na mesma linha de raciocínio, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Jonhson disse: “Mais vale 5 dólares investidos em planejamento familiar do que 100 dólares investidos em desenvolvimento”.
Mas o neomalthusianismo mais autoritário e draconiano da história se manifestou e foi colocado em prática na China comunista, com a “política de filho único”, que vigorou de forma efetiva entre 1979 e 2015. Os dirigentes chineses dizem que o sucesso que tiveram na erradicação da pobreza só foi possível, em grande parte, devido à redução do tamanho das famílias e do ritmo de crescimento demográfico. Portanto, o controle populacional não é apenas uma narrativa para justificar a pobreza, mas já foi testado de forma impositiva, com todos os seus problemas, no país mais populoso do mundo.
A quarta confusão também é antiga e vem daquelas forças que defendem o pronatalismo sem limites e dizem como o Papa Paulo VI: “Precisamos aumentar o banquete e não diminuir os comensais”. De fato, este mesmo Papa publicou em julho de 1968 (dois meses depois do livro de Ehrlich) a controversa encíclica Humanae Vitae, colocando a Igreja Católica contra o uso de métodos contraceptivos modernos, além de defender o sexo apenas com a finalidade procriativa. Até hoje a Igreja Católica defende as famílias numerosas e diz que a pobreza não tem nada a ver com o crescimento populacional, mas sim com a falta de caridade e a avareza das forças econômicas predominantes no mundo (Alves, 18/07/2018). Até o Papa Francisco, que se apresenta como um defensor do meio ambiente e promoveu o Sínodo da Amazônia, não conseguir rever a encíclica Humanae Vitae e deu declarações a favor das famílias numerosas e contra a autodeterminação reprodutiva das pessoas (Alves, 07/07/2016).
No mundo acadêmico, um autor que marcou época e assumiu uma postura radical contra o controlismo e a favor do pronatalismo foi o economista neoliberal e “pai” intelectual dos negacionistas do clima – além de assessor do presidente Ronald Reagan – Julian Simon, que costumava dizer e repetir: “quanto mais gente no mundo melhor”. Simon foi percussor da ideia de que os recursos infinitos da engenhosidade humana, poderiam avançar com a tecnologia e contornar todos os problemas ambientais da Terra, sem comprometer as bases da acumulação do regime capitalista em escala local e planetária. Ele dizia que, numa sociedade com livre mercado, não há limite para a produção de alimentos, a oferta de petróleo é infinita e os filhos são um “bem de produção” que trazem retornos crescentes para as famílias e a sociedade (Alves, 16/05/2012).
Mas apesar de todo o esforço das forças antineomalthusianas, a transição demográfica vem avançando em praticamente todos os países e, em decorrência, muitos países enfrentam a nova realidade do envelhecimento populacional e diversos países já apresentam decrescimento demográfico. Diante desta nova realidade, ampliaram as forças antípodas ao neomalthusianismo de Paul Ehrlich, e que se manifestam contra a chamada “implosão populacional”. O livro “Empty Planet: The Shock of Global Population Decline”, dos jornalistas canadenses Darrell Bricker e John Ibbitson (2019), contesta as previsões de crescimento populacional da Divisão de População da ONU e fazem uma espécie de terrorismo com a possibilidade da extinção da humanidade via baixa natalidade. Eles dizem que, ao longo da história, o despovoamento foi o produto de catástrofes: eras glaciais, pragas, o colapso das civilizações, etc. Porém, na contemporalidade, o declínio da população deve ocorrer em função da baixa fecundidade. Para tanto, mesmo com todos os problemas ambientais, fazem um apelo em favor do crescimento populacional (Alves, 15/03/2019).
Portanto, para as forças antropocêntricas e pronatalistas, tanto do espectro conservador e do fundamentalismo religioso, quanto do espectro neoliberal (que influiu nos resultados da Conferência de População ocorrida na cidade do México, em 1984), a população não pode ser associada com a crise climática e ambiental. Estas forças costumam interditar o debate demográfico, além de promover o silêncio sobre os problemas populacionais.
A quinta confusão vem daquelas pessoas bem intencionadas que costumam inverter o argumento controlista e que dividem a humanidade, de maneira maniqueísta, entre as parcelas pobres da população que são apenas vítimas das injustiças sociais e do apartheid climático e as parcelas ricas que exploram, dominam e degradam a sociedade e a natureza. Para a maioria dos autores desta linha de pensamento, a pobreza decorre apenas da lógica da produção de mais-valia e a desigualdade social e os problemas ambientais decorrem simplesmente do excesso de consumo e riqueza das parcelas privilegiadas e ociosas da sociedade. Por exemplo, no livro “Too Many People: Population, Immigration, and the Environmental Crisis”, os autores Ian Angus e Simon Butler argumentam que “não há correspondência entre emissões de dióxido de carbono e a densidade populacional” e que “As emissões de CO2 são um problema dos países ricos e não dos pobres” (Alves, 03/05/2019).
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Como vimos nos gráficos deste artigo, existe uma correlação inequívoca entre população, economia e emissões de CO2. E a interação entre estas 3 variáveis muda ao longo do tempo e do espaço. De fato, os países ricos foram os responsáveis pela maior parte das emissões históricas de gases de efeito estufa. Todavia, o crescimento da população e da economia dos países “em desenvolvimento” (na terminologia do Banco Mundial) alterou a correlação de forças. No século XXI, são os chamados países “emergentes” – fundamentalmente aqueles de renda média – que assumiram a liderança das emissões, como é o caso dos 5 países que fazem parte do BRICS. A globalização das cadeias produtivas generaliza um padrão de produção e consumo que é eficiente na produção de mercadorias, mas que é ineficiente no controle da poluição. Atualmente, os países ricos, reunidos na OCDE, são responsáveis por cerca de um terço das emissões de CO2 e o restante do mundo por cerca de dois terços das emissões.
Sem dúvida, uma população grande com baixíssimo nível de renda e consumo não pode ser responsabilizada pela crise climática. Mas uma população grande com uma economia crescente muda o quadro completamente. A China, na década de 1960, respondia por apenas 4% das emissões globais de CO2, mas com o crescimento demoeconômico passou a emitir 27% das emissões globais na atual década. A Índia, na década de 1950, emitia apenas 1% do dióxido de carbono global e passou a emitir 7% do total das emissões do mundo em 2017. Hoje em dia as cidades da Índia, como Nova Deli, tem um ar tão poluído que costuma inviabilizar as atividades econômicas corriqueiras, além de ser responsável por uma alta proporção de mortes.
Em síntese, a situação climática do mundo está saindo do controle. O tempo urge e as condições climáticas se agravam. Todos os países precisam enfrentar a discussão sobre população, economia e meio ambiente. O mundo só tem 12 anos para reduzir as emissões pela metade e neste período as ações sobre o padrão de produção e consumo são mais urgentes do que as ações demográficas. Mas as emissões precisam ser zeradas até 2050 e as medidas para reduzir o crescimento demográfico neste período podem ajudar no sentido de mitigar o drama das mudanças climáticas.
Não se pode culpar simplesmente o crescimento populacional pelos problemas ambientais. Mas não é correto ignorar que a redução do volume demográfico pode contribuir para a mitigação do aquecimento global. Evidentemente, existem muitas coisas para serem feitas, como mudança na matriz energética (das fontes fósseis para as renováveis), mudança na frota de veículos (de combustão interna para elétrico/renovável), mudança na dieta alimentar (das carnes para os vegetais), da agricultura agrotóxica para a agricultura orgânica, etc. Redução dos gastos militares e da pegada ecológica dos exércitos do muno. Acima de tudo é preciso mudar a “cultura do consumismo” e reduzir o consumo conspícuo das “classes ociosas”. Além do mais, a estabilização da população mundial pode contribuir com as medidas de adaptação à caos climático que se avizinha.
Estes são assuntos que deveriam ser discutidos na 25ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP25), aquela que deveria ter sido realizada no Brasil, mas não teve apoio governamental, foi transferida para o Chile que teve de cancelar na última hora devido às manifestações populares e foi confirmada, nas pressas, para a Espanha, no início de dezembro de 2019. O mundo está na emergência climática e nem consegue bem organizar uma COP.
Nesta semana, entre os dias 12 e 14 de novembro, será realizada a cúpula de alto nível CIPD25, em Nairóbi, Quênia, para avaliar e reafirmar os compromissos do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), ocorrida na cidade do Cairo em 1994. Seria fundamental que a Cúpula de Nairóbi tratasse da questão demográfica e da emergência climática, especialmente o aumento contínuo das emissões de CO2 (Alves, Rebep, 2019).
Mais de 11 mil cientistas de todo o mundo, de maneira reiterada, alertam a humanidade sobre a ameaça de uma iminente catástrofe ambiental e declararam que o Planeta está enfrentando uma emergência climática. O manifesto, publicado no dia 05 de novembro de 2019 na Revista BioScience (ver link abaixo), diz que os cientistas têm uma obrigação moral de alertar claramente a humanidade sobre uma possível ameaça catastrófica que pode provocar “sofrimento humano incalculável”. Um dos “sinais vitais” responsáveis pela emergência climática é o crescimento da população e da economia.
A questão climática e ambiental também deveria fazer parte da XI Cúpula do BRICS, que ocorrerá nos dias 13 e 14 de novembro de 2019, no Palácio Itamaraty, em Brasília. Os países do BRICS não podem se omitir diante do agravamento da crise climática e nem ignorar suas responsabilidades no aumento das emissões de CO2.
O Acordo de Paris foi importante e tomou decisões na direção correta. Mas foi insuficiente e precisa ser aprofundado. O esforço tem que ser realizado em todas as direções. Para tanto, é preciso analisa os dados e avaliar o cenário de maneira holística e sem preconceito. E acima de tudo, é preciso abandonar os discursos demagógicos e as palavras vazias e tomar medidas concretas para mitigar o aquecimento global.
Nota sobre o agrupamento dos países:
Os 5 países do BRICS são: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Os 36 países da OCDE são: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Coreia do Sul, Letônia, Lituana, Luxemburgo, México, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos. (ecodebate)

Florestas amazônicas com maior diversidade evolutiva são as mais produtivas

Uma equipe internacional de pesquisadores liderada pela Universidade de Leeds revelou pela primeira vez que as florestas amazônicas com maior diversidade evolutiva são as mais produtivas.
A equipe usou registros de longo prazo de 90 parcelas como parte da Rede de Inventário Florestal da Amazônia (RAINFOR) e ForestPlots.net para rastrear a vida e a produtividade de árvores individuais na região amazônica. Ao combinar esses registros com os dados da sequência de DNA – que identificaram as relações evolutivas entre todas as espécies – a equipe conseguiu investigar as ligações entre a rapidez com que as diferentes florestas crescem e sua diversidade.
Seu estudo demonstrou que as parcelas com a maior diversidade evolutiva eram um terço mais produtivas em comparação com as áreas com a menor diversidade evolutiva.
A descoberta sugere que a diversidade evolutiva deve ser uma consideração importante ao identificar áreas prioritárias para conservação.
A autora principal do estudo, Fernanda Coelho, da Escola de Geografia de Leeds, disse: “É importante entender como a biodiversidade afeta a produtividade nas florestas tropicais é importante porque nos permite entender como as estratégias de conservação podem ser melhor projetadas para maximizar a proteção de espécies e os serviços que esses ecossistemas fornecem.
“Nossos resultados indicam que devemos incluir a história evolutiva nas prioridades de conservação – porque a função do ecossistema pode ser maior em áreas de onde as espécies vêm da árvore da vida”.
Igapó nos arquipélago fluvial das Anavilhanas, no Rio Negro.
Diversidade de árvores é 3 vezes maior do que se pensava nas áreas úmidas da Amazônia. (ecodebate)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Aumento nos impactos de carbono devido a perdas de florestas tropicais intactas

Estudo revela aumento nos impactos de carbono devido a perdas de florestas tropicais intactas entre 2000 e 2013.
Novos números revelam um aumento impressionante nos impactos de carbono – 626% a mais do que se pensava anteriormente – devido a perdas de floresta tropical intacta entre 2000 e 2013
O valor é equivalente a aproximadamente dois anos de emissões globais de mudanças no uso da terra
O aumento dramático nos números vem do faturamento da contabilidade total de carbono em longo prazo, incluindo extração seletiva de madeira, efeitos de borda e perda de vida selvagem.
O estudo também considerou as remoções de carbono perdidas – o sequestro de carbono que ocorreria se a floresta desmatada ou degradada permanecesse intacta após o ano 2000.
Os autores alertam que os benefícios da mitigação da mudança climática por permanecerem intactas na floresta tropical diminuirão em breve se a taxa de perda continuar a acelerar.
Ainda existem 549 milhões de hectares de florestas tropicais intactas, mas a extensão está diminuindo rapidamente.
Áreas de floresta tropical que permaneceram intactas em 2013 ou foram perdidas entre 2000 e 2013.
(A a C) Mapas inseridos com bordas alaranjadas mostram parcelas remanescentes e perdidas de floresta intacta na América Latina, África Central e Ásia-Pacífico. A segunda linha de mapas inseridos (bordas pretas) mostra a distribuição espacial de atividades que causam emissões de carbono e impedem a remoção de carbono em áreas florestais intactas. As áreas registradas seletivamente foram simuladas dentro de parcelas perdidas aplicando um buffer de 1 km em torno das estradas mapeadas no conjunto de dados do OpenStreetMap (www.openstreetmap.org). Novas margens da floresta foram simuladas aplicando tampões de 500 m ao redor de pegadas da área queimada e do desmatamento.
Um novo estudo na revista Science Advances diz que os impactos de carbono causados pela perda de florestas tropicais intactas foram subnotificados.
O estudo calcula novos números relativos à floresta tropical intacta perdida entre 2000 e 2013 que mostram um aumento impressionante de 626% nos impactos líquidos de carbono em longo prazo até 2050. O total revisado equivale a dois anos de todas as emissões globais de mudanças no uso da terra.
Os autores do estudo, da WCS, Universidade de Queensland, Universidade de Oxford, Sociedade Zoológica de Londres, Instituto de Recursos Mundiais, Universidade de Maryland e Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, descobriram que o desmatamento direto de florestas tropicais intactas resultou em apenas 3,2% das emissões brutas de carbono de todo o desmatamento nos pan-trópicos. No entanto, quando consideraram a contabilização completa do carbono, que considera as remoções de carbono perdidas (sequestro de carbono que ocorreria anualmente no futuro se a floresta desmatada ou degradada permanecesse intacta após o ano 2000), extração seletiva, efeitos de borda e declínios de árvores densas espécies devido à caça excessiva de animais dispersantes de sementes, eles descobriram que o número disparou por um fator mais de seis vezes.
Disse o autor principal do estudo, Sean Maxwell, da WCS e da Universidade de Queensland: “Nossos resultados revelaram que a destruição contínua de florestas tropicais intactas é uma bomba-relógio para as emissões de carbono. Há uma necessidade urgente de proteger essas paisagens, porque elas desempenham um papel indispensável na estabilização do clima”.
Segundo as estimativas de 2013, restam 549 milhões de acres de florestas tropicais intactas. Apenas 20% das florestas tropicais podem ser consideradas “intactas”, mas essas áreas armazenam cerca de 40% do carbono acima do solo encontrado em todas as florestas tropicais.
Os autores dizem que a retenção intacta de florestas raramente atrai financiamento de esquemas projetados para evitar emissões de mudanças no uso e cobertura da terra nos países em desenvolvimento.
Notavelmente, a abordagem Reduzir Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD +) permite que os países em desenvolvimento recebam incentivos financeiros para melhorar os estoques de carbono ou evitar a perda de carbono que de outra forma seria emitida devido ao uso e alteração da cobertura do solo. Entre outras atividades, o REDD + cobre o apoio à conservação de florestas que não estão sob ameaça imediata e foi formalmente adotado pelas partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em 2008 na 14ª Conferência das Partes na Polônia. Desde então, no entanto, o apoio financeiro e a implementação se concentraram predominantemente em áreas com altas taxas históricas de desmatamento (ou seja, ‘fronteiras do desmatamento’).
Acredita-se que isso proporcione reduções de emissões mais imediatas e mais claramente demonstráveis do que a conservação de áreas florestais intactas. Estes últimos tendem a ser tratados como fontes insignificantes de emissões como resultado dos prazos curtos e das premissas conservadoras sob as quais o REDD + opera – premissas que o presente estudo sugere que estão fazendo com que as principais oportunidades sejam perdidas.
Tom Evans, coautor do estudo, disse à WCS: “O valor relativo de reter áreas de florestas tropicais intactas aumenta se alguém adota uma visão de longo prazo e considera o provável estado das florestas do mundo em meados do século – uma data importante para o Acordo de Paris. A expansão agrícola, a extração de madeira, a infraestrutura e os incêndios reduziram a extensão global das florestas intactas em 7,2% entre 2000 e 2013, mas as eventuais emissões de carbono bloqueadas por essas perdas não foram estimadas de forma abrangente”.
Os autores continuam dizendo que é necessária uma análise comparável para florestas intactas fora dos trópicos, como as florestas boreais do Canadá e da Rússia, dado que aproximadamente metade a dois terços das remoções de carbono nos ecossistemas intactos da Terra ocorrem fora dos trópicos. Sem esse serviço de limpeza global, o CO2 das atividades humanas se acumularia na atmosfera notavelmente mais rápido do que atualmente.
Disse o coautor James Watson, da WCS e da Universidade de Queensland: “Claramente, o potencial de mitigação climática de reter florestas intactas é significativo, mas sem uma ação proativa de conservação dos governos nacionais, apoiada pela comunidade global, esse potencial continuará a diminuir”.
Pelo menos 35% das florestas intactas estudadas abrigam e são protegidas por povos indígenas. As florestas intactas também fornecem níveis excepcionais de muitos outros serviços ambientais – por exemplo, protegem as bacias hidrográficas muito melhor do que as florestas degradadas devolvem a umidade ao ar que cai em regiões distantes como a chuva e ajudam a manter um grande número de espécies a salvo da extinção. W galinha em comparação com as florestas que foram degradadas por atividades humanas em larga escala, florestas intactas são mais resistentes a choques, tais como incêndios e à seca e, geralmente, menos acessíveis à exploração madeireira e conversão agricultura, tornando-os um dos nossos melhores apostas de conservação em face da um clima que muda rapidamente. (ecodebate)

Em 2018 Brasil gerou 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos

No Brasil, em 2018, foram geradas 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos.
Brasil gera 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano.
No Brasil, em 2018, foram geradas 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, um aumento de pouco menos de 1% em relação ao ano anterior. Desse montante, 92% (72,7 milhões) foram coletados – uma alta de 1,66% em comparação a 2017, o que mostra que a coleta aumentou num ritmo um pouco maior que a geração. Apesar disso, 6,3 milhões de toneladas de resíduos ficaram sem ser recolhidos nas cidades.
Os dados fazem parte do Panorama dos Resíduos Sólidos, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), lançado hoje (8). Comparando com os países da América Latina, o Brasil é o campeão de geração de lixo, representando 40% do total gerado na região (541 mil toneladas/dia, segundo a ONU Meio Ambiente).
“Os números mostrados no panorama colocam o Brasil numa posição muito abaixo de outros países que estão no mesmo nível de renda do Brasil. O nosso déficit é muito grande e nós precisamos realmente de medidas urgentes para não só recuperar esse déficit, como avançar em direção a melhores práticas de gestão de resíduos sólidos”, disse o presidente da entidade, Carlos Silva Filho.
Os resíduos sólidos urbanos abrangem o lixo doméstico e a limpeza urbana – coletados nas cidades pelos serviços locais.
A tendência de crescimento na geração de resíduos sólidos urbanos no país deve ser mantida nos próximos anos. Estimativas realizadas com base na série histórica mostra que o Brasil alcançará uma geração anual de 100 milhões de toneladas por volta de 2030.
“Há uma consolidação na geração de resíduos sólidos, o que não está sendo acompanhada na oferta da infraestrutura necessária para lidar com todos esses resíduos. O que a gente percebe é que a geração de lixo aumenta no Brasil, mas a destinação adequada, a reciclagem, a recuperação, não acompanham esse crescimento na geração”, avaliou Silva Filho.
 Coleta ameaçada.
Em 2018, 29,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos seguiram para lixões – Wilson Dias/Arquivo Agência Brasil
De acordo com o estudo, há um contingente considerável de pessoas que não são alcançadas por serviços regulares de coleta porta a porta: 1 em cada 12 brasileiros não tem coleta regular de lixo na porta de casa.
Na visão do presidente da Abrelpe, a falta de recursos dos municípios é um dos motivos. “Temos dois problemas, um é justamente a falta de percepção da importância da gestão adequada de resíduos sólidos para proteger o meio ambiente e para prevenir doenças, não existe essa percepção clara na sociedade e no Poder Público. O segundo fator, que é mais grave, é que, como esse serviço é municipal e os municípios estão bastante endividados, não têm recursos para custear todo esse processo”, lamenta Silva Filho.
A estagnação ou o retrocesso de alguns índices é potencializado pela falta de recursos destinados para custeio dos serviços de limpeza urbana que, em 2018, registrou queda de 1,28% de investimentos, além da perda de quase 5 mil postos de trabalho direto/formal. Para a execução de todos os serviços de limpeza urbana foram aplicados pelos municípios apenas R$ 10,15 por habitante/mês, em média.
De acordo com o estudo, o país utiliza o aterro sanitário como forma de disposição ambientalmente correta (59,5% do volume coletado). Entretanto, mais de 3 mil municípios ainda destinam seus resíduos para locais inadequados.
Em 2018, 29,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos seguiram para lixões ou aterros controlados, que não contam com um conjunto de sistemas e medidas necessários para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente contra danos e degradações. Considerando países com a mesma faixa de renda (países de média-alta renda, segundo classificação do Banco Mundial), o Brasil apresenta índices bastante inferiores, pois a média para destinação adequada nessa faixa de países é de 70%.
Conscientização ambiental
A Abrelpe enfatiza que a coleta seletiva está distante de ser universalizada, e que os índices de reciclagem estão estagnados há quase uma década. Para a entidade, enquanto o mundo fala em economia circular e alternativas mais avançadas de destinação/ reaproveitamento de resíduos, o país ainda registra lixões em todas as regiões e precisa lidar com um problema de comportamento da população: o brasileiro ainda está aprendendo a jogar lixo no lixo e a fazer a separação do resíduo com potencial de reciclagem.
“Na questão da reciclagem, para que ela aconteça, a primeira etapa começa justamente com o cidadão, que precisa estar conscientizado da necessidade de separar o lixo dentro de casa, estar educado de como fazer essa separação de maneira correta e a grande maioria da sociedade brasileira não tem essa consciência. A partir do momento que não há essa preparação dentro de casa, toda a sequência na cadeia da reciclagem acaba sendo prejudicada”, avaliou o presidente da Abrelpe. (ecodebate)

sábado, 7 de dezembro de 2019

Ultrapassamos o número de habitantes que o planeta suporta

Já ultrapassamos o número de habitantes que o planeta suporta. E agora?
Frente às nada animadoras perspectivas ambientais e climáticas de um planeta futuro, têm sido recorrentes e inúmeros os artigos e discursos que pregam mudanças nos hábitos de consumo, mudanças em matrizes energéticas e a própria mudança no padrão de crescimento econômico do regime capitalista. Por outro lado se vislumbra justamente o contrário na prática: países superpopulosos, como Índia e China, entre outros, levando contingentes humanos da ordem de dezenas de milhões de pessoas anualmente para um padrão de consumo mais elevado. Ou seja, dezenas de milhões de pessoas são retiradas de um modo de vida em que a “pegada ecológica” era baixa para um padrão de consumo ocidental.
Não critico esse fato, pois todo ser humano tem direito às benesses da sociedade tecnológica. E questiono os argumentos daqueles ambientalistas que, que dentro de seus escritórios climatizados nas grandes cidades e circulando dentro de seus carros que emitem gases efeito estufa, pregam o retorno a um padrão de consumo pré-capitalista (para não falar naqueles indigenistas que pregam que os índios devam permanecer em algum estágio neolítico de desenvolvimento em nome da “preservação cultural”).
Deixo claro que não estou fazendo apologia do consumo e do modo de vida capitalista perdulário, mas é uma demanda mais do que justa e digna de que as pessoas tenham acesso a serviços além dos quesitos básicos para a sobrevivência, ou seja, que as pessoas desfrutem (assim como eu desfruto) de conforto e segurança proporcionados pelas sociedades modernas. Tirando de lado alguns abnegados e idealistas, em termos realistas apenas uma ínfima fração abrirá mão de fato dessas benesses em nome de alguma ideologia. (quando digo abrir mão, ressalto o fato de não se ater apenas ao discurso) Os exemplos de países que têm revertido a emissão de gases do efeito estufa e têm realmente adotado posturas ambientalmente viáveis são esparsos e proporcionalmente ínfimos, estando restritos a algumas sociedades com altíssimo nível educacional e IDH (por ex. Europa nórdica). A imensa maioria tem seguido o caminho inverso: aumento vertiginoso da pegada ecológica e aumento populacional.
Por mais que os profetas e prosélitos do “desenvolvimento sustentável” bradem e produzam toneladas de argumentos a favor de uma mudança nos padrões de consumo, acredito que o aumento dos padrões de consumo (e necessariamente o custo ambiental associado) em vastos contingentes humanos (principalmente Ásia e América do Sul) é um fato irreversível e até certo ponto justificado e legítimo.
Há outra linha argumentativa que clama que a ciência e tecnologia sempre trarão a solução, ou seja, por mais que a população e os níveis de consumo aumentem, sempre teremos soluções ambientalmente menos impactantes (por exemplo, maior produtividade por hectare). Apesar de eu ser um entusiasta do conhecimento humano e da ciência, acredito que haja limite.
Sem dúvida a chamada “revolução verde”, a “biorrevolução” e as técnicas de engenharia genética salvaram milhões da fome (isso vai um alerta para os defensores da agroecologia: apesar de ambientalmente correta, é incapaz de sustentar vastos bilhões de habitantes), porém acredito que estamos perto de um limite em que seja realmente impossível produzir quantidades que satisfaçam o aumento da ordem de bilhões de seres humanos na mesma área agricultável (lembrando o fato de a nível mundial, afora as últimas florestas naturais, existe proporcionalmente pouca terra agricultável a ser expandida).
Acredito que, dada a atual população terrestre e dadas as perspectivas de mudanças climáticas e alterações na superfície de terras agricultáveis, dificilmente a ciência e a tecnologia reverterão o perigoso limite da segurança alimentar e de suprimento de água a nível global para o qual estamos avançando a cada década.
Conferências intermináveis a cada ano geram toneladas de papel escrito e tratados inócuos, poucos consensos genéricos e vagos, e quase nenhuma ação prática. Líderes se reúnem, segmentos da sociedade civil fazem “barulho” e raramente se debate algo que me parece óbvio: um mundo que está caminhando para uma dezena de bilhões de habitantes, e em que essa dezena de bilhões viva além das meras condições de sobrevivência e tenham as benesses da sociedade tecnológica me parece AMBIENTALMENTE INVIÁVEL.
Para se ter uma ideia prática do que estou falando: tenho 36 anos, e quando nasci a população da terra tinha cerca de 3,5 bilhões de habitantes; até hoje se acrescentaram cerca de mais 3,5 bilhões de habitantes. Conclusão: o planeta levou milhões de anos para atingir a cifra de 3,6 bilhões e apenas 36 anos para atingir os outros 3,5 bilhões. Qualquer pessoa racional com alguma noção matemática (e ambiental) deveria enxergar que isso é simplesmente ABSURDO. Por mais que as estatísticas e estudos da ONU e demais entidades digam que o ritmo de crescimento da população está diminuindo e que haverá uma estabilização, já passamos há muito o limite de sustentabilidade de um planeta ecologicamente viável, e o crescimento populacional de vastas regiões da África e Ásia ainda assusta.
Acredito que seja hora de pensar não apenas no decréscimo da taxa de crescimento da população, mas no decréscimo do número absoluto da própria população a patamares em que não apenas nossa espécie possa sobreviver aos séculos, mas também e, sobretudo as outras espécies. Não apenas como ambientalista, mas como humanista, acho incongruente viver em um planeta onde existe quase uma dezena de bilhões de habitantes e menos de mil exemplares de espécies como rinoceronte branco, tigre siberiano, só para citar os casos mais emblemáticos.
Já ultrapassamos em muito o número de habitantes que o planeta suporta, e digo não em relação a um padrão de consumo perdulário, mas em uma situação em que todos tivessem um padrão de consumo suficiente para suas necessidades com dignidade. Sendo assim, em nome da saúde planetária, e pensando nas gerações futuras, a colocação em pauta na ordem do dia do controle populacional a nível planetário é um tema de extrema urgência. (ecodebate)

Desmatamento em áreas protegidas na Amazônia aumentam 39% em um ano

Índices de ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia aumentam 39% em um ano, mostra Imazon.
Relatório anual feito pelo Imazon mostra as áreas de proteção da Amazônia que mais sofrem ameaça e pressão de desmatamento. Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, está entre no topo do ranking.
De agosto de 2018 a julho deste ano, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon detectou um total de 5.054 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Um novo estudo divulgado pelo instituto, que cruza esses dados do SAD para medir o nível de ameaça e pressão por desmatamento em Áreas Protegidas (APs), aponta um aumento de 39% nesses índices, em comparação calendário do desmatamento anterior, de agosto de 2017 a julho de 2018. O calendário é determinado pelo período de chuvas na Amazônia.
Os dados são do relatório anual de ameaça e pressão em Áreas Protegidas do Imazon. O estudo revela ainda que, no comparativo com o ano passado, as mesmas APs continuam no ranking das que mais sofrem ameaça e pressão. A Resex Chico Mendes (AC), por exemplo, se manteve no topo como a AP mais ameaçada de desmatamento. A APA Triunfo do Xingu (PA) também seguiu como a área que mais foi pressionada.
Ameaça – Ameaça é a medida do risco iminente de ocorrer desmatamento no interior de uma área protegida. O Imazon utiliza uma distância de 10 km para indicar a zona de vizinhança de uma AP, onde a ocorrência de desmatamento indica ameaça. As áreas de proteção mais ameaçadas foram a Resex Chico Mendes (AC) e o Parna Mapinguari (AM/RO). Essas áreas estavam na lista das APs mais ameaçadas no ano passado e continuam este ano. Além dessas, outras 5 Áreas Protegidas se mantiveram no ranking das que mais sofrem ameaça por desmatamento.
Pressão – Pressão ocorre quando o desmatamento se manifesta já no interior da área protegida, o que pode levar à perdas ambientais e até mesmo redução ou redefinição de limites da Área Protegida. A APA Triunfo do Xingu (PA) e a Resex Chico Mendes (AC) foram as mais pressionadas. A Resex Chico Mendes (AC), que aparece entre as líderes no ranking de APs ameaçadas, também aparece na lista das áreas mais pressionadas. Ainda na lista das 10 áreas que mais sofrem pressão por desmatamento, 7 estão localizadas no estado do Pará.
Terras Indígenas – O Imazon também monitorou as Terras Indígenas (TI) mais ameaçadas e pressionadas. Entre agosto de 2018 a julho de 2019, as TI Malacacheta (RR) e Manoá/Pium (RR) foram as que mais mais sofreram pressão por desmatamento. A TI Malacacheta que aparecia em segundo lugar ranking das terras indígenas mais pressionadas no ano anterior, agora aparece no topo da lista. O ranking mostra ainda que, das 10 TI mais pressionadas, 5 ficam no estado de Roraima, 3 no Pará, 1 no Mato Grosso e 1 no Amazonas.
Já no ranking das terras indígenas mais ameaçadas, 6 estão no Pará, 2 em Rondônia 1 em Roraima, 1 no Amazonas e 1 no Mato Grosso. A TI Uru-Eu-Wau-Wau (RO) e a TI Trincheira/Bacajá (PA) estão no topo dessa lista das mais ameaçadas. As TI Uru-Eu-Wau-Wau (RO), Trincheira/Bacajá (PA) e Parakanã (PA), assim como no ano anterior, permanecem entre as 3 terras indígenas mais ameaçadas.
Índices de ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas na Amazônia.
(ecodebate)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Em vez de reduzir, país mantém emissão de gases

As emissões brasileiras de gases-estufa ficaram praticamente estáveis em 2018 em relação ao ano anterior. Ocorreu um pequeno aumento de 0,3%. O país, contudo, é o sétimo maior poluidor do planeta e ainda não tem uma trajetória consistente de redução de emissões. A avaliação faz parte da sétima coleção do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Os dados foram divulgados dia 05/11/19, em São Paulo.
De fato, pelos dados do sistema de alerta de desmatamento Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a tendência é de alta na derrubada da floresta.
Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, lembra que entre agosto de 2017 a julho de 2018, o Deter registrou 4.500 km² de desmatamento. Já o Prodes – o dado oficial do desmatamento no Brasil – fechou o valor em 7.500 km².
O dado deste ano do Deter (até julho) soma 6.833 km² de desmatamento. “Historicamente, os dados do Prodes costumam ser 30% maiores”, diz Azevedo. Em agosto, setembro e metade de outubro de 2019, o Deter já apontou para 3.500 km² de desmatamento.
Em 2018, o Brasil registrou emissões brutas de 1,94 bilhão de toneladas de CO2 equivalente. Ocorreu aumento nas emissões causadas pelo desmatamento na Amazônia (8,5%), mas redução na destruição do Cerrado (10%). No balanço, as emissões por mudança do uso da terra, que representaram 44% das emissões brasileiras em 2018, cresceram 3,6%.
As emissões do setor de energia caíram 5%. A explicação é o forte aumento no uso de biocombustíveis transporte de passageiros causado tanto pelo aumento no consumi de etanol quando pela obrigação de se adicionar biodiesel ao diesel. E ainda pelo aumento de energias renováveis na geração elétrica, explicou Felipe Barcellos e Silva, analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
Choveu muito, as hidrelétricas foram muito acionadas em detrimento das termelétricas fósseis. Por isso, foi a primeira vez que as fontes não hídricas ultrapassaram as fósseis na matriz elétrica”, diz ele, citando principalmente energia eólica, biomassa e solar. Este grupo foi a segunda maior fonte de eletricidade no Brasil em 2018.
O setor da agropecuária ficou em segundo lugar nas emissões brasileiras (25% do total). Registrou pequena queda de 0,7%, puxada pela diminuição do rebanho nacional. A alta no preço internacional fez com que o gado passasse a ser abatido mais cedo, explicou Ciniro Costa Júnior, do Imaflora. Desta forma, a emissão de metano do gado (gás-estufa muito mais nocivo que o CO2) foi reduzida.
“Existe grande diferença entre a natureza das emissões do Brasil e a dos outros grandes emissores, à exceção da Indonésia”, indicou Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. Enquanto a redução das emissões dos países desenvolvidos, da China e da Índia dependem de grandes investimentos em ciência e tecnologia (porque a maior fonte de emissões é a energia), o esforço brasileiro tem que ser no combate ao desmatamento.
“Para interromper o desmatamento não precisamos fazer grandes esforços em ciência e tecnologia”, disse Abramovay. “Mas estamos avançando em direção ao aumento das emissões pelos piores métodos. É vergonhoso”, lamentou.
O Brasil não irá cumprir a meta para 2020 de reduzir em 80% a taxa de desmatamento na Amazônia, prevista pela lei nacional de mudança do clima. “Já tínhamos uma situação delicada antes do desmonte da governança ambiental promovido pelo atual governo”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, rede de 47 ONGs e movimentos que lidam com a agenda climática.
O desmatamento provoca distorções no perfil brasileiro de emissões, diz material do SEEG distribuído à imprensa. É pela mudança no uso da terra que a emissão per capita do brasileiro (9,3 toneladas brutas) é maior que a média mundial (7,2 toneladas em 2018). Um paraense, do Estado campeão de emissões, emite quatro vezes mais do que um americano.
“A emissão média mundial per capita em 2050 deverá ser de menos de 1 tonelada de CO2 equivalente”, diz Azevedo, se o que se quer é cumprir o que foi acertado no Acordo de Paris. (biodieselbr)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...